Beyond the Vengeance
49 O que se esconde nas sombras
Notas iniciais
— Ele está bem?
— Está respirando. Consegui limpar e dar alguns pontos no ferimento, mas ele ainda não acordou.
— Tenho um pedaço de ambrosia comigo. Talvez seja bom colocar na boca dele.
Ao ouvir a palavra “ambrosia” Chris abriu os olhos depressa. Estava se sentindo fraco, mas o susto foi suficiente para tirá-lo do torpor. Tentou se levantar, mas a dor em seu lado esquerdo o lembrou do ferimento que tinha conseguido ao atravessar aquela janela.
— Vai com calma. Melhor ficar deitado por enquanto ou o corte pode se abrir.
Chris observou a dona da voz. A garota lhe parecia vagamente familiar, mas de maneira geral tinha uma aparência comum. Chris não achou que a conhecia. A outra garota ele tinha certeza de que não conhecia. Teria se lembrado do cabelo curto com franja ou da tatuagem de adaga em seu braço.
Ele achou estranho ela estar usando apenas uma blusa regata já que tinha esfriado bastante depois da chuva, mas então se deu conta de que em cima dele estava uma jaqueta marrom. Olhando para o lado ele pode ver sua camiseta jogada em cima da mesa. Já havia visto dias melhores.
— Que horas são? — Chris perguntou. Podia ver que ainda estava escuro lá fora.
— Quase duas da manhã. — A garota com a tatuagem respondeu.
Tinha dormido por muito tempo. Mas pelo menos não tinha sido encontrado. Era um bom sinal.
As cenas das horas antes de desmaiar voltaram à mente de Chris como um furacão de informações. Juliet estava envolvida em algo perigoso o bastante para ficar com medo de revelar qualquer coisa. Ele agora também era procurado pelos mentalistas. Já que Terry não estava ali provavelmente tinha ido ao Japão de qualquer forma. Quanto tempo desde que partira? Ele já devia ter retornado.
Chris se lembrou também como Juliet tinha reagido ao nome de Terry. Não tinha dúvidas de que ela falara sério sobre a lista, mas Chris ainda não entendia como Terry poderia estar em quarto lugar.
Pensou por um momento. A lista Halie era tópico de discussão entre os mentalistas desde seu início. Vários nomes já haviam sido discutidos e seus respectivos lugares. Havia uma foragida da polícia, Laura Keeleigh, tinha sido acusada de ser autora de uma chacina, incluindo outros semideuses. Não se sabia muito sobre ela, mas se especulava que carregava uma arma extremamente poderosa. Seu nome era quase uma certeza de estar na lista Halie, mas ela simplesmente desaparecera sem deixar rastros.
Além dela, outro semideus notório era um assassino de aluguel. Seu nome era desconhecido, mas uma série de assassinatos inexplicáveis um ano atrás foi o suficiente para fazer todas as agências de segurança e informação do país ficarem atentas. E foi a oportunidade que os mentalistas tiveram para provar que os assassinatos eram obra de um semideus. Pela natureza de seus alvos, ficou claro que ele matava por interesses alheios. Chris não sabia se ele estava na lista já que não tinha um nome conhecido, mas com certeza Halie mantinha-se atenta a ele.
Ele imaginou que o líder da Ordem, Richard, também estava na lista em algum lugar. Mas fora ele não sabia quem mais seria uma ameaça… Juliet e ele talvez. Não eram especialmente poderosos, mas sabiam de coisas o suficiente para serem caçados.
— Ei, você está bem?
Chris estava tão concentrado pensando sobre a lista que não se deu conta de que a garota ainda estava falando com ele. De repente uma ideia pipocou em sua mente. Uma piada interna dos mentalistas dizia que a lista tinha o nome de Halie porque assim seu nome ficava no topo, a considerando a semideusa mais perigosa do mundo. Embora Chris não tivesse duvidas de que Lan Halie era extremamente poderosa e seus segredos tinham valor incalculável, ele sabia que ela não era tão infantil ou egocêntrica para fazer isso. E o verdadeiro perigo que Lan Halie oferecia não estava apenas em seus próprios feitos, mas sim na organização que comandava. Até mesmo a pessoa mais fraca do mundo pode ser uma ameaça se estiver no comando do grupo certo. Olhando para a garota com tatuagem, Chris entendeu quem ela realmente era. Nunca tinha feito muitas perguntas sobre os Vingadores de Nêmesis, nem onde Terry se encaixava neles, mas talvez fosse esse o motivo de ele ser considerado uma ameaça.
— Estou bem. — Finalmente respondeu. — Desculpe, mas qual o seu nome? — Ele perguntou para a vingadora de Nêmesis.
— Trish.
