Big Heart
1 Your heart's too big for your body
Notas iniciais
O dia está agitado hoje. Sabe aquela sensação de que algo ruim vai acontecer? Quando você sente a agitação quando respira e você se arrepia.
Levantei de minha cama e fui ao banheiro. Abri lentamente o registro do chuveiro. Banho com água bem quente. Mel, você quer virar ensopado? Entrei debaixo do chuveiro e fechei o Box de vidro. O vapor que subia era sufocante, mas ao mesmo tempo bom. Logo o banheiro todo parecia uma sauna. Gotículas de água escorriam pelo Box e pela pequena janela ao lado. Olhei para baixo. Maldito ralo! Havia água cobrindo completamente meus pés. Fechei o registro. Algumas gotas rolavam de meu nariz diretamente ao chão coberto por água e faziam um barulho baixo. Abri um pouco a janela para que o vapor se dissipasse. Abri também um pouco de minha boca, uma pequena fresta, como se fosse tirar uma foto. As gotas que ainda caiam do chuveiro rolavam por meu lábio superior, logo em seguida pelo inferior e se deslocavam até o queixo, onde seguiam para o chão. Estava tudo silencioso. Enrolei-me em uma toalha e abri o Box.
Segui descalça até o quarto. Parei em frente ao espelho. Como me odeio! Joguei a toalha na cama e parei para observar-me. Meu cabelo é uma mistura de loiro-claro e loiro-escuro, que parecia ruivo quando estava no sol. Seguia liso da raiz até minhas orelhas, logo em seguida se frisava e terminava com uma pequena curva. Nada comparado aos padrões. Meu rosto tinha sardas espalhadas por várias partes, misturado com pequenas e rosadas espinhas. Meu nariz, razoavelmente médio. Meus lábios. A única coisa que fazia com que eu me sentisse bonita. Meus lábios e meus Olhos. Meus lábios são excepcionalmente grandes se comparados aos de outras pessoas. Não algo exagerado, mas algo suave. Uma pequena curva nos lábios superiores. Meus olhos são grandes. Um castanho-mel contornado por um círculo castanho-escuro. Olhei para meu corpo. Suspirei. Fora dos padrões. 1 metro e 70 centímetros. Seios tamanho 42 são algo normal. Porém não gostava dos meus. Quando se é muito branca as veias azuladas se destacam. Minha cintura não cabia numa folha de papel A4, era talvez um pouco maior, porém me sentia alegre, embora tivesse uma pequena barriga de gordura, talvez dois dedos de largura, não era muito. O quadril largo destacava que meu corpo era um corpo com muitas curvas. Minhas coxas, ah, que decepção! Eu as achava muito grandes, embora dissessem sempre que eram lindas. Isso não é algo bom. Nunca foi. Queria poder não pensar assim. Me sentir linda como realmente sou.
Fui até a cômoda e peguei uma roupa simples. Uma blusa de cor vinho, de mangas compridas e uma calça jeans de cos alto. Abaixei-me e peguei minhas roupas íntimas. Vesti-as rapidamente. Peguei um all-star. Sentia-me mais confortável sem meias. Abri a porta e segui até a cozinha. Um copo de leite enchia meu estômago. Abri o armário e peguei chocolate em pó. Droga, porque não achocolatado? Bebi o leite rapidamente e lavei o copo e a colher que havia sujado. Abri a grande janela que havia lá. A casa não era muito grande então essa era a única janela com direção à rua. A garagem coberta. Não há portão, é um condomínio fechado. Olhei para o canteiro que divide duas ruas, a de cima, onde eu moro, e a debaixo.
Senti meu celular vibrar em cima da mesa. Peguei-o rapidamente. Olhei as mensagens. Não havia nenhuma mensagem da pessoa que eu realmente queria.
Sabe o que me irrita? Saber que quando você gosta de alguém e essa pessoa sabe, se ela não for boa o suficiente para você, ou não gostar de você, ou gostar e não querer admitir que gosta, ela vai te ignorar completamente, ou demorar em responder, talvez nem responder no mesmo dia. Não irá ligar para seus esforços em agradá-la e irá pisar em você postando fotos no snapchat beijando outras garotas (ou garotos, se a pessoa que você gosta gostar de garotos). Não irá curtir o que você posta só de birra ou apenas por medo de te iludir, se for alguém bom. Não irá dizer que não quer nada por medo de feri-la ou irá te iludir e depois jogar fora. Mas há quem seja bom e te ame de verdade, mas talvez você apenas não achou quem te preencha o vazio deixado pelos outros.
Abri lentamente a porta de casa. Nós, “jovens” da vizinhança (de 12 até 18 anos) só nos reunimos à noite. Resolvi que sairia caminhar um pouco. Ar fresco faz bem aos pulmões. Conectei o fone ao celular. Escolhi a playlist que havia feito com as músicas que mais me agradam. Imagine Dragons, Lana Del Rey, Marina & The Diamonds, Melanie Martinez, coldplay, Sia. Quase todos Indie. Músicas quase sempre com um tom levemente triste me faziam sentir como se as músicas fossem dirigidas para mim, lendo minha alma e meu estado de espírito. Desci a rua. O canteiro era muito maior do lado debaixo. Eu corri. Corri feliz, embora a música que tocava fosse triste. Corri como uma criança de seis anos quando recebe um presente realmente legal. Corri pra longe de casa, até chegar ao lugar onde havia alguns bancos de pedra. Eu sou completamente apaixonada pelo garoto da rua debaixo. Vizinho de frente. Olhos verdes, cabelo castanho-claro, quase dez centímetros mais baixo que eu. Um ano e alguns meses mais velho. Eu farei 16 em novembro. Ele fez 17 sabe-se lá quando. Extrovertido. Ficava com quem bem queria. Meu oposto. Podia sentir meu rosto corado. Havia corrido por sabe-se lá quantas casas até chegar aqui. Limpei o suor com a manga da camisa. Pensei no garoto. Não se importava comigo, talvez apenas um pouco. Eu fazia cafuné nele às vezes. Mexer no cabelo das pessoas é gratificante.
No fundo de minha mente algo gritava desesperadamente. “Ele não gosta de você, você é apenas mais uma no caminho dele, sua idiota”.
Meu coração se apertou. Lágrimas bloquearam minha visão. Talvez fosse aquilo. Se eu não conseguia nem entender direito a matéria da escola. Os problemas se acumularam em uma teia de pensamentos. Deixei os sentimentos se apossarem de mim. Chorei por um tempo. Logo em seguida subi até a quadra, talvez tivesse alguém lá.
E tinha. Ele.
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