Bloody Devotion
2 Herança — Parte 2
Em um outro ambiente, a mulher jogava sua capa para os lados, enquanto girava em êxtase no centro do salão iluminado. Suas risadas descontroladas e seu ar histérico preenchiam o lugar, tomando o corpo dos demais presentes de felicidade e excitação.
— Minha mansão! — Gritou a mulher.
Ela para sua dança sem sentido e começa a encarar os seus companheiros no aposento com um belo sorriso.
— Alguém poderia me trazer uma garrafa de sangue élfico? Safra de Jofrir.
— Não sei se temos uma garrafa desta safra sobrando, senhora.
A mulher gemeu em dor, se contorcendo em meio a risos logo em seguida.
— Não faça isso comigo, tenho certeza de que meu pai guardou alguma na adega.
Os empregados correram em busca do objeto. Depois de vários minutos, a mulher, cansada de esperar, se dirige ao lugar.
— Por que a demora?
— Minha senhora, não conseguimos achar nenh...
O homem é interrompido imediatamente, tendo sua cabeça decapitada. Os demais empregados se afastaram, temerosos, enquanto sua mestra se abaixava para alimentar-se do sangue que jorrava de seu pescoço. A mulher se levanta logo após seu pequeno surto, limpando o sangue de sua boca.
— Decepcionante. Mesmo sendo um elfo, o gosto de seu sangue não se compara aos de Jofrir. Vocês, que sobraram, arrumem-me uma garrafa até o final da semana, ou vocês serão minha garrafa.
— Sim, senhora! — Responderam imediatamente.
— Francamente, é difícil achar bons escravos hoje em dia. Limpem essa bagunça.
Enquanto saia da adega, com um pano em mãos e limpando o sangue que sujara seu vestido e braços, a mulher percebe alguém vindo em sua direção; um homem de meia idade, negro, forte, careca.
— Tulio? — ela começa, ao que ele responde rapidamente. — Acabei de abrir os olhos e encontrei “suas mulheres” discutindo comigo.
Ele a encara com um sorriso, vislumbrando o vestido ensanguentado da madame a sua frente.
— Tratarei deste assunto em breve, minha senhora.
— O que tens em suas mãos?
— Uma garrafa e minha faca, como prometido. — Ele olha nos olhos dela com um sorriso no rosto. — Quer que eu dê os dois para a senhora? — Ele pergunta.
A mulher pega a garrafa e checa seu rótulo. Ao que tudo indicava, era o que ela buscava; desconfiada, ela encara-o com um olhar sugestivo, desviando-se novamente para a garrafa. A mulher retira a rolha e cheira o conteúdo, apreciando o odor.
— Parece correto.
— Prove.
Ela vira levemente a garrafa em seus lábios, deixando escorrer uma gota pelo canto direito da boca. Gentilmente, o homem limpa a bochecha dela com um lenço, enquanto a mulher gemia em êxtase.
— Sim! Era isso que eu buscava!
Ela tampa a garrafa e começa a girar, deixando seu vestido e capa se estenderem com o movimento. Ela ria e gritava, enquanto girava e dançava.
— Mas temo que também devo arranjar um escravo para minha senhora.
— Então, você deve me encontrar um logo. Os que meu pai possuía eram frágeis, inúteis! Como poderia aquele velho caduco ter tantos criados inúteis!
— Sou inútil para vossa senhoria?
— Não, você não. Você é diferente. Nunca vi um humano tão prestativo e proativo! Eu nem pedira a garrafa a você, e você me trouxera exatamente o que pedi aos outros incompetentes! E esta adaga?
— Esqueceu-se da promessa? Eu disse que se ganhasse a competição, lhe daria um presente. Isso faz parte do presente.
A mulher pegou o objeto, analisando-o sem interesse.
— Não preciso de armas para derrotar meus inimigos, Tulio. Sou uma vampira da casa de Banshee! Elena Banshee! Os maiores assassinos de Hastermash! Eu não preciso de mais do que minhas belas e delicadas mãos para reivindicar a vida de alguém.
— Peço perdão pela minha insolência, senhora.
— Não foi insolência, não. Eu admiro seus presentes, principalmente a garrafa. Podes ficar com a faca, se desejares.
— Quanto as “minhas mulheres”, darei um jeito nisso agora mesmo.
— Não se incomode. Eu já cuidei do assunto.
