Bittersweet

3 Cap 3 – Thiller


Hoje é sábado e Marcos vai vir aqui ver um filme. Nós sempre fazemos maratonas de filmes ou séries, já é quase uma tradição entre nós. E enquanto eu espero ele chegar, meus pensamentos ficam embaralhados em minha cabeça, pois já faz uns 4 meses que eu e Kaoru convivemos juntos. No começo eu tinha um leve interesse por ele, agora, não consigo mais evitar de pensar em seu sorriso, seus gestos, seu jeito doce, sua felicidade irritante. Eu goste dele.

Depois daquele dia na biblioteca, em que ambos falamos bobagens e ficamos envergonhados, outras situações parecidas ocorreram. E nesses momentos, ele costuma ficar um pouco embaraçado também, e isso me faz ter um leve fiu de esperança de que talvez ele também sinta algo por mim. Um fio bem pequeno. Praticamente um fio de teia de aranha. Eu só não quero ter esperanças e me decepcionar, já passei por isso antes.

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!

Há! A campainha. Deve ser Marcos.

–Oi cara!

–Entra...

–Eu trouxe uns filmes muito maneiros para vermos!

–Ok, vou fazer pipoca.

Enquanto eu faço pipoca, meus pensamentos continuam indo e vindo, entre o microondas e Kaoru, entre as pipocas e o carinho com o qual ele me trata, entre a gigante tempestade se formando lá fora e uma vontade de querer contar a ele o que eu sinto.

Nosssa! O tempo está horrível.

...

Depois de a pipoca ficar pronta, escolhemos o primeiro filme e começamos a assistir. No entanto nós só conseguimos ver o filme até a metade. Assim ficamos conversando naquela tarde tempestuosa parecida com um filme de terror.

–Bla bla bla...

Por quê não assistimos o filme até o fim? Simplesmente porque o mundo está caindo lá fora. Uma chuva horrível começou logo depois que Marcos chegou e foi piorando, assim, como se a vida não fosse sacana o suficiente, faltou luz.

–Bla bla bla...

Típico clichê de filme de terror. Ultimamente minha vida parece um livro ou filme mal escrito, cheio de clichês e de péssimo mal gosto. Deve ser a vida rindo da minha cara, ela deve estar dizendo: “Você gosta tanto de viver em outros mundos, com seus livros, filmes e quadrinhos, então, que tal eu encher sua vida de melodrama romântico de uma história bem clichê, dessas que você está sempre lendo e vendo.” A vida é uma bosta!

–Bla bla bla...daí ela ficou brava. Han?

Ele estava falando comigo?

–O quê?

Marcos, bravo, avançou em minha direção e começou a bagunçar meu cabelo freneticamente. Ele faz muito isso. Meu cabelo torto, já é péssimo por si só, e quando ele faz isso, fica parecendo um ninho de ratos. Ha! Meu cabelo é torto porque eu mesmo o corto. Assim ele fica todo irregular. Minha franja fica com fios muito curtos e outros muito longos, como todo o resto do cabelo. Marcos briga comigo por não ir ao cabeleireiro, no entanto, por que tenho que pagar alguém para cortar meu cabelo se em casa eu tenho tesoura, um espelho e não preciso pagar a mim mesmo pelo corte?

– Eu estava falando que briguei com a Márcia e o Tom.

–Desculpe...

–Você anda bem distraído. Mais do que o normal. Está tudo bem?

Não...

–Sim.

–Posso te fazer uma pergunta pessoal? Sei que esse é o tipo de pergunta que você mais odeia, mas se eu não perguntar, sei que você nunca vai tocar no assunto.

Ele vai fazer de qualquer jeito...

–Tudo bem. Sei que você vai fazer de qualquer jeito.

–Hehehehe. É por isso que somos amigos, nós nos entendemos. Bem...você gosta do Kaoru?

Um dos motivos de eu gostar de Marcus é que ele é sempre direto, nada de rodeios com ele.

–...eu...eu... acho que sim.

–Hun...eu demorei pra perceber...você é um cara difícil de ler, e eu sou meio lento para essas coisas. Você pretende contar pra ele?

Nem pensar!!!

–Não.

–Não é por causa daquele cara né? Você tem que esquecer isso...aquilo já passou.

“Aquilo” me machucou muito, mas me ensinou muito. Não sou idiota, sei que tristezas e decepções são necessárias para que futuramente façamos escolhas melhores e sejamos mais felizes. Hehehehe...é impressão minha ou isso soou muito positivo. Tenho que parar de andar tanto com Kaoru, sua felicidade é contagiosa.

–Eu não quero contar para ele por que não sei se ele é gay, bi, ou extraterrestre. Não é por causa daquele idiota, seu idiota.

