Blood, Love and Sand.
8 Comparações Históricas.
Notas iniciais
–Prazer, soldados da 1°coorte. Meu nome é Oenamaus e serei seu doctore. – dizia um homem alto, em torno de 1.90m, com músculos fortes e rígidos e da pele da cor da noite. Possivelmente vinha das terras africanas, talvez de Cártago. Tinha em seu olhar uma experiência contida, como se soubesse todas as coisas do mundo. – Por favor, todos enfileirados. Quem é o líder dessa coorte? Dê um passo à frente.
Metade dos soldados me encarava, enquanto outra metade encarava Andrew. Eu não sabia o que fazer então dei um passo à frente, quase ao mesmo tempo em que Andrew. Oenamaus nos olhou com alguma dúvida.
–Eu pedi apenas o líder. – disse friamente.
–Desculpe-me, doctore. Ele é o líder, porem eu sou o pretor.
–Entendo. Bom, já que você é o pretor, me responda. O que existe abaixo de seus pés? – Ela deixa a pergunta no ar, esperando minha resposta. Não sabia bem o que responder, então ele me olha com impaciência. – Vamos pretor. Responda.
–Areia? – chuto.
–HAHAHAHAHA. Milênios se passaram e a resposta é a mesma. Não é areia, meu caro. Nem terra, nem barro, nem grama. É solo sagrado. O solo onde um gladiador treina é sagrado. É um solo banhado com lagrimas e sangue, adubado com a vontade nos corações de cada um de vocês. Podem achar que não, mas em cada coração existe o desejo por sangue, pela vida. Na Arena, apenas sua vida vale, mais nada. Na arena, só existe sangue e areia. Pois bem, formem duplas e duelem entre si. Escolham bem, pois serão suas duplas fixas. — Rapidamente, todos procuram seus amigos e colegas para formar duplas. Vejo Andrew conversando com um cara alto, pele branca e olhar maroto. Andrew troca rápidas palavras com ele, que faz um gesto de sentido e sai com o olhar baixo. Aproximo-me e pergunto:
–O que foi cara?
–Ah, nada demais. Aquele era o Vini, filho de Mercúrio. Ele é segundo em comando e estava louco para treinar comigo. Infelizmente já tenho uma dupla e não posso perder a oportunidade de dar uns tapas nela. – Ele me lança um olhar cheio de malicia.
–Vai achando que vai me vencer fácil. Não ache que vou pegar leve só porque esta na frente da sua coorte inteira.
–Ei, é sua coorte também. Somos irmãos aqui, ou esqueceu isso quando se tornou um pretor metido? – Ele sorri.
–Calado, vamos lutar. – Sorrio de volta, colocando um ponto final no assunto. Todos já começaram seus treinos, menos eu e Andrew. Ele me olha com aquele olhar “Vou te matar e você não tem nem chance de respirar”, como todo filho de Marte. Optimus e Maximus brilham em meus dedos, ao reflexo do sol. Finalmente, com um movimento rápido, ativo as duas e em um segundo, tenho duas cimitarras do mais puro ouro imperial em minhas mãos. Ele começa, como de costume, ativando apenas Makhai. Arranca o projetil preso em seu colar e em suas mãos nasce uma lança de batalha. Seu cabo é totalmente vermelho, com um desenho de um demônio longo e esguio, que nasce no começo do cabo e se dirige até a ponta de ouro imperial. Ele tenta uma estocada, facilmente desviada por mim com Maximus. Então sua lança se dobra no meio, e o cabo vem em direção aos meus pés com tanta força que desequilibro e caiu de lado. “Droga, sempre esqueço que essa porra se divide em três pontos.”, penso.
–Vamos pretor, levante-se e mostre do que é capaz. Lembre-se que antes de mim, você comandava essa coorte. Está envergonhando seus homens. – Ele sorri, enquanto me provoca.
–Andou treinando manobras novas né? Pois bem, tenho minhas cartas na manga também. – Me levanto e corro em sua direção. Ele me espera com a lança em posição de ataque. Desvio ela com Optimus e contra-ataco com Maximus. Ele desvia e se afasta um pouco. Coloca a mão no bolso e tira seu isqueiro, me lança um olhar incompreensível e abre-o. Um escudo de legionário está em suas mãos agora. “Hysmanai realmente é lindo”, penso. Andrew finca Makhai no chão e pega uma gladius qualquer jogada no chão. Então ele finalmente mudou sua estratégia. Ele sabe que com lança, não tem chance contra mim.
