Blurry Memories
10 River's Baby
Notas iniciais
O ar no palácio era pesado.Os pulmões estavam comprimidos,ninguém ousava pronunciar uma palavra ou fazer qualquer movimento,quem diria respirar.
De repente,a grande porta de um dos quartos se abre e lá de dentro sai um homem de meia idade.Ele faz um gesto para que uma mulher do outro lado corredor,que segurava uma bacia,entrassse no cômodo e lhe dá passagem.
Logo um outro homem se junta a ele.Este segundo era mais jovem e vestia uma roupa mais "pomposa";no grande casaco preto decorado com detalhes dourados que usava,estavam presas várias medalhas de ouro e condecorações.Tinha os olhos cansados,o espesso cabelo preto desarrumado e segurava algo na mão,como se aquilo fosse sua vida.
– Doutor,como ela está? — ele se pronuncia,colocando uma mão no ombro do homem mais velho;seu olhar era de pura súplica
– Muito fraca... — o médico disse,medindo as palavras e hesitando — Eu sinto muito,Nawab Naseer,não houve nada que eu pudesse fazer e,infelizmente,sua esposa perdeu o bebê mais uma vez. — ele completou,soltando o ar de seus pulmões e apertando o braço do homem à sua frente,em um gesto caloroso de solidariedade,antes de se retirar.
Aquelas palavras caíram sobre o rei de Agrabah como chumbo.Ele sentiu seus olhos arderem com as lágrimas que insistiam em cair novamente,seu olhar desceu para sua mão direita,que ainda estava fechada, e ele a abriu devagar.Lá estava uma de suas medalhas de ouro presa a uma corrente de mesmo material.
Sua primeira medalha,dada a ele por seu pai quando completou 19 anos e venceu sua primeira batalha,com uma estratégia toda de sua autoria.A mesma medalha ele havia mandado transformar em cordão quando soube que sua esposa estava grávida pela primeira vez.Não ligava se o bebê seria menino ou menina,ele só queria que aquele fosse seu primeiro presente,algo único,o bem mais precioso que ele possuía.
E agora,mais uma vez,todo aquele sonho tinha ido por água abaixo.Já havia perdido a conta de quantas vezes eles passaram por aquela mesma situação.Será que Allah os achava tão más pessoas,que resolveu não agraciá-los com um filho?Que tipo de deus era esse?
– Nawab,sua esposa o chama. — a voz da mesma mulher que havia antes entrado no quarto o tirou de seus pensamentos
Ele acenou positivamente e deu permissão para que ela se retirasse.Antes de entrar,ele fechou os olhos e levou a medalha aos lábios,depositando um beijo suave.
– Vamos esperar por você,quanto tempo for preciso... — ele disse num sussurro,como se pudesse falar com seu futuro filho ou filha
Enxugou os olhos rapidamente,guardou a medalha e abriu a porta do quarto devagar,entrando no cômodo.
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O sol entrou por uma fresta da cortina e um raio teimoso insistiu em depositar-se sobre um dos olhos de Aqila."Olá sol.Por que faz isso comigo?",ela murmurou para si mesma antes de jogar a coberta de lado e colocar os pés para fora da cama.Assim que fez isso,sentiu que pisou em alguma coisa.Levantou seu pé e se abaixou,tomando em suas mãos a medalha que era de seu pai.
– Por Allah!Esses anos todos achei que tivesse te perdido para sempre! — e depositou um beijo demorado na medalha — Nunca mais vou me separar de você — disse num sussurro e guardou a medalha no bolso do pijama que a prefeita lhe havia emprestado.
Havia se levantado às 7 horas e a mansão estava em completo silêncio."Ora,pensei que essa hora era a que todos se levantavam e começavam as atividades",pensou e calçou os chinelos que encontrou perto da poltrona do quarto.Conforme descia as escadas podia ouvir um cochichar vindo do andar debaixo.Andou mais um pouco e percebeu que a porta que parecia ser a da sala de jantar estava fechada.Colocou a mão sobre a maçaneta,girando-a devagar e abriu a porta.
Lá estavam sentados Regina,Emma,Henry,Mary Margaret,David e um homem que estava de costas.Imediatamente,a conversa parou quando os integrantes notaram a presença da menina.
