Blondie and Cotton Candy

22 Capítulo 21 — Engrenagens


Notas iniciais
JURO QUE NÃO PERCEBI QUE JÁ TINHAM SE PASSADO 6 MESES, PERDOA Sem mais delongas, boa leitura.

Capítulo 21 — Engrenagens

Anteriormente:

— A senhora lembra que eu falei da minha amiga, a Lucy? [...] Ela meio que... fugiu de casa. E queria um lugar pra ficar. Queria saber se ela pode ficar aqui. — Assim que terminou de falar, ouviu a tia suspirar.

Olha, Natsu... É óbvio que eu a aceitaria de braços abertos se estivesse aí, se ela precisa de ajuda. No entanto, não estou. [...] Estou de acordo que ela fique aí. [...] Vai ficar tudo bem, meu menino. Não tardará muito e estarei aí. — Ela disse para acalmá-lo, sem saber que isso em nada o confortava. Um mês era muito.

[...]

— É aí que você se engana, Jude. — Lucy o observava de cima para baixo, o desprezo correndo no olhar. — Eu não sou tua. Não sou de ninguém senão de mim mesma. Mas se você quer dizer que sou tua filha e preciso fazer o que você quer... Não se preocupe, se continuar ensandecido dessa forma, eu... — engoliu em seco. — Eu aceito deixar de ser uma Heartfilia. [...] Eu não sou tua filha! Já tentei negociar com você por muitos anos e, principalmente nesse momento decisivo, vejo que você só vai estragar toda a minha vida. Esse é um adeus ao prestígio de ser uma Heartfilia. Assim que conseguir estabilidade financeira, vou pedir emancipação.

[...]

— Por que não? Soube que Loke veio falar com você outro dia, ainda 'tá enchendo o saco da Lucy! Não quero me envolver com isso, garota, achei que você estava tentando voltar a ser minha amiga por bem, não p'ra fazer merda!

— Você nunca acredita em mim, Natsu, nunca quer ouvir diferente do que você pensa! E ainda sai apontando dedos o tempo todo! Se não quer aceitar meu amor, admita de uma vez que não me amava e que não sente nada! Você é um idiota!

— Talvez eu seja. Então por que você ainda tenta? — perguntou frio, embora as palavras mexessem consigo, e saiu do refeitório, a cabeça quente e sem pensar direito.

[...]

— Bem. Além de esclarecer essas coisas, queria me disponibilizar para financiar a pesquisa. Sei que seus pais nunca a concluiram e meu palpite é que você tenha algo aí.

— Eu tenho. — Natsu confirmou. — E seria um prazer ter a sua ajuda, guardiã.

—___x____

Lucy sentiu uma pressão gostosa em seus lábios, fazendo com que despertasse de seu cochilo. Wendy e Levy dormiam ao seu lado, sem despertar com a presença do intruso.

Natsu trazia uma feição de puro contentamento, assim como da curiosidade natural que sempre sentia observando a loira. Quase sempre era como se fosse a primeira vez que a olhava, tão bela, tão sutil e ao mesmo tempo tão forte, carregando uma aura de gentileza por onde passasse. Sentia-se bobo perto dela. O olhar doce que pousou sobre ele, quando a jovem identificou que o que a acordara fora um selinho, fez com que arrepios gostosos percorressem sua nuca.

— Lu-ce! — cantarolou, claramente animado. Logo abriu um grande sorriso, dos mais calorosos.

— Por que tão empolgado, Nats? — sussurrou, sem querer acordar as amigas.

Dragneel pegou-a no colo e a levou para a rede, sentando e colocando a jovem sentada sobre si. Agora, mais distante das jovens, poderia falar em voz alta.

— Empolgado? Eu tô é pegando fogo! Minha tia volta de madrugada!

— Ah! Que bom, Natsu! — abraçou ele, contente pelo rapaz.

No entanto, quando se afastaram, não pôde evitar desviar o olhar. Escondeu isso com um sorriso em menos de um segundo, porém o rosado astutamente percebeu. Franziu o cenho, confuso, e aproximou o rosto da garota, que enrubesceu.

— Alguma coisa errada?

— Nadinha! Só...

— O que? — perguntou, e a loira sorriu.

— Só a distância dessa boca da minha.

