Blocos de Concreto

1 Quem sabe a solidão, fim de quem ama.


Blocos de Concreto

I

Há uma ferida em meu peito.

Há uma ferida púrpura e sangrenta em meu peito, que corrói meus ossos e se alastra até meus braços, que amarga meu estômago e empurra meu pulmão. Todo esse sangue, todo esse pus, toda essa dor escorria dos espessos cortes em meus órgãos internos e me machucava como se tentassem apanhar meu oxigênio.

Pelas manhãs, a angústia de minha injúria pesava meus olhos e costurava meus lábios, tirando-me a necessidade da fala. O gosto de ferroafogava meus dentes, deixava-me tonto, esquentava minhas veias grossas e secas. Acordar tornou-se uma tarefa dificultosa com o passar dos dias, piorando soberbamente nos últimos meses.

A luz frouxa do amanhecer já era o suficiente para incomodar minhas pupilas mal acostumadas; a úlcera em meus órgãos contaminava minha visão e me impedia de enxergar o mundo como fazia antigamente. Há uma mancha clara e viva em meus olhos, que descasca minha córnea e estica minhas íris.

Apesar da dúvida inicial, ao olhar mais uma vez para o travesseiro amassado ao meu lado, reconheci os fios loiros na fronha — compreendi, então, que a pessoa que abrira essa enorme ferida em mim dormiu comigo aquela noite. Ouvi o barulho abafado do chuveiro quente.

A Felicidade havia levado meu coração embora. Sei que a culpa é dela, uma vez que a felicidade possui aqueles cabelos loiros e encaracolados, um sorriso cheio de gengivas, além de braços largos e fortes, capazes de carregar todos os meus sentimentos, deixando-me apenas o vazio. Mesmo tendo o coração mais pesado do mundo, ele ainda assim conseguira roubá-lo.

Ele saiu do banheiro, enrolado na espessa toalha azul cobalto, murmurou um bom dia e caminhou descalço até a minha cozinha. Conversamos banalidades durante o café sem açúcar, antes do seu beijo de adeus mais duradouro que o normal.

Ainda não sei por que ele se foi e me deixou sentado, brincando com minha própria pele dolorida, tentando preencher o gigantesco e finito buraco em meu peito, onde deveria se encontrar meu inchado coração. Ele nunca voltou como eu pensei que logo faria, e nunca devolveu ao meu organismo a capacidade de enxergar a formosura dos mais simples acontecimentos.

Apaixonar-me por ele tirou-me o talento de sentir qualquer empatia por qualquer coisa, senão por ele mesmo. Apaixonar deixou-me cego por incontáveis dias, impedindo-me de notar as peculiaridades de novos amores. Apaixonar causou-me feridas psicossociais tão profundas que meu próprio corpo não soube mais diferenciar as dores que tanto sentia.

Depois daquele dia, concordei em denominá-lo também de Mentira: ele, assim como a felicidade, trouxe a esperança, mostrou-me o ápice do prazer e deixou-me sangrando na minha própria cama, com o vazio, com a dor.

E foi assim que cheguei à minha primeira conclusão: a de que nós somos aquilo que nosso coração carrega. Possivelmente, se somos pessoas más, temos sentimentos e artérias ruins, cheias de problemas e deficiências. Portanto, aquele que ama e faz disso isso parte de si, deve ter em seu coração sentimentos e ventrículos da mais deslumbrante beleza. Agora, em minha situação atual, percebo que me transformei em minha própria dor.

Com meu olhar recurvo e cadavérico do mundo, sei que não sou mais humano e atuo na sociedade apenas como um emaranhado de melancolia e espaços vazios.

Contudo, mesmo presente de minhas filosofias perturbadoras, ainda enxergo algum lado humano meu renascer, se considerarmos minha estranha concepção de o que é um ser humano; tudo isso porque considero improvável a existência de algo ou alguém que só traga sofrimento e ódio.

Concluo, assim, que o único fim da mentira, é tirar o direito que temos de sermos humanos.

