Between Tricks and Feelings.
6 Chapter VI
Notas iniciais
– Vamos?
Ela encarou a mão dele nervosamente. Os dedos longos e finos de seu parceiro estavam entreabertos, estendidos em sua direção. Ela sentiu suas próprias mãos ficarem úmidas com o suor e discretamente enxugou-as em seu colete amarelo. Não tinha motivo para ficar nervosa, certo? Eles faziam isso todo santo dia, então ela não precisava ficar tão nervosa assim, certo?
Errado. Porque não era um momento comum, e o que estava pra acontecer definitivamente não fazia parte da rotina. Era errado, era perigoso. Ela poderia acabar se envolvendo demais, e iria se perder, e iria se machucar e...
E porcaria nenhuma. Era só um simples abraço, e eles já haviam se abraçado antes, então por que não? Isso era somente um desafio infame de Blair, e Maka Albarn sempre, sempre enfrentava os desafios de cabeça erguida. Ela tinha total controle sobre si mesma.
Ela levantou a cabeça repentinamente e encarou Soul, ao mesmo tempo que envolvia a mão dele com a sua.
– Vamos.
x-x
Soul estava definitivamente nervoso.
Eles agora estavam parados em frente à saída do prédio, e de lá até Shibusen eles teriam uma longa caminhada de dez minutos. Ah, que bosta.
Soul relanceou o olhar para Maka, e viu que ela o encarava de volta, as sobrancelhas arqueadas inquisitivamente. Ele suspirou, tentando acalmar a mente. Ele era um cara maneiro. E caras maneiros sabem se comportar diante de uma garota. Ainda que a garota em questão fosse extremamente violenta e de pavio curto e impulsiva. Ele respirou fundo e encarou os olhos verdes de sua parceira.
– Vamos logo com isso.
E em um único movimento, Soul soltou a mão de Maka e a encaixou na curva de sua cintura, puxando-a para mais perto. Por um segundo, ele apreciou a sensação de ter sua parceira tão perto dele, de um modo que ela nunca esteve. Era tão, mas tão diferente. Isso certamente não foi o que sentiu com Annie, maldito seja seu pai. Ter Maka assim tão perto era tão bom.
– Soul?
A voz hesitante de Maka tirou-o de seus pensamentos, apenas para deixá-lo à beira de um abismo de vergonha. Ele estava a alguns centímetros do rosto dela, e só podia concluir que esteve encarando-a como um psico todo esse tempo.
Soul virou-se para a frente, tentando conter o rubor e voltando à sua expressão neutra novamente. Ele apertou levemente sua cintura, chamando sua atenção.
– Você tem que me abraçar de volta, idiota.
Ele escutou um “ah” baixinho, e observou Maka se remexer de um lado para o outro, tentando achar uma posição adequada para abraçá-lo de volta. De repente, um braço quentinho envolve o torso de Soul, e arrepios percorrem por toda a sua espinha. Ele se estapeou mentalmente. Estava parecendo um garotinho imbecil – ele era um cara maneiro, afinal. Não precisava estar tão abobado com tudo isso.
Lutando contra o impulso de puxá-la para si, Soul murmurou:
– Hm, vamos então? Desse jeito vamos chegar atrasados.
Ele escutou um certo “hmm”, e começou a caminhar. Em passos lentos, eles iam caminhando pelas ruas vazias e calmas de Death City, e Soul permitiu-se sorrir um pouco e relaxar. Já que estavam sendo obrigados a fazer esse tipo de coisa, por que não aproveitar?
E imerso em sensações completamente novas, ele inconscientemente puxou-a mais para si, apreciando o calor que o corpo dela emanava.
x-x
‘O que ele está fazendo?’
Maka sentiu seus músculos tensos quando Soul a puxou para mais perto. Ele não deveria fazer isso, deveria? Eles já estavam abraçados, aquilo não era exatamente necessário.
Mas Maka se viu relaxando aos poucos, cedendo. Não deveria ser tão bom.
Ela culpava Blair por tudo aquilo. Xingava-a, amaldiçoava-a com tudo o que podia imaginar. Soul era sua arma, seu parceiro de longa data, seu melhor amigo. Seu sarcástico, imbecil, preguiçoso e extremamente fiel companheiro. Ela sabia muito bem o que a gata estava querendo fazer com aquela merda toda, e sabia também que não iria dar certo.
