Blondie and Cotton Candy

11 Capítulo 10 — Sob o mesmo teto


Notas iniciais
Aproveitem a leitura.

Capítulo 10 — Sob o mesmo teto

Anteriormente:

Seu olhar era feroz e um tanto desinteressado e, pior que isso, nas íris vermelhas, McGarden reconheceu os olhos de Gajeel.

Assim que ele já estava longe o bastante para a garota parar de tremer, ela se levantou com as duas caixas e resmungou:

— Brutamontes. Como é que posso gostar de você?

[...]

...Eu sou o namorado dela!

Lucy, você vai namorar o Loke, não essa criança irresponsável e melequenta!

Você não pode me obrigar, pai!

Já estou obrigando, eu mando em você! — gritou.

Não manda, não. — Foi a vez de Natsu defender a amiga, raivoso. Lucy deu a mão para ele, chorosa, e saíram correndo.

[...]

— Graças ao seu teatrinho no jantar sobre ser meu namorado, meu pai não vai largar mais do meu pé. Você não tem noção do quanto eu vou sofrer se eu continuar nesta casa. É capaz de ele me forçar a casar com o... desgraçado do Loke. Resumindo tudo, eu vou morar na sua casa por algum tempo, até que a poeira baixe e eu possa voltar a viver tranquilamente nessa mansão sem muita pressão imposta sobre mim. Ou no meu apartamento, a faculdade não demora a começar, mesmo.

— Deixe-me ver se entendi bem... Você vai passar alguns dias na minha casa porque não quer que seu papaizinho te encha o saco?

— Alguns dias, algumas semanas, alguns meses... Depende muito de quanto tempo vai levar para tudo passar.

[...]

— Vamos, Natsu? — virou-se para o garoto.

Ele ofereceu a mão para a loira, gentilmente.

— Vamos, Lucy.

Ela assentiu com sua cabeça e pegou na forte mão do rapaz.

Talvez passar alguns dias morando com ele não seria tão ruim assim.

____x____

A loira adentrou na sala, encarando as paredes de um tom vermelho vivo. Já fora naquela casa duas ou três vezes, no entanto nunca se acostumava com a sensação morna de aconchego que o local proporcionava a si, vinda de dentro para fora e de fora para dentro, profundamente intrínseca ao seu âmago. Talvez fosse a marcante presença dele em cada detalhe, mesmo os claramente femininos ou maduros, obra da tia. O cheiro amadeirado também impregnava os cômodos, assim como a suave, porém deliciosa, colônia que o rapaz e a tia compartilhavam. Estranhamente, cheirava como lar. Algo que a própria mansão Heartfilia perdera há anos.

— O escritório é para l-lá, né? — perguntou, apontando para a porta próxima à cozinha.

Sabia que o conforto supremo ao qual estava acostumada não existiria, sua única opção para dormir seria o escritório da dona da casa, com uma longa e macia rede. Não que estivesse acostumada a dormir em uma. Seriam noites difíceis, inicialmente.

Não pôde deixar de gaguejar ao lembrar que, por um longo mês, só estariam ela e Natsu na casa, caso a situação ainda estivesse crítica até lá. Era perigoso ficar tão perto dele a noite, com tantos sentimentos confusos se revelando dentro dela. Principalmente um que vinha desde as primeiras vezes que se falaram. Desejo. Seria praticamente incontrolável se ele não se comportasse. E pelos momentos que tiveram há pouco, em sua casa, ele não parecia nada confortável com a ideia de comportar-se.

— Por que você está gaguejando, Luce? — provocou, de forma que a amiga bufou, claramente envergonhada.

— Pare com esse sorriso idiota. Não foi nada. Todo mundo gagueja às vezes.

— Se você diz. — Uma risadinha escapou. — Sim, e o meu é na porta mais próxima. Não precisa de esforço algum para chegar lá, então já sabe. Sempre que precisar, me procure. — Natsu tinha uma voz serena até então. — Caso você tenha medo de dormir sozinha, — prosseguiu, o sorriso pervertido aumentando consideravelmente — por exemplo, pode deixar que o tio Natsu vai–

— Cale a boca, algodão doce tarado.

