Between The Bars
2 Primeiro
A luz branca da manhã adentrava o quarto branco de Orlando. Mais uma noite de insônia. Mais um dia olhando o sol nascer. Sabia que em menos de duas horas tinha uma reunião importante. Deveria ser bem a terceira vez só naquela semana que não conseguia dormir. Havia tomado remédio, tomado vinho, visto filmes, mas nada o fazia dormir. Sabia que talvez fosse a mudança de fuso horário. Era bem provável que fosse, embora quatro horas não fosse nada.
Mas ele teimava em não admitir isso. Passaram apenas alguns bons anos em New York e vivera sua vida toda em Londres. Seu coração pulsava pela cidade. Sentira falta de Londres cada dia que estivera fora de lá. Teria que acostumar o seu corpo ao horário de toda sua vida.
Olhou pela janela mais uma vez e resolveu que começaria o dia mais cedo que o planejado.
Ao descer as escadas, percebeu que todos os empregados já estava se organizando para mais um dia de trabalho.
—Ah, bom dia Sr. Bloom. Vejo que acordou cedo. — Maria, a governanta, apareceu rapidamente enquanto ele descia as escadas.
—Deve ser o fuso horário, Maria. Mas vou sair mais cedo.
—O senhor vem almoçar?
—Provavelmente não, mas ligarei caso venha. Preciso resolver muitas pendências com relação à mudança e tenho uma reunião com um diretor hoje.
—Ora, ora… Voltará a fazer filmes, Sr. Bloom? Fico muito feliz.
—Ainda não sei se isso vai… Enfim, eu aviso caso precise que prepare o almoço.
Ela sorriu e fez uma reverência simplória antes de desaparecer pela cozinha. Ele decidiu que tomaria café fora de casa. Precisava sentir o ar de Londres. Precisava se sentir em casa. Olhou se a chave do seu carro estava no bolso e saiu para o estacionamento.
Havia ganhado muito dinheiro na América. Sabia disso. E grande parte dessa fortuna ganhara sendo ator. Trabalhara ao lado de muitos outros atores conhecidos, gostava do seu trabalho. Até perceber que não estava feliz. Não queria mais fazer nada, não queria atuar e nem ser parte de nada. Mas precisava viver. Decidiu que montaria uma empresa que ajudaria filmes independentes a saírem do papel.
O que ele tivera fora uma depressão. Uma depressão profunda depois que sua mãe morrera.
Mas isso ele nunca admitira para ninguém. Sua carreira, seu bom humor e tudo havia sido enterrado naquele dia. E a pior parte era que ele não sabia como sair daquilo.
Então voltou para o Reino Unido. Queria reconstruir a vida. Voltar a atuar. Quem sabe voltar a viver da forma feliz como antes. Sabia que seria difícil se sentir como aquele rapaz de vinte e poucos anos com muitos sonhos.
Balançou a cabeça para tirar aqueles pensamentos da cabeça e deu de cara com seu Audi prata. Entrou no carro e deu a partida.
—
Londres era incrível, pensava ele. Sempre tão elegante e fria. As pessoas, os locais, os ônibus, sinais, os turistas. Sentira falta daquilo durante todos aqueles anos. Isso o deixava feliz, estava em casa. Estava onde mais amava. Depois do seu casamento mal sucedido já tinha planos para voltar pra cidade. Mas após sua mãe morrer, voltar a Londres era imprescindível.
Parou o carro em uma vaga e desceu colocando os óculos escuros. Procurou o maço de cigarro que estava em seu bolso e caminhou em direção a uma cafeteria simples. Sabia que poderia ser reconhecido, mas ultimamente não tinha tido problemas com isso. Estava bem mais magro, sempre usava óculos e as vezes boné para disfarçar. As pessoas não o reconheciam facilmente. Ou quando reconheciam, não o paravam para uma foto.
Entrou na cafeteria e sentiu o cheiro de café bem forte. Era tudo que precisava. Havia uma fila para ser atendida no caixa. O lugar nem estava tão lotado assim e, como imaginara, ninguém o reconhecera.
Ficou na fila até ser atendido por uma senhora muito simpática e sorridente.
—Café expresso. — Ele pediu sentindo que ela o observava com mais atenção.
—Algo mais? — Ela perguntou com um olhar mais curioso.
—Não.
—Então dá £2,40.
Ele pagou e recebeu o café. Quando estava saindo da fila, ouviu a senhora falar.
—O senhor é aquele rapaz que trabalhou em Piratas do Caribe, não é?
Ele somente sorriu e assentiu. Agradeceu rapidamente e deixou o local o mais rápido possível. Sabia que outras pessoas ouviriam aquilo e que logo a cafeteria se transformaria em um alvoroço. Tudo que não precisava era daquilo naquele momento.
Entrou no carro e deu a partida o mais rápido que pôde.