Blair havia pego Maka no flagra algumas vezes, quando esta acidentalmente pousava os olhos sobre Soul quando ele não conseguia vê-la – às vezes, ela o observava dormindo, ou apenas descansando. Outras vezes ela o observava treinar sua música, embora não a conseguisse escutar. Ela somente espiava Soul pela porta do quarto e o via com seus headphones, testando notas em seu teclado e anotando alguma coisa em um caderninho. Era incrível o empenho que ele tinha, e ela só podia admirar.
E Blair, maldita seja aquela gata, de alguma forma conseguiu capturar esses pequenos momentos de Maka com uma câmera, e usou essas fotos como chantagem. Ela tinha dito que sabia o que Maka sentia, e que queria ajudá-la – mas como ela podia ajudar se não havia nada para ser ajudado?
– Ei, nerd, você tá legal?
Maka levantou a cabeça para encará-lo, assustada. Era esquisito olhar para Soul de uma distância tão curta, sem mencionar que eles estavam andando. Estranho, simplesmente.
– Estou bem, Soul. Vamos andar mais rápido, nós vamos chegar atrasados!
E era verdade. Eles estavam muito lerdos – não haviam nem andado dois quarteirões. Nesse ritmo a usual caminhada de dez minutos levaria, no mínimo, vinte.
– Cadê sua inteligência, Maka? Não dá para andar mais rápido, a não ser que você queira um abraço desengonçado e desconfortável. Mas, hey Maka, você está com uma cara estranha. O que está pensando?
Ela torceu o nariz e virou o rosto, corando.
– Bobagens de garota, você não entenderia.
Soul simplesmente grunhiu e voltou sua cabeça para a frente, observando os ladrinhos. Maka suspirou, derrotada. Blair estava errada – ela não gostava de Soul desse jeito. Ele era tão imbecil às vezes, que ela se controlava para tão arrancar aquela cabeça dele em alguns momentos. Não, Soul era seu melhor e mais confiável amigo, e só. Ela já sabia desde pequena que o amor não existe, principalmente o amor entre parceiros. Ela já tinha provas o suficiente com seus pais, obrigada. A afeição que o artesão tem por sua arma é facilmente confundida com amor, o amor propriamente dito. Ela já sabia disso, e por isso Maka tinha 1000% de certeza que ela não gostava de Soul daquele jeito.
Mas ela se sentia tão confortável no abraço dele, e a mão em sua cintura era tão gentil. Maka suspirou mais uma vez. ‘Aproveitar um pouquinho disso não faz mal, faz... ?’ Hesitante, ela se permitiu pousar sua cabeça no ombro de Soul, e sentiu-o tensionar os músculos. Talvez ela tivesse ido longe demais.
Mas antes que pudesse retirar sua cabeça e balbuciar alguma desculpa, ela o sentiu relaxar e, se possível, puxá-la para ainda mais perto, seu abraço se intensificando um pouco mais.
Talvez eles estivessem sendo imprudentes demais, impetuosos demais – aquilo era perigoso. Mas Maka não poderia se importar menos. E assim, abraçada à sua arma, ela foi caminhando devagar até Shibusen.
'O que eu estou fazendo?'
x-x
Três horas.
Três malditas horas naquela escola, e parecia uma eternidade. Não que isso seja alguma novidade para Soul. Por que ele ia para a escola mesmo? Era tão inútil. E previsível. Stein estava dissecando alguma espécie de lêmure, e eles obviamente não iriam fazer nada durante a aula inteira.
Tédio.
Soul resolveu então observar a sala. Geralmente as expressões de seus colegas o tiravam do tédio.
Ox estava com a mesma cara engraçada de sempre, com aquele cabelo ( ou seria uma prévia de um cabelo ) esquisito dele. Ele parecia concentrado em qualquer droga que Stein estava falando, mas Soul percebeu alguns relances que ele dava para Kim. Ah, aquele idiota. Quase foi morto por ela, quase ganhou um abraço dela, quase ganhou um beijo dela e ele ainda estava naquela lenga-lenga.
Harvar, ao lado de Ox, continuava com a expressão sádica de sempre. Aquele garoto tinha problemas, definitivamente.
