Blades of Chaos
3 A Aposta

Uma onda quente de sangue pulsou para meu crânio, me atordoando com visceralidade no momento em que me ergui da cama e reli as palavras transcritas no papel antes escondido abaixo de meu travesseiro. Uma dose grandiosa de adrenalina se apossou de mim após ter absorvido as informações daquele bilhete – daquele chamado impossível de se ignorar.
E o impulso de seguir precisamente as instruções dele pulsava em conjunto a cada batida descompassada do meu coração eufórico.
Deitei de novo na cama com os lençóis me acobertando até a beira do meu queixo, buscando disfarçar minha ânsia de evadir do local logo de imediato.
Fiquei então a prestar plena atenção aos meus arredores. Observei a movimentação das garotas do dormitório diminuindo gradualmente devido o horário de recolhimento estar se aproximando. Meu olhar se dividiu entre a vigia do largo relógio acima da entrada da porta e a circulação das garotas. Nesse processo de elevada concentração, o ecoar incessante dos ponteiros tornou-se mais evidente a minha escuta.
Pinky, com toda sua simpatia sonolenta, após ter retornado de seu banho acalorado como havia mencionado, emergiu em nosso quarto já trajada em um pijama rosado, fazendo jus ao seu nome. O cheiro fresco e adocicado exalado pelo seu corpo era notável a ponto de me deixar aconchegada, e sua voz carregada de uma doçura habitual me desejou boa noite, para em seguida ela desligar as luzes do recinto. Pude retribuir o seu favor oferecendo um sorriso acanhado dentre a recém-escuridão atribuída ao ambiente.
Tomei a decisão de escapar quando assim enxergasse uma brecha para desvendar a autenticidade do bilhete. Quaisquer que sejam os riscos, eu eventualmente encontraria uma maneira de reverter meu impasse. Ou então arcar com as possíveis consequências de minhas ações.
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Ter escapado da academia Bullworth não fora um problema atroz, visto que a passagem estreita pelas laterais do dormitório me dava diversos pontos cegos para executar minha fuga, e Mrs. Peabody, a monitora dos aposentos femininos portadora de óculos avantajados e de uma silhueta esguia facilmente reconhecível mesmo sob a distância, estava suficientemente distraída com algum programa de entretenimento romântico ocorrendo na TV na sala principal para me capturar à furtiva.
O verdadeiro obstáculo começou quando percebi a distância que teria de percorrer até o cemitério. A pé, demoraria cerca de uns trinta minutos para chegar – e já eram onze horas da noite. Eu precisava ser rápida.
Não conseguia encontrar um motivo que pudesse explicar a razão pela qual me sentia tão eufórica com algo que poderia ser simplesmente uma brincadeira de mau gosto. Contudo, a urgência em meu peito não cessava, apenas se alastrava à medida em que meus passos desesperados me guiavam até o local designado.
Com ansiedade a aflorar meus nervos combinada com uma rapidez desenfreada, corri em direção ao estacionamento de bicicletas para tentar encontrar alguma desprotegida. Meus olhos pousaram em uma bicicleta laranja. Seu porte era muito elevado para o meu corpo, seria um desafio conduzi-la com exatidão, levando em conta esse detalhe. Assim, lancei o famoso “foda-se” e subi na bicicleta, já impulsionando o pedal para obter velocidade total rumo ao meu destino.
A caixa torácica, preservadora do sarcófago onde residia meu âmago, apertou-se de modo esmagador, enquanto a ardência obtida dentre cada respiração expelida pelos meus pulmões provocava um efeito arquejante em meu peito. O fôlego armazenado dentro de mim se ausentava gradualmente mais a cada acelerada brusca das minhas pedaladas.
O que me motivava a prosseguir eram os minutos decorrentes transpassando veloz e impiedosamente. Sentia-me aprisionada em um eterno estado de urgência desde a morte da Serena. O bilhete de origem misteriosa apenas acentuara esse sentimento pré-existente.
Recordo-me da noite em que ela veio a ser encontrada morta na residência ao lado de minha antiga moradia. Serena, com seus cabelos dourados conservados por um coque sempre elegante, impetuosamente esquartejada em pedaços desregulados. Essa era a imagem que eu teria fixada sempre em minha mente.
