Big Wave: Uma onda de mentiras
2 Capítulo 1 Sério?!
Notas iniciais
Capítulo 1: O peso das ondas
Cabelos castanhos escuros, com reflexos avermelhados que brilham sob a luz fraca, caem em cascata pelas minhas costas, balançando suavemente conforme me movimento. Diante do espelho, olhos verdes — os mesmos que um dia brilharam com ousadia — me encaram de volta, cheios de perguntas. A pergunta que eles parecem fazer é exatamente a mesma que repito em silêncio, todos os dias, desde que tudo mudou: O que você está fazendo da sua vida, garota?
— O que você está fazendo da sua vida, garota? — Digo em voz alta, deixando que as palavras saiam como um sopro, preenchendo o espaço pequeno e úmido.
Estou aqui, dentro desse cubículo apertado e mal iluminado que o senhor Gerson insiste em chamar de “banheiro dos funcionários”, me preparando para mais um dia de trabalho. Ajeito o cabelo, passo um pouco de protetor solar e respiro fundo, tentando afastar o peso que carrego nos ombros. Quando termino, saio e vou diretamente para o balcão de atendimento.
Lá fora, a cidade pulsa vida. É verão, época de férias, calor intenso e movimento constante. As ruas e a orla estão lotadas de turistas, todos com câmeras, sorrisos e expectativas altas. Mais do que isso: são os dias de glória para muitos, pois está acontecendo o torneio estadual de surfe. Para os jovens atletas, essa é a chance de ouro: vencer aqui significa ser notado, patrocínios, visibilidade e, quem sabe, o sonho de chegar à liga profissional.
Daqui, atrás do meu balcão, tenho uma visão privilegiada. Vejo a praia cheia de gente, areia branca, mar azul e, principalmente, os estandes das marcas patrocinadoras espalhados pela orla. O maior e mais chamativo de todos é o da Cullen Sports: todo preto com detalhes em verde fluorescente, chama atenção de quem chega de longe, imponente e cheio de símbolos de status.
Observar a alegria, a euforia e a energia de todos ali me traz uma mistura de saudade e dor. Vejo os meninos e meninas se aquecendo, rindo, se preparando para entrar na água, e tudo isso me leva de volta a tempos que eu daria tudo para apagar da memória, ou pelo menos deixar bem enterrados.
Flashback ligado
— Vai lá, Sereia Grande! Arrebenta tudo! — ouço a voz de Jake gritar, animada, enquanto eu já estava com a prancha na mão, caminhando para o mar.
Aquele dia era perfeito: sol brilhando forte, céu limpo e um mar que parecia ter sido desenhado para o surfe. As ondas eram grandes, definidas, potentes — o tipo de condição que todo surfista sonha em encontrar. Mesmo eu, que já era profissional e acostumada com o mar, fiquei deslumbrada com a beleza e a força da água naquele momento. Hoje, tenho certeza: o problema foi exatamente esse. Eu me deixei levar pela beleza, pela confiança, pela sensação de que nada poderia me atingir. O mar, meu antigo amigo, também sabe ser traiçoeiro.
— Ei! Garota! Você pode registrar minhas compras, por favor? Ei, estou falando com você!
Flashback desligado
A voz impaciente me arranca abruptamente das minhas lembranças sombrias. Piscando os olhos para voltar ao presente, encaro um cliente que bate com os dedos no balcão, visivelmente irritado.
— Desculpe, senhor… — murmuro, sem coragem de olhar diretamente para ele. Deus me livre de encontrar uma cara feia logo no começo da manhã.
— Vamos, vamos, garota! Estou com pressa! Não é possível que vocês são pagos para ser tão lentos assim!
Eu tinha dito para mim mesma que não ia olhar, mas essa última frase foi forte demais. Ergo o rosto, pronta para responder à altura ou só para ver qual era o tamanho da arrogância da pessoa, esperando encontrar alguém mal-educado e mal-humorado. Mas tomo um susto enorme. À minha frente não há ninguém ranzinza, mas sim um rapaz enorme, forte, bonito, que me encara com um sorriso largo e extremamente gentil nos lábios.
— Consegui finalmente sua atenção, não foi? — ele diz, rindo da minha cara de confusão.
— Sim, conseguiu, senhor… e me desculpe pela distração, não vai se repetir — respondo, sentindo o rosto esquentar e ficando vermelha de vergonha, enquanto tento controlar o impulso de ficar brava.
— Calma, gatinha, não precisa ficar nervosa nem se sentir mal. Era só uma brincadeira, eu não estou realmente com raiva de você. — Ele levanta as mãos, em sinal de rendição, ainda rindo. — A propósito, sou Emmett Cullen, daquele estande ali — aponta com o polegar para a estrutura preta e verde que eu tinha observado antes.
— Ah, entendi… Prazer, Emmett. Eu sou Maíra, trabalho aqui no Eldorado Variedades — digo, abrindo um sorriso tímido e relaxando um pouco.
