Beyond the Vengeance
2 Reclamação
Notas iniciais
Naquele dia eu fiquei na escola até tarde. Estudar depois da aula sempre parece melhor enquanto você está apenas planejando. Tudo aquilo podia ser muito chato, mas compensava o tempo a menos que tinha que passar com meu pai. Já estava quase escurecendo quando finalmente fui embora.
Comecei a andar fazendo o caminho que fazia todo dia, mas algo chamou minha atenção. Alguma coisa se movendo rápido indo para um beco sem saída. Não era uma boa ideia seguir seja lá o que for, mas mesmo assim eu fui até lá. O beco estava escuro demais para ver com exatidão o que estava a minha volta. Andei alguns metros até que dei de cara com a parede. Eu havia chegado ao fim do beco e não havia nada ali. Devia ser só minha imaginação. Devia…
A lua saiu de trás das nuvens revelando sua luz e permitindo eu enxergar melhor o que tinha no fim daquele beco. Apenas um monte de entulho que parecia ser de uma construção qualquer e uma lata de lixo feita de metal. Me virei e quase tive um ataque cardíaco.
Me deparei com um rosto horrível com boca de javali e com serpentes no lugar dos cabelos. Soltei um grito apavorado e tropecei ao recuar. Num primeiro momento não acreditei no que meus olhos estavam vendo, mas depois identifiquei o que deveria ser aquele monstro. Tentei desviar olhar, mas sabia que era tarde demais, eu já havia olhado em seus olhos horríveis de cobra. Eu iria me tornar uma estátua de pedra, morto pela Medusa que devia ser apenas um mito. Aquilo não podia estar acontecendo. A medusa não deveria existir. Aquilo só podia ser um sonho, um pesadelo. Segundos se passaram. Eu ainda podia me mover. Tomei coragem e voltei a olhar para seu rosto.
― O seu olhar não devia me transformar em pedra? ― perguntei num sussurro quase inaudível, mas infelizmente ela ouviu.
Ela praguejou alguma coisa em uma língua antiga que eu não conhecia. Parecia grego, embora eu nunca tivesse aprendido algo sobre a língua.
― Semideus imundo! Você vai me pagar pelo que sua mãe fez comigo e minhas irmãs.
Eu não sabia do que ela estava falando. Nunca nem mesmo conheci minha mãe. Meu tio sempre disse que ela tinha me abandonado quando eu ainda era um bebê, mas eu não queria nem tentar discutir isso com aquela "cabeça-de-cobra".
Comecei a recuar enquanto ela vinha na minha direção. Quase tropecei no monte de entulho, então lembrei que estava encurralado. Precisava passar por ela pra sair dali. Tentei lembrar alguma coisa da mitologia que me ajudasse, mas tudo que conseguir assimilar foi que ela provavelmente era Esteno ou Euríale, as duas górgonas que não tinham o poder de transformar pessoas em pedra. Olhei a minha volta de novo para tentar achar alguma saída, mas só havia entulho e a lata de lixo. Tinha que ser suficiente pelo menos para distrai-la.
Ela se aproximava devagar, disfrutando do fato de eu não ter saída e se divertindo com o meu pavor. Recuei até a parede. Percebi que estava tremendo. Estava perto da lata de lixo. Se isso não der certo vai ser o meu fim, pensei. Peguei a tampa da lata de lixo e a segurei como se fosse um escudo, o que estranhamente me pareceu familiar.
― Acha mesmo que isso vai ajudar meio-sangue ― ela disse com sua voz cortante.
― Espero que sim — sussurrei para mim mesmo, a voz quase sumida de medo.
Peguei um pedaço de tijolo do entulho e arremessei na górgona. O tijolo foi na direção dela e por pura sorte a atingiu em cheio na cabeça. Achei que ela fosse pelo menos cair por um momento, mas ela apenas ficou meio zonza. Antes que ela recuperasse o equilíbrio corri e a atingi com um golpe do meu escudo improvisado, empurrando-a para o lado como se eu fosse um jogador de futebol americano. De novo tive a esperança de que ela caísse, mas ela apenas perdeu o equilíbrio e começou a me perseguir.
