Bittersweet.

17 17. Por que o herói não pode se tornar o vilão?


Notas iniciais
Capítulo pequeno, mas teve uma razão para isso~ Sem mais delongas, boa leitura.

Claro que aquilo só poderia fazer parte de uma grande loucura.

Sim, uma enorme insanidade.

Mas mesmo que ele piscasse, aqueles espinhos de cores tão diferentes de cobalto não desapareciam de seu campo de visão, pelo contrário, pareciam tão reais para que ele pudesse jogar a culpa em uma ilusão criada por sua mente.

Ele realmente não sabia o que pensar ou se havia algo realmente que poderia ser pensado.

Em todos esses anos, ele nunca pensou que algum dia ele estaria vendo aquilo, muito menos tendo os pensamentos que estavam sobre o ouriço azul, aquele sentimento de traição vinha também com raiva, fazendo com que o garoto se sentisse nauseado por tantas informações ao mesmo tempo e tão de repente.

Seus dedos tremiam, fazendo com que os espinhos que seguravam entre os dedos enluvados tremeluzissem sobre a luz que vinha da janela, não precisava olhar para saber que o sol já estava no topo, talvez já passasse das 12h, mas aquele detalhe não fazia tanta diferença quanto pareceria para outras pessoas.

Olhar para aquilo lhe fazia se sentir doente de uma forma estranha, jogou aqueles espinhos que segurava pelo quarto com raiva, sua expressão estava dividida entre repulsa e raiva.

Como Shadow ousa ter machucado seu irmão dessa forma?

Sentia tanto nojo pelo ouriço negro que chegou a rosnar.

Por que Sonic não lhe contou o que havia acontecendo com ele todo esse tempo? Por que simplesmente se deixou se violado daquela forma tão covarde?

Sua mente elaborava todo o tipo de justificativa para que Sonic não tivesse deixado ninguém saber do que ele sofria, por que razão Rouge não parecia tão enojada como ele estava aquela situação tão vergonhosa e nojenta? Ou melhor, será que a morcega seria tão baixa para encobertar algo tão grave como os estupros que seu irmão sofria? Ela não se importava?

Por que ela estava ali no final das contas?

O garoto não conseguia imaginar o que Rouge ganharia com toda essa encenação de que se importa, depois do que ele mesmo pode deduzir. Isso era tão... Asqueroso. Mas o que ele poderia esperar de Shadow?

E em pensar que ele era um dos que acreditavam que o ouriço não era totalmente maligno, mesmo na época da invasão dos Black Arms, quando todos os overlanders do planeta estavam na caça por Shadow acreditando que ele fosse cumplice, o vulpino tinha sido um dos poucos que estavam ao seu lado, porque mesmo depois de tudo, seu irmão também acreditava na inocência de Shadow.

Ele nunca pensou que esse excesso de confiança poderia trazer consequências cruéis para o futuro. Quão inocentes tinham sido todos? Até mesmo quando Amy parecia hesitante sobre suas decisões passadas de ter ajudado Shadow, Sonic ainda permanecia confiante sobre o ouriço.

Até onde Shadow poderia chegar em crueldade? Por que ele simplesmente não os deixavam em paz? Por que tinha que ser tão covarde a ponto de forçar Sonic a algo tão... Por que depois de tudo o Sonic fez por ele, ele o pagava com estupro?

Sentiu a raiva subir, assim como as lágrimas de revolta que escorriam de seus grandes e enfurecidos olhos azuis, molhando os pelos brancos de seu focinho, queria gritar, queria quebrar algo, aliviar toda aquela raiva que parecia encher o seu peito, fazendo-o pela primeira vez quase perder a razão.

Saiu do quarto com pressa, não queria mais ver aquela cena, onde as provas de uma crueldade sem limites estavam espalhadas por entre o tecido dos lençóis e não se sabe mais onde o que poderia encontrar dentre aqueles panos imundos. Seus punhos estavam fechados com tanta força que qualquer pessoa que o visse pensaria que ele estava prestes a socar alguém.