– M-me desculpem.Eu não queria interromper! — disse sem jeito e com os olhos passeando pelos rostos de cada um no cômodo — É que eu acordei e não escutei nada,então achei que pudesse ter acontecido alguma coisa... — falava hesitando,ao mesmo tempo que tropeçava nas palavras e não notou quando Mary Margaret deu um leve aperto na mão do homem que se encontrava de costas
– Sempre bisbilhoteira... — o homem finalmente se pronunciou,fazendo Aqila franzir o cenho e inclinar a cabeça para o lado;aquela voz não lhe era estranha — Não são modos de uma princesa.
Aquela última palavra fez a garganta da menina queimar e ela engoliu em seco.Será que ele a tinha seguido até ali?Será que iria fazer algum mal àquelas pessoas?Não,não podia ser isso.Mas e se fosse?Ela começou a andar lentamente em direção ao homem,que continuava sentado.Se fosse ele,ela teria alguma chance de atingi-lo com o elemento surpresa e atacar por trás para dar tempo de todos fugirem.
Aqila sentiu sua respiração pesar e ficar entrecortada quando viu que o homem se levantava e já estava se virando."Que burra eu sou!Óbvio que ele sentiu eu me aproximar e já deve ter mente o que vou fazer,caso ele tente algo.",ela pensava enquanto cerrava seu punho e sentia os olhares dos outros sobre si."Foco,Aqila,foco!Não deixe ele entrar na sua mente!Ele te transformou naquilo,não fo?Então agora é a hora do caçador virar a caça."
Ela ia se aproximando devagar conforme ele ia se virando,ninguém ousava dizer nada.Aqila começou a erguer seu punho quando viu que estava prestes a finalmente ver o rosto misterioso."É agora!Vai,não perde tempo!",pensou mais uma vez.Mas de repente,sua boca abriu em espanto,seu braço caiu ao lado do corpo e seus olhos se arregalaram ao ver o rosto do homem.
– Aqila? — Sidney disse com a voz embargada e os olhos marejados
– Gênio? — ela estava em choque.Sua boca abria e fechava em espanto e seus olhos piscavam várias vezes,tentando processar a informação — É você mesmo?
– Ao seu resgate,como sempre. — e se aproximou,tocando os ombros da menina — Estou um pouco diferente mas você também.Olhe como cresceu!
– Você é quem ficou mais baixo! — a menina brincou,arrebitando o nariz mas sorrindo em seguida,abraçando seu velho guardião e amigo,fechando os olhos,deixando as lágrimas de felicidade caírem
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Dias haviam se passado e já ninguém mais sorria,tudo estava silencioso e monótono.O rei quase sempre se ocupava com caçadas,acordos com outros reinos ou passava horas trancado na biblioteca do palácio,onde criava mil e uma estratégias sem nenhum propósito.A rainha por sua vez,ficava sempre na cama,já não sorria,se recusava a comer,vivia de olhos inchados de tanto chorar,quase não conversava;às vezes,era difícil até saber se ainda respirava.
Porém,uma noite,algo chamou a atenção de Munira.Já era quase madrugda e o castelo se encontrava silencioso.Foi então que ela escutou um tilintar ao longe,algo como se alguém desesperdamente tentasse quebrar algo.A rainha então se levantou e começou a seguir o ruído.
Andou alguns minutos,indo em seguida dar num caminho que levava ao jardim principal.Conforme o barulho ia ficando mais forte,um vento morno e forte começou a soprar.Munira estranhou,porém continuou andando até que uma nuvem de fumaça azul marinho e espessa começou a se formar e a envolveu,como um redemoinho."Mas o que está havendo?",ela se questionou mentalmente mas logo foi interrompida pelo cessar tanto do vento,quanto da fumaça e pelo som de algo que veio parar perto de seus pés,se chocando contra estes.A rainha,então,ajeitou seu véu e se abaixou para pegar o objeto.
Se tratava de uma pequena lâmpada dourada,enfeitada pedras verdes e detalhes.Munira a apanhou e olhou em volta,tentando descobrir de onde vinha ou se seu dono ainda estava por ali,não se dando conta que havia,sem querer,esfregado seu véu nela,muito menos percebendo que,ao virar de costas,a fumaça voltou a aparecer e dessa vez,trazendo um homem com ela.
– Cara rainha,está olhando do lado errado,eu estou bem aqui. — disse comprimindo uma risada quando ela se virou bruscamente e arregalou os olhos
– Não,não pode ser — ela disse alternando seu olhar entrea lâmpada e o gênio — Eu sempre ouvi histórias mas ninguém nunca me disse se você era real ou não.Não,eu devo estar tendo só um sonho,é isso. — e piscou os olhos algumas vezes mas o homem continuava lá
– Rainha Munira,isso não é um sonho,muito menos eu sou uma "lenda".Sou real e vim até a senhora.
