Beyond the Vengeance
4 A Possuída
Notas iniciais
É incrível como o tempo passa rápido.
Já havia se passado pouco mais de um mês em que eu havia chegado ao acampamento. Eu me adaptei bem a tudo, já estava acostumado com aquela vida. Me dava bem com meus irmãos (sim, eu parei de chama-los de meios-irmãos) e com a maioria do pessoal do acampamento. Exceto talvez os filhos de Ares que por algum motivo tinha me adicionado a lista negra depois que eu apanhei a bandeira deles na Caça a bandeira. Não era minha culpa se o chalé de Atena tinha ganhado (de novo). Pensando bem era minha culpa já que eu tinha recuperado a bandeira, mas mesmo assim eles não tinham que implicar tanto comigo.
Fora isso eu estava me adaptando bem. Não sentia falta nenhuma de meu pai. Na verdade nem quis saber se avisaram sobre mim (não que isso fizesse diferença pra ele). Eu não tinha muitos amigos no acampamento, mas estava tentando mudar isso. Até mesmo comecei a paquerar uma filha de Afrodite que, diferente de suas irmãs, não usava 1 kg de maquiagem. Eu a olhava quando passava e ela retribuía o olhar por um momento, depois desviava o olhar e voltava a conversar com suas amigas, e, por uma ou duas vezes pude perceber risinhos discretos das amigas quando ela desviava o olhar. Nós não tínhamos conversado ainda, pois sempre que surgia uma chance um dos meus irmãos ou um dos dela puxava um ou até os dois ao mesmo tempo para lados diferentes. Aparentemente meus irmãos não gostaram muito dela. Eles diziam que as filhas de Afrodite não eram confiáveis, que eram muito emotivas e iam acabar quebrando meu coração e depois iam me jogar fora. Aquilo me deixava um pouco nervoso, mas eu sempre ia à arena para relaxar treinando.
Treinava na arena quase todos os dias o que me deixou com um físico bem melhor e também me deu mais controle sobre minhas armas. Eu já havia me acostumado com todas. Meus movimentos já eram naturais e eu não precisava mais me esforçar tanto para realiza-los. Meu vigor também melhorou e percebi que podia treinar o dobro do tempo que treinava antes sem me cansar.
Meu dia foi dos mais comuns: de manhã passei a maior parte do tempo no chalé de Atena. Pode até parecer deprimente, mas se tratando do chalé de Atena é diferente, lá você poderia fazer milhões de coisas desde simplesmente ler a fazer projetos complexos que só um engenheiro poderia entender. À tarde eu costumava treinar, mas naquele dia optei em ajudar na colheita de morangos.
Voltando ao chalé decidi dar um oi para Adam, a coruja, que sempre parecia meio eufórico, especialmente quando eu trazia alguma coisa pra ele. Ratos, por exemplo. Já no chalé pensei em terminar o dia lendo alguma coisa já que tínhamos uma biblioteca incrível no andar inferior, mas um barulho me fez mudar de ideia.
Já estava escurecendo quando ouvi uma pequena confusão do lado de fora, em algum chalé. Pelos gritos deviam ser a filhas de Afrodite, mas, apesar disso, nem me importei muito. Deveria ser apenas mais uma brincadeira dos filhos de Hermes, eles adoravam fazê-las. No entanto aquela confusão estava durando mais do que uma simples brincadeira, então resolvi ver o que estava acontecendo. Mal saí do chalé e um sátiro atrapalhado esbarou em mim.
― Bééé! Desculpe... Terry! Que bom que eu te encontrei ― era John, o sátiro que tinha me trazido até o acampamento. Ele estava pálido e sua expressão não era nada boa.
― O que foi cara? O que está acontecendo?
― Não sabemos direito. Parece que uma filha de Afrodite foi possuída por alguma coisa, ela está completamente fora de controle ― ele disse tudo de uma vez e teve que tomar fôlego pra continuar ― Parece que ela foi sozinha à floresta e quando voltou começou a surtar.
― O quê? Como isso foi acontecer? O que diabos têm naquela floresta?
― Quíron quer que você cuide do assunto ― ele disse, ignorando minhas perguntas ― ele quer que você leve ela para casa grande.
― O quê? Por que eu?
― Ele me disse pra eu escolher alguém em que confiasse o bastante pra fazer o serviço. Então pensei em você. Você foi um dos mais corajosos que eu já tive a honra de trazer para o acampamento.
― Eu? ― disse me perguntando se tudo aquilo era verdade ou se ele só estava me cobrindo de elogios para que eu fosse atrás da filha de Afrodite.