–Se ele for hétero você não vai contar?

–Sabe...acho que eu simplesmente prefiro não saber...é...

–Você é um idiota!

–Cala boca...hehehe

–Hehehehe

...

Já se passou mais uma semana da minha triste vida estudantil, familiar, social, espacial, marítima, e etc, etc, etc. Não importa, em qualquer lugar ela seria assim, horrível. Estudar é um saco. Férias são puro tédio. As mídias que acompanho, seja lendo ou assistindo, me distraem e divertem, é o que mais gosto de fazer. Já ouvi pessoas dizerem que alguém que fica só lendo, ou vendo filmes está desperdiçando sua vida, vivendo uma história que não é sua. Ridículo! Eu estou vivendo muitas histórias ao mesmo tempo, incluindo a minha mesma.

Por que estou pensando em tudo isso? Porque agora, nesse exato momento, estou na casa do Kaoru, em seu quarto, sentado no chão, ao seu lado. Estou em uma situação muito difícil, e estou pensando em qualquer coisa que me faça não pensar nesse momento de agora.

Kaoru me convidou para vir aqui ver um filme. De terror. De novo. Não consigo deixar de pensar que isso é um aviso de que algo ruim está para acontecer. Maus agouros...

–Qual desses dois vamos ver?

Kaoru me estendeu dois DVDs.

–Hun...eu acho esse mais divertido.

–Você já viu os dois? Droga...eu devia ter pego outros.

–Hehehehe. Tudo bem, eu vejo muitas vezes um mesmo filme.

–Você não vai muito aos jogos dos times do colégio né?

An?Que mudança de assunto repentina.

–É. Esportes são melhores quando se está jogando, do que quando se está assistindo.

–Hun...mas seria legal ter você lá. Torcendo por mim e pelo Marcos.

–Talvez no próximo...

Kaoru estava me mostrando outros filmes de terror que ele tinha. Será que ele acha que eu só assisto esse gênero? Ele estava muito bonito naquele dia. Com uma roupa simples, casual, mas com o cabelo diferente, todo jogado para trás. Eu gosto dele. Devo lhe contar? Ele se inclina na minha direção, com milhares de DVDs na mão. Não prestei atenção em nenhum, eu só conseguia olhar para seu rosto. Sem pensar. Por que seu eu tivesse penado jamais teria feito isso.

Inclinei-me em sua direção. Quando ele virou sua cabeça para mim, nossos rostos estavam muito próximos. Eu já estava ali, resolvi seguir em frente. Tentei beijá-lo. Quando nossos lábios estavam quase se encostando... Eu recuei.

–Me desculpe...acho melhor eu ir.

Eu levantei e saí. Droga! Eu devia ter continuado? Não posso fazer isso com ele. E se ele me odiar?

–Kannnn! Espera!!

Tarde de mais, eu já ultrapassei a porta, estou na rua. Agora posso fugir.

– PARAAAAA!

Que alto. Eu paro e me viro. Foi no automático, não pensei ao fazer isso. Kaoru se aproximou de mim e eu recuei. Antes que eu pudesse virar de novo e correr, como um idiota apaixonado de comédia romântica que se confessou e foi rejeitado, ele segurou meu pulso. Com muita força. Estava determinado a não me deixar ir.

–Por que está chorando?

–O quê?

Coloco minha mão no rosto e sinto-a molhada. Eu estou chorando...mas por quê? Meu coração dói, não consigo pensar direito, me sinto idiota e fraco.

–Me desculpe...eu...eu não sei porque estou chorando. Me desculpe pelo que eu fiz...

Digo isso secando o rosto.

–Para! Não se pede desculpa por se confessar a alguém!

O que ele está falando? Ele não está bravo?

–Han,você gosta de mim?

–Aaa...eu...

O que ele quer?

–Se você gosta de mim me diga. Não fique se escondendo no seu próprio mundo, isso só vai machucar você.

–Não posso...eu já fiz isso antes...e ele me rejeitou. Ele disse que é ridículo um homem gostar de outro.

Estou com medo.

– Eu sou seu amigo, independente do que tenha pra me dizer, eu vou tentar entender e te ajudar. Confie em mim.

Eu quero contar...quero que ele me aceite, mesmo que não sinta o mesmo, não quero perder sua amizade. Estou preso em um filme de terror.

–Eu gosto de você!

Pareceu durar uma eternidade, essas 4 palavras.

–Fico feliz com seus sentimentos...por favor não fuja mais de mim.

As lágrimas não caíram mais. Kaoru veio em minha direção, ficou perto de mim, não sei qual era sua intenção, mas não vou esperar mais. Pro inferno! Eu me joguei em sua direção e o beijei.

Ele retribuiu...