Selou seus lábios em um beijo carinhoso que logo foi aprofundado. O rosado puxou seu pescoço com urgência, tomando-a em um beijo mais necessitado. As pernas do casal se cruzaram e as mãos de Lucy se perderam no emaranhado dos cabelos do amigo amante. Natsu mordeu levemente o lábio inferior da moça, que sorriu em meio ao beijo.

— Caham. — A voz de McGarden fez com que o casal se afastasse, respirando pesadamente. — Desculpa interromper mais uma das agarrações de vocês. A Erza acabou de me ligar perguntando quando vamos para a festa do Gray.

— Aff. Esse olhos caídos já não 'tá velho demais pra festa de aniversário?

— Ora. Você adora as comemorações do seu melhor amigo. Tem Xbox, bebidas, e muita gente legal. — Lucy provocou, arrancando risadas da amiga.

[x]

— Ora, ora, parece que o capitão cueca perdeu. — Natsu zombou, fitando um Lyon vitorioso e sorridente. — Qual era a aposta?

— Um encontro com a Juvia.

A resposta partiu da própria azulada, que fazia um bico emburrado por ser posta a prêmio. Não podia negar que aceitou, porque queria um encontro com Gray, mas mesmo que tivesse carinho por Lyon, não queria ficar horas sozinha com ele. Sabia que o rapaz nutria sentimentos por ela e tinha medo de que ele a conquistasse por um momento. Por mais que seu rolo com Gray fosse algo bem aberto, ela não queria beijar outras pessoas, para que ele levasse a sério sua vontade de ter algo firme e, então, apenas entre eles.

O sorriso de Natsu morreu ao ouvir a amiga falar, entendendo a chateação de Fullbuster. Erza apenas o encarou, reparando nos detalhes que formavam a relação daqueles dois. Os três eram amigos há tanto tempo e construiram uma relação incrível, que se sentiam uma família. Ela ficava muito feliz ao perceber isso, essas pequenas coisas.

— Nossa vez, Gray! — Natsu chamou o amigo para uma nova competição, tentando animá-lo. Gray revirou os olhos.

— Se eu perdi uma competição de beber, é lógico que eu não quero participar de outra, olhos puxados estúpido.

— Como é?! — E partiu para cima de um já despido aniversariante.

Erza riu, esperando um pouco antes de separá-los. Sabia que aquilo era afeto, e sua participação violenta se daria em segundos.

Levy observou as pessoas que estavam ali. Erza, Natsu, Gray, Lyon, Lucy, Gajeel, Wendy e Cana. Era uma quantidade seleta de pessoas, algumas nem interagiam muito, mas o carinho era grande. Ela se sentia pertencendo a um lar com aquele grupo. Não sabia explicar, mas o sentimento de querer ficar ali para sempre era constante. E bom.

— No que está pensando? — A voz baixa e, portanto, grave de Gajeel soou em seu ouvido, causando arrepios por sua coluna.

— Em como me sinto em família aqui...

— Gee hee. Eles são mesmo o máximo. — riu-se o metaleiro.

RedFox sentia-se da mesma forma que a garota, por mais que não expressasse. Admirou-a por um instante, tão bonita e tão serena. Parecia mesmo se sentir acolhida. Não aguentou muito e roubou-lhe um selinho.

— Ga... Gajel! — exclamou, surpresa.

— Você é linda, Levy. De um jeito puro. Eu... eu amo isso. — Ele disse, baixinho, o rosto vermelho. Ela sorriu, enrubescendo.

— E eu amo tudo em você.

A pequena deu um beijinho no nariz do rapaz e se afastou, indo encontrar com Lucy, que conversava animadamente com Wendy e Cana, amiga nova da faculdade com quem já se entrosara muito, e amiga de longa data de Gray. A face queimava, não conseguia acreditar que praticamente se declarara para o metaleiro. Olhando-o de relance, percebeu que ele ainda estava parado na mesma posição, o rosto vermelho por inteiro, atônito.

Gajeel tocou o próprio nariz com o indicador, ainda absorvendo as palavras. E então sorriu abertamente, feliz por se sentir amado. Aquela baixinha realmente... Cruzou o olhar com o dela, que se sentiu ainda mais envergonhada. O rapaz sorriu para ela, que bruscamente virou a face para as amigas.