– Como assim até mim? — perguntou confusa; não era ela quem havia achado a lâmpada?
– Veja,seu pai antes de morrer naquela última batalha,encontrou minha lâmpada e quando eu apareci,ele me fez apenas 3 simples pedidos: que não sofresse enquanto morria,que você não sofresse nunca e que o terceiro desejo dele,fosse seu,em um momento no qual você não tivesse mais esperanças. — ele fez uma pausa,pois percebeu que lágrimas rolavam pelas bochechas da jovem rainha — Eu sei de suas atribulações,minha rainha.Sei pelo que vocês estão passando.Mas também sei que agora é a hora certa de intervir;acredite que se seu pai estivesse vivo e pudesse escolher o momento de concretizar seu terceiro pedido,seria agora. — ele se aproximou,tocando a mão de Munira,que estava de olhos fechados,soluçando,e ainda apertava a lâmpada
Munira se afastou do Gênio e,abrindo os olhos,começou a caminhar de maneira automáica para perto de uma fonte,se sentando na beirada da mesma.Ela estava chorando novamente e absorvendo as palavras ditas pelo homem.Será que seu pai já havia pressentido todo esse drama pelo qual passaria?Sempre a conhecera muito bem,sempre havia se impotado com ela,até mais do que com seus outros dois irmãos...Munira não duvidou que talvez ele já sentisse em seu coração velho de guerra todo o sofrimento que iria acontecer na vida da filha caçula e,por isso,fez ao Gênio tal pedido.
– Rainha,há alguém aqui — ela foi despertada de seus devaneios pela voz suave e baixa do Gênio — Ouvi alguns ruídos vindos daquela direção.Por favor,fique aqui,vou ver o que é. — mas quando ia se preparar para sumir em sua fumaça,sentiu uma mão em seu braço
– Eu vou com você. — Munira sussurou convicta — É o meu palácio e eu não posso me esconder,tenho que defendê-lo.
Dito isso,Gênio e Rainha começaram a adentrar um caminho estreito,rodeado por árvores,plantas e pequenos arbustos.Conforme iam se aproximando,um ruído de água corrente se intensificava.Eles se entreolharam e Munira sussurrou,explicando "É o riacho.Antigamente,antes dessa parte do reino pertencer aos pais de Naseer,essa era a estratégia da maioria dos inimigos:como poucos sabiam da existência dessa parte do palácio,eles entravam por aqui e realizavam ataques surpresa".O Gênio,que alternava o olhar entre a Rainha e o caminho à sua frente,sussurrou de volta "É possível que algum deles ainda esteja tentando essa estratégia?".
Na hora em que Munira ia dar sua resposta,um dos arbustos na margem do riacho balançou,fazendo com que os dois diminuíssem o andar e se aproximassem devagar.O Gênio levou o indicador aos lábios,indicando para que a Rainha fizesse silêncio,e puxou uma adaga pequena,investindo contra o arbusto num movimento rápido.Algumas folhas foram cortadas e caíram ao chão e antes que ele pudesse desferir um segundo golpe,a Rainha gritou,fazendo com que ele notasse que ao seu lado,vinha surgindo de dentro d'água uma enorme naja,que sibilava e estava pronta para dar o bote.O homem sem pestanejar,desferiu um golpe na certeiro na cabeça do bicho,que caiu morto dentro do riacho.Munira,desesperada, correu para o outro lado do arbusto,entrando um pouco na água e só então,o Gênio percebeu um outro som naquela noite calma:um choro,baixo porém persistente.
Ele olhou para baixo e viu a Rainha em lágrimas,olhando para um pequeno cesto.Dentro dele,um bebê,ou mellhor,uma menininha de cabelos negros e olhos castanho-claros,chorava sem parar,assustada.Com sua ajuda,Munira retirou o cesto do riacho,colocando-o na margem e tomou a menina em seus braços.
– Olá,pequena,essa foi por pouco... — disse com um sorriso caloroso no rosto;as lágrimas ainda insistiam em cair — De onde será que você veio? — e logo sua expressão mudou — Gênio,você fez isso? — disse num misto de espanto e felicidade
– Sinto informá-la que não,querida Rainha. — ele disse,olhando para os lados,tentando buscar alguma pista de onde a menina poderia ter vindo — Não há ninguém por aqui,além de nós.Parece que ela apareceu aqui por conta própria e em má hora.As najas saem à noite,procurando caça e se não fosse por nosso "pequeno resgate",ela teria virado comida de cobra. — e se abaixou para olhar o cesto da menina — Parece que não tem vestigios de quem ela possivelmente é ou de onde possa ter vindo. — disse se levantando e segurando o cesto
– Nada além dessa manta... — ela disse olhando fixamente para o riacho — Então é um sinal!Obrigada,Allah,eu sabia que o senhor tinha algo guardado para mim! — Munira,de repente, quase explodiu de felicidade — Aqila...
