Biblioteca Foreastun

4 Desertos da solidão I


Carta do gigante da areia

Milhares de anos não seriam vida para que sinto, milhares de palavras não seria tudo para expressar minhas emoções, sozinho por anos, perdido, isolado, um gigante, mas tão pequeno neste imenso deserto, minhas lágrimas a despencar inundariam tudo isso, mas a raiva as queima mais forte do que o sol árduo, em uma enorme instabilidade emocional eu sigo, com tendências à loucura, e vozes de inúmeros entes queridos que já se foram décadas atrás tentando consolar e até domesticar minha alma selvagens, e pela primeira vez em séculos sinto a chuva cair, caindo e fazendo um único som em minha mente, notas suaves em uma triste melodia, mas tranquilizadoras, apesar de nostálgicas, "vamos, siga, tente", e com a chuva a desenterrada de velhas emoções, seguir é preciso, para seja lá aonde for, a música, a seca, a solidão, tudo parece fazer sentido em momentos de pouca sensatez, mas se desfaz como meu corpo atingido nesta chuva, seguir para onde? Se tanto tempo em areia, areia eu me tornei, e agora me desfazendo estou, há alguém me observando? Alguém sabe de minha existência? Acabarei lembrado? Ou serei apenas mais um tanto de areia deste imenso deserto?.