Bicho do Mato

Chamava-se Roberto Barboza, e morava pelos lados de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Era formado em Pedagogia, História e Jornalismo. Mas, andando pela rua, você com certeza diria que não passava de um mendigo.

Era assim desde jovem. Não se importava com esse tipo de coisa. A mãe queria lhe comprar roupas novas para arranjar namorada (era fato que sempre andava encalhado e triste), e ele dizia: “Quê? Eu não quero roupas! Você fica me comprando roupas e depois não paga suas dívidas! Gaste com coisas mais importantes!”. E andava sempre vestido da mesma forma, parecia desenho-animado.

Nunca penteava o cabelo, dizia que era perda de tempo e não queria impressionar ninguém (talvez o fato de seus cabelos serem bem rebeldes contribuísse para tal comportamento). Era enormemente mal-educado, mas sem querer. Simplesmente esquecia de cumprimentar as pessoas devidamente ou olhar para a cara delas enquanto falavam, pois estava mais preocupado em pensar nos problemas existenciais e comportamentais da raça humana. Vivia no mundo da lua pensando em coisas complexas, e desprezava as coisas simples. Logo, por esse motivo, ganhou um apelido que até lhe agradava: “Bicho do Mato”.

Não se arrumava nem para ir à igreja, e se fazia isso era forçado. Seu argumento era que João Batista andava todo desmazelado pelo deserto comendo gafanhotos, e havia mesmo assim se tornado santo. Se Roberto nem santo pretendia ser, o que haveria de temer?

Raramente fazia a barba, por puro desmazelo, e quando falavam alguma coisa, dizia que era para ficar igual ao Che Guevara, personalidade que Barboza admirava enormemente, já que simpatizava com qualquer coisa que fosse de esquerda. Andava rapidamente pelas ruas, ganharia facilmente uma “Corrida de Andar”. Se houvesse tal modalidade nas Olimpíadas, seria um ouro atrás do outro. Alguns dizem que fazia isso apenas por pressa, outros falam que era para não cruzar com ninguém conhecido, já que assim teria que cumprimentar a pessoa.

Era pão-duro como ele só. Vivia economizando, e qualquer equipe econômica que convivesse com ele provavelmente aprenderia muitas coisas úteis. O lema máximo de Roberto era “Se não estou andando pelado, uma peça de roupa de cada tipo basta!”. Muita gente não consegue entender uma pessoa assim, mas já ouvi alguns falando que entendem.

A única época em que seu estilo de vida fez sucesso foi na faculdade. Todos o admiravam, inclusive as garotas. Nessa época sua solidão acabou, Barboza era o garanhão. Agora, além de ficar pensando em teorias do conhecimento humano, Roberto dedicava seu tempo escrevendo sonetos para suas amadas, e elas adoravam. Porém, não houve em sua vida relação duradoura, muito menos casamento. Todas as mulheres temiam que Barboza lhes impusesse seu Simple Way of Life.

Mas, afinal de contas, Roberto não era assim de propósito. Era o jeito dele. Por mais que se esforçasse, não conseguia mudar. Por se preocupar tanto com problemas filosóficos e científicos, dedicando integralmente seu tempo para isso (já que renunciara a tudo que considerava “futilidade”), escrevera em sua vida uma biblioteca inteira de livros. Tinha preferência pela ficção, mas chegou a escrever um livro de auto-ajuda, chamado “Vivendo Simplesmente”, no qual apresentava seu estilo de vida como saída para os problemas contemporâneos, e conseguiu vender grande número de exemplares.

Diz-se até que, na noite de autógrafos, quando perguntado por um jornalista de Ribeirão se tinha vergonha de seu apelido, Barboza simplesmente respondeu:

- Para tal pergunta contundente e provocadora, darei uma resposta simples e concisa, inspirado pelas mesmas musas de Aristóteles e Platão, se é que as possuíam. Imitando o papagaio da minha tia, que automaticamente repete os momentos sombrios ou brilhantes da sabedoria humana expressa por palavras, respondo prontamente: “Vá cagar!”.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!