Policiais me levando para a delegacia como principal suspeita, detetives ardilosos realizando uso recorrente das fotos do estado do corpo de Serena para me desestabilizar. Longas e tortuosas horas presa em um cômodo fechado sendo interrogada. Testes de polígrafo os quais foram efetuados três vezes – tudo para recolher qualquer vestígio de incriminação contra mim.
Os pais de Serena me ameaçando e me acusando como responsável. A fúria resplandecente do olhar da mãe dela em específico, os quais não foram meramente os olhos de uma mãe de luto, mas o olhar de uma mulher que almejava pura retaliação, cujo alvo principal era eu.
Essa mulher será assombrada eternamente pela visão do que restara do corpo de Serena, de forma mais hedionda que eu. A devastação ocasionada pela lâmina caótica destruiu a vida de quem poderia ser uma das melhores competidoras de esgrima da atualidade. Mas ela era muito mais do que isso: era uma filha, uma inspiração, uma luz.
Agora não sei se será eu ou o verdadeiro responsável quem sofrerá as consequências dessa morte horrenda. Minha única chance de sobrevivência é expandir meus horizontes e desvendar esse assassinato. Isso sem dúvidas não irá livrar as manchas que esse evento tivera sobre minha alma, mas com certeza me garantirá instantes de paz e tranquilidade, sensações agradáveis que tornaram-se desconhecidas para mim desde que fui injustamente acusada.
Perante as curvas das ruas esparsamente iluminadas por fachos de luz provindos dos postes de eletricidade, eu manobrava a bicicleta com um pouco mais de cuidado, porque a última coisa da qual precisava era me acidentar em meio ao trajeto.
E assim pude finalmente chegar no portão de ferro entreaberto do cemitério escuro, às exatas onze horas e dez minutos.
Desci da bicicleta com alguma dificuldade devido à minha altura que impedia minha descida do veículo. Entretanto, ao pôr os pés no chão e contemplar a ambientação deserta da região, senti a euforia que cultivei para chegar até lá se esvaziar a partir de cada passagem de segundos.
A lua crescente me acompanhava sob as névoas das nuvens leves a cercar os céus rubros. Inquieta, fiquei a andar de um lado para o outro enquanto observava os minutos passarem no meu relógio de pulso.
Finalmente, a desilusão das minhas resoluções impensadas foi desabrochada com a chegada das onze horas e cinquenta minutos. Ninguém que estaria nos arredores daquele cemitério deserto poderia me oferecer respostas. E eu, uma tola de ímpeto agudo, vim a me desapontar com a imprudência desbravada a qual me governava diversas vezes.
Minha vontade era de rasgar aquele maldito bilhete em frangalhos e jamais me aventurar dessa maneira novamente. Mas assim que recolhi o bilhete em meu bolso e o avaliei mais uma vez, acabei por considerar a possibilidade de ele ser real, ainda que seu propósito não tenha sido efetuado. Resolvi guardá-lo comigo para ocorrências futuras e permanecer por mais algumas horas.
~
Fiquei até às três da manhã no cemitério, quase à beira de ceder ao sono traiçoeiro que veio a se apossar do cansaço do meu corpo. Havia me escorado na parede da entrada do local e sentado no chão após minha frustração ter amenizado. E o único motivo que me levou a retornar à escola nesse horário, foi para conseguir devolver a bicicleta ao seu devido lugar antes do sol raiar.
Minha viagem de volta acabou sendo menos veloz, e muito mais cautelosa. Os vigias do toque de recolhimento ainda percorriam as imediações da instituição em busca de infratores.
Em minha posição atual, ser repreendida por autoridades justamente agora seria meu pior pesadelo.
Foi com muito cuidado – ou muita sorte – que pude chegar à academia Bullworth de maneira tranquila. De imediato depositei a bicicleta na localidade exata onde a encontrei previamente.
Pensamento intrusos e sórdidos vieram a permear minha mente aflita. Se tiver sido uma brincadeira de mal gosto, a probabilidade de ser alguma das meninas do dormitório é alta. Contudo, se vier a ser algo maior, o que isso significaria a longo prazo? Haveria algo maior do qual me acusar? Ou até mesmo, haveria de fato alguém que soubesse a identidade do real assassino?