É necessário saber, todavia, que meu coração, ou seja lá o que esteve antes no meu físico, está completamente destruído, arruinado e cinza. Entendo agora que para conseguir meu coração de volta, não desfalecido, contudo vermelho e pulsante, preciso do coração dele. Preciso do órgão vital da mentira, essa mesma que possui cabelos dourados, para que eu possa voltar à minha vida, e que pela primeira vez, eu compreenda a arte obscura de amar e ser amado.

Eu sei que mereço ser humano, não mereço essa dor infernal e corrosiva. Também sei que ele não merece, e que no fim, deve estar à parte de como é sangrar de sofrimento em uma manhã qualquer.

II

O cheiro de oxidação do ferro preenchia minha alma todas as vezes em que eu me aproximava daquele longo portão ranzinza. A mansão gigantesca e agradável exalava fragmentos do meu mediastino — reconheço-o pelo cheiro de carne morta, desfalecida e em decomposição. Provavelmente, meu coração está em algum dos extensos corredores caros e vistosos, tentando inutilmente pulsar com seus ventrículos secos.

O metal frio sujava minhas mãos pálidas como em todos os dias em que eu aparecia na porta da casa dele, entretanto, dessa vez, logo percebi que o portão para a entrada do espaçoso jardim de rosas estava aberto. Não pensei duas vezes antes de abri-lo, depois de dezenas de dias sem pisar no interior daquela casa, deixando o barulho estrepitoso da porta da frente incomodar meus ouvidos.

Agora, cada instante mais próximo dele, um novo modo de pensar chocou minha mente de forma espontânea e inteligível inúmeras vezes, até eu conseguir chegar a minha mais nova verdade: a Mentira nunca vencerá um ser humano.

As intenções antropocêntricas que me levam a caminhar pelo colorido jardim são de máximo respeito. Não pretendo magoar ou desorganizar as vísceras de nenhum outro ser humano, ao contrário da manipulação irredutível vinda do dono daqueles cabelos claros, que não se incomodou em fazer tal atrocidade comigo.

Ao chegar à porta do saguão principal, coloco-me então como superior. Apesar de querer meu coração de volta ao meu tórax, entrego a liberdade das minhas vontades para conseguir um objetivo, o mais nobre do qual já pude me orgulhar. Não acredito que conseguirias ficar a par de todas as minhas ideias, confesso, mas explico aqui que usarei da minha última compaixão para tomar o cargo de Mentira.

A dor que sinto, o sangue e o pus que escorrem das minhas próprias mãos, deve ser sentida por aquele que a causou. Transformar as pessoas em sentimentos escuros e borralhos é um mau hábito que volta para si mesmo, como um feitiço reverso. Agora, a este ponto da noite, sei o que pretendo fazer para me sentir melhor: devo machucar a Mentira e tomar o seu lugar.

III

Minha respiração barulhenta perturba minha própria concentração, e meus passos ecoam denunciando-me toda vez que valorizo demasiadamente o maior silêncio. Caminho decididamente pelos corredores espaçosos até a grande cozinha escondida no primeiro andar, onde pego a maior faca que encontro. Depois, volto a percorrer a mansão até deparar-me com um quarto conhecido, talvez um tanto parecido com o meu próprio.

Procuro por resquícios do meu órgão interno por debaixo da cama até as fundas gavetas do seu armário, mas tudo o que encontro é a pele nua e suada do homem que amo. Neste instante, seu rosto angelical expressa conforto e formosura, o que pressiona cada artéria de meu corpo; tornei-me então um vivo paradoxo entre amor e ódio pelo mesmo objeto. Sua pele branca e marcada enche minhas íris de tristeza, e eu entendo, assim, que mesmo amando-o tanto, devo realizar aquilo que pretendia.

Deus sabe a perfeição que inseriu naquelas costas largas, no queixo ossudo e no olhar recurvo. Seus olhos, grandes e verdes, que sempre chamam a maior atenção possível, puxaram a minha felicidade desde o nosso primeiro encontro. Sabe-se lá como esses olhos ainda fechados e tranquilos enxergam o mundo — talvez o enxergue apenas como um grande fliperama de manipulações e circunstâncias de variadas gravidades.

