Beyond the Vengeance
35 De volta ao Templo
Notas iniciais
A noite estava quieta, exceto pelo ofegante fugitivo que eu perseguia. Ele olhou para trás tentando avistar seu perseguidor, mas estava bem escondido pela noite. Voei para o alto e mergulhei, passando bem a sua frente. Assustado ele entrou num beco para não ser pego, o que de fato o condenara. O beco não tinha saída, mas quando percebeu isso já era tarde demais. Ele sacou uma faca, mas esta foi logo arrancada de sua mão por um rápido movimento de minha corrente. Ele se encostou na parede, tremendo.
— Eu te disse que era melhor ter cooperado — disse com a voz calma, porém firme — Agora me diga o que sabe da Ordem.
Comecei com o interrogatório habitual: queria saber sobre as ações do grupo, quantidade de membros, nomes e, principalmente, sua localização. Como em todas as outras vezes até aquele momento, não consegui nenhuma grande informação. Era apenas mais um peão, pronto para obedecer sem se importar com questões menos importantes para seu trabalho. Tão ou mais inútil e desprezível quanto Robert.
— Então não sabe de mais nada?
— Não — ele jurou.
Não pude evitar piscar os olhos, cansado. Fisicamente cansado pelas noites mal dormidas, entre outras coisas. Mentalmente cansado por passar quase todo o dia tentando descobrir algo com o pouco que tinha. E psicologicamente exausto por tudo que havia acontecido no último mês e meio.
Infelizmente isso deu uma brecha para ele me empurrar e fugir novamente. Suspirei cansado. Voei rápido, passando por ele e o derrubando com o cabo de minha faca. Ele se levantou ainda tonto, mas eu já havia pousado. Antes que se virasse para me procurar uma mão tapou sua boca, ao mesmo tempo em que a faca deslizava para dentro de sua pele, cortando as costas, atravessando a medula. Ele apenas fez um ruído abafado antes de cair. Apanhei seu corpo e joguei dentro do latão de lixo no beco. Ainda tinha um longo caminho até o apartamento e logo amanheceria.
Cheguei ao apartamento quando sol começava a aparecer no horizonte entre os prédios de Nova Iorque. Deixei-me largar no sofá, cansado. Tinha conseguido algumas coisas já que, pela primeira vez, realmente estava usando aquele apartamento como uma moradia. Entre as coisas que tinha conseguido estavam uma mesa sem uma das pernas, que eu concertara com um tosco pedaço de madeira; uma única boca de fogão, que tinha sido instalada em uma estrutura de madeira e metal, tudo improvisado; um forno solar que tinha feito com uma caixa de pizza (sim, é possível), já que não podia me dar o luxo de gastar gás além do estritamente necessário; uma caixa de isopor, que substituía a geladeira e, por último, um sofá rasgado em várias partes, mas ainda com uma estrutura boa. Era realmente incrível que tivesse gastado tão pouco com tudo aquilo. A maioria das coisas tinha sido abandonada pelas pessoas, mas ainda me serviam muito bem.
Após um breve cochilo levantei-me do sofá e fui até a caixa de isopor, onde havia uma última fatia de queijo. Eu o apanhei e fui até meu guarda-roupas/armário/dispensa. O bom de ser ter pouca coisa é que não se perde muito tempo para organizar tudo. Apanhei duas fatias de pão e fiz um sanduíche para o café da manhã. Coloquei o sanduíche dentro do forno de caixa de pizza e fui até o terraço do prédio. Após deixar o forno lá, voltei para apartamento e aproveitei para tomar um banho. Quando saí do banheiro o sanduíche já estava pronto. O queijo derretido não tinha uma boa aparência, mas ainda sim era tão bom quanto queijo derretido em uma chapa normal.
