Bloody Devotion
13 O Rei Drakon
A mulher se levantou e foi em direção a criança, que evitava contato visual com ela. Alice permanecia com seus olhos fechados em um ar polido e educado.
— Olhem para isso! Parece uma boneca!
— Senhorita Elena, poderia por gentileza não tocar em minha propriedade?
A mulher ri em frenesi, se afastando da garota logo em seguida.
— É claro, Simon, não foi minha intenção te provocar nem nada do tipo.
— Claro.
Ela volta-se para a menina novamente, em uma certa distância.
— O homem que se recusou a vida inteira em ter um escravo agora possui uma serva bela, fofa e delicada dessas.
Mesmo Lenore encarava aquilo com certa confusão. “Por que Simon escolheria alguém assim?” pensava ela. Era estranho um lorde vampiro trazer alguém tão frágil para um jantar com todos os outros lordes. Demonstrar fraqueza em um momento como este seria perigoso para qualquer um. Todos ali tinham servos, no mínimo, de aparência imponente. Mesmo o bobo da corte que Lorius trouxe consigo carregava duas adagas, e dava para ver que seu porte físico era o porte de um guerreiro. Hugo era um caso à parte, pois ele por si só já era perigoso e instável, e ninguém se atreveria a tentar algo com ele mesmo sem um servo; ainda mais com ele carregando aquela arma consigo a todo o momento. Mas a família Lumiya era famosa e respeitada por várias gerações; eles sempre foram um exemplo sublime de nobreza.
Mesmo sob tais pensamentos, no entanto, Lenore voltou sua mente para o momento, vislumbrando Simon com certa curiosidade.
O homem foi até a menina e tocou em seu ombro, conduzindo-a para um banco próximo a Lenore, e fazendo-a se sentar.
— Onde está Karen Solas? — Perguntou Simon, curioso.
O grupo se entreolhou e tiveram reações diferentes a pergunta.
— Ainda não chegou. — Disse Elena com um sorriso sugestivo.
— Entendo.
Elena coloca seu indicador direito sobre os dentes, mordendo-o enquanto abria um sorriso pensativo. Ela fitava Simon com bastante interesse. Sua fama o precedia; um homem forte capaz de derrotar um dragão, um grande líder estratégico que sozinho conduziu uma expedição nas regiões remotas de Soulstinger, um local hostil e isolado, onde dizem que as fontes da magia se concentram. Naquela ocasião, Simon havia sido o único sobrevivente; ele ainda era jovem na época, então isso acabou servindo de estopim para sua fama inicial.
Após derrotar o dragão sua fama apenas cresceu.
Mesmo nunca tendo servido aos propósitos de seu pai, e sempre buscando caminhos alternativos e separados de sua família, ele acabou se tornando o herdeiro da casa. Isso trazia certa curiosidade e interesse dos outros lordes; eles não queriam desafiá-lo sem um motivo, mas parecia que Simon trazia consigo um ar de provocação; principalmente para Elena.
O grupo olhava o relógio, curiosos ou preocupados. Karen ainda não havia dado sinal algum de sua chegada. Eles se preocupavam ao que podia acontecer se ela não aparecesse. Já havia passado meia hora desde a hora marcada, e foi quando o grupo desistiu de esperar.
— Bom, parece que ela realmente não vem. Isso é uma pena. — Dizia Elena, se levantando em risos.
Alguns guardas se aproximaram e os convidaram a segui-los. Foi quando estavam quase saindo do ambiente que eles escutam passos vindos do corredor.
— Desculpem a demora.
Elena fechou a cara em tédio e desânimo. A jovem que se aproximava com seu mordomo parecia bem e saudável. Eles andavam calmamente em direção ao grupo.
— Senhorita Karen, como está sua saúde?
— Bem, obrigada por perguntar, visconde.
Simon sorri ao vê-la, suspirando de alívio logo em seguida. Após alguns segundos, no entanto, o homem começa a encarar os dois com um rosto preocupado.
Algo não estava certo.
O grupo é conduzido pelos soldados para a câmara real, enquanto seus servos são deixados em uma sala separada. Eles se aproximavam com bastante curiosidade; essa seria a primeira vez que veriam o novo rei. Nem mesmo durante as antigas reuniões, enquanto ele era o príncipe, eles tiveram a oportunidade de conhecê-lo. É quando se aproximam do trono que podem ter aquela visão. Eles entram na câmara e logo formam uma fila lateral perante o trono real.
