Eri e Adell foram direcionados até um grande portão duplo adornado, ainda dentro do palácio.

Outro elfo, de túnica, se aproximou e Karze-Lo-him explicou:

— Antes de entrar devemos ser purificados. Pelo simples fato de este local não ter contato direto com o exterior, a vida dentro dele pode ser facilmente contaminada com ameaças de fora.

Enquanto falava, o outro elfo fazia preces diante dos dois, limpando e purificando suas energias e seus corpos. No final da prece, foi clara a diferença. Eri se sentia mais leve, até mesmo sua respiração parecia mais suave e fácil.

Karze-Lo-him abriu o portão. Foi possível observar uma grande área iluminada e uma árvore gigantesca no centro do local. O chão era gramado; luz vinha de cima, mas não era possível determinar de onde exatamente ela saía ou como surgia. Era como o sol, mas não havia um céu. A área, mesmo com aquela imensidão, estava dentro do palácio, e o palácio contornava o local como uma grande barreira.

Eles caminharam até a árvore, o centro de tudo.

Era impressionante o tamanho dos domínios élficos. Tudo era extravagantemente grande e triunfal. Não poderia ser de menos para representar os elfos de Ézer, popularmente conhecidos como Elfos da Luz, ou éznir, como se denominam de acordo com sua própria língua ancestral.

Andaram até que avistaram alguém sentado ao pé da Grande Árvore.

— Continuem sozinhos — disse Karze-Lo-him. — Aguardarei aqui.

Os dois caminharam até o ser encapuzado. Antes que pudesse dizer algo, o ser iniciou:

— Há muito tempo que não me deparo com forasteiros, ou mesmo seres de outra espécie.

Ela se levantou e se direcionou à Eri e Adell, que ficaram espantados com sua estatura. Devia medir pelo menos dois metros.

Tirou o capuz, deixando à mostra o rosto. Estava usando uma capa dourada que combinava com a cor de sua pele, que era de um tom amarelado. Os cabelos estavam bem ajeitados para trás, e eram mais claros do que a pele. Os olhos eram grandes, porém estreitos e totalmente brancos. Aparentemente era cega.

Eri, um tanto sem saber o que fazer ou dizer, permaneceu em silêncio.

— Ine mok-ir ime in dramir o, és uma espécime de meio dragão, correto? — disse a encapuzada, traduzindo o que dissera anteriormente. — Nossos antigos maiores aliados. Como és denominada?

— Err... Eri, senhora.

— Perguntei sobre seu nome verdadeiro.

— Annaharath.

— Hmm... — Ela caminhou envolta de Eri. Em seguida, olhou bem para Adell. — E tu. Desconheço sua espécie. És um tipo de demônio?

Adell olhou para Eri, que tinha um olhar curioso direcionado à ele. Ela percebeu que não fazia ideia de o que Adell era.

— Sim, senhora. Basicamente, uma espécie de demônio...

A elfo cerrou os olhos, um pouco desconfortável com o fato a pouco revelado, porém ignorou:

— Tens nome?

— Adell Pursvern Vaon.

— Estão curiosos sobre mim, não estão? — Ela se afastou um pouco, ficando de frente para os dois. — Apresentar-me-ei corretamente: sou a anciã que zela por Ézer, ou a Grande Árvore, como preferir. A última fénir, ancestrais de éznihi. Zirme-Leor é o termo de respeito ao qual se dirigem a mim. Jalaheel é como sou originalmente denominada.

Fez um gesto com as mãos e curvando-se ligeiramente. Os dois se entreolharam, um pouco confusos, decidiram retribuir com o mesmo gesto.

— Pergunto-vos, forasteiros, o que os trouxe para as terras Ézen?

— Inicialmente viemos em busca de pistas que pudessem nos levar aos Bone Blades — Eri começou a falar. —, mas algumas coisas aconteceram e de repente estamos aqui, conversando com a senhora.

Estava um pouco sem jeito diante de um ser milenar, sem saber como se direcionar a tal, mas ainda assim se esforçava para manter certa aparência.

— Entendo. — Ela voltou a se sentar em uma das raízes da árvore e não disse mais nada.

O silêncio os deixou ainda mais confusos, então Eri perguntou:

— Foi você quem nos chamou, certo? Por quê?

— Gostariam de ouvir uma história?

— Uma história? — perguntou Adell, animado com a ideia.

