Black
1 One-Shot
O doce barulho dos pingos de chuva na janela não amenizava minha dor, porém tão pouco a aumentavam. O buraco que permanecia dentro de mim a cada dia se aumentava, tornando meu mundo extremamente sem graça ou sem sentido. Caminhava pelo piso de madeira antiga barulhenta, seguia em linhas retas até chegar ao quintal, um antigo belo quintal, suas flores já estavam murchas, as árvores sem vida e a grama já não era mais lá essas coisas. Fazia muito tempo, mas muito tempo, porém, ali era meu lugar favorito e por mais que doesse ter as lembranças vindas à tona ali, era melhor do que estar sozinho em casa.
Pude ouvir paços vindos por trás de mim, rapidamente me virei e dei de cara com Uruha, que me fixava atentamente.
- O que faz aqui? – Perguntei seco.
- Ruki, sabe que vir aqui não te levará a nada – Falou ele se aproximando de mim. – Estar aqui não fará voltar no tempo, só te trará lembranças e elas estão atrapalhando sua vida.
- E quem é você para questionar sobre minha vida hein? – Falei grosso, Uruha arregalou os olhos, mas ainda sim continuou.
— Ninguém gosta de te ver assim, já se passou um ano. Se estiver vivo, já teria voltado Ruki, deixe de sofrer em vão. Não te levará a nada, nem trará nada de volta.
Abaixei a cabeça, encostei minha mão em uma flor murcha, seus espinhos cortaram a pele de meu dedo, o sangue escorreu levemente até meu pulso. Não era um prazer ver meu próprio sangue sendo derramado, mas imaginar que o sangue de que amava poder ter sido derramado em excesso me deixava tenso, Uruha estava certo, não tem como voltar atrás, se eu soubesse que o amor de minha vida sairia de casa após mais uma de nossas brigas diárias, eu teria sido mais carinhoso e não seria tão problemático. Por favor, me devolva o tempo.
- Ruki, essa dor só vai amenizar quando você estiver disposto a deixá-la, abandoná-la de lado. Sua vida não é mais a mesma, sei que você sente falta de voltar aos palcos, nós também...
- Como voltar aos palcos?! Como?! Sem um membro essencial do grupo? Como poderíamos tocar para aquelas multidões?! – Uruha abaixou a cabeça e disse:
- Temos que seguir nossas vidas, Ruki. Independente se este alguém faça parte dela ou não. Bom, vim aqui só para te falar isso, mas se nem você próprio quer deixar essa dor de lado, então, me desculpe Ruki, mas ninguém poderá te ajudar.
Então Uruha se retirou do jardim e continuei ali, parado, imóvel, deixando o pouco de sangue restara de meu corte continuar por cima de minha pele branca. Realmente, passado é algo que não se muda e nem se altera, presente é aquilo que podemos fazer agora para termos um belo passado e futuro é a única coisa que podemos planejar, mas nunca sabemos se vai se realizar.
- Obrigado Reita.
Falei deixando que minha voz escutada mundialmente tocasse aquele lugar sem vida, mas que um dia teve, dias belos que ficarão marcados por meu passado.
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