Bipolar
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Camila preferia passar fome a comer as tortas de maçã da mãe. Olhava para o que era provavelmente a décima ou décima primeira tentativa culinária de Tatiana, dessa vez estava mole demais. Devia ser o leite, a mãe da garota tinha a incrível habilidade de errar todas as medidas e mesmo quando fazia tudo certo, algo dava impossivelmente errado. Como os pães da queijo que murchavam sem explicação, os suflês queimados e os doces com muito açúcar. Resumindo, ela era um desastre na cozinha e no resto da vida também.
Para filha, que aos vinte anos era o exemplo de sucesso, a mãe era um enigma indecifrável. Camila era bonita, puxando a genética do pai, inteligente, ganhava bem o suficiente para sair da zona norte do Rio e comprar um apartamento de três quartos em Copacabana e estava noiva do primeiro namorado sério que teve, aos dezesseis anos.
Os encontros de família nos finais de semana eram exaustivos tanto para uma quanto para outra. Camila, que achava que todas as complicações da vida da mãe eram culpa dela, que nunca conseguia planejar um passo sequer e para Tatiana, que se sentia julgada pela filha mais velha e não via em si mesma um motivo de admiração para alguém que tinha tudo o que a sociedade julgava necessário e era verdade.
Camila sentia uma espécie de repulsa pela própria família, sempre tão desajustada. Ver os irmãos mais novos criava um misto de pena por serem assim e felicidade por ter crescido antes da morte do pai, motivo do modo estranho de vida da mãe.
O pai, adorado não só pela família, mas, por todos os que o conheciam, era parecido com a filha tanto na sorte na vida quanto na aparência e no jeito de ser. Os pais eram loucos um pelo outro e Tatiana era ainda mais dependente pois ele conseguia controlar o desastre que ela era e fazer as coisas darem certo. Quando Paulo morreu de um acidente de trânsito, com quarenta e dois anos, deixando uma filha de dezesseis, dois meninos de sete, uma criança de três e a esposa grávida e completamente incapaz de cuidar de si mesma, quanto mais de cinco filhos.
Quatro anos depois, os gêmeos haviam se tornado dois pré-adolescentes largados na vida, a menina pequena uma criança completamente sem rotina e herdando a falta de jeito da mãe e um garotinho de quatro anos que passava mais tempo na creche e com a irmã do que com Tatiana. Camila era mais mãe deles do que a outra, era mais mãe dela do que filha e isso era a única razão daquelas crianças e principalmente, dos gêmeos, não estarem em um abrigo ou numa casa de reabilitação.
A mãe, que entrava em depressão pelo menos duas vezes por ano e tinhas fases de euforia, foi diagnosticada com bipolaridade e como adquiriu resistência aos remédios pelas constantes pausas no tratamento tinha sido aposentada por invalidez e agora ocupava seu tempo com diversos cursos à distância.
Camila, com medo do que a influência da mãe poderia fazer com os irmãos, os colocou em um apartamento em um prédio a duas ruas do seu. Os irmãos tinham a chave da casa dela e geralmente passavam as tardes lá e só iam para o apartamento da mãe à noite, quando iam. George e Isabela, os dois mais novos, já tinham se mudado definitivamente para a casa de Camila desde uma crise grave da mãe que agrediu os dois quando só estavam os três na casa e a filha pediu a guarda das crianças na justiça
Felipe, o namorado da garota era completamente apaixonado pela noiva e não se importava nem um pouco de ser como um pai para os irmãos de Camila, ele adorava todos eles e como ambos tinham uma situação financeira muito boa, queriam ter filhos e eram bem caseiros, se sentia realmente o pai adotivo de todos eles.
Ele tinha vinte um e trabalhava na empresa que Camila ainda estagiava. Apesar de estagiária ela ganhava quase o quádruplo do salário de Felipe, que já não era pouca coisa, pois sua loja havia deslanchado no ano anterior e agora possuía cerca de cinquenta franquias no estado.
