Blood Town
3 A caçadora de corvos
O ar ficou pesado. Coberto por ódio e ressentimento. E com uma velocidade assustadoramente invejável, Kaleb prensou o corpo de Sebastian na parede com apenas uma das mãos, e estendendo o braço. Forte como um lobisomem de fogo.
Caliope tentará manter a calma naquela situação, não estava tão preparada para isso. Segundo Alay, Kaleb era fácil de lidar – com paciência, obviamente — mas mesmo assim ela tentou fazer um plano com sua mente mirabolante.
E invés de parecer assustado ou com algum sintoma de dor, Sebastian exibia um sorriso de lado vitorioso. A mente dele era um mistério, com certeza.
E então já cansada de tudo aquilo, Caliope ergueu as duas mãos em direção a Snow e a Kaleb. Fechou os olhos. Inspirou e expirou. Suas pálpebras se abriram lentamente. E com a cabeça ainda um pouco baixa, suas mãos se moveram para trás e ao terminar de esticar os braços o resultado foi incrível. Kaleb e Sebastian foram afastados. Cada um para um lado. Rapidamente os dois foram paralisados e colocados um ao lado do outro na parede. Caliope os encarou e percebeu que Kaleb estava a ponto de surtar, ele tentava se debater e sua respiração se mantinha acelerada. Já Sebastian se mantinha sério, talvez por algum mistério ou força maior ele teria tomado consentimento de que aquele não era o momento certo para sorrir.
Caliope já estava a ponto de admitir de que essa não seria uma missão fácil. Mais uma vez escutou-se um de seus suspiros. Kaleb já havia parado de se debater. Então gritou:
– Me solta, Caliope!
– Nem pensar! Sinto muito em te dizer, mas você vai ter que deixar esse lance de vingança para depois. Por que adivinha só?! Nós não temos tempo para essas besteiras! – ela gritou.
Uma das coisas que Kaleb já havia visto apenas uma vez durante sua vida inteira foi Caliope ficar brava. Seus gritos eram intimidantes e demonstravam o quão controladora ela poderia ser.
Caliope, Sebastian e Kaleb já se conheciam – há muito tempo na verdade. Podia se dizer que eram amigos. Sempre estavam próximos um do outro.
Tudo começou na Escola de Formação Mística. Todos os três sentaram na mesma mesa desde o primeiro dia de aula. Cada um olhando através dos olhos dos outros. Caliope era ótima com feitiçaria e Kaleb com os esportes. Já Sebastian sempre foi o mais distante de todos. Sempre se isolava nas atividades em grupo. Ele não escondia seu ódio por aquele lugar. Que depois da metade do ano começou a se tornar suportável. Caliope se aproximou de Sebastian, mesmo ele a ignorando a maior parte do tempo. Nem mesmo Caliope sabia por que de querer estar perto dele, o garoto desprezava todos. Ela simplesmente ficava se aproximando cada vez mais. Depois de um tempo Sebastian cedeu e começou a conversar com ela. Os dois passavam todas as aulas cochichando para não chamar atenção. Kaleb nesse tempo tinha muitas outras pessoas que ele considerava amigo. Isso foi até ele ser expulso do time e ter de andar sozinho durante todos os intervalos. Caliope o convidou a se juntar a eles. Kaleb aceitou.
Assim começou a amizade de um jovem lobisomem de fogo, um vampiro impuro e uma feiticeira talentosa. Todos estavam muito felizes, com exceção de Sebastian que passou a se tornar cada vez pior. Era raro ver ele ir a escola. Sempre desaparecido, como um fantasma. Nem ao menos seus amigos o viam. A noticia de que ele havia matado sua mãe surgiu e todos ficaram apavorados. Finalmente a besta que se apossava dele se libertou e mostrou a verdadeira essência daquela não tão inocente criança. Sebastian nunca mais apareceu na escola ou viu Caliope de novo. Alguns anos depois, Kaleb se reaproximou de Sebastian outra vez. Kaleb havia mudado, ele se deixou ser controlado pelo mau. Seu olhar se tornou feroz e insaciável.
Mas agora, toda sintonia que antes os três tinham juntos desapareceu de forma tão rápida que parecia que havia sido apenas um sonho. Porém Caliope não queria se esquecer e a esperança de que talvez aqueles dias voltem é o que a fez querer vir ao Mundo Humano.
– O que vocês estão fazendo aqui?! – Kaleb gritou, mas desta vez parecia mais calmo então Caliope se permitiu soltar os dois, se posicionando entre eles para evitar outra briga.
– Procurando fugitivos. – Sebastian foi direto, olhando diretamente para os olhos de Kaleb que estavam em um tom claro, mas ainda sim demonstrando a fúria de um lobisomem.
Tudo isso estava indo rápido demais para Caliope. As palavras, as razões e as desculpas. Ela tentava pensar em algo que pudesse dizer a Kaleb, algo que o fizesse voltar. Então tudo que disse foi:
– Kaleb, a razão para estarmos aqui é algo bem maior. Não dá para explicar agora, mas se você confia em mim, mesmo que só um pouco então tudo que eu peço é que você venha com a gente.
O discurso da garota fez inicialmente Sebastian fazer uma cara desagradável, mas isso mudou logo após perceber que concordara com tudo que ela disse. Já Kaleb se mantinha sério. Era quase possível ver sua mente trabalhando em algo.
– Certo, eu não vou prometer nada. Mas antes de eu ir com vocês tenho que falar com a Roxy. – Kaleb não esperou reações, tudo que houve foi uma troca de olhares confusos entre Snow e Caliope.
Mas não antes deles seguirem Kaleb pela porta dos fundo até o café, Snow perguntou sorrateiramente.
– Quem é Roxy?
– A gerente do café. – E logo após Kaleb responder, já abrindo a porta uma flecha voou em sua direção a centímetros do seu rosto.
Havia uma garota. Cabelo ruivo, lábios rosados, piercing no nariz, tatuagens coloridas, botas e luvas de couro. E claro, um arco inclinado horizontalmente contendo três flechas. Cada uma apontandando diretamente para cada um.
– Então, essa é a Roxy? – Caliope perguntou nervosa.
– Sim. – Kaleb olhou para a garota a sua frente ainda surpreso.
– Merda – Sussurrou Snow.
– Bom, parece que afinal eu estava certa. Como sempre. – Roxy falou e sorriu de lado. – Um lobisomem, um vampiro e uma... – A garota olhou confusa para Caliope e depois seu sorriso aumentou gradualmente. – Uma bruxa, é claro.
– O que isso significa? – Perguntou Kaleb.
– Significa que você foi pego, bobinho. – Roxy respondeu. – E que eu vou ganhar uma boa recompensa pela cabeça de vocês.
Mesmo o café estando vazio agora, Sebastian conseguia sentir o cheiro de sangue de humano. Eles respirou fundo, mas tudo que conseguia fazer era cerrar os punhos. Ele havia conseguido aquentar até agora, mas tinha certeza de que não iria durar por muito tempo.
Ele conseguia sentir as batidas do coração de Roxy, o sangue dela circulando dentro do corpo.
Seus olhos ficaram mais azuis do que antes e agora coberto de veias no lugar das olheiras cotidianas. Ele observava cada movimento que havia a sua volta.
Ele foi tão rápido e preciso que em segundos estava atrás de Roxy. Sorrindo como nunca, sem sua sanidade. Tudo que queria era poder sentir o sangue novamente.
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