― É… sabe… quando você lutou contra aquela górgona antes de vir pra cá. Poucos têm tanta coragem.
― É fácil ter coragem quando suas únicas escolhas são lutar ou morrer ― disse convencido de que ele só estava tentando me bajular ― Tudo bem. Eu resolvo isso. Ela está no chalé de Afrodite, certo?
― Sim ― ele disse aparentemente feliz por eu ter aceitado.
― Ok. Estou indo.
Francamente, os filhos de Afrodite não sabem fazer nada além de se maquiar? Nada contra a prole de Afrodite, mas qual é a motivo de passarem o dia inteiro checando a maquiagem? As filhas de Afrodite com certeza eram muito bonitas, mas com tanta maquiagem sua beleza parecia artificial (exceto talvez a minha paquera). Além disso, praticamente nunca se envolviam em alguma coisa que possa manchar suas maquiagens ou desmanchar seus penteados. A prova disso era o fato de que uma única menina estava contra um chalé inteiro e, ainda assim, tiveram que pedir ajuda.
Me encaminhei para o chalé de Afrodite. Antes mesmo de entrar duas meninas saíram correndo e gritando e se esconderam atrás de mim. Decidido a acabar com isso logo, eu entrei no chalé.
Estava uma completa bagunça. Havia inúmeros kits de maquiagem, roupas, perfumes e cosméticos espalhados por todo o chão. Um pôster de um cantor famoso estava rasgado bem no pescoço, como se alguém tivesse tentado decapitar o pôster. No centro do chalé uma menina de longos cabelos escuros desferia golpes aleatórios com uma faca. Ela estava de olhos fechados atacando violentamente o ar em várias direções. Ela era muito bonita, como já era de se esperar de uma filha de Afrodite. Diferente das outras ela não usava maquiagem alguma, e isso só realçava sua beleza. Tinha um rosto angelical com pele lisa e clara. Seu corpo era igualmente lindo, mesmo que estivesse usando uma simples calça jeans e… Meu coração falhou uma batida. Era ela! A filha de Afrodite de quem eu gostava. Senti como se um punho se fechasse sobre meu coração. Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Por que justo ela? Em um chalé inteiro por que tinha que ser ela?
Ela girava enquanto golpeava o ar com a faca. Num desses giros ela tropeçou e caiu no chão. Ela levantou seu rosto pra mim. Pude ver seus lindos olhos castanhos cheios de lágrimas. Sua expressão era de pura dor, como se cada movimento a machucasse.
― Por favor... Me ajude... ― ela disse com uma voz tão sofrida que não pude fazer outra coisa que não fosse correr para ajudá-la
Já perto dela me ajoelhei no chão ao seu lado. Ela segurou minha mão como se sua vida dependesse disso e eu a puxei para perto de mim. Apoiei sua cabeça em minha mão. Ela respirava com um pouco de dificuldade. Seus olhos tinham uma expressão ainda mais sofrida que antes e vida parecia estar deixando seu olhar aos poucos. Ela não ia aguentar por muito tempo. Precisava de cuidados. O problema é que não era qualquer cuidado. Ela precisava de alguém que soubesse fazer um exorcismo ou algo do tipo, alguém que tivesse conhecimentos sobre magia. Ela precisava dos filhos de Hécate, só eles poderiam ajuda-la agora. Tinha que leva-la até o chalé deles o mais rápido possível, antes que ela piorasse.
― Não se preocupe eu vou te ajudar ― disse olhando em seus olhos ― você vai ficar bem, eu vou... ― um leve brilho azul em seus olhos me fez parar.
Ela se debateu em meus braços. Sem que eu percebesse ela segurou a faca novamente e me atacou com a ponta virada para meu coração. Por sorte, ou mais provavelmente por milagre, consegui desviar o golpe com a mão direita. A lâmina afiada da faca fez um corte feio em minha mão e também nos dedos. Provavelmente os teria arrancado se eu não soltasse a faca logo. Me afastei o mais rápido que pude dela. Ela levantou com a faca empunhada. Seu olhar parecia querer me retalhar aos poucos, mas o resto de sua expressão era uma mistura de dor e culpa, como se ela conseguisse controlar apenas algumas partes de seu corpo, formando uma careta sinistra.
Acionei o pingente da Adaga em minha pulseira. Logo tinha uma adaga de titânio em minha mão, mas o corte prejudicava muito a força que podia usar em um golpe, apenas segurar a adaga já era doloroso. E eu não tinha prática alguma com a outra mão.