A vida dos dois era muito invejada por todos aqueles que ignoravam a situação familiar de Camila, o único e suficientemente grande problema na vida deles. Apesar de lidar muito bem com todo o drama, as crises constantes da mãe se tornaram o motivo para que Nathalia, a psicóloga da garota desde a morte do pai, aumentasse suas sessões para duas vezes por semana.
Camila ainda olhava para o pedaço de torta intocado no prato enquanto pensava num jeito de não comer aquela afronta à arte culinária. Todos os irmãos, a mãe, o namorado e o mais recente peguete de Tatiana estavam sentados na varanda do apartamento de primeiro andar da mulher que atormentava a vida de cada integrante daquela família.
Os olhos de Camila voaram para o homem alto, magro e que provavelmente não era nem cinco anos mais velha que ela, Ramon. Ele e a mãe se conheceram na sala de espera do consultório que tinha um neurologista e um psiquiatra, nada de bom poderia vir desse encontro e não veio. Ramon era esquizofrênico, os dois se conheciam a três e meses e a data do casamento foi marcada para antes do casamento da própria Camila. No pouco tempo de relacionamento eles já tiveram seis términos, dois Boletins de ocorrência em delegacias diferentes e uma noite na cadeia por atentado ao pudor.
Camila agradecia muito pela mãe ter ligado as trompas logo depois do último filho, não seria nada fácil ter mais do que quatro crianças dependendo da irmã para terem algum suporte. Também se sentia grata por Tatiana não ter pegado nenhuma DST, pelo menos que soubesse, já tinha sido difícil o bastante tentar fazer a mãe tomar o remédio continuamente, tarefa que se mostrou impossível. Agora que ela realmente havia desistido de qualquer tratamento, sua companhia era praticamente insuportável.
Os assuntos na mesa variavam de acordo com o grupo que se observava: Ramon, Flávio, Paulo e Matheus, que tinham idades mais próximas conversavam sobre jogos. Maria e Gustavo brincavam de algum jogo com cartas que fazia um barulho relativamente alto, mas que ninguém se incomodava já que todos falavam alto e Tatiana discursava sobre o que poderia ter dado errado na torta que ninguém quis comer enquanto Camila fingia prestar atenção mas na verdade contava mentalmente os namorados da mãe nos últimos quatro anos. Chegou a conclusão de que foram dezoito, não contando os ficantes, amantes e os casos que a garota não tomou conhecimento ou não se lembrava.
-Foi o açúcar_ disse finalmente interrompendo o monólogo de quarenta minutos da outra mulher.
-Não pode ter sido isso. Eu tenho certeza de que coloquei a quantidade certa.
-Você pode ter se enganado.
-O que você está querendo dizer¿ Que estou mentindo¿ Que estou louca¿
Provavelmente as duas possibilidades, pensou Camila, mas disse:
-Só estou querendo dizer que foi um engano.
-Não sou uma inválida!!!
A sua aposentadoria precoce diz o contrário pensou novamente o espírito rebelde que nunca podia se manifestar. Nesse momento todos se calaram pois Tatiana gritava.
-Claro que não mãe, você tem seu trabalho, toma conta da sua família...
-Que família??? Meu marido que Deus roubou de mim¿ Você, que abandonou a mãe quando ela mais precisava¿ Ou os filhos que você tirou de mim?
-Ninguém tirou seus filhos de você mãe! Você os agrediu, do mesmo jeito que agredia a Camila e que agride a mim e Paulo!
-Eu só estava ensinando vocês! Não vou tornar minhas crianças mimadas e acostumadas à vida fácil como Camila.
-Ela te sustenta! Por que você não teve maturidade para seguir em frente mesmo com cinco filhos para criar!
Nesse momento a mulher pulou em cima de Flávio e quebrou tudo o que estava na mesa, se cortando com os destroços, mas não parecia ligar pois continuava com as unhas cravadas no rosto do filho que por sua vez tentava se livrar das garras da mãe. Camila e Paulo se esforçavam para tirar a mãe de cima do móvel enquanto Felipe ligava para a polícia, as crianças choravam e Ramon se balançava no chão tampando os ouvidos.
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