Big Girls Don't Cry (Hiatus)
8 Reyna - Existe justiça no mundo.
Notas iniciais
Passaram-se dois meses desde a nossa chegada, e no próximo mês, finalmente entraríamos na faculdade, e aí sim, poderíamos ter chances melhores de um futuro. Annabeth e Thalia não estavam satisfeitas com seus empregos, nem com o apartamento. Piper e eu sempre tentamos dizer que no início era assim, mas ambas pareciam estar se levando pelas dificuldades da nossa vida. Annabeth acordava cedo para estudar, e passava a manhã inteira com a cara nos livros. Piper ia para seu curso de teatro. Thalia ficava no quarto, tocando guitarra, ou na sala, vendo TV. E eu ia todas as manhãs para o parque, observava as crianças brincando, pais, casais de namorados. Sempre fui uma boa observadora. Ficar no parque me ajudava a pensar bem em todas as coisas que planejaria. Durante a tarde, era quando trabalhávamos. Não era necessariamente ruim ser uma babá, claro que não. Ruim era suportar Thalia reclamar, ela tinha sorte de Luke ser infinitamente mais paciente que ela. E durante a noite, ficávamos em casa, ou Luke e Thalia saíam como casal, ou Annabeth chamava Bianca, Nico, Frank e Hazel para nos visitar. Não entendi bem a história, mas Annabeth disse que se conheceram durante o dia de experiência, quando Nico pediu um Mc Lanche Feliz.
Naquela manhã, me levantei mais cedo. Estava fazendo frio em New York, coloquei um casaco e saí. O parque estava vazio o suficiente para que me sentasse em um dos bancos e começasse a ler um dos livros de direito que havia pesquisado. Apesar de não me mostrar alguém desanimada, até mesmo eu estava ficando cansada da vida morna que estávamos levando. Talvez fosse apenas a dificuldade pesando nos ombros. Antes, éramos apenas adolescentes que sempre tinham o auxílio de alguém, sejam essas pessoas nossos antigos amigos, ou sejam parentes. Porém, agora só tínhamos umas as outras, e tudo o que antes nos unia, parecia estar enfraquecendo. Internamente, eu sentia medo de tudo estar desabando dessa forma. A vida adulta não te dá tempo. Ela consome todas as suas energias. Crescer é bem mais difícil do que se parece. Até mesmo para mim.
Passaram-se mais alguns infinitos minutos em que estava sentada lendo, quando senti olhos me observarem ao longe, e não pude evitar a curiosidade de encará-los. Ao longe, sentado sobre um pano sujo estava um adolescente, suas roupas estavam gastas, e seus olhos tristes, porém, ainda assim, não parava de me observar como se fosse algo fascinante. Tentei evitar mais algum contato visual e continuei a ler. Não foi a melhor forma de evitá-lo, afinal, pude perceber que continuava a me encarar. Pouco tempo depois, chegaram mais outros adolescentes, todos seguidos uns dos outros, tive que analisar a cena mais uma vez. Todos bem vestidos, roupas de grife, cabelos bem penteados, ótimo porte físico. Cercaram o pobre garoto que se fosse uma presa prestes a ser devorada. As palavras mais agressivas saíram da boca de todos eles, até que finalmente, quando as palavras já não estavam agressivas o suficiente, partiram para os gestos. Socos, chutes, os palavrões mais terríveis, e gritos de dor horrendos. Fiquei perplexa por alguns segundos observando enquanto seguravam o pobre garoto covardemente e lhe davam socos na barriga, chutes, e puxavam seus fios com força. Levantei-me correndo e peguei o primeiro galho grosso de árvore que vi pela frente, ameaçando todos eles. Primeiro, tentaram me atacar, porém, quando finalmente ameacei chamar a polícia com meu celular e golpear a todos eles com aquela “arma”, apenas foram embora. Pude ver que o líder da gangue fez um sinal para o pobre garoto, que agora usava todas as suas forças para manter-se sentado no chão. Seu rosto sangrava muito, sua pele estava extremamente roxa, e os ferimentos pareciam atropelar uns aos outros, já que pude reparar que haviam outros antes desses. Uma garota apareceu logo depois, correndo enquanto chorava ajoelhada com o garoto que deveria ser seu amigo, namorado, ou irmão. Ambos estavam sujos e molambentos. Sua atitude foi extremamente rude comigo, e quando tentei explicar, apenas se virou e me deu um tapa de mão aberta na bochecha esquerda.
— Covarde! – Ela gritou. — Já demos tudo o que nós tínhamos! Por que você fez isso com ele?! O que ele fez com você?! Nunca vão nos deixar em paz?
