Blondie and Cotton Candy

2 Capítulo 1 — Patéticos e Infelizes


Notas iniciais
Boa leitura.

Capítulo 1 — Patéticos e infelizes

Anteriormente:

Eu realmente não entendo! Eu achei que você tinha mais que isso, Strauss. Você está se tornando uma verdadeira puta. — Ela arregalou os olhos. Uma lágrima solitária escorreu de um dos seus grandes olhos azuis.

Natsu, por favor, não... Eu am–

Adeus, Lisanna.

[…]

Era ele. Depois de dois anos, aquela figura vinha lhe atormentar. Não esperava vê-lo de novo morando em uma cidade tão grande. Os cabelos ruivos levemente espetados, os olhos castanho acinzentados, os óculos de sol no cabelo. Tudo lhe era familiar.

[…]

Quem é aquela cara, loira? — Ela deu uma risada pela pergunta repentina e grosseira.

Por que está interessado, algodão doce?

[…]

E eu tenho nome. É Lucy. [...] E você?

Dragneel. Natsu Dragneel.

____x____

O calor já era algo familiar para os habitantes de Magnólia nesta época do ano. Verão. Muitos aproveitavam para tirar a roupa de banho do fundo do guarda roupa, já que a cidade era um tanto quanto fria no inverno, indo direto para a piscina pública ou, se a pessoa fosse sortuda, para sua própria piscina nos fundos da casa. Logicamente, haviam aqueles que durante a própria primavera utilizavam a própria piscina.

Não era muito diferente neste verão. Jovens de boas famílias faziam rodízio, um dia seria na mansão com direito a tudo de um, e nos outros dias nos dos outros. Era assim que os filhos da alta sociedade se divertiam neste tempo, sempre com muita bebida e festas bombásticas que se tornavam notícia entre os moradores frequentemente.

Mas Natsu Dragneel não fazia parte desta comunidade, muito pelo contrário, ele preferia ficar longe de tal coisa. Seus dezoito anos foram recheados de bebedeiras, sexo e ressacas. Já bastava. O garoto andava perto do centro da cidade, próximo a uma loja de biquínis. Passara lá por acaso, mas o local lhe atraiu. Obviamente para ver as garotas lá de dentro provarem os trajes.

Depois que fora traído por sua melhor amiga — e, na época, a garota que amava — virou um pervertido, um playboy libidinoso. Não pensava em nada praticamente, somente desejava esquecer aquela mulher que o magoara, e para isso sua mente se tornou um borrão branco. Agia somente por impulso, e por muito tempo não teve consciência de suas ações, especialmente pela raiva e o álcool. Talvez usasse garotas bonitas para preencher o vazio que sentia pela falta da pessoa que mais importava a ele, mas como nunca pensava sobre não sabia exatamente. Sabia que precisava voltar ao controle, sua vida era extremamente complexa antes e nada mudou, apenas o botão de desligar.

O rosado parou na frente da tal loja que vendia roupas de banho e olhou atentamente para as garotas que hoje estavam ali comprando novos trajes para este verão. Duas amigas, estas bem eram fofas, mas novas demais para ele. Não era um “papa anjo”, afinal. Também havia uma senhora de idade de cabelos róseos como os dele, supôs que tivesse a mesma anomalia genética que ele pela idade. Mas essa já era velha demais, não queria agarrar uma senhora.

Hoje parecia não ser um dia muito movimentado ali, ou pelo menos ele tinha chegado na hora errada para ver garotas bonitas vestidas em trajes de banho de duas peças. A mais atraente até então era uma atendente morena, mas o jeito que ela mascava chiclete era tremendamente desagradável e ela certamente não iria provar uma daquelas roupas que ele tanto desejava. Quando suas esperanças estavam se dissipando, viu alguém que parecia conhecer no canto escolhendo biquínis.

Olhos grandes e castanhos, como era o nome dela mesmo? Luigi... Lúcia... Luice... Lucy...? Lucy! Isso mesmo, a tal Heartfilia! A garota que era a namorada daquele cara que viu com Lisanna, aquele cafajeste. Se bem que ele também era um, mas deixando isso de lado... Essa loira era mesmo bonita e, wow, como era gostosa!, Natsu já a despia com os olhos.

