Beyond the Vengeance
6 Revolta
Notas iniciais
Consegui dormir relativamente bem.
Não era o melhor sono que eu já tivera na vida e, de fato, acordei mais algumas vezes antes de cair em um sono profundo e sem sonhos. Quando acordei me assustei com a hora. Já se passavam das duas horas da tarde, mas eu ainda me sentia cansado. Aparentemente a notícia sobre a morte da filha de Afrodite já tinha se espalhado, pois nenhum dos meus irmãos vieram me incomodar. Nem mesmo Lion, que era meio fanático por deixar o chalé com cara de perfeito, se incomodou quando deixei a cama desarrumada e fui ao banheiro.
No banheiro lavei o rosto várias vezes para afastar o sono. Enquanto sentia a água bater em meu rosto me lembrei da noite interior, quando fui até a arena e me imaginei socando minha própria cara. Olhando para mim no espelho eu ainda sentia a mesma vontade, mas sabia que aquilo não me levaria a nada. Me lembrava mais claramente da promessa que tinha feito. Não descansarei até vingar sua morte. Era isso que importava agora. Eu havia prometido a ela e a mim mesmo que cumpriria aquilo. A imagem que eu via no espelho não me deixava muito convencido de que isso realmente era verdade. Que chance um menino fraco e assustado, sem nem um tipo de ajuda e com o coração quebrado poderia ter de encontrar o verdadeiro culpado por tudo aquilo e ainda derrotá-lo? O que ele fez certamente mostra o quanto cruel ele pode ser, mas também mostra sua força. A filha de Afrodite com certeza deve ter tentado usar seu charme para se libertar e mesmo assim acabou mor…
Respirei fundo por algumas vezes. Lembrar daquilo fazia todos meus pesadelos voltarem. Eu ainda encarava meu reflexo. Não sabia como poderia encontrá-lo. Mas olhando bem fundo em seus olhos eu sabia que não desistiria. Mesmo isso não me animava. Não desistir não significava conseguir. Saí do banheiro mais abatido do que quando tinha entrado. Pensei em sair do chalé, pensei em treinar, pensei em ler, mas não sentia vontade de nada. Eu poderia simplesmente ficar ali parado sem nada pra fazer. Sem nenhuma vontade. Ouvi uma pequena confusão na porta do chalé. Quando olhei naquela direção vi um dos meus irmãos olhando de cara feia para Liza que entrou no chalé, obviamente sem permissão.
— Terry. — ela disse enquanto me abraçava. Fiz de tudo para retribuir o abraço o mais calorosamente possível, mas acho que acabei sendo tão frio como um cubo de gelo. Ela aparentemente não se importou — Como você está? — Não respondi, mas acho que ela não precisou de uma resposta.
Eu estava com olheiras do tamanho de containers, não tinha penteado o cabelo e ainda usava as mesmas roupas de ontem à noite. Exceto a calça que tinha tido o cuidado de trocar antes que alguém percebesse a perna machucada.
— Deuses, Terry! Você está terrível. Parece que teve uma noite péssima.
— Você queria que eu tivesse uma boa noite depois daquilo? — disse friamente, mas me arrependi imediatamente. Ela só estava querendo ajudar — Desculpe Liza. É que eu…
— Tudo bem. — ela disse — Você não precisa se desculpar. Eu sei que é difícil pra você — tive vontade de dizer que ela não sabia, mas dessa vez me segurei. Não podia descontar tudo nela. Ela não tinha culpa de nada — Vem comigo. — ela disse me puxando.
— Pra onde?
— Eu não vou deixar você andar por aí que nem um zumbi. — ela disse sorrindo.
Caminhamos até a casa grande. Não havia ninguém ali então imaginei que Quíron estivesse na arena. Liza puxou uma cadeira e pediu para que eu sentasse. Rapidamente ela saiu e, antes que eu pudesse perceber já estava de volta com um espelho e uma tesoura. Ela posicionou o espelho a minha frente.
— Que tal um novo corte?
Olhei para imagem no espelho. Desde que vim ao acampamento eu não tinha cortado o cabelo. Ele havia crescido bastante e agora, todo despenteado, estava um completo caos.
— Por que não?
Liza começou a cortar meu cabelo. Ela era habilidosa com a tesoura. Os fios caiam rápidos a minha volta. Durante grande parte do tempo eu fiquei perdido em pensamentos. Minha expressão parecia ter congelado. Não posso passar o resto da vida assim, pensei.
— Aonde você aprendeu a cortar cabelo? — comecei tentando me concentrar mais na conversa do que em meus pensamentos.