Seu corpo era pequeno, seus cabelos loiros, e ele tinha um rosto jovem e delicado. Para os padrões humanos, aquele sentado ao trono parecia um garoto de dez anos. Mas a coroa em sua cabeça deixava claro o poder que possuía. Os doze se curvaram perante o novo rei Drakon.
— Levantem-se, não há necessidade de formalidades aqui.
O grupo, ao se levantar, encara o monarca com bastante curiosidade. O jovem parecia ter um ar sério e ponderado. Sua aparência não fazia jus a sua atitude, e isso de certa forma incomodava alguns dos convidados.
— Primeiramente, gostaria de me apresentar de forma apropriada; eu sou o décimo sétimo rei de Hastermash, Albert Tyran Drakon. Eu gostaria de agradecer por terem respondido ao meu chamado. Quero desejar-lhes uma boa estadia aqui. Bom, agora, me sigam.
O rapaz se levanta e começa a andar para as passagens mais internas do lugar. Ele os conduzia pelos corredores do enorme castelo. Todos o seguiam em silêncio, enquanto ele avançava com passos firmes a frente deles. A mulher que lambia os lábios com um sorriso sugestivo chamara a atenção do rei.
— Senhorita Banshee, poderia, por favor, diminuir essa sua sede de sangue? Está me incomodando.
— O senhor percebeu, meu rei?
Não é como se todos ali não tivessem percebido, na verdade. O monarca para de caminhar e se vira levemente, encarando-a com um rosto ameaçador. A mulher desfaz seu sorriso no mesmo instante, encarando-o de volta com seriedade. Elena podia ser louca e desregulada, mas ela era também uma assassina experiente. E como uma assassina experiente, ela conseguiu sentir no mesmo momento o que aquilo significava. Ela se abaixou imediatamente e se curvou ao chão, encostando a testa sobre o solo.
— Mil perdões, soberano. — Apenas disse isso.
O jovem encarou-a por poucos segundos, antes de voltar-se para além do corredor e continuar sua caminhada, calmamente.
Elena permaneceu parada por bons segundos, encarando o solo com um rosto assustado, enquanto o restante dos nobres seguiam o monarca.
“O que foi... isso que eu senti... quando ele olhou para mim daquele jeito?” ela tremia enquanto se levantava com um sorriso e em meio a risos baixos e inaudíveis. “Isso está começando a ficar interessante!”
O jovem garoto continuava sua caminhada firme enquanto, sem olhar para trás, seguia uma conversa com a mulher de armadura.
— Senhorita Yevrin, fico feliz que veio ao jantar. Como está a fronteira?
— Calma, meu senhor. Desde a volta de nossas expedições ao continente negro, o mar parece ter se acalmado. As investidas de monstros têm sido cada vez menos frequentes.
— Isso é bom de se ouvir.
Eles finalmente alcançam uma grande porta dupla ao final do corredor; porta esta que o monarca logo abre, revelando uma grande sala.
O lugar parecia um grande mostruário, onde diversos itens permaneciam espalhados. Várias vitrines e podiums, contendo diversas variedades de itens. Armas, amuletos, joias, jarros, livros; tinha de tudo ali. Boa parte deles tinham aparências únicas. Os lordes ficaram impressionados com a visão.
Assim que o rei entra na sala, ele se coloca ao lado da porta, dando passagem para os senhores de feudo.
— Fiquem à vontade para observar. Só peço que não toquem em nada.
— É uma visão magnífica. — Comenta Horan, se aproximando de uma das vitrines.
— Todos são objetos adquiridos em nossas expedições.
O visconde se curva perante um colar com várias joias diferentes, a fim de examiná-lo. Ele coloca um monóculo sobre o olho e encara a peça com bastante afinco.
— A qualidade destas pedras é notável. Os cristais de safira combinados com o brilho desta pedra mágica no centro... esplêndido, simplesmente majestoso!
— O que é isso, meu rei? — Perguntava a mulher mais velha do grupo, encarando uma grande máquina de metal em um canto da sala.
— Ainda não temos certeza. Encontramos várias dessas coisas espalhadas em ruínas de lá. Acreditamos que seja algo relacionado à antiga civilização de pereceu antes dos continentes do novo mundo surgirem.