–Finalmente percebeu seu erro. Agora será mais divertido. – Ele sorri, então fica em posição de guarda. Utilizando de toda a velocidade que possuo, vou em sua direção como um tigre em busca de sua presa. Um golpe forte, outro logo atrás. Todos defendidos por seu escudo. Ele tenta uma brecha e ataca com a gladius na altura do meu peito, porém me desvio para a esquerda. Por estar com escudo, sua velocidade diminui consideravelmente, então preciso da minha para vencer. Vou circulando o espaço dele, com ataques firmes, porem sem nenhum efeito. O suficiente para ele se cansar. Quando sua respiração esta pesada, percebo que este era meu momento. Simulo um golpe no escudo, mas na metade da trajetória, desvio para o ar e giro, jogando meu peso no escudo. Andrew não esperando isso, se desequilibra e deixa o escudo cair. “Minha chance”. Com passos rápidos, me dirijo a ele. Ele pega Makhai, que estava fincada nas proximidades. Eu podia muito bem ter jogado ela longe, mas ai está outro erro que aqueles abatidos por Andrew não sabem: Apenas Andrew pode tocar nela. Se você não for o Andrew, um simples toque e você se sentirá massageando um forno a 500°C. “Essa vadia é cheia de truques mesmo”. Um golpe direto de baixo para cima se aproxima de mim. Uso minha defesa de espadas, aparando a lança demoníaca. Corro em sua direção e tento um ataque no ombro. Ele abaixa e joga a ponta da lança para o lado, no momento que ela se dobra, mirando minhas costas. Sou obrigado a me abaixar como ele, mas talvez por instinto ou simplesmente porque veio em minha mente, se jogo em suas pernas. Ele desequilibra e cai, descendo por uma leve colina no campo. A Coorte inteira nos olha dando risada quando chegamos ao fim, ambos sujos de terra e com pedaços de grama no cabelo. Levanto-me e bato a poeira, algumas palavras de divertimento tentam escapar de minha boca, mas são retraídas pelo olhar de Andrew pra mim. Ele está com os olhos cobertos por chamas, sua pele morena esta coberta por uma aura vermelha.
–Droga, Andrew, sabe que não pode usar isso aqui. – Mas ele parece não ouvir. Ele vem em minha direção com passos pesados. “Droga, vou ser obrigado a fazer o mesmo”. Ergo Optimus para o céu e clamo o nome de Jupiter. Nuvens escuras cobrem toda a região gramada, enquanto um raio desce dos céus e cobre meu corpo. O cheio de queimado da grama ao meu redor é evidente, e o barulho de curto circuito costumeiro envolve meus ouvidos. Andrew está perto de mim, carregando Makhai. Maximus está jogada em um canto, longe demais para ir pega-la. Precisarei lutar com a desvantagem de apenas uma espada. Droga. Andrew vem com passos mais rápidos em minha direção, a lamina em direção ao meu peito. “Talvez seja o fim”. Uma sombra negra então surge e se coloca em minha frente. Oenamaus. Ele pega a lança de Drei e puxa de suas mãos, voltando com um golpe em seu peito que o lança uns 5 metros para trás. Impressionado com a cena, não vejo o cabo indo em direção às minhas pernas e novamente estou no chão de novo.
–Estão aqui para treinar, não para se matar. Se matem na arena. Um comandante de coorte e um pretor que não sabem nem a hora certa de usar seus poderes. Roma realmente mudou muito. Se levantem e se cumprimentem. Agora. – Ele diz, secamente. Caminho em direção a Andrew e estendo a mão.
–Desculpe, cara. Somos irmãos, perdemos a cabeça.
–Tudo bem, eu deixei a Aura de Marte me tomar. Ainda não a dominei totalmente. Foi mal. – Ele aperta meu antebraço, o cumprimento padrão de um romano.
–Sabe, agora que tudo está bem, contarei um fato. Você, pretor, como se chama? E você, líder da coorte?
–Meu nome é Guilherme. Sou filho de Júpiter, como bem viu.
–Andrew. Sou filho de Marte.
–Pois bem, Guilherme e Andrew. Vocês lembram-me muito Spartacus e Crixus. Guilherme tem olhos azuis, pele branca e duas espadas. O estilo preferido de Spartacus. Andrew é alto, forte, cara de durão, lança, escudo, gladius. Uma copia de Crixus. Não gosto de comparar meus alunos, mesmo os que estão mortos, mas não pude deixar de perceber. Mesmo com a revolta dos escravos, mesmo com as guerras, mesmo com desentendimentos, Crixus e Spartacus morreram como irmãos. Um laço de um gladiador com outro é o elo mais forte que já presenciei. Um laço forjado na Arena, onde você não vence porque confia em suas armas, mas porque confia em seu parceiro. Agora vão beber uma agua no refeitório e descansar, os outros vão voltar a lutar. ESTÃO ME OUVINDO? VOLTEM A LUTAR, SEUS MISERAVEIS.
– Não sei por que gritar. – digo com um sorriso para Andrew, enquanto caminhamos rumo ao refeitório.
– Sei lá, ele parece um cara fodão. Alguém que já foi muito mais do que aparenta.
–É, eu percebi isso. Diga-me, você deve estar mais por dentro do assunto do que eu. Quem são os que lutarão no torneio?
–Na real mesmo, cara? Sei de alguns, mas a maioria não quer contar, por medo de ser espionado e ter táticas ou estratégias roubadas. Sei da Carol, aquela menina de peitões de Vênus que você tem uma paixonite, da 2°coorte. O Caique, de Febo, da 4°coorte. O Yokota, aquele japonês de Netuno, da 3°coorte. Sei de alguns caras.
