O demônio acordou em uma superfície macia, que não se lembrava estar antes. Se sentou na cama, olhando para o garoto que estava literalmente dormindo no tapete. Se o objetivo de Dipper era ficar de olho em Bill, não estava dando muito certo.

Antes que o loiro pudesse fazer alguma coisa, teve uma sensação estranha em seus pulmões. Ergueu uma sobrancelha, tentando entender o que estava acontecendo, até que deixou um espirro escapar.

Dipper acordou imediatamente, se levantando e olhando confuso para Bill.

— Wow, Pinheirinho, não vai nem me dar bom dia. — disse sarcasticamente, com a voz pior do que antes.

Ignorando o comentário do outro, o moreno se aproximou do loiro e colocou uma de suas mãos na testa dele, fazendo com que Bill o encarasse confuso.

— Acho que você tem um resfriado.

Os dois se encararam por um tempo.

— O quê?

— Um resfriado, Bill. Por quanto tempo você ficou na chuva?

— Desde que a tempestade começou.

— E por quanto tempo você nos procurou? Desde quando tem essa "forma humana"?

— Não acha que são muitas perguntas para quem acabou de acordar, Pinheirinho? — tentou rir, mas a sua voz ainda estava muito rouca para isso. Ele olhou para as próprias mãos, como se estivesse contando o tempo que passou desde que assumiu essa forma — 4 dias, eu acho! Ou 5, não tenho certeza.

— Você sequer comeu alguma coisa nesse tempo? — Dipper olhou pra ele, cruzando os braços, e colocou uma mão sobre o rosto quando percebeu que Bill o olhava confuso. É óbvio que ele não comeu, não é como se esse dorito soubesse se cuidar direito (e muito menos tomar refrigerante, lembrou Dipper) — Ugh, certo, vem comigo.

O loiro se levantou da cama, levemente fungando o nariz, e seguiu o outro até a cozinha.

— Eu não tô com fome. — Bill disse, enquanto o garoto de cabelos castanhos abria a geladeira a procura de algo.

— É normal, já que você está resfriado. Mas você precisa comer pelo menos alguma coisa, olha pro seu estado. — falou, pegando algumas coisas na geladeira e os pães que estavam em cima da mesa. — Fique feliz que eu resolvi fazer um lanche pra você, é só dessa vez.

— Ei, Pinheirinho, você não tem refrigerante?

— Bill, são seis da manhã.

— Mas eu queria tomar refrigerante como um humano de novo! Sinto falta de fazer isso, sabe.

— Você nem sabe como— Dipper interrompeu a si mesmo, revirando os olhos e suspirando — Não é uma boa ideia, isso vai fazer mal se tomar a essa hora. Você é um demônio que sabe de tudo, não é? Devia saber disso.

E assim Bill ficou estranhamente quieto, o que fez Dipper se virar para ele, confuso.

— Eu era. — colocou ênfase na palavra era, cruzando os braços e desviando o olhar.

— O quê foi agora? Não é como se fosse culpa minha!

— É claro que foi! — Bill se virou para ele, claramente irritado.

— Você que quis causar o apocalipse! Só teve o que mereceu!

O loiro puxou o outro pela camisa, o encarando — Você não sabe pelo o que eu passei pra finalmente conseguir uma forma.

— Pois deveria-

— E você não sabe com quem está se metendo, Pines. Eu sou um ser de pura energia que-

— Agora você é um humano qualquer. — disse Dipper, e o outro só o encarou por alguns momentos até o soltar. Eles passaram alguns poucos segundos em silêncio, mas parecia uma eternidade.

— Você está certo. — Bill murmurou, olhando para baixo.

— Huh?

— Agora eu só sou mais um humano inútil, e não sei nem se meus poderes vão voltar algum dia.

— Mas você tinha me dito que...

— Eu sei! Eu sei o que eu disse, mas... — a voz dele estava trêmula, como se fosse chorar a qualquer momento — Eu usei tudo o que sobrou dos meus poderes para fazer esse corpo, e ainda demorei anos. Não sei se esses poderes vão voltar.

— Oh. — Ao perceber que o outro estava quase chorando, Dipper pensou em dizer algo. Mesmo sabendo do que Bill é capaz, não podia deixar de se sentir um pouco mal por ele, e se o demônio fosse chorar Dipper tinha certeza que iria se sentir pior ainda. Seus pensamentos foram interrompidos por um segundo espirro do loiro, e aproveitou isso para mudar de assunto — Você tem sorte

de que esse resfriado não é muito forte. Se descansar, acho que amanhã mesmo deve estar melhor.

Bill concordou com a cabeça, mas ainda sem olhar para o outro.

— Agora seja um bom garoto e espere eu terminar o lanche na mesa.

— Não me trate como uma criança, Pinheirinho. — O garoto de cabelos castanhos riu e Bill abriu um pequeno sorriso, o que fez Dipper se sentir um pouco melhor.

Quando os dois terminaram os lanches era apenas sete da manhã, então não tinham muito o que fazer;

— Eu ia sugerir para irmos em algum lugar, mas eu não confio em você o suficiente pra sair contigo pela cidade. — Dipper comentou, ligando a televisão e se sentando no sofá.

— Por que? Você sabe que eu não faria nada de errado! — disse o garoto de cabelos dourados, com um sorriso irritante, que se desmanchou assim que ele começou a tossir.

— Bill. — começou, analisando o outro — Se você não quiser piorar, é melhor ir trocar essas roupas. E tomar um banho, de preferência. Eu deixei umas roupas separadas pra você lá no quarto.

Bill o olhou por alguns momentos e subiu as escadas para o quarto. Dipper não podia deixar de ponderar sobre como aquilo era estranho, estar em uma situação cotidiana com um demônio. Tudo que ele esperava era que Bill recuperasse seus poderes logo e o deixasse em paz.

Já eram oito horas e o outro ainda não havia voltado, então resolveu subir para o quarto apenas para ter certeza de que Bill não estava tramando algo. Estranhou a falta do barulho do chuveiro, e quando abriu a porta do quarto Bill estava sentado em sua cama, com as roupas de Dipper e secando o cabelo com uma toalha.

— Oh, hey, Pinheirinho! — Bill sorriu, cruzando as pernas na cama.

— Bill, de quem é essa toalha..? Pensei que tinha deixado uma separada pra você.

— Provavelmente sua! Eu precisava de algo para secar meus cabelos.

— Ugh. — Dipper murmurou, mas não pode parar de observar como a forma humana de Bill era atraente, desde o tom de sua pele até o dourado de seus cabelos. As sardas no rosto dele só colaboravam naquele corpo de adolescente, era impossível não reparar nos dentes branquinhos e brilhantes como pérolas, e seu olho visível tinha um tom misterioso entre ocre e mel. As vezes Dipper se perguntava porque o garoto tampava seu outro olho.

— Ei, Bill? — se sentou do lado dele — Como você conseguiu essa forma? Você que a fez? — ergueu uma sobrancelha.

— De certa forma, sim! Eu que a criei, mas não sei de onde essa aparência surgiu. — deu de ombros. — Por que a pergunta?

— Achei que você tinha possuído alguém.

— Mesmo se eu quisesse, não poderia. Exige muito poder e só duraria algumas horas, sem contar que eu não estava em condições de selar um contrato. — Bill fungou o nariz mais uma vez, esse resfriado já estava o irritando.

— Oh. Certo. E... seu outro olho? — o moreno usou uma das mãos para tirar a franja do rosto do outro sem pensar duas vezes, e, então, ficou sem palavras para descrever o que viu.