E o melhor de tudo era que se ele pegasse a tal Luigi, quer dizer, Lucy, o seu namoradinho traidor iria ficar com raiva e se sentir como Natsu se sentiu quando viu sua melhor amiga nos braços do ruivo. Agora sua cabeça estava preenchida com um pensamento: finalmente, fazer o tal rapaz perder a namorada para ele e se tornar infeliz como ele. Egoísta, sim, mas justo, acreditava.

Ele entrou na loja e pôde ouvir vários cochichos nada discretos vindos das duas meninas mais novas, provavelmente o assunto era ele mesmo. Sempre era. A senhora apenas fez uma cara de desgosto, mas por que seria? Pouco o rosado se importava com isso, nunca ficaria com ela de qualquer forma.

Apenas uma ali lhe interessava. E era apenas para se vingar do garoto ruivo, Loke. Andou até a loira e apoiou-se na arara em que ela escolhia partes de cima para seu biquíni. A princípio ela apenas olhou para ele e o ignorou, agindo como se não o conhecesse, quando na verdade realmente não se lembrava dele. Isso deixou-o chateado, ela estava ignorando-o ou...? Não, como não reconhecer esses cabelos rosas únicos? Essa era sua marca registrada.

– Não vai dizer nada não, loira? — tentou chamá-la.

Lucy olhou-o novamente com a sobrancelha arqueada. Por que diabos aquele homem de cabelo estranho estava falando consigo? Estando ali, certamente era um pervertido de marca maior, não queria falar com ele. Nada disse e voltou a escolher biquínis. Natsu bufou, com uma única pergunta gritando em sua mente: como essa garota resistia a ele? Aliás, pensando bem, como alguém poderia resistir a ele? Praticamente todas caíam aos seus pés. Notou então a peça que a garota olhava com bastante interesse no momento, era um bustiê preto com detalhes amarelos. Ele não pôde conter uma pequena risada grosseira.

– Você vai mesmo comprar isso?

– E se eu for? Algum problema? — perguntou, extremamente incomodada. O que esse estranho tinha com ela? Nunca o vira, e não estava dando motivo algum para estar sendo tarada por ele. — Afinal, quem é você para dizer isso? Te conheço, por acaso, cara?

– Vai dizer que realmente não se lembra de mim? Como poderia esquecer esse cabelo único? — Natsu passou sua mão pelos exóticos cabelos com um sorriso convencido em sua face, embora estivesse bastante frustrado com essa confirmação. — Ah, e se você levar esse biquíni vai parecer uma abelha, Heartfilia.

Nesse instante, como se uma lâmpada ligasse no interior de Lucy, ela se lembrou do rapaz. Realmente, como poderia ter esquecido? Seu nome... Como era mesmo? Ah, droga, ela era péssima para guardar nomes. Ficou estática por alguns segundos e logo depois pensativa tentando lembrar-se de como ele se chamava, ele enfatizara bem da outra vez.

– Se lembrou agora, é, loirinha? — ele sorriu vitorioso com isso, agora ela cairia no seu charme com certeza. Se já não caíra quando jogou seu casaco sobre ela. — Então, já que você não vai levar esse biquíni...

Com isso, o rosado tirou a peça das mãos dela e a colocou de volta na arara. Lucy inflou as bochechas, emburrada, e começou a ralhar com ele, protestando. Ignorando-a, Natsu começou a procurar algo, ou melhor, outro bustiê ali enquanto a garota, vendo que seus esforços eram inúteis, apenas observava. Depois de algum tempo ele retirou um cabide com uma parte de cima de biquíni rosa com estrelas, esse de tecido fino e sustentado por uma amarra na altura do pescoço e uma atrás.

– Prove esse, vai ficar bom em você, loira.

– Eu tenho um nome e você sabe muito bem qual é ele. — A loira bufou e pegou o cabide nas mãos do rosado. Ao menos disso ela lembrava. — Só porque eu gosto de estrelas. — justificou, sem querer que o sorriso convencido se alargasse.

Lucy foi andando até os provadores com Natsu em seu encalço, o que para ele era perfeitamente normal. Obviamente que queria e esperava vê-la de biquíni. E claro que o rosado conhecia muito bem as instalações desta loja, já brincara lá antes, seu plano era fazer essa loirinha gemer seu nome bem ali mesmo nos provadores, como tantas outras. Interrompendo o fluxo de seus pensamentos, a garota parou de andar logo antes de entrar nos vestiários e olhou para Natsu séria.

– Onde você pensa que vai, algodão doce?