A manhã estava apenas começando, mas para mim era hora de dormir. Não tinha uma rotina certa, me adaptava a cada dia. Não gostava de dormir durante o dia, mas estava exausto. Dirigi-me até a cama, quase não me aguentando de pé. O diário de Liza estava no criado mudo. Tentei ignorá-lo, pois me fazia lembrar dela. Dentei-me na cama e fechei os olhos tentando descansar, mas de alguma forma o diário ainda me incomodava, como se pudesse sentir toda força de seu significado pela proximidade. Mesmo cansado, demorei a pegar no sono.
Após dormir quase a manhã toda, estava pronto para fazer algo de tarde. Pensei em sair e procurar algum serviço por menor que fosse. Tudo que conseguia era pequenos serviços, mas me sustentavam. Porém foi surpreendido por uma visita de Chris. Ele parecia preocupado com algo, mas não achei estranho. Desde a morte de Liza ele sempre parecia meio preocupado. Após um breve cumprimento começamos a conversa como sempre fazíamos:
— Encontrou alguma informação? — ele perguntou. De alguma forma Chris tinha ficado tão obcecado pela Ordem quanto eu. Não sabia exatamente o porquê, mas desconfiava que ele soubesse de algo além do que falava.
— Não — respondi — tudo na mesma. E você?
Ele se sentou no sofá. Fiz o mesmo.
— Ouvi algumas coisas. Não sei se é muito importante, mas é a única pista que tenho.
— Continue.
— Parece que houve outro roubo de amuleto por alguém da Ordem. Não sei que tipo de importância isso tem, mas talvez fosse bom verificar.
— Ok. Então vamos — disse me levantando.
— Não tão rápido — Chris alertou.
— Por quê? Posso ir voando até o lugar e chegar rápido. Quanto mais rápido melhor.
— Não pode ir voando até lá.
— Por que não? Onde fica isso afinal?
— No Japão.
Achei que não tinha ouvido direito.
— Como?
— Japão — ele repetiu.
— Como você pode saber de algo que acontece no Japão? — questionei.
— Não fui eu. Foi outra mentalista. Entramos em contato há alguns dias e ela me contou o que tinha acontecido. Ela mora lá faz algum tempo.
— Como vamos chegar ao Japão? Nem eu posso viajar tanto, nem voando.
— Sei onde podemos conseguir um passaporte falso. Mas…
— Mas o quê?
— Não é um serviço barato. E eu não tenho dinheiro. Além do que ainda temos que comprar uma passagem de verdade. E não tenho ideia da onde tiraria dinheiro pra isso.
Eu também não tinha. Se aquela era a única forma tinha que arranjar alguma maneira de conseguir dinheiro rápido. Não sabia o que iria fazer, mas tinha aprendido cedo que nunca tinha grandes ideias parado, muito menos naquele apartamento.
— Vamos dar uma volta — disse.
Chris e eu perambulamos pela cidade discutindo possíveis ideias, mas nada era rápido ou bom o suficiente. Exceto se roubássemos um banco ou algo do tipo, mas para mim já bastava ter monstros e a Ordem me perseguindo, não queria que a polícia me adicionasse à lista. Não tinha me importado muito com o caminho que tomamos até me parecer que já havia passado por aquele local antes. Não me parecia nada demais, uma rua comum, prédios comuns em volta, não sabia o que tinha chamado minha atenção. Fitei um prédio específico naquela rua. De alguma maneira algo me dizia que eu deveria reconhecê-lo. Demorei um pouco para perceber que já tinha estado ali. Fora por ali que Chris e eu escapamos do labirinto onde estava o Minotauro.
— Lembra desse lugar? — Chris perguntou.
— Infelizmente — respondi.
Estava pronto para passar reto pelo local e continuar a conversar com Chris, mas reparei que a porta do prédio estava um pouco aberta. Se me lembrava bem aquele prédio devia estar abandonado e ninguém deveria entrar lá.
Chris percebeu o olhar que eu lançava para o prédio.
— O que foi?
— Alguém está querendo ir para o templo de Psique.
— O quê?
— Vamos ver o que está acontecendo.