— ... E então eu vi a geladeira aberta, restos de peixe caídos no chão e Happy lambendo tudo! Como ele fez aquilo?! — Lucy perguntou, Wendy ria. Levy tentou se inteirar no assunto.

— Dizem que os gatos parecem muito com os donos, né?

— Pois é, certamente igual a besta do Natsu. A Charl, por exemplo, é toda delicadinha, como a Wendy. — A loira constatou. — Fofinha, limpinha... — Levy assentiu, mas depois soltou um muxoxo.

— Pena que não gosta muito de carinho.

— É só questão de costume, Charl é uma gata orgulhosa. — Fernandez se justificou. — No início, foi difícil para mim também, mas agora ela deixa eu passar o dia inteiro fazendo carinho!

— Isso significa que temos que te visitar mais! Aliás, você deveria levá-la para a casa do Natsu quando for para lá, ela e Happy poderiam se dar bem e nós faríamos mais carinho nela. — Lucy sugeriu, sorrindo.

No entanto, o sorriso morreu assim que terminou de falar. A lembrança de que a tia de Natsu voltava essa madrugada tomou sua mente, e seu bom humor murchou. A mais nova, alheia a essa mudança, continuou:

— Boa ideia, vou levá-la!

Cana, que antes só ria enquanto bebia cerveja, tomou a palavra, olhando para a jovem que pouco conhecia.

— Mas e você, Levy? O Gajeel não tem um gato também? Parece com ele?

— Lilly! É um gato adorável, tem uma pelagem preta linda! Ele é um pouco recluso e arisco à princípio, mas depois amansa e é muito carinhoso, acho que exatamente como Gajeel. Quando estou lá, ele vive se enroscando em mim.

— Ele? Não é fêmea?

— Não, não. Conhece o Gajeel e as coisas que ele gosta. — revirou os olhos. — O nome é PantherLilly, mas chamamos de Lilly pra encurtar.

— Mudando completamente o assunto, — Lucy disse, mais para não perceberem sua tristeza do que qualquer outro motivo — você tem tido notícias de Jellal, Wendy?

— Ele disse que esse tempo já foi bom para ele e não deve demorar a voltar. Fiquei muito feliz, apesar de não entender porque ele vai voltar tão rápido.

— É, estranho mesmo...

— Que nada. — McGarden provocou. — É saudades da gente. — E as três riram, enquanto Alberona derramava mais uns goles.

[x]

Natsu comia um sanduíche, sozinho no quarto, pensando. As palavras ressoavam em sua mente repetidamente.

"Se não quer aceitar meu amor, admita de uma vez que não me amava e que não sente nada!"

Não conseguia admitir que não a amara. Seria mentira. A amara com todas as forças quando mais jovem, por anos. Lisanna era seu porto seguro, sua melhor amiga. Ela fora seu maior suporte para aguentar a perda dos pais. A pessoa que proporcionou muitos momentos de felicidade a ele. Seu primeiro beijo, ainda quando bem garoto, como uma promessa selada de que iriam casar algum dia. Seu primeiro e grande amor.

Era muito intransigente naquela época. Se culpava por chamá-la de puta, ela era senhora do próprio corpo e poderia dá-lo a quem quisesse, assim como ele, depois, possuiu muitas mulheres. Uma após a outra. Se culpava, por ter sido machista, mas mais que isso... por ter sido cruel.

Ainda assim, não conseguia perdoá-la, não sabia bem o porquê. Seria por não corresponder seus sentimentos? Fora infantil a esse ponto? Ou talvez por ela quase ter dado p'raquele filho da puta no dia mais importante do ano para ele, em que sempre estavam juntos? Aliás, por que ela fez aquilo justo naquele dia? Não parecia algo que Lisanna faria. Pela primeira vez, passou por sua mente o pensamento de que ela avisara a Loke que aquele dia era importante para alguém querido, e o babaca foi atrás dela porque a queria só para si, propositalmente ferindo esse alguém querido. Seria isso?

Talvez ele quem devesse desculpas por todos esses anos. Queria ser capaz de dizer que o passado estava no passado e não se preocupar mais com nada disso. Só voltar a tê-la como melhor amiga e pronto. Mas não era fácil assim, ainda guardava esse rancor estranho e não podia apagar esse buraco de mais de ano na vida um do outro. Além do mais, Lucy era sua melhor amiga agora. Não só, Lucy era a mulher que amava. Que espaço podia abrir para Strauss, que não só queria voltar a ser sua melhor amiga, como dizia amá-lo há anos e que ainda queria que ficassem juntos?

