Big Girls Don't Cry (Hiatus)
17 Annabeth - Noite Radical - Part 02.
Notas iniciais
Eu não estava exatamente muito certa quando resolvi desafiar o julgamento de Thalia e Piper sobre mim e Reyna. Aliás, Reyna não está muito feliz comigo. Eu a arrastei para uma aventura longe do quarto quando tudo o que ela mais queria era respirar e descançar. Porém, não consegui tirar da cabeça o fato de que elas estavam com razão. O que havíamos feito de memorável nos últimos anos? Tá, é meio doentio querer colocar a si mesma em uma situação constrangedora, mas era algo maior. Era meu orgulho ferido. E eu assumo, sou mega orgulhosa.
Assim que descemos, seguimos algumas ruas até finalmente chegar na casa onde Travis e Connor moravam sozinhos. Olhei para Reyna e tentei sorrir, mas ela não estava exatamente com a melhor expressão no rosto. Meu celular vibrou dentro do bolso, e o peguei para ler a suposta mensagem.
“E aí? Já estão fazendo coisas radicais? Aliás, “radicais” é um termo tão chato quanto vocês.” — Thalia
Tentei ignorar a provocação e não respondi, apenas toquei a campainha e aguardei. Aguardei mais um pouco, e quando dei por mim, já haviam se passado vinte longos minutos sem resposta. Reyna estava prestes a me assassinar, podia sentir seu olhar penetrante atravessando minha cabeça como uma flecha.
–-- Mas que droga! --- Falei, baixo. --- Quando mais se precisa desses dois idiotas, eles não aparecem.
–-- Mais alguma ideia para nossa suposta noite radical? --- Reyna disse, e então olhou para a janela logo ao lado.
Acompanhei seu olhar, e tive uma grande ideia. Reyna observou enquanto eu me aproximava e observava se realmente estava aberta. Entenda, Travis e Connor jamais deixariam a janela aberta, porque mesmo sendo dois idiotas, eles não são idiotas a ponto disso. O que significava que eles estavam lá dentro. O que significava que iríamos entrar.
–-- Eu não vou fazer isso sozinha! --- Falei, já me apoiando para entrar.
–-- Sim, você vai. --- Reyna cruzou os braços.
–-- São os Stoll! --- Insisti.
–-- E daí? Isso é violação de domicílio! Podemos pegar de seis meses a dois anos! --- Ela me repreendeu novamente.
–-- Reyna, eu repito: São os Stoll.
–-- Annabeth, eu repito: Isso é crime. E eu não sei se você se lembra, mas eu curso Direito.
Revirei os olhos e fiz uma careta, fazendo um sinal para que ela esperasse do lado de fora. Parando para pensar, seria bem mais difícil do que eu imaginava. Reyna tinha um amplo conhecimento do Código Penal, e qualquer mísera coisa podia ser considerada crime. Não que eu quisesse cometer um crime, só que... Ok, eu não estava me reconhecendo direito naquela noite.
Entrei silenciosamente, e caminhei pela sala escura. Não era uma casa muito grande, porém tinham dois andares. Resolvi acender a luz, para que ficasse mais fácil, e corri até o outro lado da sala, onde imaginei que encontraria o lugar onde acender a luz. Apalpei as paredes, porém nada encontrei, até seguir até a cozinha, onde tentei inutilmente.
E então algo aconteceu. Senti uma mão se agarrar ao meu tornozelo.
–-- Peguei! Travis, o invasor! Venha logo seu imbecil! --- Ele disse, se levantando enquanto eu tentava correr.
–-- Invasor? Como assim invasor? Me solta, seu idiota! --- Gritei, porém ele me segurou com os dois braços e conseguiu me imobilizar.
–-- Hã, espera... Travis! É uma invasora! Vem logo! Mulheres são ainda mais perigosas! --- Ele gritou, eu prendeu minha boca.
Devo ter me remexido como um cachorro louco nos braços de Connor, mas ele era mais alto e mais forte do que eu, então apesar de ter dado trabalho, não funcionou como eu queria. Não até eu morder a mão dele, e fazer ele vacilar, depois eu devo ter pego a primeira coisa que vi pela frente, e ataquei a cabeça dele. Essa tal coisa quebrou. Era uma garrafa.
E aí, Travis finalmente apareceu e acendeu a luz.