Dizendo isso eu atravessei a rua em direção ao prédio. Lembrava mais ou menos de como chegar até o subsolo. Chris me acompanhou um pouco a contragosto, provavelmente ali não era um dos seus lugares preferidos.
Conseguimos chegar ao subsolo sem problemas. Os corredores pareciam exatamente da mesma forma. Começamos a andar. Com pesar, eu me lembrei como era a sensação de estar num labirinto. Mesmo que tivéssemos acabado de chegar eu já não tinha certeza se saberia como voltar. Chris por outro lado continuou andando normalmente. Embora ainda não lhe agradasse estar naquele lugar, provavelmente ele conhecia os caminhos melhor do que eu. Não demorou muito para ouvirmos uma voz ecoando pelos corredores. Ao menos duas pessoas estavam ali. Chris sacou uma faca, fiz o mesmo.
Prosseguimos com cuidado, tentando ser silenciosos. Em alguns momentos ouvíamos uma voz novamente, dessa vez era diferente da primeira. Nos aproximamos o bastante para compreender as palavras:
— …eu não entendo nada disso! Queria que Annabeth estivesse aqui, ela com certeza saberia como ler essa coisa!
Annabeth? Por um momento pensei ter ouvido errado, mas se realmente tinha ouvido certo… não, provavelmente era apenas coincidência.
Viramos em um corredor e avistamos uma garota de costas para nós. Ela estava concentrada em algo em suas mãos, não pude ver o que era, mas julguei ser um livro ou coisa parecida. Chris e eu nos entreolhamos.
— Ei! — chamei — O que está fazendo aqui?
A menina se virou em um salto, assustada. Ela rapidamente escondeu o que tinha em mãos atrás das costas, tudo que pude ver era que era algo de papel, um jornal talvez, mas ela não esconderia um jornal daquela forma.
— Fiz uma pergunta.
Ela pareceu meio perdida, sem saber o que falar. Era bonita. Com a pele em tom levemente escuro, provavelmente de origem indígena. Os cabelos não estavam perfeitamente penteados, meio como se ela tivesse simplesmente passado a mão por eles para ficarem no lugar. Duas trancinhas finas (uma de cada lado) se destacam no meio do cabelo. Ela usava um jeans rasgado e uma camiseta roxa que parecia ser grande demais para ela. Como ela não respondeu comecei a me aproximar.
— Fiquem parados!
Chris e eu paramos no mesmo instante. Durante um segundo eu me perguntei por que a tinha obedecido, depois continuei avançando. De alguma forma ela parecia mais surpresa com isso do que quando chegamos. Ela sacou uma adaga. Dessa vez eu parei.
— Largue a faca!
— Primeiro você — retruquei.
A menina piscou, parecendo confusa.
— Ei, Pipes, o que está…
Um garoto surgiu de um corredor e, ao me ver, correu para o lado da garota. Vi quando ele enfiou a mão no bolso rapidamente. Não sabia o que estava esperando, mas com certeza não estava esperando que ele tirasse uma moeda dele. Ele queria nos pagar?
— Quem são vocês? — perguntei.
Os dois se entreolharam.
— Somos do acampamento Júpiter.
— Prove.
Ele virou o braço e pude ver a marca em seu pulso. Várias barras representando seus anos de serviço no acampamento romano. Resolvi acabar com aquele clima de tensão erguendo as mãos e sinalizando que iria guardar a faca. Ele guardou a moeda no bolso, a menina guardou a adaga. Só então olhei para Chris. Ele estava um pouco mais atrás, sua faca estava no chão.
— Chris? O que está fazendo?
Ele olhou pra mim confuso.
— Ela… mandou largar a faca…
Não entendi o que tinha acontecido até que a menina falou:
— Me desculpe usar o charme em vocês. Eu entrei em pânico.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei.
— Nós estamos procurando o templo de Psique.
— Por quê? — dessa vez foi Chris que se adiantou a perguntar.
— Eu tenho uma espécie de compromisso com os deuses — o garoto respondeu — Prometi que cuidaria para que todos fossem cultuados de forma adequada. Isso inclui construir templos para todos e, infelizmente, catalogá-los também.
