Bittersweet.

29 29. Amanhã é outro dia.


Notas iniciais
Boa leitura.

— Sabe ouriço — começou calmamente enquanto se sentava na cama, dois potes de cores escuras estavam encima da mesa onde estava ele a encontrou sentada, seus olhos castanhos eram sérios, mas também carregavam um teor de dúvida — eu não sei o quão íntimo era o relacionamento de você e seu, uh, parceiro, mas, acha certo esconder disso dele?

— Uh? — Perguntou confuso, a pergunta pegando-o desprevenido. Estava com as pernas fechadas com força e seu rosto demonstra todo um constrangimento, ela apenas lhe deu um sorriso calmo.

— Acha certo privar alguém que perdeu tudo, a oportunidade de ter uma família? — Perguntou mais claramente, retirando as luvas de látex que usava, substituindo pelas suas marrons de tecido grosso e dedos nus, pegou as nas mãos, enquanto fazia a pergunta, não encarou o ouriço, seu semblante era cauteloso e até mesmo um pouco triste.

— Eu... — Foi a primeira vez que essa pergunta veio a sua mente, nunca havia pensado nisso.

Agora que a pergunta veio à tona, era realmente justo esconder sua gestação? Afastar-se de Shadow e privá-lo de acompanhar o desenvolvimento de seu filho? Ou melhor, ele seria forte o suficiente para conseguir se afastar de Shadow?

Era a primeira em tanto tempo que o ouriço se sentia protegido, como se todos os medos fossem nada, senão uma lembrança distante. Mesmo que fosse ridículo, até mesmo um pensamento gay demais para Sonic, ele nunca pensou que fosse gostar tanto de desfrutar a companhia de Shadow, não só a companhia, como se sentir perdidamente apaixonado.

Era por isso que amava a criança que há pouco tempo soube que existia e crescia dentro si, se não tivesse tocado sua segunda genitália enquanto Mary lhe introduzia o comprimido, mais por curiosidade que outra razão, nunca acreditaria que algo assim poderia ocupar espaço com o seu pouco usado pênis.

Foi uma sensação estranha, ele mesmo não sabia como descrever, mesmo que seus dedos tocassem a pele mais sensível e até se estimulasse sem intenção, ainda não conseguia acreditar, era como uma novidade ou algo absurdo. Ou melhor, era absurdo, mais do que isso, loucura.

Era em momentos como esses que ele esperava que fosse apenas um sonho, que iria acordar e estaria no seu quarto, acordando para um dia cheio de corridas, rodeados de seus amigos e batalhas contra Eggman.

Talvez o fato de que estava acostumado a sua vida de batalhas e corridas, tornasse a realidade de agora ter uma família, mesmo que envolvesse apenas ele e seu filho, algo assustador, muito, muito assustador.

Como ele cuidaria de um bebê? Ele mal teve a sorte de conseguir cuidar de Tails, passando por todo tipo de luta e empecilho para que o garoto não morresse de fome, para que tivesse um teto cobrindo suas cabeças quando o tempo fechava e a chuva começava a cair. Para que ele tivesse um cobertor quente e seco para o aquecer nas noites frias, remédio quando esse adoecia. Ele não sabia como conseguiu cuidar de Tails, sendo que mal dava conta de si mesmo.

O altruísmo excessivo talvez fosse a resposta, fez uma careta a isso. Era um defeito seu, um lado mal, sempre colocar o outro acima de si, mesmo que sempre acabasse se dando mal por isso, não havia outro meio que ele não faria isso se a pessoa em questão fosse seu arqui-inimigo. Mesmo que no final se desse muito mal, ele sempre colocaria o bem estar alheio acima do seu.

Foi uma das razões pela qual nunca se importou de ‘dormir’ com Shadow, se ele estava bem, estava tudo bem, certo? Errado. Ele não sabia que poderia desencadear toda essa confusão, não sabia que poderia carregar uma criança, conceber um filho, parte seu e de Shadow.

“Não. Esse filho é meu, só meu.” Pensou, sua mão acariciando sua barriga, olhando para o perfil da morcega com uma expressão decidida.

“Acha certo privar alguém que perdeu tudo, a oportunidade de ter uma família?” A pergunta ressoou em sua mente, quando a dúvida também se fazia presente, era certo? Era realmente honesto com Shadow?

— Você deixaria seu filho crescer sem um pai? — A voz da morcega se fez presente, o mais sério do que ele imaginava, não podia ver toda sua expressão, mas a pergunta lhe pegou desprevenido para não se importar com isso.

Ele nunca teve um pai, sua mãe e seu ‘tio’ eram a única família que tinha, mesmo que tentasse ignorar o vazio que sentia sempre que via algum garoto passeando ou brincando com seu pai, ainda assim desejava aquilo, sonhava com aquilo. Era um dos seus maiores sonhos de infância, ter um pai, uma figura paterna para lhe servir como exemplo, para ter consigo conversa de homens, alguém que ralhasse consigo, mas no final lhe abraçasse.

Era um vazio que ele nunca conseguiu preencher.