Não era justo ter que escolher entre uma das duas. Ambas eram importantes para Natsu, de alguma forma. Por que parecia tão estranho e duro deixar a albina entrar em sua vida? E se fosse de uma forma diferente? Não precisava ser como antes, só novo.

Sim. Era isso. Criaria algo novo com Lisanna, e seria uma boa amizade. No entanto, restava um questionamento. Ela o colocara contra a parede. Pediu para que admitisse que não sentia nada por ela. E, por mais que evitasse pensar nisso, ela mexia com ele, como sempre mexeu. Não da mesma forma, mas mexia. Mais uma vez, Strauss era seu primeiro amor. Não havia como ignorar isso. Quando ela disse que ainda o amava, seu coração acelerou. Mesmo que tivesse explodido com ela, pensando logo em Lucy, por um momento o mundo silenciou, ao passo que o coração acelerava. Ela ainda tinha um efeito sobre si.

E novamente o medo do desconhecido o tomou. Tinha medo de que isso afetasse o que tinha com a loira. Seja lá o que tivessem, era a melhor coisa da sua vida, e não podia deixar nada desestabilizar isso.

Natsu suspirou. Tinha problemas bem mais sérios para ocupar a cabeça. Como por exemplo, a possível aproximação de Acnologia a qualquer momento, o que mais uma vez o fazia pensar em Lucy. Não queria que ela corresse perigo, e era isso que o Dragão Negro significava. Mais que isso, Zeref podia simplesmente aparecer à porta, não é? Sentia falta dele, mas sabia que ele passara por momentos duros com Acnologia. Quem sabe não desejasse o mesmo que o cientista, agora? A última coisa que soube é que ele próprio se tornara um pesquisador renomado, e eles não se falavam desde então.

Esfregou o rosto, nervoso e cansado. Levantou e resolveu ir até o que o acalmaria. Ou melhor, quem o acalmaria. Foi até o escritório e viu a loira com o queixo apoiado sobre a mão esquerda. O olhar estava distante, a postura triste. A mão direita deslizava pelas teclas e vez ou outra apertava alguma, contudo ela claramente não escrevia nada.

Dragneel ficou alguns minutos – ou mais, não saberia dizer – admirando-a, olhando cada detalhe do rosto, cada piscar dos longos cílios claros, os pequenos gestos, como o mordiscar do lábio constante. Só isso era o bastante para acalmar seu coração. E então seu estômago roncou, assustando a jovem e o denunciando. Ela sorriu, carinhosa.

— Há quanto tempo está aí?

— Acabei de chegar. — mentiu. — Ia te chamar p'ra comer aquela macarronada maravilhosa que eu fiz mais cedo, — disse, convencido — mas acabei me perdendo te olhando. Tão linda. — E, dizendo isso, abriu um sorriso estonteante.

Lucy correspondeu ao sorriso, mas o olhar continuava triste.

— O que foi, loirinha? — perguntou, massageando os trapézios da amiga, o olhar desviando para a tela do computador. O documento de texto tinha apenas poucas letras desconexas.

— Não é nada, algodão doce, vamos comer. — Ela chamou, fazendo menção de levantar. Ele pressionou os ombros dela para baixo, a voz em tom de quem sabia ser mentira:

— Luce.

Ela bufou, jogando a cabeça para trás, de forma que pudessem se encarar, olho no olho. Apesar do olhar firme, a voz vacilou.

— Sua tia vai me mandar ir embora, não vai? Isso que temos aqui vai acabar. Vamos nos ver na faculdade e nos fins de semana, mas só...

— O quê?!

— E eu não a culpo, qualquer pessoa faria isso! Eu só não queria... Mas nós somos só amigos, não tem porque morarmos juntos sendo sustentados pela sua família, né? E vocês têm questões pessoais a resolver. Atlas, Zeref, essas coisas. — Ela continuou, ignorando a expressão incrédula dele.

— Luce, espera aí.

— Não precisa justificar ela, eu não estou com raiva. O problema é que... Lembra que saí da festa mais cedo? Não vim para cá, passei no meu apartamento, já que iria voltar a morar lá. Jude não devia estar mais me procurando, mesmo. O problema é que fui barrada. O porteiro me informou que Heartfilia parou de pagar e que eu só volto para lá se começar a pagar. É um apartamento caro, não tem condições de eu pagar sozinha, entende?