—
O encontro com o diretor Albaney havia sido produtivo. Oferecera o personagem que, segundo ele, era a cara de Orlando. Entregara o roteiro pra que ele lesse e depois entrasse em contato. Orlando agradeceu e prometeu que leria e que em menos de uma semana daria sua resposta.
Soube que grandes atores participariam do longa também. Albaney era conhecido como um diretor excelente e seus filmes já haviam sido indicados ao Oscar mais de uma vez. Além de respeitado, ele era uma pessoa que Orlando sempre admirou. Embora nunca tivessem trabalhado juntos, ambos se conheciam de grandes festas que participavam em NYC.
E o encontro havia terminado com um convite um tanto estranho.
“Apareça na festa do meu aniversário mais tarde. Meu filho John e sua noiva gostam muito do seu trabalho. E seria uma honra recebe-lo”.
Orlando agradeceu e disse que tentaria ir. Ele sabia que não iria para a festa. Nem conseguia pensar em um bom motivo para sair de casa para uma festa.
Saiu do escritório já no meio da manhã. Não fazia ideia do que faria no restante do dia. Pensou em andar pela cidade, mas desistiu da ideia na mesma hora. Estava cansado demais e com sono. Ligou para Maria e avisou que iria almoçar em casa.
Mas ao chegar, se trancou no quarto e dormiu acordando só no final da tarde com alguém batendo na porta.
—Sr. Bloom?
Ele, ainda sonolento, levantou da cama e abriu a porta.
—Diga, Maria.
—Entregaram isso na portaria mais cedo. Não queria acordá-lo, mas acredito que seja importante.
Ela entregou uma capa preta que parecia daquelas que guardavam ternos.
Ele agradeceu e fechou a porta. Olhou para a capa e baixou o zíper revelando um terno preto e muito bem cortado.
Dentro havia um cartão.
Para que você venha hoje em grande estilo. Sei que a mudança pode ter sido difícil, mas aqui um pequeno presente de boas vindas.
A.
Ele sabia que sua má vontade de mais cedo não havia convencido ninguém. A resposta estava ali. Orlando não sabia se ria ou chorava. Ele não queria ir e aquilo era claramente uma forma de compra-lo para aceitar o personagem. Era uma falta de cordialidade sem tamanho da parte de Albaney fazer aquilo. Mas Orlando gostara da cara de pau dele. Era antiético e imoral, mas era a melhor coisa que alguém poderia ter feito por ele naqueles dias. Estava cansado de bajulação, de terem pena dele, de todos os empregados comentarem o quanto ele estava magro e triste.
Então ele iria. E usando o terno novo.
—
A festa estava lotada. O que não era novidade nenhuma. E também não era novidade que ali ele encontraria vários amigos antigos e colegas com quem já trabalhara. Albaney fizera questão de convidar cada um a dedo. A cobertura era localizada no coração de Drayton Gardens. Obviamente, o apartamento não custava menos do que cinco milhões, pensara Orlando consigo. Isso fazia com que ele tivesse vontade de rir. A sua casa era uma mansão, de fato. Mas isso era culpa exclusivamente da sua ex mulher que compara a mansão. Ele não quisera se desfazer dela no final das contas.
Estava tomando uma taça de vinho no canto da sala, alheio todas àquelas pessoas. Alguns já haviam ido cumprimentá-lo, inclusive o filho e a nora do Diretor. Estava ciente de que todos ali sabiam da proposta para que ele voltasse para o cinema. Mas todos tinham a educação de não falar isso abertamente e sim de forma sutil. Ele perdera as contas de quantos “seria ótimo vê-lo trabalhando novamente, adoraria trabalhar com você novamente” entre outros.
Aquilo cansava. Estava arrependido. Fora um erro enorme ter saído da sua casa confortável para se enfiar em uma festa daquelas. Sabia no fundo do seu coração que aquilo era mais do mesmo.
Já ia procurar o anfitrião para inventar uma desculpa, agradecer e se despedir quando viu um vão onde havia uma escada. E essa escada provavelmente daria para a parte de cima do apartamento. Sabia que era uma área aberta e que provavelmente não tinha ninguém já que nada sugeria isso.
A vontade de fumar um cigarro o tomou. Talvez se fumasse ao menos dois cigarros, poderia contar como tempo na festa.
Vagarosamente saiu de onde estava e quando ninguém o via, subiu as escadas. Sentiu uma felicidade repentina por fugir daquela sala. Pegou o maço no bolso e já tirava o primeiro cigarro quando chegou no terraço. Sentiu um vento forte bater em seu rosto e então ouviu uma risada. Mas não era uma risada feliz. Era uma risada agoniante, era uma risada de dor. Olhou para frente e viu uma moça em um vestido preto. Ela estava estranhamente perto do batente e levou poucos segundos pra ele entender o que ela faria. Antes que se desse conta, o maço de cigarro estava no chão e ele segurava a moça pela cintura ambos caídos no chão do terraço. A taça e a garrafa de vinho estavam quebradas a alguns metros deles.
Ele a salvara de cometer um suicídio.