— Ai, ai! Desculpa. — pediu, quando ela puxou sua orelha. Sua expressão se anuviou, a conversa de mais cedo debatendo-se em sua cabeça. Torturante. — Mas é sério, qualquer coisa me chame. Eu sou o culpado de estarmos nessa situação e–

— É mesmo. A culpa é toda sua.

Silêncio. Aquelas palavras doeram. Mais uma vez. Natsu sentiu como se um buraco se abrisse em sua barriga, uma imensa sensação de vazio se propagando dali. Ela não queria estar ali? Ela não queria estar com ele? Soltou um barulho de irritação, o que assustou a menina.

Lucy não estava exatamente chateada por estar naquela situação com ele. Era difícil, sim, lidar com seus sentimentos, mas eram amigos e adorava a companhia dele. Ademais, se não fosse pelo tal “teatrinho” do qual tanto reclamava, ela estaria em uma péssima situação. Não aguentaria estar com Loke sem chorar, sentir-se usada e suja, e seria difícil controlar a necessidade de beijá-lo, de ter seus corpos colados, unidos em um. Tudo era confuso... A frustração dentro de si era enorme e só queria se livrar dela, jogá-la em alguém.

E esse alguém calhou de ser seu melhor amigo. Não queria entristecer Natsu. E o arrependimento por isso engoliu-a instantaneamente, de forma que tentou se explicar:

— Natsu... Eu não queria–

— Não, você tem razão. A culpa é minha. Toda minha. Eu não deveria ter me intrometido. Se você quiser voltar correndo para os braços do Loke, faça isso. Vai lá. Corra pra ele! Ele te ama agora, certo? E eu não me importo. Sou o errado aqui. — Ela tentou interromper, contudo, o olhar magoado que ele lançou em sua direção dizia “pare”. — Não deveria ter me metido no namoro perfeito. Se não tivesse feito isso, você estaria absolutamente feliz agora. Eu sou o único que deve ficar sozinho p’ra sempre, o único não merecedor.

Ele grunhiu, abandonando de vez as malas dela e seguindo para seu quarto, as memórias das duas jovens mais importantes da sua vida – em algum momento – aos beijos com o rapaz que mais causou sua infelicidade e que as tinha ainda agora.

— Natsu, espere! — clamou, quando o gatinho azul ronronou em sua perna, mordiscando-a em seguida. — Agora não, Happy.

Ele se afastou, assustado pelo tom urgente e levemente ríspido.

— Happy.

O gato seguiu o dono após o chamado e, poucos segundos depois, tudo o que se ouviu foi a porta batendo com certa força. Lucy sentiu seu corpo pesar sobre suas pernas e precisou apoiar seu peso para que não fosse de encontro ao chão, sentindo-se subitamente fraca.

Talvez tivesse errado. Talvez invadir o espaço pessoal dele – mais do que o normal entre os dois – fosse uma má ideia. Nunca soube quais eram os sentimentos dele quanto a isso, Natsu apenas aceitara sua presença ali. Na realidade, nunca soube quais eram os sentimentos dele em relação a quase tudo. Não percebia mais o quanto ele era solitário e como tudo doía tanto.

Como um clique, algo que nunca foi capaz de perceber se fez claro. Não sabia quase nada sobre Natsu Dragneel, abusava de sua bondade para gostar dele e fazer o uso de tudo que um amigo poderia pedir e, ainda por cima, era uma intrusa no lugar onde ele podia ser ele, com uma presença diária.

Por outro lado, Dragneel também se martirizava. Não queria ter sido tão grosseiro. Jogou nela verdades que nunca pensou que deixaria escapar tão facilmente. Percorreram o trajeto até sua casa com tamanha serenidade que esperava continuar assim, como se aquilo tudo fosse só uma decisão corriqueira de morarem juntos para se divertirem. Deveria estar feliz por Lucy escolher ficar consigo ao invés de na casa de Levy, com a gentil mãe da mesma, ou em seu apartamento – apesar desse não ser uma boa escolha –, e não se revoltar com comentários de uma menina orgulhosa – a qual ele sabia muito bem que ela era.