— Prazer, Maíra! E me desculpe pela encenação de agora há pouco. Eu estava só imitando o meu irmão mais novo. Ele é exatamente assim: rude, impaciente, cheio de pressa e acha que o mundo tem que girar ao redor dele. Resolvi testar como é ser como ele, e vou te confessar: credo, é horrível! Eu definitivamente não sirvo para ser arrogante. — Ele balança a cabeça, fingindo estar horrorizado com a própria brincadeira.
— Tudo bem, senhor Cullen. E ainda bem que foi o senhor que veio, e não ele, né? Se ele for mesmo assim, ia ser difícil de aguentar — brinco de volta, mais à vontade.
— Ah, ele até que queria vir! Eu vi ele parado do outro lado da rua, olhando bem para cá, parecendo impaciente. Mas daí o celular dele tocou, ele começou a xingar quem estava do outro lado da linha e mandou que eu viesse aqui resolver o que ele precisava.
— Bendito seja o telefone, então! — rio de verdade.
— Com certeza! — Ele concorda, e então muda o tom, ficando curioso. — Mas então, Maíra bonita, deixa eu te perguntar: você gosta de surfe? Vai assistir à competição mais tarde? Você também surfa? É daqui da cidade mesmo?
— Ei, ei, calma aí! Respira um pouco, Emmett! — peço, segurando o riso com a enxurrada de perguntas. — Isso é uma entrevista ou um interrogatório, por acaso?
— Claro que não, só curiosidade!
— Então deixa eu responder de uma vez, antes que esqueça tudo: sim, gosto de surfe, sim, pretendo dar uma olhadinha na praia na hora do meu almoço, e sim, sou daqui, nasci e cresci aqui. Agora já respondi tudo?
— Quase! Faltou a principal: você surfa?
— Ah, é verdade… — Faço uma pausa, sentindo o sorriso morrer um pouco no rosto. — Não mais. Eu já surfei muito, mas hoje não, não surfo mais.
— Por quê? — A pergunta sai rápida, e os olhos dele ficam atentos, percebendo a mudança no meu jeito de falar.
— Olha… prefiro não falar sobre isso, tá bom? — Digo, endurecendo a expressão e desviando o olhar.
— Você sofreu um acidente, foi isso? — ele pergunta, desconfiado, percebendo que há muito mais história ali.
— Sim, foi um acidente. Já faz um tempo, mas… foi o suficiente. — Respondo de forma seca, encerrando o assunto.
Ele abre a boca para perguntar mais alguma coisa, mas é interrompido quando uma mulher loira, linda, alta e vestida com a farda da Cullen Sports entra na loja e chama sua atenção.
— Vamos, Em! Seu irmão já está perdendo a paciência com a sua demora, vem logo! — Ela olha para mim, sorri educadamente e cumprimenta: — Olá, tudo bem? Sou Rose.
— Tudo bem, sim. Eu sou Maíra! — Respondo ao cumprimento.
Os dois ficam me encarando por alguns segundos, como se estivessem tentando decifrar algo em mim, e eu começo a ficar extremamente sem graça, abaixando a cabeça para esconder o desconforto. A porta da loja se abre novamente, e entra outro rapaz loiro, tão bonito quanto os outros dois, mas com um ar mais sério e distante.
— O que é isso? Reunião particular aqui? Querem que eu chame o Edward também? — pergunta ele, erguendo uma sobrancelha.
Rose e Emmett parecem sair de um transe, se mexendo de repente como se tivessem levado um choque, e respondem juntos, apressados:
— Não! Já estamos indo! Até mais tarde, Maíra!
Eles saem depressa, me deixando ali parada atrás do balcão, sem entender muito bem o que tinha acontecido. O restante da manhã passa arrastado, cheio de clientes, principalmente adolescentes e turistas que passavam comprando coisas para a praia. Quando percebo, já está na hora do meu almoço.
Como não estou com fome, resolvo caminhar um pouco pela orla. Tudo está incrível, colorido, cheio de movimento — exatamente igual ao dia em que tudo mudou para mim. Vejo, ao longe, os atletas pegando ondas grandes e perfeitas, fazendo manobras que eu conheço tão bem: floaters, cortes profundos, giros de 360 graus… coisas que eu também fazia com facilidade, mas que hoje só consigo assistir de longe.
Ando bastante, sempre no meio da multidão e evitando ao máximo a área dos estandes patrocinadores. Essa parte do mundo esportivo eu conheço bem, e sei como funciona: as marcas só querem saber de quem está no auge, quem está ganhando, quem dá lucro. Quando a fama cai, quando acontece um problema, eles simplesmente descartam os atletas como se fossem lixo, esquecendo todo o resto. E eu sei bem como é ser descartada.
Depois de caminhar bastante, a fome finalmente chega. Compro uma salada de frutas e me sento na areia, um pouco afastada do centro das atenções, para almoçar e observar os meninos se saírem bem nas ondas. Estou tão concentrada no movimento do mar que levo um susto enorme quando alguém se senta ao meu lado, fazendo a areia espalhar um pouco.