A menina me atacou com a faca. Consegui bloquear o golpe facilmente, mas tive que me conter para não largar a adaga por causa da dor. Ela atacou mais algumas vezes e consegui bloquear todos sem muitas dificuldades. O corte em minha mão não parava de sangrar, e doer, agulhas invisíveis perfurando a carne aberta por onde o sangue saía. Mesmo com apenas um corte na mão eu já estava todo manchado pelo meu próprio sangue. Os golpes dela não conseguiam me acertar, mas por outro lado eu também não havia acertado nenhum nela. Não que eu não tivesse tido uma ou outra chance, mas pra mim já é bem difícil bater em uma menina, e pra piorar ela era tão bonita e sua expressão de dor também não ajudava. Tinha que acabar com aquilo e leva-la para Quíron, ele saberia quem chamar para ajudá-la.
Ela me atacou novamente, mas eu bloqueei o golpe e, como não via nenhum jeito de terminar aquela luta sem machuca-la, a chutei no estômago. O chute afastou a menina, que cambaleante se apoiou em uma cama para não cair. Tentei pensar em alguma maneira de acabar com aquilo sem feri-la muito, mas tinha problemas maiores. Ela prendeu a faca em sua cintura e levantou um pouco sua camisa revelando um cinto branco. Ela o puxou bruscamente de sua calça transformando-o em um chicote de couro branco. A filha de Afrodite balançou o chicote e atacou. A ponta do chicote estalou em meu ombro esquerdo que imediatamente queimou de dor. Ela avançou novamente com o chicote, mas dessa vez consegui desviar enquanto ele estalava no chão ao meu lado. Ela continuou atacando e eu me esquivando, dessa vez com certa dificuldade. Precisava dar um fim naquilo. Eu não conseguiria me esquivar para sempre dos golpes com o chicote. Diferente da faca ela manuseava o chicote com muita habilidade e eu não tinha uma defesa eficiente contra aquilo.
Ela balançou o chicote mais uma vez em minha direção. Dessa vez não me esquivei. Estiquei o braço esquerdo a minha frente e deixe o chicote atingi-lo. O chicote estalou e se enrolou em meu braço. Tentei ignorar a dor que parecia queimar meu braço e enrolei o chicote ainda mais e o puxei com força. Junto com o chicote veio a menina. Quando estava perto preparei um golpe certeiro com a adaga que estava em minha mão direita, mas a expressão de dor em seu rosto me fez parar o golpe no meio do caminho. Se aproveitando do meu momento de hesitação ela me chutou forte na boca do estômago. Eu cambaleei para trás, tropecei num kit gigante de maquiagem e acabei caindo de costas no chão. Rapidamente ela largou o chicote e, empunhando a faca novamente, se lançou contra mim. A ponta da faca estava direcionada exatamente para meu pescoço. No último segundo consegui mover o pescoço pra longe do golpe mortal da faca, mas meu ombro não teve tanta sorte. Mesmo que a ponta da faca não tenha se cravado em meu ombro sua lâmina afiada o cortou profundamente na parte de cima. A dor em meu ombro só não foi maior que o susto que levei.
A menina estava inerte em cima de mim. Um líquido quente escorreu em minha mão direita. Meu coração gelou quando percebi que era o sangue da menina. A lâmina de minha adaga estava apontada para cima quando ela se jogou em mim e isso provocou um corte profundo em sua barriga. Imediatamente a levantei de cima de mim e apoiei sua cabeça como tinha feito antes. Cuidadosamente retirei a lâmina de sua barriga. Seu ferimento sangrava muito e sua camisa já estava vermelha de sangue. Ela olhou pra mim com os olhos cheios de lágrimas e dor. Sua respiração falhando constantemente. Ela começou a fechar os olhos enquanto se agarrava em meu braço, procurando por um apoio embora já estivesse apoiada em meus braços.
― Não, não... NÃO! ― gritei ― você não pode morrer... Eu... Eu disse que ia te ajudar! — as palavras desesperadas simplesmente saíam da minha boca, sem que eu realmente tomasse consciência delas.
Ela tentou responder, mas mal tinha fôlego pra se manter viva. Tentei pensar em qualquer coisa que pudesse ajudar. O ferimento está sangrando muito e precisava de cuidados urgentes. Olhei em volta. Uma outra menina estava parada junto a porta horrorizada com a situação.
― Ei! Você aí! Pegue alguma coisa para estancar o ferimento dela.
― O que? ― ela respondeu confusa.
― Pegue alguma coisa, rápido! Qualquer coisa desde que esteja limpo. Traga um pouco de água também, rápido ― disse antes que ela falasse mais alguma coisa inútil.
