Bloodline
1 Change is the beginning of everything
Notas iniciais
— Ela volta domingo, mais conhecido como amanhã – a ruiva levou a colher colorida de plástico a boca.
Ainda era verão no norte Estados Unidos e o dia quente fez Rosalie convocar sua melhor amiga para uma visita a uma sorveteria como um último passeio das férias. Agosto havia chegado, assim como as aulas.
— E você? Como está? – a morena de cabelos curtos pergunta – Quer dizer, agora você vai morar sozinha de vez – ela olha para a amiga sentada a sua frente.
Com a morte de seu pai a anos atrás, Isabel – meia-irmã do mesmo – alterou sua vida para tomar conta da adolescente. Elas nunca foram realmente próximas nesses cinco anos que se passaram, mas sabiam que compartilhavam um grande afeto. A morena estava voltando para a cidade que morava e para a vida de antes.
—Tem sido estranho pensar nisso, nunca fiquei sozinha de verdade naquela casa – ela tomou mais um pouco de seu sorvete de menta com chocolate antes de voltar a falar – sempre que minha tia viajava para cuidar do negócio que tinha, eu sabia que dentro de uma semana ou duas ela voltaria.
— Veja o lado bom, poderá dar festas quando quiser! – um sorriso se forma no rosto delicado da garota – e poderá me chamar para todas como convidada de honra!
— Será convidada de honra na limpeza também! O que acha disso, querida Lucia?! – a ruiva responde com o mesmo tom animado da amiga.
— Você não é nada engraçada, Rosalie – ela finge estar com raiva e volta sua atenção para a taça de sorvete em suas mãos – já não basta ir para a faculdade e me deixar sozinha naquele lugar, agora quer acabar com os meus sonhos?
— Pare com esse drama! – Rose não contém a risada – e o que você queria que eu fizesse? Não tenho culpa de ter começado a estudar primeiro que você.
— Você poderia ao menos repetir de ano – a garota comenta de forma casual – Eu não reclamaria.
— E fazer aquela chatice toda de novo?! – ela arregala os olhos azuis – talvez na próxima vida, Luci – diz com um sorriso no rosto.
— Pode apostar que na próxima vida irei cobrar! — ela aponta para a amiga e cerra os olhos castanhos, como uma ameaça.
— Isso era para ser uma ameaça? – ela ri da tentativa falha de Lucia – Não precisa ficar assim. Com sorte, ano que vem iremos estar estudando no mesmo lugar! – a morena assume uma expressão tristonha – Ah, nem é tanto tempo assim, não precisa ficar com essa cara.
A cidade de tamanho médio ao leste de Nebraska tinha apenas uma faculdade com cursos diversos, para a surpresa da ruiva e de sua amiga. Sempre gostaram da cidade onde moravam e ficaram felizes de saber que poderiam continuar estudando ali.
— Não posso evitar, sou de peixes! – se justifica – E nem queira ouvir o resto do meu mapa!
— Eu sei praticamente todo o seu mapa, você sempre cita algo – Rose sorri, antes de comer a ultima colherada de seu sorvete.
Dentre as muitas paixões de sua amiga, astrologia ficava entre as três mais. A garota podia se lembrava do verão que a amiga tentara deduzir os signos das pessoas. Fora divertido ver a amiga perguntando a conhecidos e desconhecidos seus signos, apenas para confirmar suas suspeitas.
— Ainda não acredito que tudo está mudando tão rápido – a ruiva suspira – Estou sentindo minha vida dando um giro e agora estou ficando com medo.
— Algo me diz que algo grande vai acontecer em nossas vidas – a morena perde toda a casualidade – Só queria saber se será algo bom ou não – diz preocupada.
— Você sempre me assustou com esse lado meio sensitivo – Rosalie se move desconfortável na cadeira, dando um sorriso para dissipar o ar estranho.
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Era a primeira vez que Cassandra ia a um restaurante tailandês e não estava sendo a melhor das experiências. A quantidade de informação sobre as paredes e as cores vibrantes do lugar a incomodava, certamente a morena de pele café jamais voltaria. Apesar de tudo, a comida não era de todo mal, o que achava justo pelo preço exorbitante. Obviamente ela pedira o mais caro dos pratos, já que não estava pagando.