— Sim, mas–

— E não tenho com quem dividir, Levy está bem em casa, você aqui, Erza fica em uma república que sai bem mais em conta, Flare está divindo apartamento com a nova namorada. Precisei pegar um táxi para trazer minhas coisas para cá, você nem percebeu, mas tem uma mala aqui. — E apontou para a mala no canto do cômodo.

— Luce, respira! Quem disse que ela vai te tirar daqui?!

— Ora, é o que qualquer um faria. Ela voltou para casa dela e não vai querer uma intrusa aqui... — argumentou, olhando para os pés.

Natsu deu um cascudo em seu cocoruto, resmungando, para logo depois passar seu braço pelo pescoço da amiga de forma carinhosa.

— Pare de se torturar tanto antes do tempo. Vamos falar com ela e ver o que ela decide, tá bem? Calma.

— Tá bem. — A jovem disse, envergonhada. — Nats.

— Hm?

— Eu amo você. Obrigada. — E sorriu para ele, grata. O rapaz correspondeu com um sorriso bonito e beijou a testa da jovem.

Beijou as pálpebras fechadas, o nariz arrebitado, as bochechas, o queixo. E então um beijo tenro nos lábios macios, enquanto a mão acariciava a nuca da mulher amada.

— Eu também amo você, loirinha. Muito.

— Muito. — sorriu. — Vamos comer sua super macarronada?

— Vamos.

E aquela relação tão especial não precisava de rótulos. Não precisava definir o tipo de amor. Se eram amigos, amantes... Nada importava. Somente o fato de que eram um do outro e estavam um para o outro.

[x]

Quando Lucy acordou, não sentiu o calor de Natsu na cama. Ouviu vozes animadas vindo da cozinha, se perguntando se os amigos estavam lá. Logo percebeu que se tratava de Natsu e uma voz feminina que não reconhecia. Se fosse há mais tempo, acharia se tratar de uma acompanhante carnal. Mas não mais. E então um estalo na sua mente: era a tia.

O estômago embrulhou de ansiedade. Ela fez a higiene matinal, querendo estar o mais apresentável possível, e trocou de roupa. Então saiu do quarto, pronta para encarar a mulher que Dragneel mais admirava.

— Bom dia. — disse, timidamente.

E então um sorriso radiante, similar ao do melhor amigo, foi dirigido a si. Que mulher espetacularmente linda...!, a loira pensou. A beleza definitivamente estava no gene daquela família.

— Bom dia! Lucy, não é? — Ela perguntou, gentilmente.

— Sim. Desculpe estar abusando da sua hospitalidade, senhora Camille...

— Senhora? Não precisa me chamar assim, mocinha. E fico feliz em acolhê-la em um momento como esse, em que está precisando, ainda mais sendo uma amiga tão querida do meu Natsu.

— Na verdade, eu queria conversar com a se– com você sobre isso.

Natsu, que até então olhava as duas com um pequeno sorriso, resolveu interferir, sem querer quebrar o clima agradável antes mesmo do café da manhã.

— Seja lá o que for, pode esperar nós comermos.

Ambas assentiram e sentaram à mesa, começando o café que o rapaz havia preparado mais cedo. Era um senhor café da manhã, tipicamente canadense, com tudo o que tinha direito.

Panquecas com maple syrup, ovos mexidos, salsichas, batatas cozidas cortada e french toast com manteiga. Ao lado, uma caixa de leite e um pacote de cereais, juntamente a uma bandeja de frutas. Uma jarra de suco de blueberries completava o banquete, e o estômago de Lucy roncou alto ao contemplar a mesa.

— Só... wow. Você é o máximo, Nats.

— Obrigado. Tudo p'ra agradar minhas damas. — piscou, galante.

Camille riu, apreciando a doce relação que os jovens tinham. Quando partira, Natsu não estava assim... Solto, alegre, como fora há tanto tempo. No caso, era com ela, mas não com os amigos. Se perguntava o que aquela jovem tinha feito para trazê-lo de volta.

Com as constantes trocas de olhares carinhosos entre eles durante o café, ela logo soube responder. Lucy fizera com que ele se apaixonasse. Superasse a dor e, assim, voltasse a ser feliz.