– Como? — o Gênio perguntou,confuso
– Esse vai ser o nome dela — e sorrindo,depositou um beijo na testa da menininha,que sorriu de volta -Venha,Aqila,vamos para casa.
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Aqila deixou o corpo cair na cadeira.As lágrimas rolavam quentes por seu rosto e ela apertava em sua mão a medalha que ganhara do pai,quando ainda era um bebê.Ainda não acreditava no que tinha acabado de ouvir.Seu tio tinha razão,ela era uma princesa de nada.Seus pais não eram seus pais,tudo o que tinha era falso: falsa origem,falsa família,quem sabe até uma falsa idade,data de anivrsário ou até mesmo um falso nome.
A menina abriu os olhos e mirou a medalha,voltando a chorar pesadamente.Regina sentiu um aperto horrível no coração e a dor e sua cicatriz havia voltado com toda força;ela se lembrou muito bem de quando Henry descobriu que era adotado,tivera reação semelhante à da menina.Ela continuou observando aquela cena e assim como todos na sala,se espantou quando Aqila se levantou bruscamente,jogou a medalha em um cinzeiro de prata no centro da mesa e abrindo a boca,soltou uma labareda de fogo em cima da mesma,colocando o presente de seu pai em chamas.
– Aqila!O que está fazendo? — Sidney estava em choque — Ou melhor,como consegue fazer isso?O que os reis vão dizer e...
– Nada.Eles estão mortos. — disse em um tom seco,fitando o fogo que crepitava;uma lágrima escorreu de seu olho direito — E como,você quer saber não é?Pergunte a qualquer um nessa sala,vá até o Granny's e peça para ver a mão de Ruby,eu fiz aquilo também! — ela gritava — E PERGUNTE AOS MEUS PAIS TAMBÉM! AH NÃO,ELES ESTÃO MORTOS! E POR MINHA CULPA,POR CULPA DE UMA MENININHA DE NADA,UMA PRINCESINHA DE NADA QUE DEVERIA TER VIRADO JANTAR DE NAJA QUANDO TEVE A OPORTUNIDADE! — e dando um murro na mesa,que espantou a todos,desabou de joelhos,chorando mais uma vez — Não tenho nada...nunca tive nada... até o que eu achava que tinha,não era nada — ela tremia enquanto balançava o corpo para frente e para trás — Mohammed tem razão,eu sou um monstro...
Para surpresa dos presentes,que até agora estavam chocados demais com todas aquelas informações para saírem de seus lugares,Henry se levantou e se jogou no chão ao lado de Aqila,a envolvendo um abraço confortante e caloroso.
– Você tem várias coisas.A começar por uma casa,seu velho amigo de volta,novos amigos e... — ele hesitou mas quando olhou para todos assim,reunidos,sorriu e continuou,confiante — uma família! — Aqila abriu os olhos e levantou a cabeça,espantada — Vai dizer que nunca quis ter um irmão mais novo?!Porque eu sempre quis ter um irmão ou irmã mais velha e já te considero como tal! — ele sorriu e ajudou-a a se levantar — Seja lá o que seu tio quer,o que está acontecendo com você ou o que o destino tem guardado,vamos desvendar isso juntos.
Regina,que estava abraçada à Emma,sorriu para o filho e,se soltando do abraço da loira,apagou o fogo do cinzeiro e passou uma das mãos sobre a medalha carbonizada,fazendo-a ficar como nova de novo,deu a volta na mesa e depositou esta na palma de Aqila.
– O que quer que enfrente,acredito que eles gostariam que tivesse isso com você. — e sorrindo calorosamente,fechou a palma da menina,apertando-a em seguida
Com a mão da prefeita na sua,Aqila sentiu seu coração se aquecer e um sorriso brotou em seus lábios.Aquelas pessoas mal a conheciam,porém podia ver estampado no rosto de cada um que eles faziam suas as palavras de Henry.E em meio às lágrimas de felicidade que agora caíam,foi quase derrubada por uma chuva de abraços.
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