Blood Moon
1 A Very Cold Night
Frio. Muito frio. Era como estava o tempo naquela noite. Insuportavelmente frio. Naquela noite. Nunca mais. Nunca mais pude sentir o frio de novo. E a culpa foi dele. Inteiramente dele. Tudo culpa daquele maldito! Se tivesse parado para escutar-me, nada disso teria acontecido...
Estava muito frio, como já dissera antes. Neve branca caía majestosamente do céu azul-petróleo da noite, iluminado pelo fraco brilho de uma Lua Minguante, nas calçadas de Paris. Eu havia ido à sua casa para brindarmos a novidade. A melhor novidade que se pode receber na vida de um casal bem sucedido que vive juntos há três anos e meio. Quero dizer, vivia. Até aquela noite. Bati na porta da casa dele. Duas vezes, mas ninguém atendeu. Por sorte lembrei-me da chave em baixo do tapete. Abri a porta com cuidado e entrei na casa.
“Jack? Jack, você está aí, querido?” Perguntei inutilmente. Não obtive resposta. Fechei a porta atrás de mim e adentrei mais na casa, ainda procurando por meu amado. Pendurei meu sobretudo castanho escuro e meu cachecol laranja no cabideiro da sala. “Jack, está em casa? Seu carro está lá em baixo, então pensei que estivesse em casa.” Direcionei-me para o quarto. Senti um forte cheiro de álcool vindo de lá. “Álcool? Mas... Você não bebe...” Sibilei mais para mim mesma do que para outra pessoa ouvir. Afinal, não havia outra pessoa ali mesmo.
“We are the champions... Irc! We are the champions... Irc!”
“Jack? É você?” Aproximei-me da porta do quarto iluminado. A porta estava aberta, então eu vi um homem de vinte anos, cabelos castanho-escuros e olhos cor de mel, sentado no carpete, ao lado da cama, rodeado de algumas garrafas de bebidas alcoólicas, algumas vazias, outras pela metade.
“Ah, Anastácia, como é bom ver-te! Irc! Junte-se a mim, venha cantar! Irc!”
“Jack, o que todas essas garrafas de bebida fazem no seu quarto? Você não bebe!” Já não tinha tanta confiança em minhas próprias palavras. Aproximei-me do homem e abaixei-me até ficar da sua altura. “Querido, por que está bebendo? Aconteceu alguma coisa? Algo em que eu possa ajudar?”
“Ah, Anastácia, você está Irc! Muito bonita hoje, sabia? Eu Irc! Estava à sua espera, minha querida.” Seu olhar abobalhado mostrava a qualquer um que não estava em seu juízo perfeito.
“Jack, o que houve? O que aconteceu para beberes tanto assim?”
“Eu estava passando de manhã Irc! Pela frente do shopping e resolvi fazer-te uma surpresa! Comprei-te um Irc! Buquê de flores e ia na administração te entregar. Porém, a Felícia me disse que Irc! Você tinha saído.” Se levantou e eu levantei junto. Ficou de pé cambaleando um pouco, mas conseguiu se estabilizar no final das contas. Apontou com a cabeça para um buquê meio murcho de crisântemos jogado na cômoda do lado esquerdo da cama.
“Eu tinha saído para...”
“Não, não se explique. Irc! Eu vi tudo! Vi você saindo de uma casa branca e Irc! Abraçando um homem!”
“Um homem? Mas do quê...” Foi aí que me lembrei. Era apenas o Dr. Wolf. Ele era talvez um pouco mais velho que Jack, bonito, inteligente, mas éramos apenas amigos. Eu só havia ido a casa dele para pegar os resultados de alguns exames. “Jack, você me entendeu mal! Eu estava apenas...”
“Não, Anastácia. Eu não entendi nada. E é Irc! Exatamente esse o problema, sabe?! Eu não consegui Irc! Entender o motivo da sua traição!”
“T-traição?! N-não! Jack escute-me, não é nad...”
“Não, Anastácia, já basta!” Ele esbarrou o braço esquerdo em uma das garrafas, que se partiu e molhou o carpete avermelhado.
“J-Jack, calma. Vamos nos sentar e conv...”