— Minha mãe era cabeleireira.
— Era?
— Ela morreu um ano atrás.
— Hum… — queria dizer algo reconfortante, mas as palavras “sinto muito” não pareciam nada sinceras.
— Mas eu já superei isso. —ela disse — Só espero que você também supere.
Liza pôs a mão em meu ombro e me olhou pelo espelho. Pousei minha mão sobre a dela e retornei o olhar com um pequeno sorriso. Depois de retribuir o sorriso ela voltou ao trabalho, acabando logo em seguida.
— Está pronto. O que achou? — ela disse ajeitando meu cabelo com as mãos.
— Está ótimo. Do jeito que eu gosto. Obrigado.
— Agora acho que seria bom se cuidássemos dessa sua roupa. Por que não vai tomar um banho e dar um jeito na roupa? Depois eu te encontro na enfermaria para trocar os curativos. — ela disse apontando para meu ombro enfaixado.
— Tudo bem.
Ela me deu um abraço de despedida, mas sua perna esbarrou na minha. Justamente aquela que tinha machucado. Não pude evitar soltar um “Ai!”.
— O que foi? — ela perguntou, logo depois olhou para baixo — foi sua perna?
— Não. — disse apressadamente — Não foi nada. Eu estou bem. Foi só…
Liza era esperta o bastante para saber que eu estava fingindo. Antes que eu pudesse completar a frase ela se agachou e levantou um pouco minha calça revelando minha perna enfaixada.
— O que foi isso? — ela disse irritada.
— Não é nada.
— Como “nada”? Foi você, não foi?
— Eu o quê? — perguntei confuso.
— Foi você que entrou na enfermaria de madrugada. Havia gotas de sangue no chão e algumas coisas estavam faltando. Quíron também me falou que uma das harpias sumiu. Você saiu de madrugada. — concluiu ela — Para quê?
— Eu já disse. Não foi nada.
— Me diga logo. — ela exigiu.
Após um longo suspiro e um pequeno momento de reflexão respondi:
— Preciso falar com Quíron. — disse já andando na direção da Arena.
— O quê? Não. Ainda não acabamos com nossa conversa. — ela disse me seguindo.
— Então venha comigo e você vai entender.
A Arena estava quase vazia. Quíron estava no centro supervisionando o treinamento de um grupo de semideuses. Parecia apenas mais um dia normal no acampamento. Como se ontem não tivesse acontecido nada.
— Quíron! — chamei alto o bastante para que ele e todos os outros ouvissem. O centauro pareceu surpreso ao me ver.
— Terry. Você está…
— Bem. — me adiantei — Vou direto ao assunto. É sobre o que aconteceu ontem.
— Ah, sim… — ele disse como se fosse uma lembrança distante — Uma terrível lástima para o acampamento.
— E o que você fez?
Ele olhou para mim confuso.
— Acho que não entendi a pergunta.
— O que você fez sobre isso? Mandou alguém para investigar o que realmente aconteceu pelo menos?
O centauro apenas me olhou, sem responder.
— Não me diga que você não fez nada?
— Não descobrimos nada relevante. — ele disse simplesmente.
Eu estava queimando de raiva. Que tipo de resposta era aquela? No fim consegui me conter para não soca-lo.
— Bom, eu saí para procurar pistas durante a madrugada.
— Você o quê? — Quíron e Liza disseram em uníssono.
Contei sobre minha escapadela durante a madrugada. Falei sobre a fogueira apagada recentemente e o cão infernal que me atacou. Tentei minimizar essa parte para que não parecesse que ele quase tirou minha vida. Por fim contei como fui até a enfermaria e logo depois até a praia, onde descobri as pegadas e matei a harpia. Quando terminei Liza estava de boca aberta. Quíron por sua vez manteve a mesma expressão a cada palavra.
— O que você fez foi algo grave. — ele disse por fim.
— O quê? Você não ouviu o que eu disse? A fogueira, as pegadas na praia. O culpado estava na floresta e fugiu para o mar. Se tivéssemos sido mais rápidos…
— A questão é: — ele disse me interrompendo — Você saiu de madrugada, matou uma das harpias e ainda pôs em risco a sua vida e quem sabe quantas mais você poderia ter arriscado se continuasse com essa investigação. Você descobriu pistas e eu te parabenizo por isso, mas essas pistas só servem para acabar com nossas esperanças de captura-lo e…
— AS SUAS ESPERANÇAS! — corrigi gritando — Se você simplesmente vai desistir eu mesmo vou procurá-lo.
