Blood On Blood

11 11 Evan- Battlefield


Mal poderia esperar para ver Sophie no outro dia. Era como um sonho ainda: não estava acreditando em nada do que havia acontecido. Quero dizer, sobre eu estar séculos e séculos escondido pelas sombras da eternidade e então encontro o que eu achei impossível encontrar: outro de minha espécie. Uma vampira. Tão linda e radiante como Sarah costumava ser, ou até mais, também oculta por seu destino vampiresco.

Sophie era a mulher da minha vida.

Por toda a eternidade.

Era sem dúvida uma paixão tão intensa quanto a dos humanos, senão mais, por ter nela dons que os dois domam e a sede dos dois de sangue, o que nos torna praticamente irracionais; porém com todos esses séculos vivendo e morrendo e revivendo, esperando algo que não vem, aprendemos mais que qualquer estudioso por aí.

Porém a fama é perigosa. Fingimos não saber nada pra não despertar a curiosidade da sociedade, afinal uma vez que ficássemos famosos, teríamos que nos revelar_ uma celebridade que nunca morre seria humanamente impossível.

Mas voltando à Sophie: ela é uma espécie de vampiro a qual nem mesmo a gravidade traz para baixo. Ela parece flutuar pelo palco, flutuar pela minha mente, flutuar por si só, como se andasse nas nuvens, como se fosse sonho. Sophie havia achado a maravilhosa beleza de ser vampiro e ter que viver pelos longos e eternos anos, décadas, séculos de sua vida, suportando a dor de nunca morrer. Vendo as pessoas que ela era apegada morrendo, como reza a lei da vida, sem guardar nenhum remorso ou raiva, sem questionar porque já sabe de todas as respostas; ou então sem poder se apegar às pessoas justamente por esse fato ou por não terem o que seus olhos de vampiro necessitam para serem satisfeitos. Sophie leva a morte como se fosse vida, sorrindo para um príncipe encantado invisível, sendo rainha o tempo todo como se alguém a observasse. Enquanto todos estão ocupados ao seu redor com o próprio vazio, cegos demais para verem a beleza de Sophie.

E tudo que eu sempre precisei era algo para admirar. Ou alguém.

Agora eu a tinha.

s.m.a

Cheguei no grande salão na mesma hora de costume e me sentei à mesma mesa de sempre. Estava com sede de sangue novamente, porém ainda mais sede de Sophie.

Vi as dançarinas se apresentarem, sem muita graça_ não tanta quanto a dela_, e logo após uma cantora invadiu o espaço:

_Bom... eu sei que vocês estão esperando Sophie_ ela sorria, alegremente_, mas não se preocupem, ela ainda vem hoje. Só que, com muita pena e lamento, eu tenho que anunciar que hoje será a última música de Sophie neste cabaré. Eu estou coberta pela responsabilidade de cantar a música da noite, e ela então virá ao palco cantar sua música de despedida.

Despedida?

Eu teria, pelos meus séculos de vida, ouvido tais palavras?

Elas fizeram eco em minha cabeça e voltaram totalmente para o público. Não era difícil saber que Sophie era a melhor cantora dali e mesmo que a tal despedida não fosse daquele jeito que todos estavam pensando, era pecado até mesmo pensar que ela deixaria o cabaré.

E então outro pensamento me invade: se ela ia sair, por que não havia me contado?

Não que minha aparência, treinada por longas décadas, revelaria minha surpresa assim, de graça, para os demais presentes. No entanto, meu olhar ficou faminto e vazio até que, depois daquela mulher se apresentar, Sophie entra no palco.

Abafando os aplausos e resmungos da plateia, lá estava ela. Diferentemente dos outros dias, ela usava um vestido azul simples e pouco enfeitado. Seu cordão de brilhantes que a acompanhava desde o dia que eu a vi não estava mais em seu lugar, assim como a maquiagem havia sido guardada. Sophie não era mais uma vampira sedutora: agora estava despida de fantasia perante as demais pessoas, apresentando sua verdadeira aparência, mesmo que fosse menos desejada e popular que a de costume. Agora ela estava entregue como nunca havia feito antes.

Porém algo em seus olhos de vampiro trazia uma dor quase tão viva quanto nossa morte. Uma dor quieta e sofrida, como quem já havia chorado e esperneado durante todo um dia, e resolve desistir do que tanto quer para se render à um desejo maior.

Mas Sophie era uma vampira. O que quer dizer que seus instintos fazem suas prioridades caírem sempre primeiro que as dos meros humanos a sua volta.

Algo de muito errado havia ali, mesmo que Sophie trouxesse toda a candura de uma jovem, guardava em seus olhos toda a miséria e mágoa de uma centenária.

_É...

Ela começou tentando falar algo que não queria sair de sua boca. Parecia estar perdida, e de repente havia se encontrado no palco, em frente a toda aquela algazarra, como se antes tudo fosse tão certo e agora tudo tão novo.

_Infelizmente_ ela respirou e tomou sua postura_ terei que deixar este tão amado cabaré. Eu sei que sair assim sem mais nem menos não é a atitude mais adequada, mas não houve outro jeito senão esse. Então eu espero que compreendam, e que gostem dessa minha última música. Boa noite.

Os presentes aplaudiram, mesmo que insatisfeitos com a notícia. Eu tentava chama-la pelos pensamentos, tentava fazer sinal e encontrar seus olhos com os meus mas agora ela falava para um imenso vazio, não mais para as pessoas, de fato. Estava conectada em outra Sophie.

_“It’s easy to fall in love, but it’s so hard to break somebody’s heart… what seemed like a good idea has turned into a battlefield”.

Ela andava lentamente pelo palco, sem chamar tanta atenção quanto usual. E então continuou a música, que como era de costume, cantava até o primeiro refrão no palco e depois, no segundo, descia para o público.

_“You and I, we have to let each other go”._ Sophie vinha em minha direção, finalmente_ “We keep holding on but we both know... what seemed like a good idea’s turned into a battlefield”.

Ela então olhou para mim com os mesmos olhos que ela havia subido ao palco; de perto, dava para ver que ela realmente não havia passado maquiagem, nem mesmo o batom vermelho que a acompanhava durante todo esse tempo estava lá. Tentei perguntar o que estava acontecendo pelos meus pensamentos, mas ela havia prometido que não os leria mais, e ela estava cumprindo.

s.m.a

Sophie então encerra a música e todos aplaudem civilizadamente. Fui para a parte de traz do salão, onde as garotas estavam_ afinal, era onde elas ficavam depois da apresentação. Procurei-a por poucos segundos, uma vez que estava desesperado demais para não perguntar para uma das garotas.

_Ela está pra lá... naquela parte mais escura_ disse uma delas, sem muita importância.

Fui andando na direção de uns corredores que terminavam justamente na pequena cozinha do salão. Atravessei alguns até que pude ver duas sombras juntas, até juntas demais. Cheguei ainda mais perto, e reparei que Sophie soltava alguns gemidos de dor, enquanto a outra sombra a segurava no alto.

Finalmente pude ver a cena completa: um homem estava segurando Sophie pelo pescoço no alto. Ele estava virado de costas para mim, e meu instinto foi tentar ajuda-la na mesma hora. Corri na direção deles, e dei um soco no rosto dele.

Abracei Sophie rapidamente, enquanto ela chorava, e depois voltei-me ao homem que a segurava segundos antes. Olhei para seu rosto com tanta raiva até que pude reconhecer suas feições medievais:

Era Tony.