Os três conversavam banalidades, sobre a faculdade, até que Natsu surgiu com um assunto que dizia respeito a tia.

— Ah, é! Lembre que você 'tá me devendo um cinema.

— Como poderia esquecer? — Camille sorriu, gentil.

— Lucy pode ver conosco?

— Não precisa, Natsu! — Ela falou rápido, envergonhada.

— Ora, mas é claro que pode. Falando novamente em Lucy... O que você desejava me falar, querida?

Natsu sentiu os ombros tensionarem, enquanto travava a mandíbula. Será que aquelas duas não podiam esperar? Tentou impedir a conversa mais uma vez, falhando miseravelmente:

— Ah, tia, não te falei–

— É que eu resolvi pedir emancipação. Na realidade, eu faço dezoito anos em breve, então prefiro esperar para ir ao cartório e retirar esse nome, mantendo apenas o nome de minha mãe. Ju– Meu pai — corrigiu-se para se fazer clara — não vai mais me procurar, chegamos a um acordo. Então eu não estou mais me refugiando.

— Essa é uma ótima notícia!

— Sim, mas o pai dela parou de pagar o apartamento e ela não tem dinheiro, então não tem onde ficar. — Natsu tomou a dianteira, deixando a amiga envergonhada mais uma vez. — Você não vai expulsar ela, vai?

— Claro que não! — Camille pareceu chocada. — É um prazer acolhê-la, mas devo pedir que comece a procurar emprego e estabeleça uma meta, um prazo. Não vou tirá-la daqui, só quero que tenha planos. Pretende conseguir um apartamento em dois meses? Seis? Um ano? Dois anos? O que quiser, e eu aceitarei, porque vejo o quanto você e Natsu fazem bem um para o outro. Se pretender passar um longo tempo aqui, peço que arque com os gastos exclusivamente seus, porque essa não é uma obrigação minha. De resto, posso supri-la com tudo, inclusive afeto.

A jovem sentiu os olhos embargados. Camille era uma mulher gentil.

— E salve o meu número, você é minha protegida agora. — sentenciou, entregando um cartão para Lucy.

No cartão dizia Camille Lewis. Ela não era casada, então aquele era o sobrenome de Rose. Muito provavelmente, o outro sobrenome de Natsu. Sorriu para a mulher.

— Obrigada... Muito obrigada!

— Não precisa me agradecer.

Mas Lucy sempre sentiria gratidão por aquele acolhimento, tão genuíno e que mal pedia em troca. Contentes, continuaram a comer.

[x]

A tela do Skype permanecia em movimento, mostrando um homem de cabelos ruivos e crespos, com uma grossa e ruiva barba. Natsu explicava para ele sobre a conversa com Violette, sobre como ela se oferecera para ajudar.

Ótimo, e você contou isso para Camille?— O homem perguntou, a voz grave e rouca.

— Contei, sim, mas não comentei com ela sobre as informações que a Dra Thompson me passou. Só perguntei se ela teve notícias de Zeref, e a resposta foi negativa.

Descobri que ele está casado com uma mulher chamada Mavis. Pedi para investigarem-na, parece uma mulher muito pura e justa. Ele não deve querer colocá-la em risco, por isso é possível que Acnologia esteja tentando manipular ele com ela. Sei que você ama seu irmão e sente falta dele, mas cuidado.

— Tudo bem, tio. — Natsu respondeu, pesaroso, porém sério. Mudou de assunto em seguida. — Meus professores entraram em contato?

Eles estão conversando com Eva mais do que comigo, mas acredito que estejam juntos. Me passe o contato de Viollete. Não darei muitos detalhes a ela, só o bastante para conseguir investimento imediato. E o serviço de Raul Castro?

— Consegui contato, mas eles querem uma reunião, querem ver resultados. Fiquei de dar algo a eles, mas acho que o ideal é que você e a Dra pudessem fazer contato direto com eles e mostrar o que puderem e for preciso.

Está certo... — Após alguns instantes em silêncio, ele tornou a falar. — Rapaz, soube que conheceu minha afilhada, Flare.— Atlas comentou, com um falso tom displicente.

— Flare é sua afilhada?!