Cassandra sempre seguia o lema de que términos não precisavam ser sempre tristes, ainda mais quando a outra parte era a errada. Naquela manhã havia decidido romper o namoro de quase um ano e era fato que não estava sofrendo. Ela esperou que terminassem a refeição antes de encará-lo e dizer o porque de estarem ali.
— Eu estou terminando com você – dito isso o garoto se engasgou com a bebida.
— O que você está dizendo?! – pergunta depois de retomar o folego.
— Exatamente o que ouviu. Eu, você – ela gesticulou – Acabou. Nunca mais. Nem em uma realidade alternativa – diz de forma mais prática e casual que conseguiu.
— Mas por quê?! O que aconteceu?! – o moreno pergunta com um misto de raiva e confusão.
— Porque eu mereço mais, simples – a morena sinaliza para o garçom — A conta, por favor – ela se levanta e pega a bolsa que estava pendurada na cadeira – Espero que tenha trazido um cartão de crédito.
Com um sorriso nos lábios e sem olhar para trás, a jovem dirigiu-se a porta enquanto ele a lançava os mais diversos xingamentos que não a afetaram e por mais que aquilo fosse um termino, Cassandra se controlou para não rir da cena que o seu ex estava fazendo.
Se sentindo renovada, caminhou até o ponto de encontro com a amiga que a esperava no shopping perto do restaurante. Ao chegar lá mandou uma mensagem para Cloe que disse estar na frente do cinema. Não demorou muito para achar a garota de longos fios loiros e olhos verdes na fila da sessão.
— Finalmente livre! – a garota grita no meio do shopping, atraindo olhares.
A garota de pele café não fazia o tipo escandalosa, mas aquele momento pedia algo do tipo. Com um sorriso nos lábios, Cloe abraçou a amiga.
— Acho que nunca te vi tão feliz! – a loira brinca.
— Amore, você geralmente é exagerada, mas hoje você está coberta de razão! – rindo, a morena procura a carteira na bolsa – Hoje a pipoca é por minha conta, assim como a porção de batata frita depois do filme! – anuncia.
— Isso é música para os meus ouvidos! – a loira finge secar uma lágrima.
— Sua voz que é música para os meus ouvidos – um moreno se aproxima das duas com um sorriso sedutor nos lábios.
Depois das amigas trocarem olhares incrédulos, a loira tratou de se livrar do homem.
— E você é? – quando ele ameaçou dizer seu nome, Cloe o impediu – Não importa, eu não dou a mínima – ela o olha com desprezo – Eu tenho um namorado e não estou querendo arrumar outro. Agora nos deixe em paz e por favor, pelo bem das próximas garotas que você tentar seduzir, melhore suas cantadas – a garota da as costas para o moreno.
Sem muita escolha, o homem as deixa, visivelmente irritado e Cassandra não consegue segurar o riso. Cloe sabia ser malvada quando queria e a maneira da garota reagir, sempre a divertiu. A loira agradeceu quando chegou a sua vez e pediu os ingressos para o filme.
— Angelo teria orgulho da namorada! – a morena brinca.
— Por que toda a vez que eu me imponho, vocês acham fofo? – questiona com um suspiro.
Rindo, Cassandra não fora capaz de dizer mais nada, focando-se apenas em conseguir a pipoca e seu refrigerante, antes da sessão começar.
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Mesmo com o tempo quente, Salazar não resistia a um bom livro. O loiro estava em seu quarto, a quilômetros de distância de uma civilização e em uma casa que havia se acostumado a viver com outras pessoas que para ele eram meros estranhos. A ideia de um Clã era manter todos os bruxos de certas linhagem unidos, porém o jovem se sentia totalmente deslocado, tendo apenas sua vó, Elena, que com o tempo, virara amiga pessoal da regente do clã.
Uma batida suave é ouvida e na sequência a voz da idosa se faz audível. Com a permissão do neto, ela abre a porta de maneira tão suave quanto seu caminhar. Aparentava ter vivido menos do que sua certidão de nascimento acusava e seus cabelos não mudaram tanto de tonalidade. Desde que era jovem, os fios sempre foram de um loiro claríssimo que o chocava quando criança e agora — em seus vinte e quatro anos — ainda lhe causavam estranheza.
— Eu gostaria de conversar com você por um breve instante – ela se sentou na beira da cama.
— Claro – ele marcou a pagina e deixou o livro de lado – Algo errado? — seus olhos castanhos demonstravam sua preocupação.