Inquieta demais para cair no sono, acabei por divagar em meio a reflexões até acabar parando em meio a toca dos Greasers, situada nas proximidades de onde era conduzida as aulas de oficina. Devido às altas horas, não era possível visualizar quaisquer manifestações dos rapazes jaquetados e de topetes em relevo se concentrando nesse ambiente. Em função disso, adentrei no pequeno espaço, onde percebi que havia somente um saco de pancadas no canto do recinto e várias latas de Beam Cola espalhadas pelo chão.
Meu médico havia restringido atividades que exigissem uso de força bruta, cujo impacto poderia afetar gravemente os músculos do meu braço ferido. Só que além de esgrima, eu também sempre amei boxe, e o ardor da euforia com o qual eu havia inutilmente me dirigido ao cemitério em busca de respostas, fazia meu interior fervilhar.
E eu necessitava exteriorizar minha frustração de alguma forma.
Nunca fui especialmente criativa ou propensa a cultivar atividades de cunho artístico. Nunca soube me abrir com as pessoas, e neste caso, nem haveria como expressar o que sentia sem levantar suspeitas contra mim.
Então o que me restava era sucumbir ao desejo de me exercitar.
Removi meu casaco de lã bege e o prendi na cintura, na base da minha calça jeans clara, ficando assim somente com uma regata branca, tal qual dava a impressão de acentuar os bíceps treinados dos meus braços desnudos.
Fiz um breve alongamento para tentar suavizar a tensão centralizada em meus braços, para assim usufruir das eventuais pancadas que daria sem me prejudicar além do necessário.
Desferi então golpes viciosos contra o saco de boxe, ignorando o impacto árduo que cada pancada certeira resultava em meu braço afligido, alastrando uma onda de dor lancinante pelos músculos e tendões conectados ao núcleo da minha lesão permanente.
Na decorrência dos meus ataques, lembranças de minha última batalha contra Serena me vieram à tona, aflorando em uma afluência desconcertante. O ringue de esgrima em sua amplitude facilitava a movimentação expansiva. A rítmica estratégia que voltava para investidas ofensivas era pausada, e no entanto, igualmente brutal.
O ataque final dela fora mais do que bruto: foi decisivo. Serena destruiu a mobilidade do meu braço com um único acerto bem efetuado. A fúria com que ela avançou contra mim foi desproporcional, mas o olhar de profundo arrependido que ela me lançara ao remover sua máscara de proteção foi inesquecivelmente genuíno.
Senti meus socos se tornarem ainda mais agressivos à medida que me recordei dos olhos cristalinos de Serena, antes tão belos em sua clareza esplendorosa, revelados sem brilho nas fotos periciais de seu assassinato.
Lembrei-me dos cortes, do sangue espesso espalhado pelo cômodo onde ela viera a falecer, que eventualmente se transformara na cena de crime invadida pelos investigadores e agentes policiais interessados apenas em coletar o máximo de evidências contra mim.
Minha concentração estava tão aguçada para essa angustiosa reminiscência que só após longos minutos percebi a presença de outra pessoa naquele lugar.
Um aroma irresistível de cigarro aromatizado com sabor de cereja impregnou meu olfato, fazendo com que eu abruptamente interrompesse minhas investidas contra o saco de boxe.
Ainda arfante e dolorida, direcionei meu olhar à minha direita, onde então me deparei com a visão de uma garota a quem não tinha visto antes.
Sua jaqueta de couro sintético brilhava em meio à claridade do luar, denunciando seu status como sendo vinculado aos Greasers. Os cabelos acastanhados, cujo comprimento deixava à mostra o pescoço envelopado em um lenço escarlate, pareciam lustrosos e bem escovados, revelando sob a luz um tom levemente acarminado.
Ela trajava uma calça de couro bem ajustada às suas curvas esbeltas, bem como uma camisa clara de mangas finas que exibia sua barriga chapada. Seus lábios vermelhos, carnudos e curvilíneos, eram talvez uma das coisas mais tentadoras que já vi em uma garota – um instrumento de pecado com o potencial de levar qualquer homem a se render ao encanto magnético que ela emanava, somente para posteriormente se encontrar sozinho na manhã seguinte, deitado na cama de uma estranha com um gosto de vinho infiltrado nos lábios.
Ela estava escorada em uma parede à minha direita, fumando descontraidamente enquanto seus olhos de tom castanho escuro me acompanhavam extasiados. A nuvem de fumaça espessa que criava uma parede de neblina diante de seu rosto me dava a estranha sensação de que ela não era real, mas sim o produto de um sonho lívido e erótico.