E ele o faria se não conseguisse se controlar.

Mas, até mesmo ele não sabia que realmente estava se precipitando, tomando decisões sem nem ao menos tentar olhar da forma correta. Para ele, Sonic era o herói imaculado, inocente e puro. E, apesar da pouca diferença de idade, ainda pensava ser bem mais maduro que o ouriço que tanto admirava e defendia com todas as forças.

Até mesmo o herói poderia experimentar a sensação de ser vilão alguma vez, não poderia?

Mas, esse pensamento passava longe da mente ainda infantil do garoto, claro, Sonic era seu amigo e herói. Como ele poderia ver o ouriço com outros olhos? Como ele poderia aceitar que Sonic estava de acordo com aquilo? Mesmo quando ele parecia estranhamente cabisbaixo e entristecido alguns dias atrás?

Porque o pensamento mais lógico e entendível era que Shadow o forçou. Por que não existiria outra justificativa para Sonic ter sexo com outro ouriço do mesmo sexo, não é mesmo?

Até porque Sonic era o herói, cobiçado por todas as garotas que colocavam os olhos nele, tanto pela sua coragem quanto pela sua aparência bem cuidada e disposta. Ele era a figura inabalável e, ainda tinha Amy como sua namorada autoproclamada que vivia gritando para tudo e todos que estavam juntos. O que em momento algum tinha sido confirmado por Sonic, mas, analisando melhor, também não tinha sido desmentido, o que poderia dar um sentido de verdade nessas palavras ou ele apenas não queria ferir os sentimentos de um amigo muito querido?

Ele confessava que muitas vezes não conseguia entender Sonic, mesmo na época quando moravam juntos ele nunca havia sido sincero consigo sobre relacionamentos, muito menos tinha disposição para comentar sobre, em seu pessoal Sonic era diferente em pontos. Ele sabia por experiência própria que ele não era tão despreocupado quanto demonstrava, apenas fazia isso por achar que era divertido.

Gostava de passar o tempo com Sonic, ele era confortável de lidar, não precisava de conversas infinitas e muitas vezes respeitava seu espaço pessoal, além de ser um irmão extremamente protetor.

Foi difícil se separar da convivência com Sonic, apesar de ambos saberem que aquilo era necessário para que tivesse ambos sua privacidade e vida próprias. Agora ele se arrependia de ter sido tão otimista com a ideia. Se ele estivesse próximo, poderia ter evitado que várias situações ruins tivessem acontecido ao seu irmão. Tais como seu pensamento que Sonic foi violentado.

Não viu o bilhete que ainda estava na cômoda ao lado do relógio digital.

Tampouco quis ver novamente aqueles testes de gravidez no banheiro, desceu as escadas com pressa, passando pela porta com o olhar perdido. Era como se tivesse presenciado um pedaço do inferno, ele não queria ficar mais tempo naquele lugar, não queria ver aquela casa que parecia ser testemunha de atos nojentos.

Correu pela calçada, longe de quaisquer outras casas, mas que parecia como qualquer outra integrada a cidade, era longe de todo o barulho e impressa. O tipo de casa que certamente qualquer herói que estivesse estressado pelo abuso da mídia gostaria de viver, de como que ele não acabasse se estressando pela perseguição constante que sofria no dia a dia que tinha que aparecer para salvar o dia ou para reuniões políticas com pessoas de alto escalão.

Ali ele apenas era ele, onde podia ver a extensão de pequena floresta, que era um dos lugares que gostava de explorar quando não havia nada de interessante para lhe prender a televisão.

Tails desconhecia grande parte dos hobbies do seu irmão de consideração, mas para ele não fazia tanta diferença como poderia fazer para outras pessoas, afinal, ele era apenas Sonic the Hedgehog, o ouriço que era sem sombra de dúvidas capaz de surpreender qualquer um.

Mas ele não fazia noção do quanto. E ainda por cima começava a nutrir uma espécie de raiva que para si tinha si uma razão lógica.