Ele faz um rosto surpreso, sorrindo logo em seguida.
— Entendo.
— Pensando bem, farei uma grande reforma nesta mansão. Estava pensando em discutir os detalhes com você mais tarde... nos meus aposentos.
— Sim, minha senhora.
— Bom menino. Agora, poderia me trazer o livro de registros da nobreza? Gostaria de saber exatamente contra quem iremos “lutar”.
O homem arrasta sua mão para dentro de seu manto, e assim que a puxa de volta, retira um livro. A mulher solta uma risada excitante ao tocar o livro e alisar suas mãos gentilmente contra as dele.
— Tão prestativo... eu definitivamente vou querer que você venha aos meus aposentos...
— Estarei lá, minha-
— Agora.
Ele sorri.
— Como desejares.
Enquanto isso, em outra parte do reino, um grupo conhecido como “Os Três Ursos” fugiam enquanto tentavam a todo custo se livrar de seus perseguidores. Uma grande chuva de estacas brilhantes os perseguiam, vindas da mais profunda escuridão da floresta. Os dois pares de olhos vermelhos que os perseguiam eram impiedosos e famosos na região; os coelhos da neve.
Um dos homens sentiu um forte frio em sua panturrilha, frio este que o fez cair sobre o chão, enquanto seus dois irmãos avançavam sem perceber o que acontecera.
— Droga! — Gritou ele, chamando a atenção de seus irmãos.
— Hodvar!
— Vão! Me deixem!
O homem a sua frente, no entanto, se posicionou para aparar um golpe que iria atingir seu irmão. Com seu machado em mãos, ele segurava aqueles olhos vermelhos, que estavam famintos pelo seu sangue.
— Garn! Vá! Fuja!
— Não sem você, irmão!
O outro par de olhos passou reto pelo grupo, indo em direção ao último urso que fugia.
— Coelhos caçando ursos, — dizia a voz implicante de seu perseguidor, — quanta vergonha para o grupo de mercenários mais forte de Hastermash.
— Calada, seu demônio!
— Posso ver sua inquietação, anão. Depois de roubar de minha mestra, depois de invadir nossos domínios em busca de sua cabeça, agora teme por sua vida. Deverias saber que não se deve desafiar uma lorde vampira.
— Pelo menos ainda tenho meu orgulho! Diferente de vocês, humanos, que se venderam para aquela coisa!
Ele faz um movimento com seu machado, jogando a criatura de olhos vermelhos para trás. Rapidamente, ele pega seu irmão e começa a correr para dentro da floresta.
— Garn, onde está Adrik?
— Não se preocupe, Hodvar, ele entregará a mensagem, custe o que custar...
Os dois, no entanto, são surpreendidos por uma paisagem. Eles instintivamente param de correr, vislumbrando aquela cena a sua frente. Seu irmão estava com as mãos estendidas sob a luz do luar, totalmente ensanguentado.
— Não...
— Garn... por favor... fuja...
— É tarde para isso, anões.
Os dois são arremessados no chão violentamente. Acima de Hodvar, um dos coelhos se preparava para finalizá-lo.
— Hodvar!
— Já chega! — Gritou uma voz feminina.
Os dois coelhos cessaram seu ataque e recuaram no mesmo instante que reconheceram a voz. Eles se afastaram e se ajoelharam. O anão se arrastava instintivamente para longe da presença daquela criatura que aparecera. Alta, imponente, e com uma silhueta fria e sombria, ela se aproximava dos anões, enquanto seu silêncio preenchia a floresta.
— Pobres criaturas, sem o mínimo bom senso, invadiram meu território apenas para tentarem me importunar.
— Não pense que acabou... quando não voltarmos, eles vão vir com tudo para nos procurar. Essa é a diferença entre vampiros e anões! Nós somos unidos como uma entidade!
— Ora, é mesmo? Que bom saber disso... nesse caso, acho que os manterei vivos. Talvez isso nos dê alguma diversão extra, não é mesmo?
— Demônio...
Ela solta uma leve risada, ficando extremamente séria logo em sequência.
— Vocês confundem as coisas. Nem todos nós somos monstros. O reino de Jasfik já reconheceu isso, por que vocês não o reconhecem também?
— Diz isso com essa cara, nesta situação!
— Estou apenas lidando com ladrões, que invadiram minha mansão e tentaram reivindicar minha cabeça!