–-- Annabeth? --- Ele me olhou, claramente confuso, porém depois desviou o olhar para a minha mão e para o irmão resmungando de dor no chão. --- Connor!
Ele exclamou e correu para acudi-lo. Eu fiquei parada, apenas observando a cena e sentindo uma vontade enorme de enfiar minha cabeça no buraco da pia. Então algo pior aconteceu. Reyna bateu furiosa na porta, gritando como uma maluca, e isso chamou a atenção de ambos, tanto de Connor, que estava jogado no chão como um pedaço inútil de cocô, quanto de Travis, que alternava em me fuzilar com o olhar e acudir o irmão.
–-- Por. Que. Diabos. Você. Fez. Isso? --- Ele perguntou, estreitando os olhos.
–-- Hã... --- Tentei formular uma resposta. --- Porque eu preciso de ajuda.
Depois de meia hora, Connor estava bem. Quebrado, com um galo na cabeça e uma mordida aparente na mão, mas bem. Eu havia explica toda a bagunça,com Reyna do meu lado, não acreditando em nada do que eu havia feito.
–-- Então vocês querem fazer alguma coisa louca....--- Travis disse mais para si mesmo.
–-- Sim. --- Reyna comentou.
–-- Mas, não pode ser que prejudique a integridade física de outra pessoa e não pode infligir uma lei? --- Connor completou, falando devagar.
–-- Isso mesmo. --- Falei ao mesmo tempo que Reyna.
Eles começaram a rir. Rir muito, descontroladamente. Por aproximadamente dez minutos sem parar.
–-- Já terminaram?--- Reyna falou, com a face levemente corada, não pela vergonha, mas pela raiva.
–-- Tá, espera. --- Connor disse, recuperando o fôlego entre uma gargalhada eoutra. --- Ok, essa foi demais.
–-- Eu devia ter acertado a sua cabeça com mais força. --- Resmunguei.
–-- Vão pra casa. --- Travis disse, sem tirar aquele sorriso ordinário do rosto.
–-- Não mesmo. Precisa existir alguma coisa que possamos fazer! --- Protestei, e me levantei.
–-- Ok, não se aproxime demais. --- Connor pediu, ainda traumatizado. --- Existem algumas coisas, resta saber se vocês tem coragem.
Reyna e eu nos entreolhamos, e pela primeira vez eu vi que ela concordava comigo. Fomos colocadas em uma situação que pedia um sim. Ninguém iria nos desafiar a ter coragem de fazer qualquer coisa, e ficar por cima.
–-- Pode dizer o que é. --- Reyna lançou seu melhor olhar intimidador.
–-- Ok, já que vocês não podem infligir a lei, existem algumas coisas idiotas que eu e Travis fazíamos pra tirar o tédio. São só bobagens fracas. --- Travis deu de ombros e nos entregou um papel.
–-- Isso é bobagem para vocês?! --- Exclamou Reyna.
–-- Fala sério! Vocês não conseguem sair na rua de roupa íntima, entrar em uma festa sem serem convidadas, se casarem bêbadas e depois acessarem um site de encontros para sexo casual e colocar o nome de alguém que você odeia com a mensagem “me liga”?! --- Travis disse, incrédulo.
–-- ... --- Eu estava pensando em algo para responder aquilo sem xingá-los. --- Vocês tem algum pijama aí?
E por incrível que pareça, eles tinham. E vários. Alguns não cabiam nem em um braço meu. Eu não devia subestimar dois cafajestes. Reyna escolheu um pijama preto batendo na metade da coxa e uma blusa sem mangas com decote v. Eu escolhi um no mesmo estilo, só que com pequenos animais fofinhos estampados.
–-- Uau, melhor vocês levarem alguma arma. --- Connor sugeriu, encarando nós duas.
–-- Não, eu prefiro duas garrafas. --- Sorri, e ele me lançou uma careta.
Reyna estava com vontade de me matar novamente. Quando saímos da casa e viramos a esquina, não sabia se o pior eram os olhares devoradores, ou o frio da magrugada em New York.
–-- Estamos praticamente sem roupa, no meio da rua! --- Ela exclamou --- E estamos procurando uma festa, onde não fomos convidadas. Temos vinte anos de idade e somos mulheres responsáveis. Você não acha que tem uma discordância no meio disso, Annabeth?
–-- Reyna, é uma única noite fingindo ser adolescentes. Não é como se fôssemos virar um plágio da Effy Stonem.