Bingo! O apelido, que veio a sua mente pela coloração dos fios róseos soou familiar e, com isso, começou a repensar em qual poderia ser o nome dele.

– Hm? Ah, é claro. Já que eu escolhi o seu biquíni com meu excelente gosto, quero ver como ele fica no seu corpão, certamente vai provar mais ainda meu bom gosto, — parou um segundo e analisou ela novamente de baixo a cima – loira. — Lucy riu, com desagrado.

– Apenas em seus sonhos! Eu tenho um namorado e, certamente, você deve saber disso, não é, Dragneel?

– Não me chama assim não, Heartfilia. — Bingo mais uma vez, Lucy acertara o sobrenome do rapaz. — Eu posso perder o controle e fazer marcas nessa sua pele tão branquinha, ô se posso. — Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de Natsu, o desejo expresso em seus olhos escuros. — Depois que eu acabar com você, loira, você nem vai querer mais aquele maldito do seu namorado e ainda vai implorar por mais pra mim. Ou melhor, gemer.

– Ah, por favor, não me faça rir! Você nem chega aos pés de Loke, garoto!

– Quer descobrir? — ele aproximou-se da loira, quase selando seus lábios, o que arrancou dela um sorriso sedutor.

– Ah, Dragneel, eu sou muita areia para o seu caminhãozinho rosa. Você não aguentaria.

Heartfilia finalmente se virou, como não houve resposta, e terminou seu percurso até os provadores. Como não ouvia mais passos a seguindo, achou que finalmente aquela pantera cor de rosa havia desistido e ido embora para provocar outra garota azarada. Sorte a dela, estava prestes a chamar o circo por ter perdido um de seus palhaços. Riu internamente, ali estava a velha Lucy de volta, afastada de seu amado.

Todos os provadores estavam vazios, poderia escolher qualquer um. Até mesmo o mais disputado, sendo o último de todos, e foi neste mesmo que a loira entrou e fechou a cortina. Finalmente..., pensou Lucy enquanto suspirava, aquele algodão doce já estava me irritando!. Ela retirou sua blusa e olhou-se no espelho. Mesmo sendo esbelta, diga-se de passagem, se achava gorda, um conceito que fora implantado em sua cabeça por seu pai. Tirou seu sutiã, esse do tamanho G, graças a seus seios fartos, e colocou o tal biquíni que fora escolhido para si, inclusive a parte de baixo. Sorriu um pouco, satisfeita.

– Está bom... Quem diria que ele teria bom gosto?

– Olha... Não é ficou bom mesmo em você, loira? — falou uma voz que Lucy não queria ter escutado de jeito nenhum.

Ela virou-se e viu ninguém mais, ninguém menos que o tal garoto rosa encostado no batente do provador despindo-a com os olhos. Como ele...? Em seu rosto havia um sorriso cheio de malícia, que combinava com o verde musgo dos orbes dele, brilhando com a ânsia de tirar aquelas roupas da loira. As bochechas dela avermelharam-se sutilmente, mas ele, como um bom Don Juan, foi capaz de notar, com enorme satisfação.

– Eu escolhi bem... Ficou ótimo.

– Vai ficar olhando mais ou já quer uma foto de uma vez? — perguntou irônica.

Mas ao contrário do que dizia e do modo como agia, Lucy estava constrangida por dentro. Ninguém a via deste jeito a não ser Loke, era seu corpo, seu espaço pessoal. E quando foi mesmo que aquele rapaz tinha aberto a cortina? Não sabia e temia a resposta, temia que ele pudesse ter visto mais do que se atrevia a pensar e sentia nojo disso.

– Foto? Ah, não, prefiro ver e sentir ao vivo você. — respondeu com malícia em sua voz.

Natsu adentrou no cubículo, que já era pequeno, e cada vez mais ia prensando a garota contra a parede. Em retorno, Lucy apenas ficava em silêncio. Não iria gritar ou pedir socorro apenas para deixar esse tal garoto ainda mais feliz com sua reação. Estupro, seria ele capaz de tal coisa? Tinha medo, mas sua raiva era ainda mais forte.

– Acabaram as ameaças, loira? Cadê aquela garota durona agora, hein? O gato comeu a sua língua? — Natsu, agora prensando seu corpo contra o de Lucy na parede, sussurrava no ouvido dela. — Eu não sei o gato, mas esse dragão aqui vai comer você toda e aquele seu namoradinho não vai poder fazer nada quanto a isso. — ao contrário do que ela poderia imaginar, no entanto, o rosado acreditava piamente que ela estava aproveitando o contato, agora calada, e por isso continuava tão brutalmente.