Disparei em direção a rua pelo beco escuro. Quando cheguei à rua pensei em ir direto para minha casa, mas precisaria passar por um cruzamento e o sinal estava aberto para os carros que passavam em alta velocidade, e eu não poderia esperar o sinal, assim corri para o outro lado. Dobrei uma esquina tentando despistar a górgona, mas quando olhei para trás ela estava correndo furiosa na minha direção. Arremessei a tampa da lata de lixo nela, mas a tampa caiu inofensiva antes mesmo de poder atingir aquela criatura horrenda. Continuei correndo o mais rápido que pude e dobrei outra esquina. Ela estava se aproximando de mim mais rápido. Eu não imaginava que pudesse correr tanto.
Entrei em uma rua deserta e avistei uma coruja voando na minha direção. Pensei que também fosse me atacar, mas ela mergulhou a minha frente e quando estava perto largou alguma coisa no chão e começou a subir novamente. A coruja passou voando por mim tão próximo ao meu rosto que quase tive que me abaixar para não ser atingido. Olhei para o objeto que ela tinha largado no chão. Não sei por que, mas peguei aquilo e continuei correndo para não ser alcançado pela górgona. Olhei para o objeto. Era uma faca com lâmina afiada e aparentemente feita de bronze. Me perguntei o que uma coruja fazia carregando uma faca de bronze por aí e por que a tinha jogado na minha frente. Parecia que ela queria que eu lutasse contra a górgona. E eu temia que eu não tivesse escolha.
Corri pela rua vazia até avistar os trilhos do trem. Olhei para o relógio em meu pulso. O trem iria passar ali a qualquer minuto. Se eu pudesse distraí-la mais um pouco poderia passar pelos trilhos e o trem bloquearia a passagem dela, mas nunca conseguiria segurá-la ali por muito tempo, ela me mataria antes mesmo do trem chegar. Passei pelos trilhos e parei logo após o último. A górgona se aproximou rápido e parou em cima de um dos trilhos.
― Então finalmente desistiu meio-sangue — ela disse em meio a uma risada horrível.
― Nunca! ― falei apontando a faca em sua direção. Mas já não era eu, o meu eu verdadeiro morreria de medo e continuaria fugindo, mas ao invés disso corri ao seu encontro com a faca na mão.
Avancei gritando na direção da górgona que tentou me morder com suas presas de javali. Consegui me esquivar para seu lado tentei acerta-la no braço, mas ela também se esquivou e só consegui fazer um pequeno corte que mais parecia um arranhão. Ela me deu um chute forte no estômago que me fez dobrar e cair no chão. É o meu fim, pensei. Mas no último instante escutei o barulho do trem chegando rápido pelos trilhos, ele iria passar no mesmo trilho no qual a górgona estava parada. Nesse momento ela se distraiu olhando para o trem que não demoraria muito para chegar. Aproveitando o momento de distração cravei minha faca em sua coxa direita. A górgona gritou de dor, mas eu sabia que a faca não iria pará-la por tempo suficiente. De algum lugar obscuro em minha mente surgiu uma ideia maluca. Sem perder tempo e ignorando a dor ainda recente do chute, tirei minha camisa larga que saiu com apenas um puxão. Peguei a camisa pelas mangas longas e usei para cobrir o rosto da górgona que confusa e com dor tentou desesperadamente se livrar daquilo. Puxei as mangas da camisa por trás da górgona com força, enforcando-a, para que ela não conseguisse tira-la.
— Você… vai… cair — disse tentando desesperadamente derrubá-la.
Ela tentou dizer algo, mas com a camisa na cara parecia que ela tinha voltado a falar grego. Com um puxão mais forte consegui derruba-la. Retirei minha faca de sua coxa fazendo o corte abrir um pouco mais antes de saltar dos trilhos para não ser atropelado pelo trem. A górgona conseguiu se levantar e tirou minha camisa da sua cara. Ela olhou para mim com puro ódio, mas não teve tempo de atacar. O trem a acertou em cheio e no mesmo instante ela se desfez em uma nuvem de poeira dourada.