— Não, você não vai. — ele disse como se estivesse dando uma ordem.
— Para quê serve esse acampamento? — disparei — Para nos treinar para que depois vocês possam nos controlar da forma que acharem melhor? Não me diga que é para nossa própria proteção. “O único lugar seguro para semideuses”? Aparentemente não é mais seguro. Quem sabe se um dia ele realmente foi — num acesso de fúria agarrei a gola de Quíron — Se você não vai mover um dedo para ajudar EU vou fazer isso do meu jeito. Vou achá-lo eu mesmo. E nem você nem o acampamento vão poder me deter!
Eu sabia que toda a arena tinha parado para assistir a discussão. Não havia nenhum som além dos meus gritos, mas eu não me importava. Tive que me conter ao máximo para não socar a cara do centauro. Antes que ele pudesse responder e me enfurecer mais ainda eu o empurrei e saí da arena pisando forte no chão.
Naquele momento eu tinha decidido sair do acampamento. Para sempre. Não queria de jeito nenhum ficar naquele lugar para ser controlado daquela forma covarde. Proteção? Mentira. Tudo mentira. Já estava pensando no que levar e como organizaria tudo em minha mochila quando Liza me alcançou e me segurou pelo braço.
— Espere!
— Eu já tomei minha decisão Liza, não vou mais ficar aqui.
— Espere! — ela disse novamente. Dessa vez parei para ouvi-la — Eu sei que você quer ir embora, mas pense bem. Aonde você vai ficar? Como vai sobreviver?
Eu realmente não tinha ideia. De jeito nenhum voltaria a morar com meu pai. O que me tornava um sem-teto. Mesmo assim ainda não iria ficar ali esperando para ser marionete de alguém. Mesmo que não tivesse grande chance fora do acampamento eu não podia aceitar aquilo.
— Eu vou dar um jeito. — respondi — Sei que consigo.
— Eu não estou falando que não consegue, — ela disse segurando meus ombros e me olhando nos olhos — mas essas decisões ter que ser feitas com calma. Espere um pouco antes de sair do acampamento. Se você for não vai poder voltar mais. — ela me encarou com seus olhos verdes — Por favor.
Pensei por um instante.
— Uma semana. — disse por fim — Vou esperar uma semana. Porque você me pediu.
Ela abriu um sorriso e me abraçou forte.
— Então agora acho que podemos continuar de onde paramos.
Dessa vez Liza não precisou dizer nada. Aquelas roupas já estavam incomodando até a mim. Voltei ao chalé e tomei um longo banho quente. Troquei as roupas substituindo a camiseta do acampamento por outra camiseta preta que Greg havia me dado como um presente de boas vindas. Já havia um tempo desde que ele tinha me dado, mas até aquele momento eu não tinha a usado. Aparentemente uma camiseta de um filho de Hefesto tinha sumido no mesmo dia em que a ganhei, então preferi não usá-la de imediato.
Após trocar os tênis fui até a enfermaria, onde Liza trocou os curativos, inclusive os da minha perna. Rapidamente eu já estava novo em folha. Minha mente não parava de trabalhar pensando nas providências que teria de tomar antes de sair do acampamento, qual seria meu primeiro passo para encontrar o assassino… Mas antes de qualquer coisa eu teria que agradecer à Liza. Se não fosse ela eu provavelmente estaria me lamentando no chalé. Era incrível como ela tinha me tirado daquela fossa tão rapidamente. Eu a conhecia a menos de 24 horas e mesmo assim ela já tinha se tornado minha melhor amiga no acampamento. E tinha que agradecê-la de alguma forma.
— Liza… — comecei enquanto ela firmava o último curativo em minha perna.
— O que foi? — ela perguntou voltando seu olhar pra mim.
— Eu só queria agradecer. Você sabe… por tudo que você fez. Não sei o que faria se você não estivesse aqui para me ajudar.
— Não precisa me agradecer — ela disse sorrindo — às vezes precisamos de ajuda.
— Mesmo assim, obrigado.
— De nada. — ela fez menção de sair, mas de repente parou — Sabe, talvez tenha uma forma de você agradecer.
— Qualquer coisa.
O que Liza me pediu foi tão simples que senti vontade de pedir algo mais difícil. Lá estávamos nós, sentados aos pés de uma árvore perto do lago, conversando. Liza disse que sempre ia ali para relaxar um pouco depois de um dia de trabalho na enfermaria. E depois de um tempo começou a ficar ali todos os dias para ver o pôr-do-sol.
