Black Butterfly

1 Capítulo 1- Alguns dias antes


Tanto sofrimento, tanta dor, eu preciso poder acabar com isso. Não sei o que fiz para que me tratassem assim. Todos fazem o que for preciso para terem o que querem, e a amizade, a família e o amor, são esquecidos. Uma dor física não será suficiente para satisfazer minha sede de vingança. Queria fazer com que sofressem da mesma maneira que fizeram comigo. Eles sabem que não tenho nenhum poder sobre eles e não posso revidar. Não posso fazer com que desejem morrer. E sei que não conseguiria forçá-los.

Eu sei que preciso fazer algo ou nunca poderemos viver em paz. Preciso de um jeito de matar. Fazendo com que sofra até que deseje a morte e o fim da dor. Pelo menos aqui não podemos morrer de qualquer maneira. Não há assassinatos, nem massacres. Não há homicídios, mas suicídios. E não pense que é ruim, é bom, dizem que você não sente nada. Pelo menos é o que dizem já que ninguém nunca sobreviveu é claro.

Deve ser maravilhoso, se livrar desse mundo terrível, cheio de dor e sofrimento. É o caminho mais fácil. Parar o coração como se para de andar ou de comer. Você sente seu instinto pedindo para você continuar vivo, como se pedisse para respirar. Mas é apenas desistir, fácil assim, parar de sobreviver e lutar, desejando com o fundo do seu coração, ele entenderá, afinal é ele quem sente, e num segundo ele para. Sendo assim, eu estaria lhe fazendo um favor. Creio que não quer viver em um mundo de sofrimento, então eu lhe daria a doce saída, o presente da morte. Uma morte que não a faria sofrer. Depois de tudo que fez em sua vida, criando sofrimento até em quem lhe dava amor. Nunca vi alguém assim, que fizesse com todos se encantassem com sua aparência e jeito de ser. Sem saber seus segredos, se apaixonavam e não sabiam da maldade escondida debaixo daquele rosto bonito. Imagino que não vá querer se matar tão. Então eu faria isso. Mataria. Tiraria-lhe o sofrimento...

—Olá Aila, como está Davina?

— Como vai James? Sua mãe está bem, ela está no quarto. Depois de tanto tempo... Ela finalmente poderá sair hoje.

— Posso vê-la?

— Claro. Você sabe o caminho.

Assenti. Minha mãe está em observação aqui na clinica há muito tempo, desde o que o meu pai fez com ela. Ela era uma criada em sua casa. É claro que ela sabia que meu pai estava casado, e que já tinha uma filha, Elizabeth. Mas ele a enganou, disse que a amava e nunca iria abandoná-la, eles se tornaram amantes. Foi perfeito até que minha mãe engravidou. Ele se enfureceu e a espancou. Ela só não morreu porque não é possível morrer enquanto se carrega um filho na barriga. Ao se enfurecer, a fez pagar por uma coisa que não era somente sua culpa. Só não se matou por outra vida. Havia dois corações e é impossível de pará-los neste caso. Mesmo com a falência de um coração o outro continua batendo, e se ela morresse o que seria de mim? Meu coração foi a única coisa que fez com que ela não desistisse, que fez com que ela não morresse, o amor por uma pessoa nem consciência havia adquirido, mas não impediu que fosse machucada. Depois que eu nasci ela teve que ficar sob observação na clínica até se recuperar. Até hoje.

— Olá, mamãe como está?

—Jamie! Que saudade! Eu senti muito a sua falta — ela me abraçou — Que bom te ver!

— Eu também mãe, mas foram apenas três dias. Eu quis te ver antes, porém estive muito ocupado.

—Mas não se compara ao tempo em que esteve ausente.

—Se meu pai tivesse me contado a verdade antes eu teria te visitado. Você sabe disso, não é mesmo?- perguntei

— Eu teria feito o mesmo se tivesse condições. Sinto muito querido, não queria que você me visse daquela maneira. Pensava em você todos os dias. Não desisti por você- abracei-a em meio às lágrimas — O que está acontecendo meu filho? Você parece cansado. Jamie, pode me contar tudo.

Suspirei. Eu tinha que contar a verdade, eu sabia que minha decisão foi difícil e eu precisava contar a verdade, com Elizabeth presa eu não tenho mais ninguém a quem pedir ajuda. Eu não queria que ela soubesse da verdade por outra pessoa. Eu não mudarei de ideia não importa o que aconteça.

— Estou perdendo a paciência. Desde pequeno quando Anya perdeu a memória, venho sofrendo. Eu não tenho mais paz na minha vida. Eu sei que o meu coração pertence a ela, mas não podemos ficar juntos. E se continuarmos assim nunca será possível. Não posso abandonar as coisas, não do jeito que estão agora. Têm pessoas sofrendo, pessoas que eu amo — disse — Se fosse possível matar...

— Meu filho, se é isso que o aflige você tem que achar uma solução. Você já falou com a Anya querido? Eu sempre achei que vocês ficariam juntos um dia.

— Eu sei mãe, esse também é o meu desejo. Eu a amo. Mas esse problema não tem outra solução. Compreendo que não tem outra maneira de matar, a não ser que a pessoa sofra até desejar a morte, seja por amor ou por dor. Imagino que não ame ninguém de verdade ou que realmente sinta dor. Não há como quebrar seu coração se não possui um. Como quebrar o coração de alguém que não o possui?

—Mas quem o causou tudo isso meu filho? Certamente seu pai. Eu já me apaixonei por aquele cretino- me perguntou enquanto me segurava em seus braços, tentando me dar o conforto que sempre faltou em minha infância.