Cai sentado no chão. Exausto com a batalha. Estava ofegante, pingando de suor, sem acreditar no que tinha acontecido. Olhei para o trem que ainda estava passando depois olhei para a rua atrás de mim e vi um garoto mais ou menos da minha idade correndo na minha direção de um jeito esquisito, parecia estar galopando, mas sem cavalo, só com os pés. Ele se aproximou de mim e parou ao meu lado. Ele tinha pele escura e cabelo estilo afro, vestia calças jeans, tênis esportivos e uma camisa laranja estranha.
― Eu vi o que você fez! ― ótimo, pensei, Agora vou ter que explicar o que uma górgona fazia fora das histórias mitológicas. Até agora só eu a tinha visto ― Vamos. É melhor irmos antes que apareçam mais monstros.
— Mais monstros? — perguntei espantado
— É… olha, não temos tempo para conversa, apenas me siga.
Eu sei que não devia acompanhar alguém que eu nem mesmo sei o nome, mas também não devia sair por aí matando monstros que não deveriam existir. E se um deles já havia me atacado nada impedia os outros. Tentei me levantar, mas minhas pernas pareciam ser feitas de chumbo. Ele me estendeu a mão e me ajudou a levantar.
― Quem é você? ― perguntei.
― Meu nome é John. Eu sei que você tem milhares de perguntas para fazer, mas vamos pegar o carro primeiro ― Carro? A onde diabos ele ia me levar?
Corremos até o final da rua, dobramos a esquina e chegamos ao carro. Mas não era um carro qualquer. Era um Mercedes-Benz esportivo cor prata. Com certeza era o carro mais caro que eu tinha visto de perto na minha vida. Por dentro ele era da mesma forma impressionante. Bancos de couro, teto solar, ar condicionado e uma série de outras mordomias.
― Cara, onde você conseguiu esse carro? ― perguntei impressionado.
― Isso é uma longa história, mas primeiro temos que discutir a sua situação ― ele disse dando partida no carro.
― Minha situação?
― É. Primeiro: com quem você mora? — ele perguntou dando partida no carro.
― Com meu pai, mas... ― me lembrei do meu pai. Qualquer um ficaria preocupado com atraso do filho, ele não. Eu sabia que ele já deveria estar descansando tranquilo. Afinal eu “podia me virar sozinho”, como ele sempre dizia ― por que você quer saber sobre isso?
― Você já vai entender tudo. Não se preocupe, nós iremos avisar ele depois.
― Nós quem?
― Nós do Acampamento Meio-sangue.
― Acampamento Meio-sangue?
― É um acampamento para semideuses como você.
― Como eu?
― Sim e essas perguntas já estão irritando. Apensa me deixe explicar: Você é um semideus, por isso você foi atacado por aquela górgona. E já que mora com o pai isso significa que sua mãe é uma das deusas gregas.
Fiquei ali de boca aberta por um tempo sem conseguir entender nada. Chocado demais para falar. Tentei discernir qual de nós dois estava mais louco.
—Isso… isso é impossível! — disse por fim — deuses gregos… eles não existem! Isso é só…
— Mito? Igual aquela górgona que você acabou de enfrentar?
Vários minutos se passaram sem que eu respondesse. Era demais pra mim.
— Quer dizer… que eu sou um semideus? — eu ainda não podia aceitar aquilo — quer dizer, como Aquiles ou Perseu?
— Mais ou menos.
— Mas isso… não pode ser… esses caras lutavam como ninguém, eram poderosos… como eu posso ser um semideus?
— Você acha que eles não tiveram momentos iguais a esse? Que também não duvidaram de si mesmos?
De repente tudo fazia sentido, mas era demais para acreditar de uma hora pra outra. John simplesmente jogou tudo isso em mim sem mais nem menos. Informação demais. Tive vontade de pular do carro. Vontade de sair daquela loucura. Eu poderia explodir em lágrimas a qualquer minuto, mas sabia que não era hora disso.
― Então, quer dizer que estamos indo para o Acampamento Meio-sangue agora?
― Sim. Lá é o único lugar seguro para os semideuses.
― Então, todos lá são semideuses?
― Bom, não. Existem ninfas, sátiros como eu, centauros, e atualmente também o deus do vinho: Dionísio.