Estava tão absorto em suas divagações que não prestava atenção ao caminho que andava, tampouco havia notado que já estava no centro da cidade e não rodeados de árvores, o constante som de carros e pedestres são pareciam surtir nenhum efeito para lhe fazer voltar para o mundo real, até que, tropeçou em alguém.

Ambos os corpos caíram na calçada, embora dele apenas tivesse saído um resmungo, a outra pessoa havia dado um alto grito. Ele se levantou rapidamente e continuou seu caminho, não queria olhar quem quer que fosse, tampouco dar desculpas para seu momento de distração para qualquer que fosse que o conhecesse.

O vulpino passou a correr, deixando uma ouriça rosa muito enfurecida no chão. Praguejando por sua indelicadeza.

.

Apesar da aparente inconsciência, ele estava ainda levemente ciente de tudo ao seu redor, porém mais parecia como se ele estivesse preso em um poço fundo, onde os sons eram vagos e difusos, apesar de ainda saber que ainda estava consciente.

Sentiu a aproximação rápida de quem quer que fosse, um arfar veio da pessoa, além de um resmungo incompreensível para seus ouvidos que aos poucos ensurdeciam.

Dedos corriam pelo seu pescoço, um leve raspar de unhas na pele sensível antes de sentir o local ser pressionado e sussurros baixos virem de lábios desconhecidos.

Podia sentir quando seu corpo mole foi levantado com alguma dificuldade e um resmungo podia ser ouvido, ele não era tão pesado, era? Por que depois de tudo, ele ainda conseguia se preocupar se estava pesado demais ou não?

Sentia quando começaram a andar, os passos lentos e suaves, alguns sons de sapatos esmagando folhas secas eram ouvidos e mesmo que ele se negasse a se permitir cair na inconsciência, aqueles sons eram calmantes o bastante para que fosse quase uma vontade involuntária.

A dor que sentia parecia uma nevoa, não a sentia, assim como meus membros pareciam entorpecidos, sentia que logo perderia a luta contra inconsciência e fraqueza, logo tudo deixaria de fazer sentido.

E ele nem ao menos sabe que está seguro ou caiu em mãos inimigas.

Isso fazia com que o medo lhe atingisse, medo de ficar inconsciente, medo de não conseguir se proteger, medo do que poderia lhe acontecer. Pela primeira vez Sonic sentiu o medo em sua concentração mais pura. Não gostou da sensação.

Mas embora ele quisesse escapar, havia algo que o impedia, sua própria fraqueza, seu corpo dolorido que aos poucos se tornava dormente e mais do que isso, algo em si dizia que talvez, somente talvez, ele estivesse seguro.

O tempo passou enquanto sua mente latejava, não conseguia abrir os olhos, seus lábios não lhe obedeciam e seus músculos recusaram-se a responder aos seus comandos.

Foi então que vagamente pode notar que não estava mais rodeado pelas árvores, o ar tinha mudado drasticamente para um mais urbanizado, embora ele tivesse a leve noção de que não estava em lugar algum dentro da cidade, talvez perto. Realmente não sabia dizer e muito menos sabia como poderia declarar com tanta certeza alguns fatos.

Seu olfato estava estranhamente sensível, a ponto de sentir o cheiro forte de gasolina, talvez um carro recém estacionado?

— Vá para o banco de trás. — Novamente ouviu aquela voz desconhecida, ordenando a alguém que ele não podia ver, mas sabia que assim como a pessoa que lhe encontrou, era desconhecida para si.

Não conseguiu ouvir a resposta, mas tinha uma suspeita de qual seria.

Só teve tempo de registrar o cheiro do estofado antes que tudo deixasse de fazer sentido e ele finalmente cedeu para a inconsciência.

Seja lá quem for que o tivesse ‘resgatado’, ele realmente desejava que a última intenção que tinha era de lhe causar dano.

Notas finais
Caso houver quaisquer erros, sejam eles de ortografia, peço que por gentileza me avisem. Comentem caso sentirem interesse, gosto de saber quais foram as reações de vocês. Até uma próxima. by: Shadow Shirami.