–Ei, a Carol foi passado. – Respondo, um pouco vermelho.
–Sei. HAHAHAHA. Acha que sou idiota né? Então esqueceu ela totalmente?
–Não foi isso que disse...
–HAHAHAHAHAHAHA.
–Cala boca e continue falando. – Rebato, totalmente distraído com o momento que acabei de passar.
–Martinato, filho de Netuno. Alex, meu irmão de Marte. Ambos da nossa coorte. Acho que é isso. Mas os outros você descobrirá na hora.
–Entendo... E saber que todos vamos nos matar para o divertimento dos deuses.
–Ei, para de ser idiota. Ninguém tá sendo obrigado. Todos decidiram por isso, somos pessoas e escolhemos nosso destino. Entende isso.
–Eu sei, só... Não gosto disso, cara. Só não gosto... Realmente não gosto. – Termino, mais falando pra mim mesmo do que pra Andrew. Ele não sabe que irei participar. Será que ele aceitaria num boa minha participação? Devia contar para ele... Talvez seja melhor... Então esbarro em alguma coisa.
–AI. PORQUE NÃO OLHA POR ONDE ANDA HEIN? – Uma jovem grita comigo. Ela é pequena, pele morena e olhos vívidos. Usava uma camiseta do Arctic Monkeys- uma das minhas bandas favoritas- All Star’s e um shorts jeans. Ela então para. Me olha. Lentamente seus olhos se arregalam e ela começa a se atrapalhar com as palavras – AI MEUS DEUSES, ME PERDOE PRETOR. NÃO ERA MINHA... AI... NOSSA, ME DESCULPE... NOSSA...
–Ei, fica calma. – Sorrio da reação dela. Isso vivia acontecendo. – Qual é seu nome e sua coorte, garota? E eu não vou te punir, fica suave.
–Me chamo Thay. Filha de Baco, 5°coorte. – Ela diz, com receio.
–Olá Thay. Pode me chamar de Gui, não precisa ser de pretor. Sabia que amo Arctic Monkeys? Qual sua música favorita?
–Ah... Baby I’m Yours, creio eu.
–Ah sim. Minha preferida é Suck It and See. Gostei da sua camiseta.
–Obrigado...
–COF COF. Bem, é um prazer conhecer você, Thay. Sou Andrew, líder da 1°coorte. Preciso levar esse Don Juan aqui pra beber uma água. Agradeça-me depois, quem sabe com uma visita em meu quarto... – Drei interrompe. Ele me pega pelo braço e sai me arrastando com a força de vinte mamutes dele.
–Droga, cara. Não posso mais nem fazer amizades?
–Vai se foder, cara. Você estava dando em cima dela que eu vi. Deixa Reyna saber disso...
–Você não se atreveria...
–Quem sabe...
–Esquece isso, seu idiota. Vamos para o refeitório.
Chegando lá, percebo uma certa calmaria. Ainda é cedo, 11 horas da manhã. O almoço era lá pelo meio dia. Então o pessoal andava por ai treinando. Mesmo os que não lutariam na Arena estavam aproveitando a oportunidade de aprenderem a lutar com um doctore. Vou até um bebedouro e me abasteço de água. Drei faz o mesmo no bebedouro vizinho.
–Bem, o que faremos? – Ele pergunta.
–Não sei o que você vai fazer, mas eu vou ir para o meu quarto. Descansar um pouco e tudo mais. Sabe como é.
– Eu vou voltar ao treino, porém vou aproveitar a proximidade e ir visitar a Char.
–Ainda tá nessa, cara? Acabou de chamar a outra garota pro seu quarto...
–Ei, eu estava brincando com ela, tá? Eu gosto mesmo dessa Charlie.
–Suave, eu entendo. Boa sorte cara. – Tocamos os punhos e logo em seguida agarro seu antebraço, enquanto ele faz o mesmo comigo. O típico cumprimento romano.
–Até mais, viado. – Ele se afasta, indo em direção a 5°coorte. Vou andando calmamente para meu quarto, admirando a paisagem. Nova Roma brilhava como uma estrela no céu noturno. Nos campos, pessoas treinando e treinando. A costumeira rotina romana. Pego meu maço, acendo um cigarro e dou uma tragada. Solto a fumaça em direção ao céu. Aquelas nuvens brancas lembravam-me pessoas. Pessoas que eu amo e me importo. Uma parecia uma taça de vinho. Anna. Uma lança. Andrew. Um arco e flecha. Marie. Marie, sempre ela. Sempre voltando em meus pensamentos. Eu preciso fazer algo para salvar ela. Não posso deixar que Marte e Vênus fizessem mal a ela. Preciso vencer. E isso significa vencer qualquer obstáculo em meu caminho. Qualquer obstáculo. Não posso cair, não posso fraquejar, não posso permitir-me ter medo. Na arena não existe fraquezas. Só sangue e areia.
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