― Espera, você é um sátiro?
― Sou, mas agora estou disfarçado para as pessoas não perguntarem por que eu tenho cascos ao invés de pés.
Não dava para acreditar em tudo aquilo. Ele continuou falando e cada vez mais eu não conseguia acreditar até que, não sei se por causa do cansaço ou por tanta coisa que aquele sátiro falava, cai no sono. Quando acordei já havíamos parado ao lado de uma colina. Acompanhei John até o topo da colina e vi pela primeira vez o acampamento.
Era bem impressionante para um acampamento. Várias construções agrupadas na forma de um ômega me chamaram a atenção, mas John me levou direto para uma casa grande que ficava pouco antes das construções. A noite estava fria. Lamentei por ter dado um fim a minha camisa lutando com górgona. Entramos na casa e John foi direto falar com um homem que estava sentado em uma cadeira de rodas.
― Quíron, acabei de chegar com nosso novo campista.
― Seja bem-vindo garoto, você já foi reclamado? ― disse o homem da cadeira de rodas me estendendo o braço para um aperto de mão.
― Reclamado? — olhei confuso para John
― É quando um deus ou uma deusa declara ser seu pai, ou no seu caso, sua mãe ― explicou John.
― E como isso acontece?
― Bom geralmente o deus ou deusa em questão manda um sinal.
Tudo aquilo estava confundindo a minha cabeça quando escutei um barulho de asas batendo atrás de mim. Olhei para trás e vi a coruja que tinha me entregado a faca de bronze, mas não era possível que ela tivesse me seguido até ali. Ela entrou na casa e sem mais nem menos pousou no meu ombro. Confesso que fiquei feliz em vê-la, afinal se não fosse ela eu nunca teria derrotado aquela górgona. Me virei pra continuar a conversa com John e Quíron e me deparei com os dois de boca aberta. Eu sei que era estranho o fato de uma coruja simplesmente pousar no meu ombro, mas não achei que aquilo causaria uma reação daquelas, considerando todas as loucuras que John tinha me contado. Já ia perguntar se eu tinha feito algo de errado quando Quíron finalmente falou:
― Bem-vindo filho de Atena, deusa da sabedoria — ele disse fazendo uma pequena reverência.
Foi a minha vez de ficar de boca aberta. De repente esqueci como falar e também como respirar. Minha cabeça parecia que ia explodir. Senti como se houvesse um turbilhão de informações dentro dela. Um piado da coruja me tirou desse estado por um momento. Balancei a cabeça de leve como se isso pudesse afastar um pouco a confusão que tinha dentro de minha cabeça. Notei que havia algo enrolado na perna da coruja. Desenrolei com cuidado e vi que se tratava de uma pulseira.
— O que é isso? — John perguntou.
— Eu não sei — disse observando o objeto estranho. Era uma pulseira de prata aparentemente comum, mas havia quatro pingentes um tanto estranhos. O primeiro parecia ser uma miniatura de espada, o segundo uma lança, o terceiro, mais difícil de identificar, parecia ser uma faca ou uma adaga, e o quarto simbolizava uma coruja. Todos igualmente de prata, porém a coruja também possuía olhos de safira azuis. Percebi que Quíron também observava a pulseira.
— É um presente — ele falou com segurança — um presente de reclamação.
— Um presente? Pra mim?
— Sim. Você deve aceitar. Não é sempre que os deuses enviam presentes para seus filhos.
Ainda meio relutante firmei a pulseira em meu pulso esquerdo. A pulseira parecia ter sido feita sob medida pra mim, o que era um pouco assustador. Como se seu dever tivesse se cumprido a coruja piou e saltou do meu ombro. Voou para frente deu meia volta e saiu pela mesma porta que entrou.
— Acho que você também merece outro presente — disse Quíron, logo em seguida se virando para John — Pegue uma camiseta do acampamento para ele.
John saiu e em poucos minutos já estava de volta com uma camiseta laranja com o nome do acampamento na frente. Ele a entregou pra mim. Eu agradeci e logo a vesti.
— Posso perguntar seu nome? — perguntou Quíron.
— Terry, Terry Rivers.