― Ah! Tudo bem ― ela disse enquanto procurava o que pedi.
A menina logo voltou com um pano limpo e a água. Tentei lavar o ferimento simplesmente com água já que não tinha mais nada em mãos. Logo depois enrolei o pano em volta de sua cintura, na altura do ferimento, e amarrei firme o bastante para que contivesse o máximo seu sangramento, pelo menos até que eu a levasse para a enfermaria. Peguei-a no colo com o máximo de cuidado.
― Vai ficar tudo bem. Eu vou te levar pra enfermaria e você vai ficar bem ― disse enquanto a levava pra fora do chalé. Não sei se estava tranquilizando-a ou tentando me convencer.
Passei com ela pela porta cuidadosamente para que ela não esbarrasse nas laterais e depois andei o mais rápido que pude, mas sem chacoalha-la muito por causa de seu ferimento. Ela se segurou em mim passando a mão por de trás de meu pescoço. Sua mão raspava no corte em meu ombro, fazendo parecer que a ferida se abria a cada passo, mas me forcei a ignorar a dor. No caminho pra enfermaria encontrei Quíron acompanhado de dois garotos. Um deles era curandeiro de Asclépio o outro eu não conhecia, mas com certeza devia ser outro curandeiro ou quem sabe um filho de Hécate que tinha vindo ajudar. Assim que me viu Quíron veio trotando em minha direção.
― Ainda bem que você cons...
― Ela precisa de cuidados, agora! ― gritei desesperado.
― O que aconteceu com ela? ― o curandeiro perguntou.
Dei uma explicação resumida de como o ferimento ocorreu e o que causou isso. Também respondi as perguntas que ele fez sobre o ferimento até que ele finalmente começou a cuidar dela.
― O que exatamente aconteceu? ― Quíron perguntou.
Antes que eu pudesse abrir a boca, a menina que me ajudou pegando o pano e água apareceu vinda sei lá de onde e começou a explicar. Pela forma horrorizada que ela estava olhando pra mim antes pensei que ia me crucificar, dizer que eu era um assassino e decretar pena de morte, mas ela explicou muito bem cada detalhe do que aconteceu. Na verdade foi melhor do que eu mesmo poderia explicar.
― Isso realmente aconteceu? ― Quíron perguntou pra que eu confirmasse a história da menina. Respondi que sim com a cabeça, sem desgrudar os olhos da menina.
Os dois garotos começam a discutir o estado da garota. Ela estava deitada na grama com a cabeça apoiada na mochila de um dos dois. Sua respiração ainda estava fraca. Seu olhar perdido encontrou o meu. Eu olhei com preocupação pra ela. Mais uma vez senti como se um punho se fechasse sobre meu coração.
― …temos que saber o que a fez ficar assim antes de fazermos qualquer coisa ― o garoto que eu não conheço terminou de falar com curandeiro.
― O quê? ― eu perguntei completamente perdido na conversa.
― Temos que saber o que a possuiu antes de cuidarmos dela.
― Por quê?
— Seja lá o que fez isso com ela é muito forte. Tentar um contrafeitiço ou algo do tipo pode matá-la se não soubermos com que estamos lidando ― ele explicou.
― Ela já está morrendo! Temos que fazer alguma coisa, rápido!
Ele começou a falar novamente, mas eu já não estava prestando atenção. Olhava para a menina estirada no chão como se não fosse nada importante. A vida estava quase abandonando ela. Fiquei agachado ao seu lado. Segurei sua mão trêmula. Por um momento ela voltou seu olhar pra mim, mas logo depois abaixou novamente. Olhei para o curandeiro discutindo com provável filho de Hécate. Nem me importei em saber o que discutiam.
― Não importa o que vocês façam! ― interrompi gritando ― APENAS SALVEM ELA, DROGA!
― Tudo bem ― respondeu o curandeiro ― vamos levá-la à enfermaria e tentar fazer o melhor com o que temos.
Novamente a peguei no colo com cuidado. Ela encostou sua cabeça em mim. Estava tão fraca que nem mesmo conseguia manter a cabeça levantada por muito tempo. Chegamos rápido na enfermaria. Logo que entramos o curandeiro pegou uma maca e disse que eu colocasse a menina em cima. Rapidamente eles desapareceram de trás de uma porta. Tentei acompanhar, mas o filho de Hécate me impediu.
― Você não pode entrar ― ele disse friamente antes de fechar a porta.