— Sabe que estamos vivendo tempos confusos e tensos e sua falta de afeto a esse clã não tem passado despercebida – Elena segura a mão do neto que logo perde a expressão preocupada.
— Bom, pois não gosto deles – diz ríspido.
— Você não compreende como isso é perigoso, não é? – seus olhos castanhos estavam temerosos – sua falta de empatia por todos pode ser considerado traição.
— Traição?! – ele se revolta – Eu vivi minha vida toda por esse clã e você se certificara disso! – seu tom de voz aumentou.
Acalme-se, por favor – ela pede em uma suplica e o loiro respira fundo – é o tipo de coisa que não cabe a mim. Sabe que acabei me tornando grande amiga da regente em nosso beneficio, mas se você não colaborar com o nosso grupo, infelizmente não poderei fazer muito – seus olhos se enchem de lagrimas – eu não posso perdê-lo, meu neto.
— Nem irá, minha vó – ele a abraça – nem irá.
Odiava ver sua vó naquele estado, porém era difícil não ir contra tudo aquilo em que o clã acreditava ser certo. Não estava em seu sangue ser tão intolerante quanto todas aquelas pessoas que o cercavam.
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O final do dia se aproximara mais rápido do que esperava e Rosalie logo se viu na necessidade de voltar para casa, deixando Lucia primeiro. A medida que a hora de sua tia viajar se aproximava, o medo da garota se intensificava.
Estacionou na garagem e caminhou sem pressa para o interior da residência. Lá encontrou sua tia sentada no sofá branco da sala de estar, bebendo vinho e de cabeça baixa. Quando se aproximou da morena, pode ver — além da garrafa quase vazia — um álbum de fotografias sobre a mesa de centro, o qual ela folheava. Seus olhos inchados a denunciaram e quando a garota a cumprimentou, Isabel pediu para que sentasse ao seu lado.
— Seu pai era um homem bom – diz antes de virar a pagina – Pode parecer estranho para você, mas eu não era próxima de Danon até sua mãe entrar na vida dele – ela sorriu e apontou para a foto no topo da pagina – Nesse dia fomos a um parque, eu te levaria, mas ele existe mais.
Fora a primeira vez em muito tempo que eu e meu irmão realmente nos falamos, Liana tornou tudo mais fácil. Ela era espontânea e a ruiva sabia mesmo com se divertir – ambas riram de forma suave.
A foto em questão mostrava os três: Liana, Isabel e Danon. Os dois irmãos estavam sentados em um banco e sorriam. A ruiva estava de pé, atrás dos dois, segurando três balões. Ao fundo o parque cheio se mostrava bem popular, provavelmente a foto teria sido tirada em um final de semana e julgando pelo desgaste, fazia tempo. Percebendo que nunca vira aquela foto, sabia que jamais tinha tido contato com aquele álbum em particular.
— Você se parece com ela, mas lembra muito ele – ela bagunça o cabelo da adolescente – Teimosa – ambas sorriem, antes do tom sério tomar conta da conversa – Eu sei que é assustador ter essa casa inteira só para você – ela gesticula – Mas acredite, não é tão ruim quanto parece, digo por experiencia. Você é uma boa garota, tudo vai dar certo – a morena a abraçou.
— Obrigada por tudo, tia – ela retribui o abraço.
— Bem, vou dormir. Amanhã será um dia cheio – ela se levantou – O álbum é um presente de despedida – ela apontou para o objeto em cima da mesa – guarde com carinho. Boa noite, Rose – Isabel deposita um beijo no topo da cabeça da menina.
— Boa noite, tia – diz, observando-a subir as escadas.
Sozinha no comodo, Rosalie começou a olhar o álbum. A maioria das fotos eram antigas, memórias há muito tempo esquecidas. Estavam felizes em todos os registros e percebera de como seu pai era diferente. Era nítido o vivido brilho nos olhos e o sorriso sincero nos lábios e nada remetia ao homem que envelhecera mais do que deveria, o homem com o qual ela cresceu.
A cada pagina virada o coração de Rosalie bombiava emoções mistas, contendo tristeza, pesar e uma certa felicidade pela alegria das pessoas em cada foto. Quando a gota caiu sobre o plastico que cobria a foto, a ruiva percebeu que estava chorando, e muito. Sem condições de continuar, ela fechou o álbum e levou ambas as mãos ao rosto, percebendo que naquela noite, não haveria sorrisos.
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