— Faz muito tempo que não vejo seres que não o éznihi. A única verdadeira companhia que tive durante estes últimos séculos foi a própria deusa Ézer. Como nunca recebemos forasteiros, achei que seria interessante conversar um pouco.

Eri ainda estranhava um pouco a situação, mas Adell parecia animado:

— Sim, por favor. Adoramos histórias.

— Adoramos...?

— Bem... — A anciã começou.

“Há muito tempo houve dois deuses, filhos das deusas gêmeas. Meio irmãos. Ézer, deusa da luz, filha de Dieden e Usla, e Irano, deus do fogo, filho de Níden e Usla. Usla, deus da caça e das florestas, também o melhor fabricante de armas, preparou duas armas especiais para o aniversário de seus dois filhos. Para Ézer, um arco que disparava flechas brancas com a capacidade de curar ou mesmo ressuscitar caso atingisse o coração, e as flechas azuis, que podiam aprisionar temporariamente a alma, e, caso acertasse o coração, aprisionaria a alma até que uma flecha branca do mesmo arco lhe fosse lançada.

Para Irano fora confeccionada uma lança, capaz de matar até um Deus Maior. Era a Lança da Destruição. Entretanto, Irano herdara as mesmas características de seu pai: era louco e invejoso. “Por que não posso ter também o Arco da Vida? Por que devo ser a destruição ao invés da reconstrução?” pensava ele.

Insatisfeito, insistiu com Ézer para que lhe desse Arco, porém, por ser um presente de seu próprio pai, aquele era um pedido ao qual ela nunca concederia. Irano, tomado pela raiva, jogou sua lança em direção à sua irmã. Ézer, percebendo o ataque, apontou a ele sua flecha azul. Ambos foram atingidos e o impacto, tão colossal, lançou-os para os dois polos de nossas terras. A flecha de Ézer fora certeira, enquanto que a lança de Irano acertou apenas próximo ao coração, deixando ambos adormecidos. Com o tempo a terra consumiu o corpo de Irano, e assim se formou um grande vulcão. Sua primeira erupção resultou nos zínihi, os primeiros Elfos do Fogo, da junção da lava fria e com os resquícios da poderosa flecha do Arco da Vida.

A terra também consumiu o corpo de Ézer, contudo de maneira adversa. Em torno de si surgiram raízes, que então formaram uma árvore que cresceu tanto quanto o vulcão. Da árvore surgiram grandes frutos, de onde saíam os primeiros Elfos da Luz, os fénihi, raça a qual pertenço. Apesar de pouco se encontrarem, as duas raças sempre mantiveram uma crença semelhante e grande rivalidade.

Com o tempo o sangue puro dessas raças foi se dissipando, e hoje sou a última da Raça Original. Ainda acredita-se que Ézer e Irano estão vivos, porém dormentes dentro da terra, junto à lança e à flecha.”

Apesar de sua origem draconiana, Eri não sabia nada sobre os elfos.

— Por que nos contou tudo isso? — questionou.

— Como havia dito, depois de tanto tempo sem uma companhia disposta a ouvir minhas histórias, um simples estranho pode se tornar muito interessante. E, claro, E dramihi, os dragões são aliados dos quais mais sinto falta. Entretanto, Ane-Annaharath, noto que ainda não conhece bem seu inimigo. Essa história te será de grande utilidade, e não demorará a entender o porquê.

Notas finais
Um glossáriozinho pra vocês entenderem melhor as palavras da língua dos elfos: Éznir: éz=ézer, nir=elfo. Elfo de Ézer. São os elfos que vivem atualmente na floresta de ézer. Os mais próximos da raça pura. Fénir: fé=luz, nir=elfo. Elfo da luz. São os elfos oiginais. A primeira raça e a mais pura, criada diretamente de Ézer. Como dito, Jalaheel é a última dessa raça que se dissipou com o tempo. Zínir: zí=fogo, nir=elfo. Elfo do fogo. A primeira raça e a mais pura dos elfos negros, criados diretamente de Irano. Atualmente há apenas três anciões que restaram dessa raça. Dramir: dragão. Ézen: originalmente como é chamada as terás de Ézer. Éznihi, fénihi, zínihi e dramihi são plurais das respectivas palavras. Jalaheel é muito acostumada com a antiga língua, que não tem plural para os artigos, o que faz com que frequentemente ela use esses termos sem usar os artigos no plural. E dramihi=os dragões. E é equivalente a o/os/a/as e é representado em letra maiúscula. Ane-Annaharath: Ane é como um pronome de tratamento formal equivalente à senhorita.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.