— Bem-vindo Terry. Como já deve ter notado esse é John, um dos nossos sátiros que protegem os novos semideuses e eu sou Quíron, diretor de atividades do acampamento. Temos muito o que conversar e eu sei que você ter milhares de perguntas, mas já está tarde e você deve estar cansado. John, vá na frente e acorde Lion, diga que temos um novo campista pra ele — com isso John saiu apressado para cumprir a tarefa.
— Quem é Lion? — perguntei
— É o atual monitor do chalé de Atena. Cada deus tem um chalé e cada chalé um monitor.
— Então quer dizer que todos lá são filhos de Atena?
— Sim. É melhor irmos logo. Eles já devem estar arranjando um lugar pra você dormir — ele fez menção de se levantar, mas parou no meio do caminho e olhou pra mim — Tem outra coisa que ainda não te contei. Na verdade, assim como John, eu também estou disfarçado.
— Você também é um sátiro?
— Na verdade não — ele disse se levantando. Primeiro ele tirou um par de pernas que ao invés de pés tinham cascos. Depois mais um par de pernas vieram mais atrás e, de repente, eu estava diante de metade de um corcel branco com um senhor de meia idade em cima — na verdade sou um centauro.
Novamente eu esqueci como respirar. Como ele cabia naquela cadeira de rodas? Ela era minúscula comparada a ele. Antes ele parecia ser baixinho, mas agora estava vários centímetros mais alto do que eu.
— Não se preocupe — ele disse dando um tapinha em minhas costas — Todo mundo tem a mesma reação quando me vê desse jeito pela primeira vez. Agora vamos.
Quíron me guiou até as construções em ômega que eu vira antes. Ele me disse que todas elas eram chalés para os filhos dos deuses. Tentou me dar um resumo rápido do acampamento. Falou da Arena onde havia treinos diários, o grande prédio de pedra onde funcionava o refeitório, falou um pouco sobre a floresta onde eles realizavam algum jogo chamado Caça a Bandeira que eu não entendi direito. Por fim disse que me chamaria de manhã para explicar mais e tirar as dúvidas.
— Este o chalé 6, o chalé de Atena. Lion vai te ajudar a se instalar. Tenha uma boa noite.
Com isso ele e John saíram galopando de volta à casa grande. Lion, um garoto alguns anos mais velho que eu com cabelos castanho-escuros meio arrepiados, os acompanhou com o olhar e depois se voltou a mim. Era evidente pela sua cara que tínhamos tirado uma bela noite de sono dele, mas mesmo assim ele ainda encontrou forças para me dar um sorriso de boas vindas.
— Seja bem vindo… Terry, certo?
— Sim.
— Meu nome Lion Blake. Sou o monitor do chalé 6. Você vai adorar esse lugar. Um dos melhores chalés, se não o melhor — ele deu um longo bocejo antes de continuar — Mas acho que agora você vai gostar mais da sua cama.
Lion me conduziu pelo chalé que estava escuro já que todos os outros ainda estavam dormindo. Pude notar que havia algo na parede mais ampla, mas que não consegui enxergar. Uma mesa grande estava repleta de papéis e objetos que não tive tempo de distinguir. Na parede ao fundo estavam dispostas todas as beliches do lugar. Quando me aproximei vi que não se tratavam de beliches comuns, mas sim de “tricamas” (se é que essa palavra existe) cada uma com três semideuses dormindo tranquilamente. Lion me indicou uma das camas de cima.
— Aqui, esta está desocupada.
Tive dificuldade para subir nela e quase acordei o semideus debaixo com uma pisada. A cama era bem confortável, era toda em um tecido leve e macio que parecia ser de ótima qualidade.
—Boa noite, Terry. Amanhã te mostro melhor o chalé — Lion disse antes de voltar para sua cama bocejando.
Tentei fechar os olhos, mas não conseguia. Meu corpo estava exausto, mas eu não tinha sono. Minha mente ainda estava fervendo. Eu era filho de Atena? Como aquilo era possível? De manhã eu tinha uma vida normal (ou quase) e agora estou aqui no meio de uma fantasia que não podia ser real, embora uma voz irritante na minha cabeça ficasse falando: “é real, essa é sua realidade”.
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