Biblioteca do Medo
2 Onde vivem os monstros?
Notas iniciais
Você já se perguntou onde vive os monstros? Ou a menos sabe onde vivem?
Essas duas perguntas me perseguiram quando eu era criança. A curiosidade das crianças são enormes comparadas com a dos adultos, meu erro foi ser muito curioso.
Estava em meu quarto, tinha medo do escuro. Meu pai não deixava o abajur acesso dizendo “Você já é bem grandinho pra isso!” e eu dizia “Mas eu tenho medo dos monstros!”, ele ria e me perguntava “Então onde vivem os monstros?!”.
— De baixo da cama.
Acho que foi isso que fez tudo começar.
— Então quer dizer que você tem medo de nós?! — uma voz me perguntava, não conseguia definir da onde vinha.
— Depende, são monstros? — perguntava com ingenuidade.
— Sim, nós somos. Você tem medo?
— Eu tenho, meu pai diz que vocês não existem e me impede de brincar.
— Nós ouvimos isso todas as noites. — eu já conseguia identificar da onde vinha a voz, vinha debaixo da minha cama — isso deixa você muito triste e a nós também!
— O que vamos fazer? — eu perguntei.
— Vamos brincar. De esconde-esconde. Nós contamos e você vai se esconder.
Eu o fiz, sai de meu quarto e fui me esconder na cozinha, havia um espaço entre o armário que eu cabia. Assim que eu me coloquei lá eu fiquei torcendo para que eles não me achassem.
Fiquei lá por horas, devo ter cochilado, pois assim que resolvi sair era de manhã. Fui pro meu quarto, mas eles não estavam lá. Chamei por eles, mas nada.
Fui então ao quarto do meu pai, essa hora ele já devia ter saído para trabalhar. Assim que eu cheguei lá acabei escorregando em alguma coisa que escorria o chão. Eu não conseguia acreditar no que era... sangue... um sangue que vinha debaixo da cama do meu pai.
Eu estava com medo, com muito medo mesmo assim fui ver o que estava acontecendo. Puxei o lençol para cima e vi o corpo de meu pai todo estraçalhado debaixo da cama. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo, comecei a chorar, saí de lá rapidamente e fui me esconder no armário de meu quarto.
Suponhamos que aquilo foi um erro drástico.
— O que está acontecendo Dave? — meu nome não era Dave, ele sabia disso, mas mesmo assim insistia em me chamar de Dave — Por que está chorando?
— Vocês mataram meu pai!
— Era necessário, Dave. Ele não deixava você brincar. — ele falava com uma voz de grande timbre, mas passava uma calma medonha — Agora você pode brincar quando quiser.
Brinquei por inúmeros dias com eles. Incontáveis dias.
***
— Então está nos dizendo que os “monstros” são reais? — ele falava a palavra monstros colocando aspas, como se não acreditassem em mim — Pois me diga. Onde vivem os monstros?
— Embaixo da cama. — ele riu como se minha resposta tinha sido algo engraçado de se ouvir.
Inúmeros dias se passavam. Eles só me visitavam quando eu ia dormir, mas agora eu não tinha mais medo, meu quarto era iluminado e tudo branco, se eles estivessem ali dava para perceber, mas o grande espelho na parede direita do lado da porta era a única coisa que me intrigava, me sentia observado, mas era só um espelho.
Novamente vieram falar comigo:
— Dave. Vamos brincar? — apenas conseguia ouvir a voz dele, novamente, debaixo da cama.
— Não consigo, essa blusa me impede.
— Não se preocupe você pode brincar com ela mesma. Vá se esconder — a porta abriu repentinamente — que eu irei te procurar.
Sai correndo do meu quarto, os corredores imensos e brancos cheios de portas, era um labirinto para loucos.
Me escondi em um lugar que parecia um quarto para toalhas. Como criança, fiquei esperando por horas, mas não dormir, deve ser culpa das balinhas brancas que me deram depois do jantar.
Acho que entendi errado. Era para mim me esconder ou procurar?
Com a dúvida na cabeça eu comecei a procurar, voltei até meu quarto, meu espelho havia quebrado e havia sangue no vidro, dentro do espelho estava tudo escuro, apenas uma luz piscava. Tinha alguém lá, era grande, tinha grandes músculos e com um sorriso caótico me dizia:
— Te encontrei Dave! — depois dessa frase não consegui ver mais nada além de sangue escorrendo pelos corredores e aquela criatura ia em direção a cama. Sua mão estava coberta por sangue, com dor nas pernas eu me virei e vi escrito a sangue na parede:
“Ninguém pode fugir do seu próprio medo!”
Fale com o autor