– Vá em frente. — disse Lucy indiferente, surpreendendo o rapaz, que finalmente percebeu que ela não estava aproveitando. — Se você tem algo contra Loke, o que acredito ser verdade, resolva com ele, não comigo. Você está magoado, não? Mesmo se me estuprar para fazer meu namorado infeliz, você mesmo vai continuar triste. Não vai mudar nada, Dragneel. Seremos três patéticos infelizes.

Não havia nenhuma expressão no rosto da menina. Nem medo, nem terror, nem tristeza. Absolutamente nada. Nervoso como estava, ele não seria capaz de observar que os olhos dela umedeceram-se rapidamente, e que seu rosto se avermelhara na tentativa bem sucedida de conter um possível choro.

“Mas do que essa menina está falando? ELA NÃO TEM A MÍNIMA IDEIA DO QUE EU PASSEI! NÃO TEM A MÍNIMA IDEIA DE QUANTO EU SOFRI!”, era o que passava pela mente de Dragneel, pasmo. Ele ficou parado por alguns segundos, sem fazer nada, apenas ali com seu corpo absurdamente quente contra o de Lucy. Sem sussurros, sem provocações, nem tentativas de continuar o ato. Mas que garota mais petulante era essa! Não se podia simplesmente ficar remexendo no passado dos outros falando sobre coisas que não sabia. Magoado? A vida que conhecia era uma merda. Ela não sabia de nada.

A vontade do rosado de fazer essa loira trair o namorado para o mesmo sofrer havia passado. Ele não via mais graça ou motivação para fazer isso, ela estava certa, justamente por ficar preso nisso é que continuaria infeliz e patético. Mesmo que pudesse ser bom fazer tais ações com essa garota neste provador, não parecia mais divertido. O desejo diminuíra. Ela não tinha culpa de Loke ser um cafajeste, certo? E ela não queria ter relações sexuais com ele. Então para que fazê-la sofrer também? Por vingança? Isso já não era o motivo, já não via mais encanto nisso. O desejo de vingança era seu inferno pessoal.

– Tsc. Não vá falando por aí de coisas que você não sabe, loira. — Natsu afastou-se dela com a cabeça baixa, escondendo seus orbes agora enegrecidos. — Agradeça por eu ter desistido. E eu vou te falar somente uma coisa. — Ele já estava saindo do cubículo quando se virou mostrando seus olhos sem nenhuma expressão, apenas vazios, o que fez uma onda de choque percorrer o corpo dela. — Aquele seu namorado, Loke, ele não é quem você pensa que ele é.

Lucy ficou ali sem palavras, mesmo tendo se mantido forte durante todo o tempo estava quase desabando por dentro. Naquela hora em que falou tais palavras com indiferença, não sabia do quê se tratava ou do que estava fazendo. Apenas... Apenas veio à sua cabeça aquilo e ela disse. O que mais fazia com que a garota ficasse inquieta agora era o que o rosado tinha lhe dito. Dentre todas as pessoas que conhecera em sua vida, seu namorado, Loke, era o único em que confiara, o único que sabia de tudo. Ele ser uma farsa? Impossível... Certo? Agora ela tinha suas dúvidas que provavelmente lhe tirariam o sono durante a noite.

Ainda podia sentir o calor do corpo de Natsu, deuses, como a temperatura dele era alta! Muito maior do que todas as pessoas que a loira já conheceu, ele era tão... Diferente. E parecia ter sofrido tanto quanto a garota, o que ela honestamente achava difícil, isso a intrigava muito, além do fato de ele ter algo com Loke. Seu cachecol também despertava curiosidade na loira, afinal, estavam em pleno verão, quem em sã consciência iria usar agasalhos como aquele? Aquele rapaz era mesmo um mistério.

– Natsu... não é?

Finalmente lembrou-se do nome dele. Verão... Certamente combinava com o calor que ele exalava. Mas o nome combinaria muito mais se ele tivesse um sorriso verdadeiro e aberto, contagiante. Balançou a cabeça, que seja. Suspirou e recolocou suas roupas para sair dali. Assim que chegasse em casa tomaria um bom banho, isso lhe acalmava e a ajudava a pensar.

– Também espero nunca mais lhe encontrar. — falou decidida e saiu do provador indo para o caixa pagar o biquíni. Realmente, era muito bonito!