Aproximo-me do seu rosto, de seu corpo nu e bêbado jogado nas cobertas amarrotadas, com o sêxtuplo de dor e vazio pesando meu tórax. Observo seu peito largo e sinto com minha mão direita seu batimento cardíaco, acompanhando mentalmente cada uma das vezes em que sua válvula se fechou. Enquanto me deleito com as perfeições que Deus incorporou em seu físico, sufoco-o com o travesseiro, sem nunca largar a faca amolada em minhas mãos.

Ele acordou em um susto, forçando-me para longe com seus braços firmes, obrigando-me a dar passos para fora da cama desarrumada. Apesar da falta de reflexos por estar evidentemente embriagado, apanha a garrafa de uísque vazia no piso e a lança com certa dificuldade em minha direção. Ouço o estilhaçar do vidro quebrando logo acima de meu couro cabeludo, os fragmentos da garrafa caindo no meu ombro coberto.

Antes de conseguir pensar em qualquer reação lógica, o vi levantar descalço rumo ao meu encontro, empurrando meu tronco até sua prateleira empesteada de livros antigos. Suas mãos apertam meu pescoço ressecado, e eu forço a faca em um dos seus braços despidos, rasgando os colágenos de sua pele consistente.

Meus dígitos marcam o cabo da ferramenta, e a intensidade com a qual seguro lâmina machuca meus dedos. Avanço em sua direção, já fora do quarto, bem próximo ao banheiro, onde se encontra uma pequena mesa de vidro, apoiada em blocos grossos de concreto.

Em um irracional surto de violência, puxo um dos blocos para mim e solto a faca maciça; a mesa de vidro se desmorona lentamente entre os poucos passos que nos separavam. Ele tropeça para dentro do banheiro vasto, e eu empurro o bloco de concreto para cima de seu corpo. Quebro seu braço direito com a força da contusão e jogo-o dentro da banheira ilustrada no canto da parede. Deixo o bloco apoiado nas bordas e bato sua cabeça lotada de seus cabelos loiros na torneira bem trabalhada.

Corro até a porta para alcançar a faca. Escuto o barulho das gotas de seu sangue caírem na banheira lisa e ligo a torneira de água.

Volto a segurar a faca com força e abro-lhe o peito — seus olhos verdes ressurgem magoados, cegos por não raciocinar sobre a pessoa a qual o mata. Minhas unhas puxaram sua pele e sua carne à medida que a lâmina respinga seu sangue por toda parte; os meus dedos brutos se contorcem em torno de um grande e avermelhado bolo de músculo, arrancando-o para a área externa com muita dificuldade e com auxilio da faca aguda.

Quebro-lhe os ossos do esterno, reviro seus órgãos internos e retiro seu coração.

Agora ele reconhece minha dor física. A dor de ser rejeitado e ignorado por meses, o peso do vazio. Desejo, então, que durante este processo eu me torne a mais nova Mentira e que eu enxergue o mundo da maneira divertida e simples na qual ele sempre fez.

Minhas unhas grandes estavam sujas de carne e viscosas, no entanto, nada me impediu de arranhar-lhe as pálpebras e abri-las para arrancar seus olhos fora. Duas grandes circunferências perfeitas escorregam meus dedos como grandes uvas vermelhas, e o sangue escorre denso e escuro por suas bochechas, gotejando na banheira já cheia.

Meu estômago revira.

Enxergo o mundo como a Mentira enxergava, e não me parece um mundo divertido, cheio de vítimas e jogos de raciocínio. É um mundo vazio e triste, de quem não ama e não consegue reconhecer a felicidade, de alguém que acorda sangrando na sua cama, em seus lençóis brancos, fedendo a decepção e a prazer. Seu mundo se parece um grande amontoado de dor e cinza, que preenche o buraco da alma com esperança e arrependimento.

A ferida continua em meu peito.

E eu continuo infeliz.

FIM

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