Aquela era a primeira briga séria que tiveram desde que tornaram-se verdadeiramente amigos e a terceira onde palavras duras acertaram ambos com tal intensidade. Tanto Natsu quanto Lucy perderam quaisquer resquícios de apetite que tinham antes e logo os dois se deitaram, cada um em seu respectivo dormitório. Porém deitar não é sinônimo de dormir e pensamentos criam vida, resultando em longas horas em claro para eles.

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Ela parou de andar, finalmente percebendo que havia parado na frente de uma pessoa enquanto admirava a lua. Focou seu olhar no homem alto a sua frente e não pôde impedir que seus olhos se arregalassem. A porcaria da cidade não era grande o bastante para impedir que se esbarrassem duas vezes em um intervalo de dois dias?

— Você... o brutamontes do outro dia.

A partir do momento em que o encontrara na loja de conveniências estava fingindo que não o conhecia, que não estudara na sala ao lado da dele nos últimos três anos no colégio e que não tinha mais que um tombo pelo rapaz. Por isso, nada mais natural que só mostrar uma reação quase que indiferente. Além do mais, as ações dele realmente irritavam-na profundamente às vezes, fazendo com que agisse sem pensar.

— A baixinha da loja. — respondeu, repuxando as pontas dos lábios para baixo.

— Com licença.

Levy fez menção de dar dois passos para o lado esquerdo, dando passagem para Gajeel. Por que mesmo tinha resolvido dar uma volta? Ah, a preocupação com Lucy e Natsu. Poderia ter ficado em casa, teria menos motivos para se estressar, por mais que o ar noturno verdadeiramente desanuviasse sua mente.

— Já 'tá indo embora? — indagou, sem, no entanto, demonstrar como aquilo frustrava-o.

— O que lhe parece? Está frio e tarde, eu preciso–

— Quer tomar chocolate quente? — Gajeel interrompeu-a, afobado.

— Como?

A proposta pegou-a de surpresa. Por que diabos ele estava pedindo isso para uma garota que ele viu uma vez e provavelmente odiava? Obviamente a ideia era mais que agradável, poderia desfrutar da companhia dele e, talvez, ele fosse legal com ela, do jeito que ela sabia que ele era com Juvia, sua estranha, divertida, mal encarada e gostosa melhor amiga. Tudo que ela não era.

— Desculpe, pode repetir? Acho que ouvi errado. — balbuciou, perplexa, e percebeu ele impacientar-se, desviando o olhar de maneira quase tímida.

— Você ouviu, sua tampinha. — Ela arqueou a sobrancelha, e ele logo corrigiu. — Sabe aquela coisa marrom e fumecante? Com leite? Doce? Então, se chama chocolate quente. Que tal irmos tomar em uma lanchonete? — McGarden deu uma risadinha, ignorando o tom grosseiro. — Que é?

— Fumecante? O que diabos seria isso?

— Significa qu–

— É fumegante, Gaj– garoto. — Quase cometeu um deslize, quase. Com sorte, ele não perceberia. — Acho que podemos ir, sim. Se você for capaz de me entreter.

— Gee hee. Eu entretenho qualquer garota. — Isso fez com que ela revirasse os olhos. – E eu tenho um nome, tampinha! — A pequena desdenhou:

— Oh, eu sei. Brutos Montes, certo?

— É o quê? — O moreno pareceu confuso. — Não, é Gajeel.

A risada de McGarden ressoou, de forma fofa. Sabia que ele era péssimo em qualquer coisa relacionada a História. Se bem lembrava, o metaleiro amava Química com todo seu coração. Deu um sorriso doce.

— Esqueça, Gajeel. Vamos tomar o chocolate fumegante.

— Certo, tampinha. — sorriu de maneira selvagem, de forma que Levy enrubesceu. Sentiu falta desse sorriso.

— A propósito, meu nome é Levy.

E assim, o estranho casal, o brutamontes e a franzina, seguiu pela rua na fria e escura noite.