Ele olhou para a outra garota.
— Jennifer. — Ela se antecipou.
— Sou Chris. Trish, que lugar dos vingadores Terry ocupa?
A garota arregalou os olhos em surpresa. Chris devia ter preparado melhor o terreno, antes de perguntar, mas a urgência na voz de Juliet ainda o afetava.
— Como você…?
— Sei que ele é um vingador de Nêmesis. E sei que você também é por causa da sua tatuagem. Raramente alguém tatuaria uma adaga em tamanho real no braço esquerdo, mas se você for destra é essa tatuagem for como a dele é um bom lugar para se ter uma adaga. — Uma carta e tanto (literalmente) de baixo da manga, ele pensou. — À proposito, sou um mentalista.
— Você… — Trish levou a mão à cabeça.
— Não. — Chris se adiantou. — Procuro evitar ler mentes alheias sem necessidade. — Principalmente agora que outros mentalistas estão procurando por mim, completou imaginando que todos estavam atentos para qualquer manifestação de poder mental a fim de acha-lo.
— Bom… — Trish pareceu perdida por um momento. — Não sei se entendi sua pergunta sobre Terry.
— Quero saber se ele é alguma espécie de líder ou algo parecido dentro dos vingadores.
— Não. Nosso líder se chama Ryan, mas fora isso não tem muitos outros postos em nosso grupo, somos bem independentes.
Chris pensou por mais um minuto, mas não achou outra hipótese para Terry estar na lista Halie. Resolveu continuar a fazer perguntas. Afinal coletar informações era seu trabalho.
— Você estava procurando Terry. Por quê?
Trish pareceu desconfortável com a pergunta, mas a respondeu.
— Temos uma missão. Terry deveria participar dela, mas não conseguimos entrar em contato. Por isso vim aqui o mais rápido possível para descobrir seu paradeiro. À proposito, antes de desmaiar você falou que ele estava fora do nosso alcance… O que quis dizer com isso?
— Não posso dar certeza no momento, mas provavelmente agora ele está no Japão.
— Japão?!
Chris explicou o mais brevemente possível o que Terry tinha ido fazer no Japão. Tinha sido a única pista (verdadeira ao menos) da Ordem em muito tempo. Ele mesmo teria ido se não tivesse concentrado em seguir uma pista falsa.
Enquanto falava Chris não pode deixar de notar uma pequena reação das garotas ao falar da Ordem. Embora estivesse curioso para saber quem era e o que Jennifer sabia sobre a Ordem, no momento ele estava querendo mais informações da vingadora.
— Essa missão… ela está relacionada com a Ordem? — Chris perguntou.
— É uma possibilidade. — Trish não parecia estar querendo esconder algo com aquela resposta, o que o deixou intrigado.
— Possibilidade? Qual exatamente é essa missão?
— Temos que achar uma pessoa desaparecida.
— Não me entenda mal, mas as Caçadoras de Ártemis não são mais… experientes em rastrear pessoas?
Trish não conseguiu evitar fazer uma careta.
— Normalmente elas seriam chamadas pra uma missão assim. Mas a Ordem pode estar envolvida no desaparecimento. É provável que essa missão não seja somente sobre encontrar a pessoa, mas sim resgatá-la. E as Caçadoras já tiveram uma experiência ruim com eles. Por isso a missão foi dada a nós.
— Hum… Acho que você vai ter que encontrar outro parceiro para a missão. Terry não deve voltar tão cedo.
— Não estava procurando um parceiro! — Trish pareceu corar um pouco, mas à luz de velas era difícil dizer. — Como eu disse, somos bem independentes. Mas nessa missão específica todos vão participar.
— Espere. Todos?
Trish permaneceu em silêncio. Estava claro que tinha falado mais do que queria. Quanto mais descobria, mais Chris ficava apreensivo. Algo importante estava acontecendo. O sumiço de Juliet, Terry entrar para a lista Halie e agora todos os Vingadores estavam procurando uma única pessoa que desaparecera. Chris temia que os Vingadores estivessem sendo usados para caçar Juliet. Se fosse verdade era apenas uma questão de tempo para que ele fosse incluído na lista.
— Quem vocês estão procurando afinal?
— Lamento, mas não posso dizer.
O medo de Chris aumentou. Se a pessoa procurada realmente fosse Juliet, Trish nunca revelaria a Chris, outro mentalista, que estava atrás de uma companheira de grupo. Mesmo assim resolveu convencer a garota a responder.
— Se souber quem é posso usar a rede de informações dos mentalistas pra ajudar. — Era um blefe perigoso. Além de não ter mais acesso a nenhuma ajuda dos mentalistas, Chris não podia provar que era um sem se arriscar e se Trish já estivesse usando ajuda dos mentalistas, oferecer ajuda daquela forma o tornaria muito suspeito.