Eu e Quíron ficamos esperando. O centauro conseguiu uma filha de Apolo para que pudesse cuidar dos meus próprios ferimentos. Estava tão preocupado com a menina que até tinha me esquecido que estava sangrando quase tanto quanto ela.
― Não se preocupe tanto com ela ― a filha de Apolo disse enquanto enfaixava minha mão ― você fez tudo o que podia pra salvá-la.
― É ― concordei, tentando me convencer. Poderia ter sido diferente…
Esperamos uma eternidade do lado de fora. Quando finalmente eles saíram Quíron se adiantou e foi conversar com ele. Após algumas poucas palavras Quíron olhou pra mim. Sua expressão já tinha dito tudo, a menina tinha morrido. Nem esperei ele dizer nada. Saí da enfermaria sem nem mesmo agradecer o tratamento que recebi. Estava arrasado. Lágrimas se juntaram em meus olhos, mas eu não me permiti chorar. Não iria ajudar em nada. Corri até a arena mesmo sabendo que era contra as regras já que era quase meia-noite. A arena estava vazia e escura. Havia apenas alguns bonecos de palha num dos cantos da arena. Acionei o pingente da adaga em minha pulseira, a mesma adaga que tinha matado a menina, agora estava mais uma vez em minha mão recém-enfaixada. Corri até o boneco e desferi um golpe com toda minha força, várias vezes, até que a cabeça do boneco caiu no chão. Larguei a adaga e comecei a esmurrar a cabeça decepada do boneco no chão. Me imaginei socando a mim mesmo. Como pude permitir isso? Por que não pensei em uma solução? Não conseguia suportar minha própria incompetência.
Eu socava a cabeça do boneco cada vez mais forte. O corte em minha mão estava aberto novamente, mas eu não me importava. Tudo que eu queria era socar alguma coisa com toda minha força. A cabeça do boneco era agora apenas palha esparramada no chão, sendo que agora eu socava somente o chão arenoso da arena. Puxei minha mão mais pra cima para golpear o chão com mais força, mas antes que eu socasse o chão novamente alguém me segurou pelo pulso. Olhei para trás e vi a filha de Apolo que tinha tratado de meus ferimentos. Seus olhos verdes cheios de preocupação. Não sei em que momento as lágrimas escaparam dos meus olhos e escorreram pelo meu rosto, mas isso eu só percebi quando ela tinha segurado meu pulso.
― O que está fazendo? ― ela perguntou com uma voz calma.
― Nada… — disse desviando o olhar — só pensei em vir treinar um pouco — a mentira era o mais próximo que eu conseguia chegar da verdade.
― Eu não fiz o curativo para você acabar com ele em menos de dez minutos ― ela disse apontando pra minha mão.
― Me desculpe.
― Não se preocupe. Trouxe algumas coisas comigo e posso fazer outro ― ela disse retirando outra faixa de sua bolsa.
Após um tempo perguntei:
― Por que você me seguiu até aqui?
― Estava… preocupada com você ― ela começou ― você nem ao menos recebeu a notícia e já saiu correndo pra cá ― ela disse terminando o curativo.
Olhei para a antiga cabeça do boneco. Estava manchada de sangue. Voltei o olhar para a garota. Agradeci pela ajuda e me levantei do chão guardando a adaga de volta na pulseira. Pensei em ir embora, mas não havia um lugar que eu quisesse ir. Inesperadamente a garota se aproximou e me abraçou.
― Não havia nada que você pudesse fazer pra mudar tudo isso. Eles disseram que mesmo sem o ferimento ela não iria aguentar por muito tempo ― ela disse ― Vamos, eu te acompanho até o seu chalé. Você precisa dormir.
Ela me levou de volta para o chalé de Atena. Não sei por que estava indo para lá. Eu sabia que não iria conseguir dormir nem um pouco, mas mesmo assim voltei para o chalé. Ela não largou meu braço nem por um segundo, até chegarmos à porta do chalé, como se temesse que eu pudesse fugir para a Arena novamente.
― Agora você precisa dormir, eu vejo você amanhã ― ela disse. Ela me abraçou de novo e me deu um beijinho no rosto, se despedindo mais uma vez.
― Espere, qual é seu nome?
― Liza e o seu é Terry, certo?
― Sim.
― É melhor você ir dormir logo, você passou por muita coisa hoje.
― Tudo bem. Obrigado pela ajuda.
― De nada ― ela disse se despedindo e voltando para seu chalé.
Finalmente entrei no chalé 6 e me dirigi até minha cama. Me deitei e fechei os olhos tentando dormir, mas sabia que não seria tão fácil.
Fale com o autor