― Oh, por favor, não pare por minha causa ― Pediu com um sorriso felino a enfeitar seus lábios recheados de uma malícia perceptível. ― Sou Lola. Lola Lombardi. Talvez tenha ouvido falar de mim. As cadelas de Bullworth não falam sobre outra coisa.
Lola Lombardi. O nome me era ligeiramente familiar. Recordava-me vagamente de ouvir alguém mencionando algo sobre uma Lola no dormitório feminino, dizendo que ela era uma “vadia”. Não me lembro exatamente quem proferiu a ofensa, mas o contexto tinha algo relacionado a um certo Johnny, a quem também desconheço inteiramente.
― Aqui é na verdade um dos locais que me pertence ― Anunciou repentinamente, o cigarro brilhando como uma estrela vermelha na escuridão da noite, envolto por seus delicados dedos, cujas unhas estavam pintadas com esmalte vermelho.
Lola não parecia sentir-se enfurecida com minha presença intrusa no “local que a pertencia”. Na realidade, ela parecia estranhamente deslumbrada.
Logo me tornei consciente de meu estado atual, que, a julgar pelo olhar sedutor que ela me lançava, presumi ser o motivo de sua satisfação silenciosa.
Meus longos cabelos levemente ondulados, cujas mechas soltas grudavam em minha testa suada, estavam mais bagunçados do que o normal, sugerindo em sua desordem caótica o cansaço que começava a dominar meu corpo. Meu rosto estava fervilhado, a pele ruborizada pelo esforço que eu havia empregado em golpear o instrumento de treinamento. E como eu estava sem sutiã, vestindo uma regata branca um tanto transparente, ela provavelmente deveria estar tendo uma visão privilegiada dos meus seios, assim como dos meus braços tonificados, que deixavam meus músculos tensionados à vista de seus olhos ferinos.
Por isso, vim prontamente a colocar mais uma vez o casaco largo que protegia meu corpo, impedindo-o de ser exageradamente exposto. E foi inevitável reparar na expressão de desapontamento a qual irrompera das feições predatórias de Lola.
― Me desculpe ter violado seu espaço sem permissão ― Informei envergonhada enquanto arrumava meu cabelo rebelde com as minhas mãos afoitas. ― Não imaginaria que tivesse algum aluno acordado aqui sem ser eu.
Lola, por sua vez, encerrou subitamente seu fumo, derrubando ao chão o cigarro consumido pela metade para então pisoteá-lo com sua bota preta de cano baixo. Em seguida, ela caminhou em minha direção ao longo em que mantinha seu contato visual fixado em mim.
Quanto mais ela se aproximava, mais eu conseguia detectar o seu denso perfume de lírios selvagens. E havia algo de genuinamente selvagem na essência de Lola, a ponto de me deixar ao mesmo tempo atônita e mesmerizada.
― Eu disse que não precisava parar por minha causa, não disse? ― Indagou em provocação, agora tão próxima que eu podia enxergar com nitidez a malícia sem escrúpulos emanada por ela.
― Sim, você disse. Mas eu não me sentiria confortável agora em descontar minhas frustrações no local que a pertence ― Justifiquei, sem no entanto me posicionar para sair do alcance dela. Fosse isso um ledo erro ou o que mais pudesse ser, algo em mim queria entender o fascínio quase instantâneo que essa greaser misteriosa parecia possuir pela minha pessoa.
― Então façamos o seguinte ― Propôs com intenções certamente ardilosas: ― Uma aposta justa. Eu te desafio a me derrubar. Se você vier a ganhar, este espaço é totalmente seu a partir de agora. Mas se eu ganhar, você terá de ir em um encontro comigo.
Obsceno. Era um verdadeiro absurdo sequer aceitar uma proposta dessas.
No entanto, eu sentia tanta falta de duelar com alguém que por um instante a oferta pareceu-me genuinamente tentadora. Sem mencionar que era a primeira oportunidade formal que tive em muito tempo de realizar isso.
Nunca em toda minha vida vim a negar um desafio. E ali estava Lola, com sua índole suspeita e objetivos claramente deturpados, me oferecendo algo impossível de se resistir.
Sem me conter, revelei a ela minha decisão final:
― Desafio aceito.
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