— Acho que você não entendeu. Não posso dizer quem estamos procurando porque não sabemos quem é.
Chris piscou atônito. Achou que tinha ouvido errado.
— Vocês não sabem… mas como diabos vão procurar alguém assim?
— Temos o nome de uma pessoa que supostamente deveria acompanhar essa pessoa pra todo canto. — Trish parou um segundo para se lembrar do nome. — Alexia Garnet. Mas isso é tudo que sabemos.
Chris não estava tão certo disso. Trish parecia um pouco nervosa ao relatar os detalhes da missão. Ele sabia que havia algo incomodando a garota. Na maioria das vezes, isso significava um segredo.
Embora preferisse não usar seus poderes, Chris já estava cansado de não obter respostas. Pensou em suas possibilidades. Não saberia quão forte era a mente de Trish até tentar ouvi-la. Com sorte se usasse apenas um pouco de seu poder outros mentalistas não iriam notar a menos que estivessem por perto. E se não conseguisse ler a mente de Trish tentaria outra abordagem. Controlando-se ao máximo para usar o mínimo de seu poder, Chris se concentrou.
Por apenas um segundo, eles escutou o que as mentes ao redor pensavam. Jennifer estava se perguntando que tipo de relação ele e Terry tinham, mas Chris se concentrou na outra mente. Ouviu apenas uma frase, entrecortada.
“…não está aqui. Tenho que vê-lo logo, se não…”
Chris congelou. Sua concentração o traiu antes de ouvir a frase inteira. Olhou para porta aberta ao lado, com os olhos semicerrados, tentando enxergar na escuridão do corredor. Tinha ouvido dois pensamentos próximos, mas não os de Trish.
— Não estamos sozinhos! — Anunciou.
Jennifer e Trish se viraram para a porta. Trish correu até ela, sacando a adaga de seu braço. A lâmina brilhou um pouco como se fosse a chama de uma vela.
— Está subindo as escadas! — Ela gritou. E imediatamente disparou em direção às escadas. Jennifer hesitou por um segundo, mas foi atrás dela.
Chris tentou se levantar, mas a dor o impediu. Se forçando a agir com calma, ele girou o corpo aos poucos e deixou as pernas caírem do sofá. Com um esforço que quase o fez gritar de dor, ele se sentou. Tirando um segundo para tomar fôlego, Chris se pôs de pé. Apesar de uma tontura o atingir e quase o levar ao chão, a dor já não parecia tão ruim em pé.
Com passos lentos e cambaleantes Chris se dirigiu até as escadas. Usou o corrimão para se impulsionar degraus acima. Embora fosse torturante, ao menos só havia um lance de escadas para subir, já que estava no último andar.
Ao sair para o terraço Chris logo avistou Jennifer alguns metros à frente. Ela segurava um arco em mãos, com uma flecha encaixada na corda. Olhava ao redor, obviamente procurando algo.
— O que aconteceu? — Chris perguntou. — Onde está Trish?
Jennifer olhou pra ele com um olhar de reprovação.
— Devia ter ficado deitado. — Ela disse, ainda procurando algo com o olhar. — Trish está voando, procurando quem estava nos espionando.
— Como assim?! Ele voa?
— Acho que não. — Uma voz mais alta veio de cima.
Trish pousou do lado de Chris. Uma lufada de ar gelado o atingiu. Ele se arrependeu de ter deixado a jaqueta no sofá.
— Alguém pode me explicar o que houve?
— É uma boa pergunta. — Trish começou. — Mas não faço ideia da resposta. Estava logo atrás dele. O perdi de vista por um segundo quando ele chegou ao terraço. Mas quando eu cheguei logo depois já não havia mais ninguém aqui. Voei ao redor do prédio, mas ele não está em nenhum lugar. Olhei as ruas ao redor também, mas nem eu conseguiria chegar tão rápido até lá embaixo sem chamar atenção.
Chris olhou ao redor. Não havia onde se esconder no terraço. Imaginou se ele teria fugido para algum prédio vizinho, mas a diferença de altura dos prédios era muito grande pra ele simplesmente ter pulado. Também não havia sinais de que ele tinha usado cordas. Não havia escadas de incêndio. Chris pensou se seria possível escalar o prédio pelo lado de fora, mas rapidamente descartou a ideia. Mesmo que fosse possível, ninguém conseguiria fazê-lo rápido o suficiente para despistar Trish e Jennifer.
Pela primeira vez em muitos anos, Chris se sentiu totalmente no escuro.
— Peguem suas coisas. — Chris avisou. — Temos que sair daqui.
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