— Aquela civilização? Que intrigante!
— Tomem o tempo que quiserem nesta sala. O jantar ainda vai demorar um pouco para ser servido.
Enquanto os outros lordes pareciam distraídos, o lorde Lumiya permanecia curioso sobre algo. Mais precisamente, sobre alguém. Aquela menina parada no canto da sala parecia normal para olhos comuns, mas para Simon ela tinha algo um pouco... chamativo.
Antes que pudesse se dirigir a ela, no entanto, alguém se pôs no seu caminho com um grande sorriso.
— Senhor Lumiya! Pode me dar um pouquinho de seu tempo?
— Elena.
...
A menina parecia tranquila, mesmo em tal situação. O cachorro de rua próximo a ela balançava o rabo com uma certa agitação e felicidade, enquanto a menina acariciava suas bochechas com ambas as mãos. Porém os demais na sala não pareciam ter o mesmo espírito dela. Tulio vislumbrava a menina com certa curiosidade.
— Ela definitivamente não é deste continente. Suas feições são muito peculiares.
— Como sabes? — Perguntava o anão, Horengar.
— Sou um mestre de escravos. Trabalho com criaturas vivas há tempo o suficiente para identificar feições e traços. Por exemplo, olhando para você, posso claramente dizer que seus pais vieram de algum lugar ao oeste de Jasfik.
— Bom palpite.
— Isso quer dizer que acertei?
O anão ri levemente, voltando suas costas para o humano.
Enquanto isso, a elfa da floresta se aproxima de Alice e se abaixa para encarar a menina nos olhos.
— Gosta de animais?
Ela a encara de volta com um rosto neutro, apenas assentindo com a cabeça.
— Quer ver um truque legal?
— Um truque?
A mulher aponta o indicador para o focinho do cão, fazendo-o cheirá-lo em curiosidade; em poucos segundos, o cão para de balançar o rabo, ficando atônito.
— Sente-se. — Diz a mulher com um sorriso. O cachorro apenas obedece.
— Você o domou?
— Sim. Veja. Vá até aquele senhor e cumprimente-o.
O cachorro se dirigiu até o sujeito com roupas do deserto, se colocando em duas patas logo que o alcançou.
— Isso é perturbador, Arendril. — Diz o sujeito, encarando o cão.
A mulher apenas riu, voltando-se para a menina.
— Como se chama, criança humana?
— Alice.
— Eu sou Arendril, filha da floresta.
— Filha da floresta?
— É como meu povo costuma se apresentar. Me desculpe, as vezes eu esqueço que vocês humanos não têm este costume.
— O que significa?
— Bom, é um pouco difícil de explicar. Quando nós nascemos, o meu povo costuma fazer um ritual que...
— Não precisa explicar os detalhes a ela, Arendril.
O elfo que se aproximava parecia apressado em interromper a fala dela. A jovem fez um rosto hesitante e encarou o restante do grupo com seriedade.
— Certo, me desculpe.
Alice não entendeu bem o que foi aquilo, mas logo em seguida, o elfo se afastou novamente e voltou a se escorar na parede.
— Talvez em uma outra ocasião, criança.
O anão, ao ver a cena, solta uma leve risada.
— Ainda preocupado em manter segredos, elfo?
— Mais preocupado estaria eu de manter-se de boca fechada se fosse você, anão.
— Um elfo de Jofrir dizer algo assim para mim.
Arendril encara o anão com bastante repulsa; a jovem Alice não entendia direito o que estava acontecendo, mas pelo clima da sala, ela entendia que não era algo bom.
— Ele não fala sério, Arendril. — Disse a menina em baixo tom e com um sorriso.
— O que disse?
— Ele não disse aquelas coisas com más intenções. Ele claramente está apenas importunando o elfo por prazer. E mesmo assim, parece que o elfo está gostando também.
— O que quer dizer?
— São as feições deles.
Ela fica confusa e curiosa com a fala da criança.
— Feições?
— Eu consigo ler a postura de certas pessoas. Consigo dizer se estão mentindo ou sendo sarcásticos. A forma como os dois conversam parece mais uma postura de dois amigos.
Ela encara os dois novamente, que evitavam se olhar. Ela volta seus olhos para Alice, curiosa.
— Como consegue dizer isso?
A menina faz um rosto triste, desviando o olhar.
— Experiência.
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