Ele estaria sendo justo com seu filho lhe causando a mesma dor? Embora claramente ele fosse externamente uma figura masculina, o quadro família ainda estaria incompleto, porque no fundo, ele sabia que ele não seria o pai do seu filho, ele era a mãe, apesar de constrangedor, ele se sentia como uma mãe, uma figura extremamente protetora.

Mas, ele estava tomando as decisões certas?

— Descanse ouriço. — Ouviu a voz de Mary, embora ele não conseguisse prestar atenção nela, era como se estivesse perdido em sua mente. — Amanhã é outro dia. — E com isso as luzes se apagaram e ela fechou a porta.

Parecia fácil dizer, ele não conseguia parar de pensar nas perguntas da morcega, poderia ser certo privar Shadow, que sofreu tanto quando perdeu Maria, de ter uma família? Poderia ser certo, impedir que se seu filho crescesse sem o convívio do pai? Eram perguntas difíceis, complexas, ele não sabia responder.

Shadow não era um mobian comum, ele era o Ultimate Lifeform, um ser poderoso, que podia matar a todos se assim bem quisesse, mas estaria sendo preconceituoso se admitisse que tinha medo da reação de Shadow? Medo, não. Pavor. Ele não sabia o que esperar de Shadow, pode ser uma reação furiosa, uma reação amistosa, mas ele não esperava que o ouriço negro aceitasse seu filho. Era doloroso cogitar, mas sabia que seria a reação mais lógica.

Ele o repudiaria.

Nunca o veria outra vez. Nunca teria seus toques, sua presença. Nada, só a lembrança de que ele foi real em sua vida em forma de seu filho.

Ou talvez, talvez Shadow se irritaria e acabaria o agredindo, o espancaria até que seu filho e sua vida não existisse mais. E essa, por mais que fosse radical e violenta, era a opção que mais se adequava a realidade.

Shadow nunca aceitaria seu filho, nunca aceitaria conviver no mesmo espaço com uma aberração como ele, nunca formaria consigo uma família.

Lágrimas escorriam de seus olhos, sabia que estava sozinho nessa, Tails era novo demais para entender, Knuckles era um cabeça dura preso nos costumes do século passado, Amy, estremeceu a pensar no nome da ouriça, ela certamente nunca lhe ajudaria ou lhe forcaria a casar com ela para manter as aparências e, por mais que ele tivesse uma consideração pela ouriça, não conseguiria imaginar sua vida estando junto a ela, quando a tão pouco tempo descobriu o que é amor e estava ligado, de todas as formas, a Shadow.

Sua cabeça estava cheia de pensamentos, seus medos pareciam lhe atormentar cada vez, não sabia o que faria, como lidaria, como seguiria, como conseguiria levar toda a gestação como seu início não parecia aquele mar de rosas que via dos filmes de romances que às vezes era obrigado a ver para não magoar os sentimentos de Amy.

Seus amigos não iriam lhe abraçar e desejar felicidades na gestação, Shadow não iria o abraçar e o girar em seus braços enquanto lhe enchia de beijos, não teria aqueles clichês felizes e amorosos em sua vida.

Entretanto, por mais que sua mente estivesse sobrecarregada, ele não conseguia resistir ao cansaço por muito tempo, sua recente gravidez tomando mais de seu corpo do que ele podia lidar e com resignação, seus olhos se fecharam e ele caiu no mundo dos sonhos.

O dia amanheceu, mas o ouriço ainda dormia, Mary entrou no quarto, silenciosamente e encarou a cama por algum tempo, antes de cuidadosamente fechá-la outra vez.

Os olhos verdes se abriram, assustados, olhou ao redor desnorteado antes de lembrar onde estava, na casa de Mary. Se levantou com cuidado, se espreguiçando demoradamente, um bocejo deixou seus lábios, ao mesmo tempo que um sorriso um pouco mais alegre.

Foi ao banheiro com pressa, mesmo que estivesse se sentindo mais disposto do que no dia anterior, ainda assim não podia se ver livre tão cedo das náuseas, o vaso sanitário lhe deu o bom dia, enquanto sentia como se estivesse colocando sua alma para fora, seu estômago doía e seus ouvidos zumbiam. Lá se foi o seu dia animado.

Se ergueu da privada com um gemido, uma careta se formando em seu rosto enquanto baixava a tampa e dava a descarga. Sentou encima da privada com a expressão torturada, enquanto tombava a cabeça para trás e fechava os olhos. Quantas manhãs assim ele teria que enfrentar?

Esperou seus ouvidos pararem de zumbir e seu estômago se acalmar, se levantou cautelosamente, tentando não ser rápido e precipitado demais, já teve sua conversa com a privada no dia. Não queria outra.

Escovou os dentes e lavou o rosto, secando-o com a toalha que havia ali, urinou quando percebeu que sua bexiga doía pelo tempo que não tinha usado o banheiro, devido a náusea ter sido mais gritante que a vontade de alivia a bexiga, lavou as mãos.