Não muito longe dali, Natsu tentava esquecer o que tinha acontecido na loja, sim, era melhor deste jeito. Se apenas esquecesse e ignorasse aquela garota tudo iria ficar como sempre foi. Mas uma parte dele dizia para não fazer isso, dizia para ele ficar mais próximo dela. O rosado apenas ignorou isso e decidiu continuar com sua vida de vagabundo, que a tal Lucy fosse feliz para sempre com Loke que ele não se importaria. Afinal, o rosado tinha suas “garotas”. Toda e qualquer uma que fosse bonita o bastante e caísse aos seus pés era dele, bem, no máximo por uma noite.

Preferia ficar longe de relacionamentos depois do que aconteceu. Natsu estava muito bem por si mesmo, sem ninguém com quem se preocupar e zelar sem ser o próprio rapaz. Para que se envolver com uma garota? Para ficar cada segundo do dia pensando nela? Para sempre ficar preocupado com a menina? Para temer a morte dela mais do que tudo...? Para... Para... Para ver os olhos fechados dela toda manhã ao acordar e sussurrar um bom dia em seu ouvido e... Natsu balançou sua cabeça afastando tais pensamentos. A última coisa que precisava era de mais alguém para cuidar, mais alguém para proteger com sua vida e acabar se magoando. Essa era a última coisa que queria. Como se eu precisasse da uma loira irritante como aquela garota...,pensou ele enquanto andava para casa.

Costumava dizer que morava sozinho desde que seu pai desaparecera, afinal a tia continuava sendo a pessoa menos presente de sua vida. Já estava grandinho há muito para ter babás, então seu dias lá se resumiam e ele e sua única companhia, Happy, seu gato. Desde o incidente com Lisanna a casa do rosado era um baú de memórias que faziam com que ele se sentisse mal. Os álbuns de fotos dele com a albina, os presentes que ela lhe dava em aniversários. Tudo fazia com que se lembrasse de Lisanna, e consequentemente da traição por parte dela. Mas ela – e os amigos, também presentes nessas lembranças – representavam uma parte estável de sua vida, que não podia se dar ao luxo de apenas jogar fora.

As palavras daquela menina petulante ainda ressoavam em sua cabeça. Triste...? Magoado...? Ela não fazia ideia do que ele passara na vida. Várias garotas passavam por ele e lançavam olhares cheios de malícia para o rosado, mas isso pouco importava agora. Hoje ele não estava aceso ou com apetite sexual como estava há menos de 30 minutos. Ter uma garota em sua cama hoje não o satisfaria, por mais que soubesse que em parte ajudaria a conter sua fúria. Ignorava todas as meninas, até mesmo as mais disputadas e bonitas da cidade. Além de receber olhares de interesse das mulheres, recebia também olhares maldosos vindo dos namorados das moças. A culpa não era de Natsu se elas estavam dispostas a trair seus amantes. Não estava tão ruim quanto no dia em que seu mundo caiu, mas mesmo assim estava abalado, tudo culpa daquela loira estranha e irritante. Chutou uma lata em seu caminho para descontar sua frustração, chamando a garota de estranha mentalmente por consecutivas vezes. Para sua sorte já estava na porta de casa, logo o sol iria se pôr. Suspirou aliviado e adentrou em seu lar sendo recebido pelo gato azul, Happy.

– E aí, Happy! — abaixou-se e fez carinho no animal que ronronou gostando daquilo. — Está com fome? Vamos! Eu vou preparar um peixe para você! — Natsu levantou-se e foi em direção a cozinha, sorrindo alegre.

Ao contrário do que muitos pensavam, o rosado era, sim, uma pessoa carinhosa e até um tanto alegre. Pelo menos com seu gato. Frio por fora e legal por dentro. Típico Tsundere, segundo seus amigos. Apesar disso, todos queriam que ele fosse como era antes, alegre com todos, esbanjando seu magnífico sorriso, representativo de seu nome, a qualquer um, com bondade. Alguém gentil que ajudasse quem quer que fosse. Mas essa realidade já não era algo mais possível aos olhos de seus colegas. Nem mesmo Natsu achava que era algo imaginável isso, o “eu” dele de antes já tinha se extinto há tempos. Mais precisamente, dois anos.