Suas lágrimas saíam seguidas de soluços, abraçando o corpo do rapaz que gemia deitado.
— Eu não fiz nada! Eu Juro que não fiz nada! Por favor, me deixe ajudá-lo! — Tentei encostar a mão no rosto do rapaz, mas a garota simplesmente estapeou minha mão e a jogou para longe. Seu olhar era feroz.
— Eu não acredito em você! Não tem mais ninguém aqui! Você está segurando um galho, e ele está machucado! Vá embora.
— Você precisa confiar em mim! Ele vai morrer se não me deixar ajudar!
— E o que você pode fazer? Quem é você, afinal? — Percebi que ela parecia mais controlada que antes.
— Meu nome é Reyna. Agora, por favor, me deixe fazer uma ligação.
— Ligação?! Eu sabia! Sabia! Você vai chamá-los, não é? Finalmente vai dar um fim a nós dois! — A garota começou a perder o controle novamente.
Antes que pudesse me atacar, ou ao meu celular, segurei seu pulso com força, já cansada de ter que prová-la que era realmente boa, e a fiz olhar em meus olhos por tempo o suficiente para que se acalmasse.
— Eu não quero fazer nada contra você ou seu amigo, garota. Por favor, apenas me deixe te ajudar e ajudá-lo.
Novamente, ela pareceu querer recusar, mas relutantemente me deixou continuar.
— Não deixe o Dakota morrer. Só me prometa isso.
— Ele não vai morrer. Eu não vou deixar que isso aconteça, confie em mim.
Liguei o mais rápido que pude para Annabeth, e em poucos segundos ela, Thalia e Luke estavam no parque. Todos nós levamos Dakota o mais rápido que conseguimos para um hospital, onde fizeram alguns exames, o medicaram, e depois de olhar os ferimentos com cuidado, o deixaram descansar. Aos poucos, fui me aproximando da garota, que parecia extremamente assustada com tudo aquilo. Ainda estava chocada com o que havia acontecido, tanto quanto eu também estava. Finalmente me sentei ao seu lado, no chão frio, e encostei minha cabeça na parede.
— Ele vai ficar bem, aliás, qual é o seu nome?
—Gwen.
— Gwen. — Repeti.
— Por que você fez isso? Por que você nos ajudou?
A pergunta me pegou totalmente de surpresa, mas a resposta já estava mais do que formada em minha mente. Então, apenas me virei para olhá-la, e soltei um suspiro cansado.
— Porque não seria justo apenas observar e não ajudar.
— Não existe justiça no mundo. — O riso da garota foi amargo.
— Existe sim. Só está perdida em algum lugar.
— Você acha que é justo eu e meu melhor amigo morarmos na rua? Você acha justo sermos perseguidos por alunos riquinhos e preconceituosos? Isso não é justo para mim. Somos caçados como animais, não importa quais sejam os lugares em que fiquemos. Não existe justiça no mundo! — Repetiu a última frase com raiva.
Eu não consegui responder a todos os questionamentos. Olhando pelo ponto de vista de Gwen, nada estava realmente certo. Preconceito e violência estavam mais do que predominantes. New York não é a cidade maravilhosa que todos pensam que é. Apenas soltei outro suspiro, estava refletindo sobre tudo aquilo.
— Existe justiça no mundo. — Também repeti o que havia dito antes, dessa vez, mais certa do que nunca. — Quando Dakota sair do hospital, vocês vão morar comigo.
— Nós vamos o que?! — O tom de Gwen saiu extremamente surpreso.
— Não vou deixar nenhum de vocês perdidos pelas calçadas sujas de New York.
— Isso é alguma armação?
— Você sempre é tão desconfiada, Gwen?
— Sim.
— Faz bem. Porém, novamente, confie em mim. Eu vou lhe arrumar uma casa.
Finalmente, depois de tanta desconfiança, consegui com que Gwen se abrisse mais. Ela estava chorando novamente, porém, dessa vez, suas lágrimas demonstravam uma alegria que contagiou até mesmo a mim. Retribui o ato, com um pequeno sorriso. Certo, talvez isso tenha sido completamente imprudente de minha parte, mas eu não consegui deixar com que eles voltassem para a rua, onde seriam agredidos. Se os encontrassem novamente, e fizessem o que fizeram com Dakota, eu não poderia estar lá. Assim como qualquer outra pessoa, e o final seria terrível. Não consegui evitar.
— Desculpa ter te batido! Eu só estava...
— Assustada. Você estava assustada. Não se preocupe com isso.
Ah, sim. Eu não comentei nada disso com as meninas. Preciso muito falar com elas.
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