Ela resmungou alguma coisa, mas eu ignorei. Resolvi seguir o ritmo da música que tocava alto, agora que havíamos virado mais uma esquina. Eu corri, e Reyna me acompanhou. E aí nos deparamos com vários adolescentes parados em frente auma casa enorme, com som alto, gritaria e palavrões. Olhei para Reyna, que negou na hora. Porém eu a puxei junto.
Um garoto de cabelos castanhos e sardas bastante visíveis espalhadas por todo o rosto olhou para mim e Reyna, e depois bebericou a vodka. Ele deveria ter uns 17 anos, e parecia estar incrivelmente bêbado.
–-- Quem são vocês? --- Ele perguntou.
–-- Somos amigas da Tracy! --- Exclamei, e Reyna me olhou sem entender nada.
O garoto analisou nossas expressões, porém o interesse maior dele não foi olhar nossa fisionomia, ou o pijama. Foi a garrafa que eu realmente havia levado. Ele a tomou da minha mão e sorriu.
–-- Meu nome é Toddy, podem entrar e se divirtam! --- Ele disse, e finalmente caiu no chão.
–-- É, parece que vamos nos divertir muito. --- Reyna me beliscou, e entrou no lugar.
Aquilo estava infestado de adolescentes, música alta e coisas que prefiro não comentar. Reyna se sentiu totalmente desajustada, igualmente a mim. E aí me lembrei de um detalhe: Precisávamos de prova. Soltei um suspiro e puxei a mão do primeiro garoto que eu vi.
–-- Opa, oi. --- O sorriso dele ficou maior, eu apenas revirei os olhos.
–-- Oi! Então, você pode tirar uma foto nossa? --- Sorri.
–-- Tá. --- Ele disse, e eu me animei, entregando o celular para ele. --- Mas...Só se a sua amiga tirar a busa e vocês dançarem juntas.
–-- O que?! --- Reyna exclamou. --- Nem morta!
–-- Ah, qual é! Dança! Dança! Dança! Dança! Dança! --- Ele começou a repetir.
Logo, um grande tumulto de adolescentes de juntou ao nosso redor, ambos repetindo para que daçássemos sem nossas blusas. Alguns mais abusados que outros, usando as mãos bobas para tocar no decote da fina blusa. Reyna estava tão vermelha quanto eu, até que ela fez algo que me surpreendeu. Ela se levantou, e deu um grito enorme.
–-- Calem a boca! Vocês querem que eu dance sem blusa? --- Todos gritaram --- Cansei de me sentar e evitar as coisas, eu já estou ferrada mesmo! --- Ela falou, e tirou a peça superior na minha cara, arrancando ainda mais gritos, e depois foi dançar.
Eu estava perplexa demais para processar aquilo. Apenas entreguei o celular para o pirralho que havia provocado a manifestação, tirei minha blusa e fui dançar.
Passamos um bom tempo lá, dançando com pessoas cujo não decorei nem metade dos nomes. Alguns legais, outros abusados, outros tão bêbados que só ficavam rodeando a casa e gritando alguma coisa. Reyna estava rindo tanto e dançando tanto, que temi que não fosse ela ali, porém eu tinha certeza de que eu estava do mesmo jeito. Era estranhamente animador dançar rodeada de pessoas alegres, ignorando o espaço pessoal e gritando como loucos. Uma liberdade, como se eu estivesse solta de todas as responsabilidades que eram colocadas nas minhas costas no dia a dia. Chegaram a me oferecer bebida, porém tomei poucos goles, apenas para completar aquela sensação alheia, que eu não sentia com frequência. É estranho. Quando se é adolescente você acha que não tem liberdade o suficiente, que quando for adulto, tudo vai ficar melhor e você vai ser livre. Isso não é verdade. O peso da responsabilidade é o que predomina. Faculdade, emprego, contas. A vida adulta tira o seu tempo livre. Liberdade não vem quando você é adulto. Você não vai simplesmente “fazer o que quiser” e isso será ser livre. Quando se é adulto, suas decisões são fatais, e a vida acaba lhe prendendo a elas. Você está exposto a riscos. Liberdade não tem uma única definição. Ela varia de cabeça a cabeça, de ponto de vista a ponto de vista. Afinal, como é a sua liberdade? Ela é diferente da minha? Ela realmente existe?