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A loira bagunçou os cabelos, nervosa e frustrada; Estava rolando naquela cama há horas e não conseguia esvaziar a mente. E o pior: a fome estava detonando-a, mal comera no restaurante. Levantou-se em busca de algo para comer. Abriu a porta de seu quarto. Total escuridão. Resolveu ir tateando as paredes, até que tocou em algo asqueroso. Um réptil. Abafou um grito e afastou-se da parede, tropeçando em uma poltrona e caindo por cima desta.

— Cacete. — sussurrou, irritada.

Natsu morava um pouco afastado do núcleo da cidade, uma área muito mais arborizada e, consequentemente, muito mais propensa à presença de animais rastejantes. Não que isso incomodasse a plena luz do dia, mas no momento não foi uma surpresa agradável.

Voltou a andar às cegas, até que sentiu a mão esbarrar em um bloco na parede. Não era o calendário? Seus olhos já estavam se acostumando à escuridão da cozinha e pôde reconhecer a silhueta da geladeira. Abriu e um cheiro bom se apossou de seus sentidos. Aquilo na prateleira era pizza? Sorriu e não pensou antes de pegar uma fatia e deliciar-se. Lucy apoiava-se na bancada enquanto comia, quando ouviu um barulho oco. De novo, dessa vez acompanhado de um rangido. E mais uma vez. “O que será?”, questionou-se assustada. Passos arrastados soaram. Silêncio. Ela tremia.

— Lucy? — A luz foi acesa no momento em que a voz rouca e sonolenta de Natsu saiu de seus lábios.

Ela suspirou, perguntando-se como se sentiu assustada estando acompanhada de gente na casa. Estava acostumada a ser a única acordada a essa hora, isso quando estava acordada a essa hora.

— Era só você, que bom.

— Lógico que era eu. — pareceu confuso. — O que está fazendo? — inquiriu, curioso.

— Isso responde?

A loira rebateu, mordendo um pedaço de uma nova fatia.

Observou-a, admirado. Então era assim que ela dormia! Uma linda camisola vermelha que, pela posição desleixada, permitia que visse parte do sutiã. A lingerie parecia ser da mesma cor. Aquela garota queria enlouquecê-lo, era isso? O sangue de Natsu ferveu. Não sabia o que era autocontrole ao lado daquela mulher. Iria atacá-la. E seria agora!

— Eu tive fome e... Na-Natsu! — gritou em meio a um gemido de susto.

O garoto atacava seu pescoço com mordidas leves, beijos e lambidas, enquanto suas mãos se perdiam no corpo curvilíneo, em um aperto possessivo. Apertou a bunda dela com força, arrancando suspiros da jovem.

— O que — gemeu — está fazendo, N-Natsu?

O calor que se espalhava por seu corpo fazia Lucy delirar. Novamente, a confusão de sentimentos se apossava de sua mente, enquanto se sentia enlouquecer só pela proximidade. Não que Natsu estivesse muito melhor, em um momento quase insano de transe.

— Uma roupa provocante e da minha cor favorita nesse corpo gostoso é demais para mim. — falou, pondo uma perna entre as dela, sem ao menos perceber as palavras que saíam de sua boca.

Lucy arranhou as costas de Natsu e puxou o cabelo do mesmo com certa força em resposta a pressão gostosa. Já ele segurou a barra da camisola da mesma, prestes a retirá-la, e aproximou seus rostos. Nunca gostaria de admitir, se sentindo sujo, entretanto aquele era o momento que parte dele mais esperara durante meses. Quebrou a distância de seus lábios, unindo suas línguas em uma dança. Aquela garota... ela estava conquistando cada vez mais sua mente, corpo e alma. Quebrando a dura barreira que o protegia do mundo.

A loira sentia-se excelente. O corpo grande de Natsu junto ao seu lhe proporcionava aconchego em demasia. Pulou no colo dele, agarrando a cintura do rapaz com as pernas. Ele apoiou o corpo dela com as mãos e foi em direção ao quarto mais próximo, consequentemente o que ela estava. Jogou-a sobre a grande escrivaninha, com um olhar feroz e faminto, nem se preocupando com o espaço em que estavam.