— Não basta saber que existe um templo de Psique aqui? Já é bem problemático chegar até aqui, quanto mais ao templo.
— Já tentou dialogar com deuses menores? Eles reclamariam até de uma vela a menos em seus templos! Por isso catalogamos todo o possível.
— Já que estamos aqui podemos ajudar — Chris disse — Nós dois já estivemos no templo antes.
Olhei para Chris. Nunca o tinha visto se oferecendo pra ajudar daquela forma, muito menos com pessoas que ele nem ao menos conhecia.
— Talvez possam nos ajudar com isso — a menina mostrou o que escondera atrás das costas.
Era um mapa. Relativamente antigo, mas conservado. Parecia ser o mapa do labirinto onde estávamos. Ao centro havia uma área maior, provavelmente o templo de Psique.
— Não sabemos nem mesmo onde estamos.
Não era uma surpresa. O mapa praticamente não tinha referências. Caminhos detalhados com certeza, mas nenhuma referência. Sem seta apontando pro norte nem nada do tipo. Tudo que podia usar de referência eram os próprios caminhos.
Não pude deixar de sorrir um pouco. Ainda no acampamento, participei de um pequeno exercício em um labirinto improvisado. Um dos meus irmãos havia participado também. Ele adorava desenhar e estudar mapas e após sair do treinamento teve uma ideia para um jogo. Redesenhou o labirinto em um mapa e mostrou pra mim. Tinha sido um trabalho incrível considerando que tínhamos visto um “mapa” dele apenas uma vez. Depois que me mostrou ele queimou as bordas e apagou qualquer referência que tinha desenhando. Como um teste (pra mim e pra ele mesmo) íamos ao labirinto enquanto ainda não haviam desmontado ele. Eu (com o mapa) tentava achar a saída, já ele se limitava a rir de mim quando dava de cara com um beco sem saída e logo depois me indicava o caminho certo, sem nunca olhar para o mapa.
Nunca acertei 100% dos caminhos em nenhuma vez, mas de certa forma aquele mapa era muito mais fácil de ler. Bastou dar uma olhada no lugar em que estávamos e relembrar alguns caminhos que tínhamos tomado para chegar ali e pronto. Já apontava para o local exato em que estávamos.
— Tem duas entradas para o Templo. Aqui e aqui.
— Fiquem em direções opostas…
— Quando eu estava tentando sair daqui cheguei a uma sala com duas portas. Talvez ambas fossem saídas afinal. Ou no nosso caso podem ser entradas.
— Então nos separamos — a menina disse — teremos que ver ambos os lugares de qualquer maneira. Assim fazemos as coisas correrem mais rápido. Se ambos os caminhos dão no mesmo lugar podemos nos encontrar lá.
— Pipes…
A fala do garoto acabou por ali. Eles se olharam num tipo de discussão silenciosa. Era óbvio que não éramos confiáveis o bastante pra ele.
— Você pode ir com o… Chris, certo? E eu vou com o…
— Terry.
O garoto olhou pra mim. Quando chegou correndo puxando sua moeda do bolso ele parecia pronto para lutar, mas naquele momento era diferente. Seus olhos pareciam realmente perigosos. Não gostavam da ideia de me ver andando com sua… sua namorada? Sim, provavelmente eram namorados.
— Só temos um mapa — ele argumentou.
— Direita, esquerda, esquerda, direita e direita — respondi — Pode ficar com o mapa.
— Tudo resolvido então — a menina declarou — é melhor irmos logo se quisermos terminar o serviço hoje.
A menina deu meia volta e começou a andar. A acompanhei. Mesmo sem me virar tive certeza que aqueles olhos azuis ainda me observavam quase como se pudesse criar uma ligação entre nós para ter certeza de que não faria nada com a garota. O que gerava uma sensação de desconforto em mim. Mas então fizemos a primeira curva e a sensação se foi.
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