— Por que não me surpreende te encontrar exatamente aqui?
— Ora, porque todo mundo está aqui, não é mesmo? Eu também sou filha de Deus e mereço um descanso, né?! — Respondo sem tirar os olhos do mar, reconhecendo imediatamente a voz de Jake.
Ele sorri, me olhando com aquele jeito de quem sabe tudo o que se passa comigo.
— Sabe, Bella… todo mundo aqui na cidade tem a mesma pergunta martelando na cabeça há anos.
— Que pergunta, Jake? — pergunto, virando o rosto para ele, já sabendo o que vem pela frente.
— Por que diabos você parou de surfar? Por que você não está lá, competindo, fazendo o que você faz de melhor, sendo a profissional incrível que você era? Você sabe que ainda é a melhor, não sabe?
— Jake… eu era boa. Hoje já não sou mais.
— Ah, qual é, Bella! Vai inventar essa história para os outros, mas não para mim, por favor. — Ele me olha firme, sério. — Eu sei que você ainda é ótima. E também sei que você treina escondida de todo mundo… até dos seus pais.
Arregalo os olhos, sentindo o coração disparar.
— Você está me espionando, Jake? E pare de me chamar de Bella, pelo amor de Deus! Já pensou se alguém ouve? É justamente esse nome que eu tento esconder!
— Tudo bem, tudo bem… Maíra, então. — Ele faz um gesto de despreocupação. — E não é só eu que percebo, não.
— Como assim, não é só você? Quem mais sabe?
— Ninguém que vá te entregar, fica tranquila. É só que… eu também venho à praia de vez em quando, de madrugada, para ver o sol nascer. E mais de uma vez eu te vi lá, sozinha, pegando as melhores ondas do lugar, fazendo manobras que ninguém mais aqui consegue fazer. E posso te garantir: não fui só eu que vi.
— O que você quer dizer com isso? — pergunto, começando a ficar preocupada de verdade.
— Quero dizer exatamente o que falei: tem gente de olho em você há muito tempo. E quando digo muito tempo, é muito mesmo.
— Agora fala logo, Jake! Quem é? Quem está me observando?
— Não sei te dizer o nome. É um homem que sempre aparece por aqui, usa óculos escuros e boné, fica sempre dentro de um jipe estacionado na beira da praia, observando tudo. Não dá para ver direito o rosto, mas ele está lá sempre que você sai para o mar. É um espectador bem assíduo dos seus "momentos de paz", como você chama.
— Não são treinos, é só o meu momento de paz e reflexão… — tento argumentar, mas ele me interrompe com um riso cético.
— Ah, poupe-me, invente outra mentira nova, porque essa já está gasta! — Ele me empurra de leve com o ombro. — Tudo bem, eu entendo. Você ainda surfa muito, ama o mar, mas não tem coragem de competir de novo. Não depois do que a Norland Sports fez com você, não é? Você não confia mais em nenhum patrocinador, acha que todos vão te humilhar ou te deixar na mão como fizeram quando você mais precisou. Hoje você é só uma surfista livre, que surfa por amor e não por contrato… eu sei, eu entendo.
— É mais ou menos por aí, sim. — Suspiro, voltando a olhar para o mar. — Mas mudando de assunto… e aquele cara, o Antony? Ele sumiu de vez, né? Vocês não se falam mais?
— Sumiu totalmente, graças a Deus. Sumiu junto com toda aquela história que eu odeio até de lembrar o nome — ele responde, fazendo uma careta forte, como se tivesse sentido gosto ruim na boca.
— Nem eu quero lembrar… eram tempos escuros, não eram?
— Sim. Tempos, e águas, muito escuras.
— E aí… — Jake fica mais sério, baixando um pouco a voz. — Você ainda sente aquelas dores? Daquele dia?
— Sinto… às vezes mais forte, às vezes menos, mas elas ainda estão aqui. — Passo a mão levemente pelo lado do corpo, onde as marcas ainda existem, invisíveis para os outros, mas que eu sinto todos os dias. — Mas decidi que vou seguir em cima disso. Não posso ficar presa ao que aconteceu, como meus pais querem. Se depender deles, eu não mexo nem um dedo, acham que sou de vidro.
— Eles fazem isso porque te amam, Maíra. É medo de te perder.
— Eu sei, eu sei… — Sorrio fraco. — Chega de assunto pesado, agora eu tenho que voltar. Meu almoço passou voando e o senhor Gerson não gosta de atrasos.
— Vai lá então. Até mais tarde!
— Até!
Despeço-me de Jake e volto para a loja. No caminho, passo em frente ao estande da Cullen Sports e, distraída como estou, esbarro sem querer em uma garota baixinha, de cabelos negros curtos e grandes olhos escuros.
— Ai, me desculpa, por favor! Não foi de propósito — peço, imediatamente parando para ver se ela está bem.
Ela, no entanto, não responde nada. Fica apenas parada, me encarando com uma expressão estranha, quase como se estivesse vendo um fantasma.
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