— Você vai me fazer sua? — perguntou, com a voz manhosa, o desejo ardendo no olhar. Ele riu, rouco.

— Você já é minha, Loira. Toda minha.

Beijaram-se novamente, ela retirando a blusa dele com certa urgência. O rapaz atacou seu pescoço, o cheiro fraco dele inebriando todo o seu ser.

— Natsu... — Ela soltou, entorpecida pelas sensações e o turbilhão de emoções. — Eu acho que estou me apaixonando por você. — disse em um suspiro.

Ele paralisou. Apaixonando. Era isso mesmo que ela dissera? Não. Não podia ser. Ele estava confuso quanto a seus sentimentos, a última vez que se apaixonara foi por Lisanna. Não queria sofrer daquela maneira de novo, tão intensa. Para ele, a Heartfilia era uma amiga que ele amava muito. E queria muito. Sentia um tremendo desejo por ela, mas não sabia se paixão era o termo certo. Sim, pensava nela na maior parte do tempo, mas... Paixão é um estado enlouquecedor e brutalmente intenso.

— Natsu?

— Luce... — suspirou pesadamente, de repente sem vontade alguma de tê-la para si.

— Você não... sente o mesmo, não é? — deu um sorrido carregado de tristeza, a mão na testa representando seu mais forte pensamento. Por que eu falei isso?, perguntava-se. — Tudo bem. Esqueça isso, eu falei demais. — virou o rosto.

— Lucy, eu... eu quero você! Eu amo você, loira. Mas eu não sei o que eu–

— Tudo bem. As pessoas sempre querem. Uma loiraça. Quem desperdiçaria? — riu, amarga. — E se você quiser o meu corpo, tudo bem. Porque eu estou na sua casa. À sua mercê. Se aproveite de mim. É só para isso que eu sirvo, pelo visto, para todos os homens do meu convívio. Use o meu corpo como quiser.

— Não fale assim! Você não é uma boneca! EU NÃO PENSO EM VOCÊ COMO ALGO DESCARTÁVEL! Você é... você é...!

— O quê? Uma amiga preciosa e amada?

— Lucy... — o olhar sofrido dela o quebrou. -Não é como se isso fosse pouco...

— Ah, por favor.

Levantou-se, mesmo sem a blusa, e saiu do quarto, murmurando apenas um desculpe, os próprios pensamentos embaralhados. Ela podia ouvi-lo na geladeira, o que fazia seu coração disparar em seu peito. Por que ele não correspondia seus novos sentimentos? Por que nunca correspondiam? E as lágrimas escorreram, um único nome vindo a mente como sua explicação. Lisanna.

Natsu socou a parede, sentindo uma dor forte logo depois. Uma chuva grossa batia na janela. Certamente aquele não era um dia bom para os dois. Arrancou um pedaço do seu sanduíche com raiva e subiu a escada com passos pesados. Iria para o chuveiro. Precisava esfriar a cabeça.

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— O que está fazendo embaixo da chuva? — Uma voz grave se fez presente ao seu lado.

— Jellal? Achei que não fosse mais aparecer.

— Então por que estava esperando? — questionou, soprando no ouvido da ruiva, que não respondeu. — Hein, Erza?

Ela passou o olhar aparentemente distraído pelo relógio de pulso. 23H15. Ele estava uma hora atrasado. Por que estava esperando? Sentiu as bochechas queimarem, o orgulho ferido. Bateu de leve nele com o cotovelo.

— Eu não estava te esperando. Eu apenas me distraí. — Não era de todo mentira.

— No local onde marcamos?

— Acontece, seu pretensiosinho, que esse é o meu lugar favorito, a culpa não é minha se insiste em marcar as coisas aqui. — grunhiu, aquele homem certamente lhe deixava irritada.

O rapaz de cabelos azuis deu um meio sorriso, bem típico dele. Admitia que gostava mais quando os fios eram castanhos, permitindo-se avaliar e pensar nisso. Por outro lado, Erza falava a verdade. Estar ali fazia com que se desligasse.