Acolhi ela quando fui à Vila do Sol. Ela sabia quem eu era, pelo serviço de guarda costas. Sempre me chamou de Chama Eterna. Era cuidada, se é que se pode dizer isso de uma criação tão violenta e dura, pelo homem que eu tinha o direito de matar se algo desse errado. E deu. Então ela veio comigo, era uma criança muito esperta. Depois mandei-a para o Canadá, para que fosse feliz, mas continuamos mantendo contato. Fora desse momento nostalgia, sabe o que eu descobri?!

— O que? — perguntou, desconfiado.

Que você está namorando e não me contou, desgraçado! Era a menina que ela queria pegar, e você não deixou minha linda afilhadinha ser feliz. Mas tudo bem, não vou brigar, ela está feliz em outro relacionamento agora. Quero que me mostre a loirinha.

— Quê?! P'ra quê?!

Anda, mostra a garota. Quero ver se ela vale o coração do meu sobrinho, meu pupilo e minha afilhada. Sting tentou disfarçar os ciúmes quando Flare deu a notícia, mas ele claramente estava gamadinho na garota. Mostra logo o troféu, campeão!— O ruivo riu, rude.

— Você é um escroto, hein. — E então virou o rosto. — Luce, vem cá!

— Já vai!

A loira se aproximou, curiosa. Olhou para a tela e lembrou que o amigo avisara que ia conversar com o tio, pedindo privacidade.

— Olá, senhor Atlas. — cumprimentou, cordialmente.

Nossa! Mas é um filé, mesmo!— assoviou. — Dê uma giradinha para mim, sim, delícia?

— Como é?!

A loira arqueou uma sobrancelha, raivosa. E então desferiu contra o homem uma série de xingamentos que incluiam como ele era pervertido, o que apenas arrancou risadas dele. Natsu deu o dedo para o tio e acalmou a garota, pedindo que ela fosse para outro lugar tomar uma água para se acalmar. Atlas ainda ria quando Natsu voltou a olhar para a tela, furioso.

— Qual é a porra do seu problema?!

Desculpa, não resisti. Que algum deus me salve se Charlotte me ouvir falando assim de uma adolescente, ainda mais com nossa Ellie tendo quinze anos. Mas que a loirinha é gostosa, nossa, que p

— Cale a boca, sim?! — O rosado rugiu, já rubro de raiva.

Sabia que você ia morrer de ciúmes! Tão típico do Autumn.— O Dragneel mais velho sorriu. — Estou provocando, garoto. Tenho certeza de que meu irmão teria gostado dela, principalmente pela língua afiada. É bonita e, aparentemente, educada. Rose também estaria feliz.— completou, o tom terno.

O jovem engoliu em seco. O tio tinha esse jeito, mas era uma pessoa querida, e que estava sempre velando por ele.

— Obrigado, tio. Obrigado mesmo.

Não tem que me agradecer, garoto. Agora vai lá para a sua mulher, que ela não está de bom humor. Nos falamos em breve.

— Até. — Se despediu, e a chamada de vídeo foi desligada.

Dragneel foi até o escritório, vendo a amiga na rede, ainda resmungando irritada enquanto escrevia algo em uma agenda.

— Ei, ei, calminha aí. — brincou.

— Entendi de onde veio aquele seu comportamento galinha, idiota. — Ela rebateu, azeda, tentando esconder o que escrevia.

— Mas o que eu te fiz? Credo, Luce.

Curioso, ele olhou para a agenda. Nela estava escrito, com letra caprichosa: Autumn Lewis Dragneel. Ele arregalou os olhos, surpreso.

— Ei, como você...

— O quê? Eu só usei a cabeça. Você tem um nome lindo, Nats. Nomes lindos. E cheios de história. Se orgulhe. — E sorriu.

Natsu retribuiu o sorriso e roubou-lhe um beijo singelo.

— Eu me orgulho. E você? Se não é Lucy Heartfilia, quem é, menina estranha? — Ela riu e estendeu a mão para ele.

— Prazer, Autumn. Meu nome é Lucy Ashley.

Natsu apertou sua mão, antes de beijarem-se novamente.

Notas finais
Minha nossa, perdões. A vida tá uma loucura, minha filha logo vai nascer, e eu estava em meio às tarefas da faculdade, acabei não dando atenção a escrita. Mas viva estou. Será que eu perdi o jeito da história? Vamos ver como me saí, né. Reviews? Boo