Dançamos até que o tal Toddy fosse para a pista e vomitasse em metade dela, levando o grupo de adolescentes para outro canto da casa, enquanto eu me sentava junto com Reyna no sofá novamente.
–-- Eu não acredito no que eu fiz. --- Ela disse para si mesma.
–-- O que? Que você veio a uma casa qualquer, cheia de adolescentes bêbados e dançou de sutiã e short curto enquanto sorria mais do que nunca sorriu quando éramos adolescentes e íamos a esse tipo de festa? --- Falei, rápido, e mais como um desabafo. Eu também não estava acreditando.
–-- Isso. Exatamente. --- Reyna sorriu, percebi que sem querer. --- É estranho sentir saudades disso.
–-- Você também não consegue definir. --- Eu sorri também. --- Foi divertido mas...
–-- Mas não vamos fazer isso outra vez. --- Reyna completou, e pegou o celular ao lado dela. O garoto havia o deixado ali, simplesmente jogado.
Havia uma foto, onde era possível ver Reyna e eu sorrindo para a câmera junto de várias outras pessoas, alegres e animadas. Havia uma outra, onde Reyna pendia a cabeça para cima num movimento de dança, enquanto eu estava logo ao lado, de olhos fechados e braços erguidos, com um sorriso no rosto. Olhando assim, de longe, era como se estivéssemos de volta a nossa antiga cidade. Apenas duas adolescentes sonhando com uma “liberdade” sem imaginar o quanto eram sortudas e não sabiam. Onde elas sim tinham a real liberdade. Onde não existiam responsabilidades que não fossem os estudos, e onde havia sempre a família para apoiar e acolher. Eu sentia saudades imensas de quando eu era assim. O tempo não volta atrás, e quando você menos percebe, está perdendo o futuro. Não éramos mais adolescentes. Nunca mais iríamos ser.
–-- É, nós não vamos. --- Falei, e entreguei a ela sua blusa.
Vestimos nossos pijamas novamente, e seguimos andando pela rua, sem nos despedir daqueles jovens que nem tinham ideia do quanto tinham sorte.
Enviei a fotografia para Piper e Thalia, e tive um resultado imediato.
"Caralho, eu estou tendo uma visão ou aquelas duas são vocês? Isso é montagem né?"
"Porra, vocês simplesmente foram para a pista de dança praticamente sem roupa? Vocês não se drogaram também, ou se drogaram?!"
Reyna e eu apenas demos risadas, no meio do ponto de ônibus, com várias pessoas nos olhando como se fôssemos malucas. Só porque estávamos descabeladas, descalças e de pijama.
Descemos no ponto de ônibus perto de casa, e quando entramos fomos recebidas com um mega abraço de Piper e Thalia, que só não durou mais porque elas alegaram que nosso cheiro estava horrível. Então, fomos tomar banho, cada uma no banheiro do próprio quarto, e depois voltamos para a varanda, onde finalmente tínhamos detalhes de alguma aventura constrangedora.
–-- Como eu ia dizendo... Ah --- Thalia olhou para o celular tocando, um número desconhecido. --- Alô? Espera, o que?! Não, eu nunca disse que ia participar de uma orgia com você! O que você quer dizer com... Ah, você se refere àquela mensagem mais cedo que eu deixei? Aquela que dizia “me liga”?
Tentei segurar o riso junto de Reyna. Cinco minutos depois, o celular de Piper e de Thalia tocaram de novo. E inúmeras mensagens chegaram.
–-- O que vocês fizeram? --- Piper e Thalia disseram ao mesmo tempo, nos encarando com uma grande expressão assassina.
–-- Ops! --- Reyna e eu dissemos ao mesmo tempo também.
–-- Suas filhas da puta! --- Thalia gritou.
–-- Vou ter que trocar a porcaria do chip! --- Piper gritou também.
Preciso assumir, no começo, tudo foi uma droga sem tamanho. Mas isso passou. Só precisávamos entender que dificuldades e mudanças estão entrelaçadas. Nunca estive sozinha, elas estavam sempre lá. Em meio a todo o medo e desespero, elas continuavam ali. Passamos por crises e incertezas e talvez tenhamos nos afastado lentamente, mas um laço de amizade verdadeiro não se rompe com dificuldades, nem nas mais complicadas. Nossa amizade continuou firme e forte. E eu preciso admitir, a vida nunca foi tão boa.
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