— Certo, certo. Aproveitando esse encontro fora dos planos, — zombou — vamos sair daqui?

— Aonde vamos, afinal?

— Jantar, esqueceu? — brincou, mas ao ver o olhar zangado, suspirou. — Ao restaurante Crime Sociére. É dos pais da Ul.

Seguiram andando lado a lado em silêncio, até chegar ao local. A noite estava sendo agradável e a ruiva já até esquecera que ele a fizera esperar. A conversa fluía agradavelmente, durante a refeição, até uma pessoa interromper.

— Ora, ora, jantar com uma amiga, né? — A mulher perguntou com um sorriso, perceptivelmente contendo a raiva. — Não me parece só uma amiga, meu amor.

— Essa é a sua namorada, Fernandez?

— Sim, Erza. Ultear, por favor, não se exalte. A Erza é minha–

— Somos amigos desde a época do colégio. — Erza interrompeu-o. — Muito prazer, me chamo Erza Scarlet. O Jellal é apenas uma criança importuna, não tenho nenhum interesse amoroso nele, não se preocupe, Ultear. Viemos apenas relembrar um pouco a época de colegiais.

A morena Ultear pareceu satisfeita com a explicação e logo a expressão melhorou. Era uma pessoa agradável, no entanto muito ciumenta. Quando sentia a possibilidade de perder alguém, perdia o controle, por ter perdido ambos os pais em momentos diferentes da vida.

— Entendo. Então, suponho que não se incomodaria se eu o levasse para casa em alguns minutos, certo? — perguntou, com carência. Scarlet franziu o cenho, levemente irritada e com uma ponta de ciúmes.

— De maneira alguma, ele é todo seu.

— Foi bom revê-la, Erza. O jantar foi por minha conta, pode deixar que irei pagar agora. Até mais. — sorriu e se dirigiu ao caixa, agarrando a namorada pela cintura.

Erza suspirou, com um ar triste. Era óbvio que ele não a via como mulher, apenas como alguém bom de se atormentar. Sentia saudades da época de escola, quando estavam sempre juntos. Agora que estavam em faculdades diferentes, os encontros era menos frequentes. E ele encontrou uma mulher de verdade. Terminou sua refeição, sozinha.

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A campainha tocou uma vez. Silêncio dentro da casa. Dois minutos se passaram. Um segundo toque acompanhado de uma batidinha na porta. Natsu finalmente ouviu, desligando o fogo da frigideira.

— JÁ VAI, já vai! — O grito masculino se fez ouvido como resposta. — Lucy, você pode abrir a porta? — pediu para a amiga, que se encontrava lendo um livro na mesa da cozinha. A garota apenas assentiu com a cabeça, sem encará-lo. — Geez, Luce, por favor, fale comigo.

— Estou falando, não?

Ele estalou a língua, desgostoso com a teimosia. A entendia muito bem, por outro lado. Suspirou.

— Não estrague nossa amizade. — Era um pedido. Falou sério, encarando-a com poucos centímetros de distância. Ela enrubesceu.

— Certo, não irei. Nem poderia. Já vai!

A loira abriu a porta de forma preguiçosa, os pensamentos embaralhados embrulhando seu estômago, porém sua feição de tristeza mudou completamente ao ver quem estava lá – não que a pessoa não tivesse percebido a expressão abatida da amiga. Um sorriso doce cresceu em seu rosto no momento em que recebeu um cumprimento.

— Lu, bom dia!

— Levy! — abraçou-a. — Como vai? — abriu mais a porta, dando a passagem para a baixinha.

— Eu vou bem e você? — entrou, logo ouvindo barulhos vindos da cozinha. — Bom dia, Dragneel! — A resposta veio instantes depois:

— 'Dia, Levy! Bem na hora, já tomou café?

— Ainda não! Espero que você cozinhe bem! — respondeu, risonha, torcendo que ele ouvisse.

O cheiro da comida fazia seu estômago roncar, parecia delicioso, e resolveu não tomar café da manhã, por mais que já se passassem das 9h30, para conversar com a amiga. Tornou a dirigir seu olhar para a loira, mostrando que ainda esperava uma resposta.

