Black Tangled Heart
1 They promise Heaven, so they can steal this world.
Notas iniciais
Eu só queria viver em paz, queria que me deixassem em paz. Porém, quando elas não estão aqui, eu me sinto sozinha. Sinto saudades. Estou presa em um ciclo vicioso, onde a única a perder sou eu mesma.
Eu queria fugir dali, queria um pouco de silêncio. Porém, independentemente do quanto eu corresse, sempre haviam vozes. Em todos os lugares. Exceto quando havia sangue. As vozes adoram sangue, elas ficam em silêncio para ouvir a sinfonia feita por um coração batendo e uma ferida aberta.
Só que não é qualquer sangue. Eu tentei diversas vezes mostrá-las que há outros por aí, mas elas gostam de mim. As vozes me amam. Elas amam o meu sangue.
Mamãe e papai queriam que os médicos cessassem minhas vozes, e eu também quero, mas eu não sei se aguento o silêncio. Eu acho que também as amo. Só que agora todas essas luzes e pessoas falando comigo estão me deixando nervosa. Eu quero sair daqui.
Esses estranhos me observam, sorriem para mim e me fazem tomar vários remédios coloridos, grandes e pequenos. Às vezes eu apenas finjo tomá-los, pois as vozes me dizem que eu não preciso deles. No entanto, eu me sinto triste sem eles, e sinto vontade de parar de respirar. No entanto, mamãe me disse que uma garotinha não deve pensar isso, não. Mas então por que as vozes dizem que eu devo me machucar? Eu não entendo.
Eu só quero sair daqui. Não quero mais essas pessoas de branco olhando para mim o tempo todo. Eu quero ficar sozinha. Eu não quero a mamãe nem papai, eu quero só as vozes. Aliás, eu quero só a mim mesma, mas eu não consigo me achar. Aonde eu me perdi? Quando foi? Eu gosto de viver em um pesadelo, pelo menos minha vida parece mais legal do que comparada às garotas da minha escola. Elas gostam de rosa, enquanto eu só aceito matrizes mais escuras do que cinza.
Papai uma vez me disse que eu vejo o mundo como ele é, que eu sofro do mal dos inteligentes. Papai sabe de muita coisa. Eu gosto de pensar que ele está certo, mas ouvi mamãe dizer chorando que tem uma filha louca. Eu não sou louca mamãe, não sou não. Ela sabe disso agora, eu mostrei para ela que não sou louca.
As vozes estão discutindo. Elas querem sangue, elas querem sim. Já faz algumas horas desde que eu as acalmei. "Parem de ser ansiosas!" Eu as digo, mas não adianta. Elas querem tudo na hora, foi assim quando me disseram que mamãe e papai mereciam uma lição por me colocarem no mundo, por me fazerem defeituosa. Depois, elas disseram que eu merecia uma lição por fazer aquilo com os dois. E aqui estou eu, não consegui aprender minha lição direito.
Eu calcei meus chinelos brancos e andei até o banheiro. Uma moça de branco veio até mim e me perguntou se eu queria algo. Ela disse que não pode deixar nada perto de mim, nada pontudo ou afiado especificamente. Será por isso que não vou mais à escola? Por que há apontadores demais?
De qualquer forma, fui até o banheiro e olhei meu reflexo no espelho. Meu cabelo parece tão estranho, minha pele está pálida e eu não consigo me encontrar naquela imagem. Aquela não sou eu, aquela são as vozes. E elas não gostam do que veem. Não sei qual delas me diz que devo quebrar esse espelho, então eu o faço.
O sangue começa a escorrer. As vozes ficam tão felizes, que acabo sorrindo também. Uma delas me dá uma ideia brilhante: usar os cacos para conseguir mais sangue. Claro! Eu pego o pedaço mais pontiagudo que consigo e o aperto contra a minha pele. De início, a dor é um tanto aguda, mas não demora e eu me sinto anestesiada.
Depois de alguns minutinhos sentada no chão, assistindo o sangue e ouvindo as vozes me congratulando, começo a sentir minha visão ficando turva... Tudo começa a rodar e eu me sinto caindo e, ao mesmo tempo, subindo. Minha visão escurece de vez e eu sinto um último baque ao atingir o chão, parece mais com um cutucão, mas um toque muito distante, quase imperceptível. Ouço umas batidas na porta e um último martelar, um som interno, talvez seja só meu coração tentando manter-se vivo. Ele não entende que eu morri há muito tempo.
Eu estou feliz agora. Estou livre, finalmente.
As vozes venceram.
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