Kilik estava sendo uma babá com os pequenos gêmeos tentando acalmá-los, Kid estava ocupado demais examinando a sala de aula pela milionésima vez para ver se encontra alguma falha na simetria; Patty desenhava uma girafa enorme com seus giz de cera – aquela garota tem quantos anos mesmo? – enquanto Liz tentava disfarçadamente arrancar um pelo fora do lugar em sua sobrancelha.
Tsubaki, querida Tsubaki, estava tentando anotar algo em seu caderno desesperadamente, mas algo em sua expressão dizia que ela não estava entendendo droga nenhuma. Bom, não é como se alguém realmente entendesse Stein a não ser –
Oh. Maka. Ela estava concentrada, sua testa franzida ao que Stein dizia à frente. Memórias de algumas horas atrás invadiram a mente de Soul, e ele sentiu suas bochechas esquentarem.
Hora de desviar o olhar.
Ele resolveu, então, olhar para Black*Star, que surpreendentemente o encarava de volta com um sorriso sinistro. Ele acenou para Soul e antes que Soul pudesse prever ou bloquear algo, Black*Star tacou uma bola de papel em sua testa.
“Entãaaaaaaaao, eu vi vocês, pombinhos, chegando abraçados. Quem diria, uh? É isso aí bro, nunca pensei que aquela nerd pudesse realmente agir como uma garota. O grande Soul faz milagres – embora nunca superará O GRANDE BLACK*STAR”
Soul releu as palavras escritas naquele papel amassado mais uma vez. Então eles tinham sido pegos no flagras, que ótimo. Maravilha. Pelo Black*Star ainda, que não sabia calar a boca. Ah, o azar era apaixonado por Soul, só podia.
Decidiu que iria continuar aquela conversa-por-bolinhas-de-papel. Era melhor do que Black*Star o zoando em voz alta, pelo menos.
“Imbecil. Não é o que está pensando, ó grande pervertido. Fomos obrigados a fazer isso, e é só isso que precisa saber.”
“Uh-uh. Eu vi Maka encostada no seu ombro, garotão. E você não me parecia tão bravo ou irritado assim. PARECE QUE PERDEMOS UM ADVERSÁRIO NA TURMA DOS SOLTEIROS. Ah-há! Estou feliz por vocês dois e tals, mas lembrem-se de preservativos, eles são importantes.”
Soul encarou o papel, chocado. Que merda é essa agora? Irritado, ele tacou a bolinha de papel com força em Black*Star, não se importando em escrever uma resposta. Ele ouviu Black*Star rindo baixinho, e somente grunhiu em resposta, mas logo sentiu a bolinha quicando de volta em sua nuca.
“Qual é, Soul, relaxa. Eu te apoio e tudo o mais.”
“Cale a porra da boca, Black*Star. Não é o que você pensa que é, e a culpa não é minha se você e Tsu não se resolveram e agora você tenta juntar todo mundo que vê pela frente. Vai lá treinar seus músculos até morrer e não me enche.”
“Ai, doeu. Mas para a sua informação, buddy, eu e Tsu já estamos resolvidos. Mas tudo bem, eu entendo que você está na fase de negação ainda e tals, mas juro que apoio vocês dois – ainda que eu ache que a nerd seja esquisita demais.”
Soul encarou o amigo incrédulo. Ele e Tsubaki já estavam juntos? Desde quando? Ele é tão infantil! E Maka não era esquisita, maldito seja ele.
Black*Star riu da expressão de Soul e se levantou, uma vez que o sinal havia batido. Soul não perdeu tempo e rasgou aquele papel em pedacinhos – ele não precisava de uma Maka irritada, muito obrigado.
Sem outra opção, ele seguiu os colegas à quadra, aonde ficou treinando com Black*Star e Kid até o final das aulas. Durante alguns socos e chutes, porém, ele percebia uma troca de olhares entre os dois amigos e alguns sorrisos misteriosos cada vez que olhavam para Soul. Ah, que legal, Black*Star deve ter contado à Kid.
Soul concentrou-se nos seus socos e em nada mais. Era melhor esvaziar a cabeça – nenhum dos seus amigos iriam ser companhias muito agradáveis hoje.
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