“Não!” Jackson agarrou-me os braços e prensou-me violentamente contra a parede do quarto. “Não existe conversa certa nesse momento, querida.”
“Tente entender, deixe-me explicar o que...”
“Você vai Irc! Pagar caro por me trair, Anastácia, muito caro!!” Ele me desferiu um tapa, então eu caí em cima de alguns dos cacos da garrafa que havia se quebrado, me cortando um pouco.
“Ai! Calma, Jack, ouça...” Minha mão havia se cortado quando caí em cima dos cacos de vidro no chão e sangrava um pouco.
“Cala-te, traíra!” Ele jogou uma garrafa, que já estava no fim, perto de onde eu havia caído, espirrando a cachaça em cima do meu vestido cor de creme, manchando-o um pouco. “Não acredito que Irc! Você foi capaz de me trocar por um doutorzinho qualquer, cobra!”
“N-não, Jackson, não é nada disso! Era apenas...”
“Já disse para calar-te!” E ele desferiu um golpe em meu rosto, e como segurava um dos cacos da garrafa, cortou-me a bochecha, fazendo uma quantidade de sangue assustadora descer-me o rosto e pingar no carpete de pêlo falso de urso polar do quarto. “Se eu não posso tê-la para mim, ninguém mais terá!” Ele caminhou meio bambo até a escrivaninha e pegou um canivete em cima dela.
“J-Jackson, o quê vai...”
“Bonne nuit, Anastácia.”
“N-não, Jack, espere!!”
“Tarde demais, mon chéri.”
Então ele golpeou-me na barriga. Uma. Duas. Três vezes. Gritei. O mais alto que minha voz permitia. A quarta facada fora no braço esquerdo. Eu tentava pará-lo, mas era impossível; estava fora do controle. A quinta, a sexta e as próximas dez foram em meus braços, pernas e mãos. A décima sétima fora no peito. Já conseguia sentir a minha vida se esvaindo de meu corpo, lentamente indo embora. Golpeou-me algumas vezes nas costas, também. Por fim, a vigésima segunda fora em minha jugular. Não enxergava mais nada a não ser a mais profunda escuridão, seguida depois pela famosa luz branca.
“Regarde ma chère: La Lune est belle ce soir, pas? Il semble même rouge!”
“Olhe minha querida: A Lua não está bela esta noite? Parece até vermelha!” Foi o que ele dissera, contemplando meu corpo sangrando, manchando o belo carpete de um tom de vermelho escuro.
“Por que não abre teus lindos olhos verdes agora? Irc! Por que não sorri com teus lindos e brilhosos dentes brancos?” Seu sorriso psicopata-nervoso admirava o brilho avermelhado da Lua Minguante, enquanto sua mão, suja com o meu sangue, passeava sobre meus cabelos alaranjados manchados de vermelho.
A dor emocional era mais forte que a física. Ele estava me esfaqueando e ao seu futuro filho ou filha também! Era isso que eu tinha ido fazer à casa do Dr. Wolf: pegar os exames do teste de gravidez. Estava de dois meses. Por isso tinha ido à casa de Jack naquela noite; queria contar-lhe a novidade. Pena que não tive essa oportunidade. Ficou ao lado do meu corpo até a manhã do outro dia, quando a polícia invadiu a casa. Uma vizinha que havia ouvido meus gritos angustiados ligou para o Departamento de Polícia logo de manhãzinha. Levaram-no para a delegacia e meu corpo para o necrotério.
Agora estou aqui, vagando pelas ruas frias dessa cidade, tendo que encarar essa mesma Lua Minguante, vermelha como sangue. O sangue que ele derramara naquela noite, manchando seu belo carpete. O meu sangue. Mas não tem mais jeito. Essa agora é a minha triste sina. Vagar pelas avenidas de “La Ville de Lumière” até o fim da eternidade. Sem sentir frio. Sem sentir calor. Sem poder sentir nada; nenhuma emoção, nenhuma sensação, tendo sempre essa mesma Lua de Sangue a me observar por onde sigo. E a culpa foi toda daquele que eu amava mais que tudo! Agora deixo-os aqui, admirando – ou sendo admirados – por esta bela Lua de Sangue, enquanto vou visitar um certo psicopata no hospício presidiário.
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