— Eu estou legal. — A loira sorriu de leve, enrolando uma mecha de cabelo em um dedo. Sentia-se enjoada demais para sorrir mais ou dizer que estava muito bem. Levy arqueou uma sobrancelha.

— Legal? O que houve, Lucy?

— Eu–

— Estão servidas? — O rosado chamou, pondo a mesa.

Lucy ajudou o garoto a colocar os alimentos e talheres na mesa, enquanto a azulada lia o jornal matinal, já que se recusaram a aceitar a ajuda dela. Quando os três se sentaram, Levy derramou a calda de frutas vermelhas e maple syrup sobre o waffle. Colocou um pouco na boca, soltando um som de satisfação.

— Natsu, isso está delicioso! — sorriu, tomando um gole de suco de laranja. — Você é surpreendente melhor que a Lu na cozinha.

— Eh? Mas a Lucy cozinha bem.

— É verdade, só depende muito do prato. Na maioria, depois que ela aprimora, sim, mas qualquer um que ela cozinhe pelas primeiras vezes fica uma desgraça. — riu, vendo a amiga corar.

— Ley! Não fale essas coisas. — fez um bico emburrado.

Ambos os amigos riram da loira, continuando com o desjejum. Levy percebera o clima um pouco estranho entre o casal, no entanto nada comentou. Esperaria Heartfilia contar a ela por vontade própria. Entre as brincadeiras e o bacon, Dragneel sentiu certa curiosidade e permaneceu encarando a convidada por alguns minutos.

Lucy, que não deixara escapar, não pôde evitar um pouco de ciúmes. O olhar de Natsu era sempre intenso e, mesmo assim, era impossível saber o que se passava por sua cabeça. Por que estaria encarando McGarden, daquela forma?

— Levy.

— Sim? — encarou o garoto, deixando a loira mais incomodada e curiosa.

— Você veio por algum motivo em especial? Você nunca me pareceu do tipo que aparece sem avisar. E nunca veio aqui dessa maneira.

— Oh. Então você percebeu. — entortou a boca, um pouco apreensiva, o que deixou a amiga preocupada e chateada consigo mesmo por ter se enciumado.

— O que houve, Ley?

— O teu pai... — suspirou. — Está furioso atrás de ti, Lu. Ele já me ligou diversas vezes, assim como para o Jellal. Ele mandou seguranças para revirarem o teu apartamento, para te procurar na minha casa. Eles até mesmo buscaram saber onde o Natsu mora, contudo não encontraram nada. Imagino que logo eles apareçam por aqui, em alguns dias. Eu disse que você estava bem, mas que não chegou a me contar onde estava. E o que me deixou muito surpresa é a suposta falta de registro de qualquer Natsu Dragneel em todo o Canadá.

— Ah, merda... — Lucy pôs o rosto entre as mãos, nervosa. Paralisou durante um segundo. — Espera, como assim não há registros da existência do Natsu? — olhou para o rapaz.

Natsu tinha os punhos apoiados com força na mesa, seus dentes rangiam de raiva e seu corpo parecia tremer. Aquele cara...! Como ele fora tão longe?! Ele sabia que a filha estava bem, era óbvio! Por que tentar tirar sua felicidade se nem se importava com a existência dela ou com o que a agradava?! Apenas para fazê-la se casar com um idiota para trazer fortuna a ele? Apenas para continuar um negócio com o qual ela não se importava?! Que homem desprezível! Aquele desgraçado não sabia o que era passar por dificuldades reais, tinha tudo que queria em suas mãos!

— Natsu?

— O quê? — rosnou. Percebeu que tinha assustado as duas meninas, então deixou a feição menos dura. – Desculpe, eu não consigo não sentir ódio por esse homem. Lucy, controle seu pai!

— É o quê? Não há como controlar Jude! Não sem minha mãe! Ela era a única que–

— Temos que dar um jeito nele!!! Você não vai casar com Loke! Ele não pode te obrigar! Você logo terá dezoito anos, ele não pode mandar em você assim!