Os dois pares de olhos vermelhos permaneciam ajoelhados atrás da madame, apenas encarando os anões.
— Manter escravos de outras raças me parece exatamente o que um monstro faria.
Ela suspira em tédio, olhando novamente para seus coelhos.
— Eles me seguem por vontade própria. Todos na minha mansão o fazem, inclusive o elfo que vocês quase mataram. E é exatamente por isso que esses dois estão tão irritados. Eles querem se vingar pelo que vocês fizeram ao mestre deles.
— Nós evitamos pontos vitais de propósito, não queríamos ferir os escravos!
— Eles não são escravos! — Gritou a mulher. — Talvez um tempo em nossa mansão te ensine um pouco sobre essa nossa cultura.
Ela começa a andar em direção ao corpo do anão pendurado.
— O que pensa que vai fazer?!
— Reivindicar um pagamento pelos danos causados por vocês.
— Não! Pare agora! Seu monstro!
Ele tenta se levantar para impedi-la, mas é segurado pelos dois coelhos, que pulam em seu peito. Ele tenta se debater, mas suas pernas não se moviam, ao mesmo que o frio só crescia a sua volta.
— Gelo? Vocês...
A mulher delicadamente acaricia o rosto do anão pendurado, sujando sua mão com seu sangue.
— Sangue anão... quantos anos tem que não o provo?
Ela lambe seus dedos, mas logo afasta-os de sua boca.
— Gosto de cerveja do norte... eu odeio esse gosto. Me lembrei do porquê evitava vocês, anões.
— Adrik...
A mulher parecia complacente para com o anão subjugado. Ela o encarava com o rabo de olho, enquanto acariciava o rosto ensanguentado de seu irmão. Ela fecha seus olhos e suspira.
— Levem-nos para a mansão.
— Sim, M’lady.
— E não se preocupe, anão. Eu não o matei.
Ele encara a mulher se afastando, com um rosto incrédulo.
...
O homem mais idoso vestia seu paletó e seu chapéu, enquanto se preparava para deixar a mansão. Seu sucessor não parecia empolgado, mas ele sabia que ele daria um jeito.
— Simon, tenho grandes expectativa sobre você.
Ele permaneceu em silêncio, enquanto sentia os olhares de seus familiares. Sua mãe se aproximou e deu um beijo em seu rosto; mesmo ele sabendo que era falso, o permitiu. Seu pai puxou-o levemente para longe dos outros, antes de sair pela porta.
— Sei que está preocupado, mas confio em seu julgamento. Se precisar de ajuda, pode contar com as famílias Horan e Hagara. Eles garantiram que ainda dariam apoio a você. Só tome um pouco de cuidado com os Horan, Kai possui muitos amigos lá dentro.
— Tomarei, meu pai.
— Quanto aos Hagara... acho que não preciso me prolongar a respeito, não é?
Ele sorri, deixando o comentário do pai para trás. Aquilo tinha sido uma provocação, e Simon sabia. O pai bate orgulhosamente nos ombros do rapaz, encarando-o com um olhar sincero.
— Tome cuidado.
— Obrigado, meu pai. Tomarei.
Ele se vira, despedindo-se de seus demais filhos. Enquanto andava sobre o caminho até o portão, o velho senhor, juntamente com sua esposa, refletia sobre o atual estado de Hastermash, imaginando se seu filho aguentaria a pressão de assumir a família em tais condições. Mas mesmo ele sabia que era uma preocupação vã. Se havia alguém preparado para tomar o controle de assuntos governamentais, esse alguém era Simon. Seu devaneio não durou muito, no entanto, quando sua atenção é requisitada por uma criatura que voava sobre suas cabeças. Em suas garras, uma carta, com um selo peculiar.
— É o selo de Drakon.
Mesmo os que estavam a porta da mansão puderam enxergar.
— O tipo de selo... é uma carta de convocação. — Constatou um dos irmãos mais novos de Simon.
Simon estende sua mão gentilmente, enquanto o corvo pousava em seu antebraço. Ele apressadamente abre o invólucro, se apressando a ler seu conteúdo; seus irmãos se debruçavam sobre seu ombro para terem um pequeno vislumbre da carta. Seu pai, no entanto, apenas sorriu, enquanto se virava para o portão e continuava seu caminho.
— Boa sorte, meu filho.
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