Pegou um peixe na geladeira e colocou no prato do gato que logo foi devorar seu jantar. Suspirou satisfeito com o que fizera, sempre ficava deste jeito em casa. Mesmo que Happy lhe lembrasse da antiga amiga, o rosado ainda amava o gato do mesmo jeito e nunca o trataria como uma lembrança ruim. Logo o estômago do garoto começou a roncar, ele riu com o susto que o gato levou e abriu a geladeira novamente, desta vez para preparar algo para si mesmo.

Antes que pudesse pegar algo dentro do eletrodoméstico seu celular tocou. Pegou o aparelho de dentro do bolso e rapidamente atendeu a chamada, sem paciência para ouvir Master of Puppets nesse instante.

– Alô? — esquecera-se de ver quem estava ligando, genial, então agora esperava pela resposta. Ouviu algumas risadas abafadas ao fundo, quem diabos...?

Natsu? Hey! É o Gray, seu esquentadinho!

– O que você quer, capitão cueca? — mais risadas. — Nossa, quantas risadas, tá com a Juvia, é, seu safado? — provocou-o, com um palpite certeiro.

Cale a boca, maldito! - Não estava ao lado de seu amigo, mas podia jurar que Gray estava corado agora. – Enfim... Todo mundo vai à balada hoje, aquela sabe? Então, você vai. A gente se encontra lá em 1 hora.

– Sim, aham, sei, “aquela” balada, claro. Que bom que você pergunta se estou afim ou não.

Esteja lá. — ignorou a ironia, sabia que facilmente Natsu lembraria qual era, fora que não queria discutir a liberdade do melhor amigo.

– Mas eu– — antes que pudesse dar uma explicação para não ir, Gray desligou o telefone na cara do rosado. — Maldito. — murmurou.

Quando ele planejava ficar quieto em sua residência, alguém tinha de estragar seus planos. Suspirou já cansado só de pensar no que teria de fazer, tomar banho, escolher uma roupa e ter que aguentar meninas e mais meninas aos seus pés tentando trair seus namorados. Até seria uma boa ter alguém hoje, mas ele não estava no clima, preferia preparar algo, ver TV e dormir sozinho. É, Gray estaria em dívida com ele depois dessa.

Foi ao banheiro. Fechou bruscamente a porta e ligou o chuveiro, logo despindo-se também. Esperava que o “todo mundo” a quem o moreno se referiu fosse apenas os meninos e talvez Erza e Juvia, só, sem os irmãos Strauss, principalmente Lisanna. Entrou debaixo d’água se livrando de todos e quaisquer pensamentos ruins ou incômodos. Depois de uns 20 minutos saiu dali enrolado em uma toalha branca, andou até o armário e ficou fitando suas roupas por alguns segundos. O que vestir? Qualquer coisa, não iria lá de boa vontade mesmo.

Pegou as primeiras peças que viu e se vestiu de qualquer jeito, que se dane, não teria ninguém de interessante na boate. Queria poder voltar logo. Pegou sua carteira e seu celular, haviam três mensagens, todas de Gray, pelo jeito Natsu não teria uma carona, ótimo, agora teria de ir andando até o local. Maravilha. Comeu um cereal com pressa, para ir logo. Suspirou sem vontade mesmo de ir, mas tinha de qualquer jeito, se não apanharia de seu “amigo”.

Deixou mais dois peixes para Happy e saiu de casa. A noite não estava exatamente quente, mas também não estava fria, estava... meio termo. Bem, para Natsu sempre estava meio termo. Andava sozinho pelas ruas de Magnólia, ninguém, absolutamente ninguém andava perto de onde ele morava. Seus pensamentos eram sua única companhia por vários minutos, estava até começando a ficar com raiva de seu cérebro por pensar em tais coisas, que no caso seria o que poderia ter feito na loja de biquínis. Droga, deveria ter agarrado qualquer menina no caminho. Talvez levasse alguém para a cama, afinal.

Quando estava em uma área bem mais movimentada, próximo à boate para a qual ia, começou a ouvir passos atrás de si. Cada vez ecoavam mais e não mudavam de direção, pareciam ser de saltos altos. Uma fã talvez? Provavelmente. Ignorou por um tempo, mas isso estava começando a incomodá-lo. Continuava a ser seguido pelos passos, praguejando mentalmente. Natsu se virou bruscamente para trás, raivoso, dando de cara com a tal pessoa, uma garota como pensava, mas não era a garota que esperava ou queria encontrar agora.

– Você?! — exclamaram os dois juntos.

Notas finais
Reviews?