—Há alguns nomes, mãe, que são as causas da dor. Mas o principal, e mais doloroso: Anya, querida Anya. Sei como o mundo é injusto, sei que sempre há dor. Sei que está sofrendo, e como finge estar feliz, enganando a todos, a não ser eu. O seu sorriso parece doce, porém se torna cruel a quem sabe a verdade. Com seu rosto simpático, me pergunto se possui verdadeiros sentimentos, ou se só finge os ter. Só sei que, em algum momento de sua vida, sofreu como todos um dia sofrem. Pois quero a livrar de qualquer sofrimento, nos libertando da dor eterna. E sei que só há um jeito de fazer isto; tirando sua vida. Ainda não sei como, talvez seja impossível, mas vou conseguir. Eu preciso conseguir, não posso deixar as coisas como estão.

—Se essa é a única maneira de acabar com seu sofrimento... Eu sei que não pude te ajudar a crescer como deveria, e te afastar daqueles que nos causaram tanto mal, sinto pelo que seu pai fez você passar. Todos esses anos com ele te maltratando sem que eu pudesse impedir. Sinto muito mesmo Jamie. Você não sabe o que ele me fez passar. Sobrevive graças a você. Espero que um dia você me perdoe.

—Eu já te perdoei mãe. A culpa não é sua.

—Mas eu quero compensar isso. Eu vou te ajudar. Tem que me prometer que vai manter isso em segredo. Eu ouvi dizer que existe outra maneira. Ninguém nunca tentou antes porque dizem que as consequências são terríveis. Se for o que você precisa... Precisa ir até a biblioteca. Acho que está escrito em um dos livros originais. Tenho uma amiga que trabalhava lá, seu nome é Caledônia, procure por ela.

Minha mãe deve acreditar que tenho intenções de matar meu pai. E é melhor que pense assim. Não sei se ela me entenderia ou sequer aceitaria. As pessoas têm maior preferência para resolver seus próprios dilemas.

—Eu agradeço por isso mãe. Resolveria nossos problemas se eu achasse uma solução.

Minha mãe, como eu, ainda não tinha um lugar para ficar, moraria ali desde que ajudasse na clínica. Um paciente no estado em que estava... é quase um milagre que tenha se curado da depressão.

A biblioteca do vale era uma construção de madeira antiga, com flores ao redor, e plantas em seu telhado, rodeada de árvores e bancos de troncos, o cheiro de terra molhada e folhas mortas permeava o ambiente. Adentrei pelos portões danificados pelo tempo, no balcão estava uma senhora alta, de cabelos grisalhos e olhos verdes, abriu um amarelo sorriso, pintado com polderos e cera de mel, “Caledônia” costurado em seu vestido verde, meio esfarrapado e limpo.

—Lembra-se de Davina? Ela é minha mãe, pediu que eu procurasse pela senhora, ela quer que eu pegue algumas informações nos primeiros livros.

Ao ouvir o nome de minha mãe ela tirou suas lentes de um livro marrom, e mirou em minha direção espantada.

—Mas... isso é impossível. Não blasfeme rapaz. Davina está morta há 16 anos, não ouse invocar seu nome.

—Eu não seria tão insensato. Eu juro que digo a verdade. Ela esteve no Abraço ao Coração durante todos estes anos, meu pai a manteve lá pois estava grávida, fez de tudo para esconde-la, e quando eu nasci, me raptou e levou para sua casa como um servo qualquer. Minha mãe, depressiva após o parto de risco, foi tratada como louca. Só minha mãe, ele e sua mulher Nimue sabem a verdade.

—Se isso for verdade...Qual seu nome?

—Jamie. A única coisa que minha mãe pode me dar foi meu nome.

—Por Gerlane, é o nome que ela sempre admirou- suas mãos enrugadas e frias pegaram as minhas-por favor diga que ela está bem.

—Agora, está. Porém não pode ser vista, meu pai a odeia e vai querer vê-la sofrer se souber que ela se recuperou.

Seus olhos já marejavam, me fez prometer que a avisaria quando pudesse visita-la, eu não acreditava que voltaria áquele lugar, mas concordei mesmo assim, ela me entregou me uma chave e indicou onde ficavam os primeiros livros que foram escritos que contam a história do vale, dos primeiros habitantes, as leis, as regras. Lembro-me das belas histórias contadas pela mãe de Elizabeth que eu ouvia pela parede. Ela nunca me tratou como um filho, e tem motivos para isso.

“Sua irmã será a última aqui a morrer, a partir de agora não haverá mais mortes. Só morrerá quem desejar. Ao consumirem do vale vocês se tornaram imortais. Seus filhos e os outros habitantes crescerão até sua idade atual, 25 anos, e não envelhecerão mais, isto pode ser uma dádiva, mas também uma maldição, por isso, cuidado. Receberam também asas, usem as com sabedoria e se for necessário. Respeitem o vale e ensinem seus filhos a fazerem o mesmo. Criem sua história e sua própria cultura. Construam sua vida no vale. Vocês são os primeiros humanos a vir aqui. Outros virão. Caso não os julguem dignos de viver aqui, devem consumir a erva que cresce próximo a árvore e não lembraram de ter vivido nesse lugar. Não é seguro que os outros saibam a verdade sobre o vale. Quem sair daqui perderá completamente a memória, junto com as asas e a imortalidade. Devem viver em paz e em harmonia. Obedeçam minhas ordens ou haverão consequências.”

Notas finais
primeira vez escrevendo aqui, pretendo continuar com os próximos capítulos, espero que quem ler goste :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.