— Eu sou a herdeira das companhias Heartfilia, ele pode, Natsu. — exasperou-se, derrotada. — Essa é a questão.

— Você por acaso quer cuidar dos negócios da família?! — rugiu, furioso.

— É LÓGICO QUE NÃO! Mas o que posso fazer? Ser deserdada?! Sair da família? Como eu iria me sustentar?! Você não tem noção, Natsu!

— Viva comigo! Eu te sustentarei?!

— Com que dinheiro?! Você não existe na lei, não é? — Lucy rebateu, com desgosto. — Você não tem pais!

Silêncio sepulcral. Não devia... aquele assunto... não. Arrependimento se apoderou dela. Natsu tremia de ódio. Levy tocou o ombro do rapaz, que a afastou tão rápido que fez a pequena pular para trás, assustada.

— Natsu... pense bem, o que a Lucy disse é coerente e–

— Não é. Eu existo para a lei. Eu só... eu não posso explicar isso agora. Meus pais eram cientistas muito famosos no Reino Unido. Eles tinham uma fortuna e quando eles morreram, deixaram uma herança para mim. Muito dinheiro. Além disso, eu tenho minha tia. Às vezes, o irmão do meu pai viaja pra me ver. Ele tem a própria família e mora muito longe, então não nos vemos muito, mas sempre nos falamos por telefone ou e-mails. Eu já estou na faculdade, posso arranjar emprego eventualmente. Eu posso pagar tudo pra você, talvez até com a minha tia.

“Se você não quiser, você também pode, Luce, apenas um de meio período. Não seria difícil, você não ia ficar sobrecarregada. Eu ia poder cuidar de você. Você poderia seguir com a carreira que quisesse, sem se preocupar com a pressão do seu pai. Eu sou seu amigo, Luce. Meu maior desejo é te proteger. Eu faria tudo para te manter bem e segura. Não te obrigo a aceitar, mas por favor, pense nisso. Eu só quero te ajudar...

Silêncio novamente. Dessa vez, um menos tenso. Mais agradável. Lágrimas de pura emoção escorriam pela face de feições delicadas de Lucy. Levy sorria, com os olhos molhados. A amiga finalmente estava recebendo todo o carinho perdido. Natsu cuidaria dela. Mesmo assim, a loira sentia medo.

— Por favor... por favor, não me faça de substituta da Lisanna. — pediu, chorando. Aquilo doeu no rapaz. — Pense bem. Essa proteção. Essa amizade. Essa escolha de morar comigo. Não pense nisso como o que você teria feito por Lisanna, sim? Pense nisso como sendo por mim. Se você estiver certo disso... então...

– É claro que não penso como sendo pra Lisanna! — Ele estava magoado. — A Lisanna... sim, na época, se ela pedisse para morar comigo, eu aceitaria prontamente! Ela era muito importante para mim! E se eu soubesse que ela mudou – o que eu sei que não aconteceu – eu voltaria, aos poucos, a ter uma amizade grande com ela. Deixaria ela ficar se precisasse. Mas Luce, tudo o que eu disse agora... era pensando em você. Não estou te fazendo de substituta para ela. Você é minha melhor amiga. Você é a pessoa que me mostrou novamente que o mundo pode ser bom. Quando eu estou na merda, é você quem me salva. E talvez... talvez eu possa parecer suspeito, porque eu não te conto muito! Mas eu prometo que vou contar, aos poucos, o que eu puder. Eu tenho medo... mas se for você... se for você, eu irei superar! Iremos superar juntos! Porque você me salva! Você me entende! Eu quero sua amizade para sempre, sempre mesmo!

Mais lágrimas saíram pelas orbes castanhas da garota. Ela realmente tinha se apaixonado. E cada vez mais, aquele garoto lhe prendia. Por mais que ele quisesse apenas sua amizade, ele estava ali por ela. Já estava oferecendo muito. Então ela iria aceitar. Porque ela sabia que podia confiar em Natsu Dragneel.

— Tudo bem... eu vou resolver isso.

Notas finais
Reviews? Bem, como a fic não será tão longa, estava pensando em mudar a capa da fic, alguma sugestão? Boo.