— Foi assim que minha mãe conheceu meu pai. — ela contou — Ela estava observando o pôr-do-sol.
Liza não precisou contar mais nada. Seu pai era Apolo, ou seja, nada menos que o próprio sol.
— É por isso que você gosta de vir aqui. — conclui.
— É. Me faz lembrar dos dois.
Permanecemos calados por um tempo. Somente observando enquanto o sol começava a se esconder atrás da colina meio-sangue.
— Liza — comecei — por que você me trouxe junto com você? Quer dizer, não que eu esteja reclamando, mas esse não era um tempo só pra você e tal? E depois de eu ter sido tão chato com você…
— Você não é chato Terry. — ela disse olhando pra mim.
Não pude deixar de notar o quanto ela estava bonita. Seus cabelos castanho-avermelhados ficavam lindos com luz do sol batendo sobre eles. Os olhos verdes brilhavam de forma intensa. Até sua pele, que já era bronzeada, ficava ainda mais bonita.
— Você só está passando por um momento difícil. — ela continuou — E eu trouxe você aqui porque… — ela fez uma pausa — Porque não queria ficar sozinha. — ela disse olhando para o chão — Não hoje.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Só… só tive um sonho ruim. Só isso.
— Me conta.
Liza me contou sobre seu sonho: Ela estava em lugar escuro que mal dava para enxergar. De repente vozes começaram a soar de todas as partes. Alguém a jogou para dentro de um buraco fundo. Ela ficou naquele buraco pelo que pareceu uma eternidade. Sozinha e machucada pela queda. As vozes ainda ecoavam por toda parte como se zombassem dela.
— Depois do que pareceu uma eternidade fiquei tão desesperada que pensei em me matar. — ela contou — Não aguentava mais aquilo. Foi quando eu acordei. Depois disso não consegui dormir mais. Eu não queria ficar sozinha de novo por isso eu te chamei.
— Entendo. Eu sei como é.
— Sabe?
— Meu pai e eu não nos dávamos bem. Geralmente eu tinha que resolver meus problemas sozinho.
— Que bom que, pelo menos, nos entendemos, não é?
— É.
Por algum motivo quando nos encaramos começamos a dar risada. A primeira risada desde o desastre de ontem, percebi. Depois que paramos de com a risada ficamos em silêncio por mais um tempo até que Liza bocejou. Não pude evitar bocejar também.
— Acho que vou ter que dormir cedo hoje. — ela comentou.
— Quer que eu te acompanhe até seu chalé?
— Não. Ainda não. Daqui a pouco.
Esperamos mais um pouco, observando o fim do pôr-do-sol, mas esperamos tempo demais e acabamos adormecendo.
Quando acordei me perguntei aonde o sol tinha ido. Já estava escuro e não havia ninguém mais para fora dos chalés. Tínhamos dormido demais. Liza ainda dormia com sua cabeça apoiada em meu ombro. Eu ainda estava sonolento, mas pisquei forte para me manter acordado. Sussurrei para Liza para que ela acordasse. Ela pareceu meio confusa de início.
— O que…?
— Acabamos dormindo. Já deve ser tarde.
Olhei para baixo e só então notei que estávamos de mãos dadas. Aparentemente ela também percebeu. Rapidamente nos levantamos e soltamos a mão um do outro.
— Desculpe. — ela disse apressada, antes que eu pudesse me desculpar também.
— É… Tudo bem. — respondi.
— Acho que é melhor irmos, já está tarde.
Concordei com a cabeça e comecei a acompanhá-la até seu chalé. Pude ver duas ninfas que ainda estavam acordadas dando risadinhas enquanto nos olhavam. Liza pareceu não tê-las notado. Quando chegamos ao seu chalé dei boa-noite e segui para meu chalé. Todos já estavam dormindo exceto eu. Caminhei silenciosamente até a minha cama, mas alguém me agarrou pelo braço. Resisti ao impulso de dar um grito.
— Onde você estava? — uma voz sussurrou severamente. Era Lion, nosso monitor.
— Perto do lago.
— Sabe que horas são?
— Não.
— Faz duas horas que você já devia ter chegado.
— Desculpe mamãe.
— O que você estava fazendo? — ele perguntou irritado.
— Explico amanhã. Estou morrendo de sono.
— Espere, eu ainda não…
— Amanhã. — insisti.
Antes que Lion pudesse continuar com o interrogatório despenquei em minha cama. Esperava ter um sono tranquilo desta vez. Queria uma noite normal pra variar, mas não foi bem isso que aconteceu.
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