Nem ela e nem ele fizeram nada no primeiro momento, até que ela se levantou e olhou pra ele incrédula.
—De nada. — Ele disse levantando e limpando o seu terno.
—O que você… — Ela parecia estar engasgada com algo. — O que você fez?
—Eu te salvei.
—E quem disse que eu queria ser salva?
—Isso não muda o fato de que te salvei.
Ela olhou para ele com fogo nos olhos e limpou o vestido.
—Você ia pular.
— Eu sei disso. Teria conseguido se você não tivesse se intrometido.
—Eu acho que hoje não seria um bom dia para fazer isso. É aniversário de Albaney.
—Foda-se ele e esse maldito aniversário.
—Você parece estar muito festiva, não é?
Ela o observou dos pés a cabeça e perguntou:
—Quem é você?
—Não me conhece?
—Se eu estou perguntado, é lógico que não conheço.
—E quem é você?
Ela cerrou os olhos e respirou fundo. Orlando observou a moça. Era bonita. Definitivamente. Tinha a pele escura como chocolate, os cabelos eram enrolados, o corpo muito bonito. O seu rosto também era, porém parecia que ela havia chorado muito e os olhos estavam pretos por causa da maquiagem borrada. Não devia ter mais de vinte e cinco anos.
—Porque você ia pular?
—Não te diz respeito.
Orlando caminhou de volta para a escada e pegou o maço e o cigarro. Então se voltou para ela.
—Você estava na festa?
Ela não respondeu nada e sentou em um banquinho. Olhou pra ele e para o maço de cigarro.
—Me dá um?
Ele ofereceu o maço e sentou ao seu lado. Ela pegou um cigarro e ele acendeu os dois.
—Pra que você sentisse vontade de morrer, algo muito sério aconteceu.
—Eu não quero falar disso.
Ambos ficaram em silêncio olhando o céu e fumando.
—Você teria se jogado? — Ele então olhou pra ela que retribuiu o olhar.
—Sim. Dessa vez sim. — Ela então olhou pra baixo. — Queria sinceramente que você não tivesse aparecido para atrapalhar isso.
—Você não iria querer nada. Estaria morta.
—Era essa a ideia.
Eles se olharam novamente e ela baixou a cabeça.
—Esse cigarro é bom.
—Trouxe de NYC.
—Você mora lá?
—Morava. Acabei de me mudar pra Londres novamente.
—Sempre foi daqui?
—Sim. Morei pouco menos de dez anos lá.
Ela não falou nada novamente e ele quem perguntou:
—Você foi convidada pra festa?
Ela riu e tragou novamente:
—Onde você mora?
—Você não responde nenhuma de minhas perguntas. Porque deveria responder as suas?
—Sim, eu fui convidada. — Ela tragou novamente e soltou a fumaça pra cima. — Na verdade não precisaria ser convidada. Moro aqui.
Aquela informação caiu como uma bomba no colo de Orlando. Ela era a esposa de Albaney? Ele sabia da fama do diretor de casar e se separar com moças muito novas.
—Sua cabeça está saindo faísca de tanto pensar. — Ela falou com um riso debochado. — Deve está se perguntando se eu sou uma das putas de Albaney.
—Eu não…
—Relaxa. Eu não sou puta e nem esposa.
Ele não falou nada. Ela não queria dizer quem era. Talvez fosse a sobrinha ou a noiva de um dos filhos dele.
Mas quem quer que fosse, ela não parecia fazer falta a ninguém da festa.
—O que você faz? — Ela perguntou jogando o cigarro no chão e o apagando com o pé.
—Estou desempregado no momento.
—Bobagem. Se você está aqui deve ser um ator ou algum desses diretores idiotas de filmes independentes. Ele não chama ninguém que não o interesse.
—Você deve conhecer muito ele.
—E você deve ser a nova fascinação dele. — Era o riso debochado novamente. -E eu nem sei quem você é.
—Que tal você me dizer quem você é?
—Não preciso. Até o fim da noite você saberá.
Ele riu um pouco e ouviram passos subindo as escadas. Olharam para trás e viram Albaney.
—Orlando? Pensei que você tivesse ido embora e… Ah, vejo que conheceu minha filha.
Orlando olhou para a moça que tinha um riso debochado e levantou.
—Ah… Sim. Eu queria fumar e…
—Tudo bem. A Alice sempre dá um jeito de fugir das festas. Eu estava vindo aqui procurá-la.
Eles se olharam novamente e ela levantou.
—Obrigada pelo cigarro. — Falou baixo e foi ao encontro de Albaney.
—Vamos descer? — O diretor falou divertido. — Minha esposa insiste em cantar os parabéns.
Orlando soltou um riso amarelo e assentiu, descendo logo atrás deles.
Parecia que ninguém havia percebido o rosto inchado de choro da moça. Orlando se perguntou como é que ela poderia ser negra enquanto Albaney era branco. Essa só era mais uma dúvida sobre ela.
E ele a tiraria logo, logo.
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