Saiu do banheiro enquanto olhava o quarto à procura de seus sapatos, mesmo que não fosse sair, pelo menos até que Mary o permitisse, se sentia estranho sem eles, como se houvesse algo faltando, os sapatos sempre foram seu bem mais precioso, um presente de seu tio e que mesmo com os anos, parecia que nunca envelheceria ou ficaria pequeno nos seus pés.

Foi uma invenção, já que seu tio era o que poderiam chamar de cientista, que penalizado pelo fato de que o jovem Sonic não conseguia correr como queria pelos sapatos são suportarem sua velocidade e acabarem queimando, correr descalço também não era uma opção, desde que as solas de seus pés demoravam semanas para se recuperarem da corrida.

Quando percebeu que Tails também tinha esse ânimo e lado inventor, não pode deixar de sorrir e se sentir nostálgico, mesmo que às vezes, as lembranças também vinham com o bônus de dor.

Calçou-os com entusiasmo, um par de meias limpas estavam ao lado deles, talvez uma cortesia da morcega, fez uma nota mental de a agradecer não só pela hospitalidade, como pelo apoio e ajuda, algo que ele sinceramente nunca esperou receber de uma desconhecida.

Saiu do quarto ao mesmo tempo que seus ouvidos captavam o som vindo da sala, onde parecia como se a televisão estava ligada. Seguiu para lá com curiosidade, encontrando a raposa vermelha no sofá assistindo uma espécie de desenho que ele não sabia o nome, desde que ele quase nunca assistia televisão e Tails se dizia maduro o suficiente para ficar assistir Cartoon Network.

— Oi... — Disse timidamente, quando se sentou perto da raposa.

Ela olhou para ele surpresa como se não tivesse notado a aproximação dele.

— Olá! — Deu um sorriso largo e depois voltou seus olhos para a tela à sua frente.

— Onde está a Mary? — Perguntou quando notou que não viu a morcega até momento e a casa parecia estranhamente vazia, como se a presença da morcega fosse algo crucial ali.

— Saiu. — Deu de ombros. — Ela disse que volta logo. — Completou.

— Ah. — Foi o que respondeu, antes de se recostar melhor e observar a televisão.

Encarava o desenho que passava com uma careta, enquanto Nyazu ocasionalmente soltava um ou duas risadinhas, quando o personagem fazia algo estupido ou fazia uma piada idiota. Estava entediado e não sabia o que fazer para se distrair, a raposa às vezes ria, outras pela apenas ficava perfeitamente silenciosa, como se tivesse com medo de fazer algum barulho, nem mesmo a risada dela era alta, era quase um som silencioso.

— Qual a sua idade? — Perguntou de repente, enquanto ainda olhava para a televisão e se perguntava como alguém conseguia achar graça de um desenho onde um velho vestido como criança fazia coisas incrivelmente estupidas e tinha personagens estranhos e até mesmo assustadores.

— Eu... — Ouviu a voz da raposa hesitante, desviou os olhos da televisão para a encarar, sua reação lhe chamando atenção, ela parecia frustrada. — Eu não lembro. — Disse por fim, enquanto olhava para ele com um sorriso triste e ao mesmo tempo de desculpas.

— Você tem amnésia? — Perguntou o ouriço olhando para ela de forma suave.

— Eu não sei. — Respondeu franzindo o rosto. — Eu não lembro de nada da minha vida, não sei quem sou, quem fui, nada. — Olhou para baixo tristemente, enquanto seu dedo deslizava pelos espinhos de sua pulseira, distraidamente.

— Quanto tempo você conhece a Mary? — Perguntou com curiosidade, enquanto se sentia sensibilizado pela história da raposa, de uma forma que ele não sabia que seria capaz, talvez por ela não ser a única pessoa com amnésia que conheceu.

— Dois anos, eu acho. — Respondeu com a voz pensativa. — Ela me encontrou, a primeira lembrança que tive foi dela, suja de sangue e parecia irritada. — Disse quando parecia que ela estava forçando a memória, sua voz parecia tomar um tom de dúvida.

— O que-

Antes que ele pudesse perguntar algo mais, a raposa virou a cabeça rapidamente para a direção da porta, ao mesmo tempo que se ouvia o som da porta sendo destrancada e a maçaneta se movendo, a porta se abriu para revelar Mary com a expressão irritada e Rouge logo depois, com uma expressão nada agradável enquanto fazia bico com os lábios.

— Vou te levar para casa ouriço, você está livre. Bem, não tão livre. — Foi o anúncio da morcega, enquanto fechava a porta e seguia para o corredor entrando em uma porta e voltando logo em seguida sem o notebook nas mãos.

Seu rosto se iluminou, os olhos verdes brilharam.

Iria para sua casa, não poderia haver noticia melhor.

Notas finais
Acaso houver quaisquer erros, sejam de gramatica ou digitação, por favor me avisem. Comentem caso sintam o interesse, gosto de saber sobre a opinião de vocês. Até uma próxima. by: Shadow Shirami (não devia ter ficado horas jogando Project Diva....)