Big Fish

1 Capítulo Único


Gregory House era um peixe mal-humorado. Diferente dos outros peixinhos dourados do aquário, ele gostava de ficar lá no seu canto, apenas observando o que se passava do outro lado do vidro. Quando se aproximava de algum peixe – principalmente daquela provocante peixinha que sempre passava esfregando sua garbosa cauda nas suas fuças, a tal da Lisa Cuddy — , era para de alguma forma (ou de todas as possíveis) ser intragável. O acidente no ano anterior que tornara sua nadadeira esquerda bastante comprometida apenas servira para agravar o mal-humor daquele peixe de olhos azuis.

Até que um dia, enquanto House se encolhia no costumeiro canto na parede de vidro pensando em quão infeliz sua vida se tornara, um tumulto se formou ao redor do aquário. Os outros peixinhos dourados, curiosos, se agruparam tentando entender o que estava acontecendo. House apenas deu uma olhada, procurando naquilo um motivo para dizer algo sarcástico que pudesse magoar alguém.

Mas o que ele viu foi ao mesmo tempo confuso e intrigante. Um novo peixinho acabava de ser depositado dentro do aquário. A nado manco, e fingindo não ter o menor interesse, House se aproximou.

Era um peixe menor do que House, mas ainda assim bonito. Possuía um olhar atraente (por assim dizer) e com grossas sobrancelhas e as escamas em sua cabeça pareciam cuidadosamente organizadas para formar um belo topete em sua testa.

Os demais peixes estavam eufóricos. Já organizavam uma festa de boas-vindas ao recém-chegado quando House, nadando daquela sua forma manca, interrompeu sarcasticamente:

- Ora, ora, ora... Isso mesmo, vamos todos colocar chapeuzinhos de festa e reverenciar nosso novo companheiro!

Um silêncio constrangedor predominou na água. A provocante e garbosa Lisa Cuddy, tentando remediar, dirigiu-se a House:

- House, acho que não lhe apresentamos... Este é James Wilson, um estrangeiro que veio passar um tempo conosco aqui.

- Ah! James Wilson! Devo chamar-lhe de Sr. Wilson? Ou quem sabe Dr.? – House replicou.

Wilson, o recém-chegado, aproximou-se. Aqueles olhos... House precisou de algum tempo para processar aquele olhar.

— Sim, já ouvi falar de você. Dizem que é um tremendo de um mal-humorado.

- Oras, então já nos conhecemos! Seja bem-vindo ao nosso humilde lar! — House disse, ensaiando uma reverência.

Cuddy se aproximou, lançando para House um olhar de cala-a-boca-e-vai-procurar-o-que-fazer. Puxando Wilson pela nadadeira, ela o levou a conhecer todos os lugares do aquário.

House retornou a seu canto solitário, sem entender de fato por que o recém-chegado o incomodava tanto.

Os dias se passaram sem maiores problemas. Wilson se demonstrava um peixe muito sociável, amigo e solícito. Todos pareciam adorá-lo, exceto aquele par de olhos azuis que o observavam de um canto do aquário.

Uma noite, House tomava a quinta dose de musgo do dia quando foi surpreendido por Wilson. Pego de supetão, House não pôde disfarçar o queixo caído ao ver aqueles olhos atraentes (por assim dizer) olhando para os seus azuis. Virando a dose de musgo de uma vez só, ele deu de ombros e virou-se de costas para Wilson.

- Certo, certo... O que você tem contra mim? – Wilson perguntou, virando os olhos.

House olhou para ele, sorrindo enquanto pensava em algo terrivelmente sarcástico para dizer.

- Me fala, eu fiz alguma coisa contra você? Eu invadi seu espaço, roubei algo que era seu, dormi com a sua namorada? – ele insistiu.

- Depende, você dormiu com a Cuddy? – House disse no melhor tom sarcástico que conseguiu.

Silêncio. Os dois se encararam. Com um tom solene, Wilson respondeu:

- Não.

House deu uma risada alta, enquanto desviava dos olhos castanhos do outro.

- Pois devia. É algo que você não vai se arrepender. E ela vive espalhando aquela cauda para quem queira ver...

- É... – Wilson suspirou – Mas ela não faz muito o meu tipo...

Os dois se olharam. House sentiu como se seu estômago estivesse revirando dentro de si. Manteve o controle de suas brânquias para que o outro não o ouvisse suspirando.

- Como ela poderia não fazer seu tipo? Ela é o tipo de peixa que qualquer um quer para acasalar!

Wilson novamente suspirou, contendo um sorriso.

- É... Mas sabe como é, né? A gente não pode escolher por quem se atrai.

O estômago de House novamente deu sinais de vida. Desta vez ele não pôde impedir que suas brânquias dilatassem, fato que Wilson não teve como deixar de notar. Tentando disfarçar, House olhou para os lados, forçando seu cérebro a formular algo impactante para falar.

- E por quem você se atrai?- as palavras fugiram da boca de House sem que ele pudesse segurá-las. Wilson respondeu com um sorriso significativo.

- Não acho que você esteja interessado. – e pôs-se a nadar para longe de House.

Sem entender o que sentia, House nadou desajeitado, barrando o caminho de Wilson. Os olhos castanhos o encararam, levemente surpresos.

- Por quem você se atrai? — House insistiu, num tom de urgência que o surpreendeu.

Wilson sorriu, dando-lhe um olhar profundo. Aproximou-se lentamente e, tão rápido que House passaria o resto de seus dias tentando entender se realmente acontecera, deu um selinho em House.

- Sabe como é, né? A gente nunca sabe... – disse Wilson, nadando de volta ao centro do aquário.

House permaneceu por alguns minutos ali, sendo amparado apenas pela água ao seu redor. Nadou lentamente, como que em transe, até seu cantinho solitário. Enrolando-se em seu próprio corpo, tentou entender o que acabara de acontecer, e o que se passava dentro de si.

Por fim, suspirou e adormeceu. No dia seguinte todos comentavam quais seriam os sonhos que justificariam o imenso sorriso que House estampava durante o sono.

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