Thomas não aguentava mais aquilo.

Ele já havia transportado John e a si mesmo por cerca de 480 quilômetros através dos estados do Arizona e Nevada. Tudo isso só usando a viagem pelas sombras, se deslocando por poucas distâncias a cada viagem, para não se exaurir tanto. Mas não estava adiantando tanto. Por mais que houvesse treinado dúzias de vezes no Acampamento, ele nunca teve que viajar por uma distância tão grande. Haviam parado em motéis a beira de estradas para descansar diversas vezes, mas parecia que o cansaço se recusava a sair dele. E só estavam naquela há três dias! Thomas definitivamente precisava de um longo e bem-merecido descanso ou se esgotaria completamente.

Lauren havia mandado uma mensagem de íris havia duas horas, perto do meio dia. Ela se encontrava junto com o resto do grupo, que aparentemente estava em um hotel luxuoso de Los Angeles. Como Thomas queria chegar logo àquele hotel! Já havia memorizado o endereço, mas ainda faltava cerca de 435 quilômetros até lá. Ele duvidava que fosse chegar vivo ou inteiro.

Os dois semideuses perdidos estiveram andando por um longo tempo antes de avistarem qualquer outro sinal de civilização, e a primeira visão foi impressionante. Las Vegas deixaria qualquer um maluco, ainda mais um filho de Hades. Thomas não ficara surpreendido apenas com as luzes piscando, mas também com a flor de lótus gigante da qual fora alertado, centenas de vezes, para se manter distante. Segundo as histórias, o cassino dono daquele logo era altamente perigoso. Mas, como não poderia deixar de acontecer, John disparou em direção a ele no exato segundo que o viu. Mas, por sorte, o filho de Hades o puxou pelo colarinho bem a tempo do outro entrar no lugar que seria o seu fim.

— John, espere! — Thomas o puxou para o seu lado e só o soltou quando considerou que era seguro — Você pode não conhecer as histórias, mas eu conheço. Fique longe daquele cassino! Ele vai fazer você perder a noção do tempo, do espaço e esquecer tudo que tem pra fazer!

— Mas também te deixará imune à furia dos deuses. — Uma das atendentes comentou sorrindo. — Além disso, flores de lótus são realmente deliciosas.

Thomas encarou a moça por um longo instante. Ela possuía uma aparência jovem, típica de uma mulher de Las Vegas: longos cabelos escuros, pele bronzeada e olhos castanhos. Trajava um vestido justo com longos decotes nos seios e na perna esquerda. Por respeito a Lauren, não se atreveu a olhar por mais tempo. John pelo visto não teve a mesma consideração por Sophie; ficou encarando a mulher como um cachorro, babando feito um idiota.

Havia algo naquela mulher que causava ao filho de Hades certo estranhamento. Na verdade, ele achava a mulher muito normal. Normal demais. Extremamente normal para os padrões normais. E era isso que o incomodava. Nunca se deve confiar em uma pessoa com tamanho grau de normalidade; isso sempre significava que ela não era NADA normal. Então, fez o que achou mais sensato: agarrou o braço de John e o conduziu para longe dali.

John parecia não se importar com nada que Thomas fizesse ou falasse; estava totalmente empenhado em voltar para o Lotus. Tentou se soltar do amigo e correr, convencer o filho de Hades a voltar e experimentar, correr de novo e todo tipo de artimanha que se você não convivesse com filhos de Hermes, você cairia. Entretanto, esse não era o caso. Então, apesar do extremo cansaço físico, Thomas teve de apelar: viajou nas sombras com ele até outro lugar, um tanto quanto longe dali.

— Você tem algum tipo de retardo mental? — perguntou nervosíssimo.

— Algumas pessoas dizem isso com frêquencia, por quê? — John respondeu, procurando alguma saída.

— Já disse que não podemos entrar no Hotel e Cassino Lótus! — Thomas praticamente rugia — É perigoso para mortais e ainda mais para semideuses! Nico e Bianca di Angelo ficaram presos lá dentro por mais de 70 anos sem nem perceber! Aquilo engoliria sua vida!

Ele andava de um lado para o outro gesticulando furiosamente, e frente a esse acesso de raiva e ao novo fato apresentado, John pareceu reconsiderar em sua decisão de tentar voltar para o Cassino.

— Do mesmo jeito, fala sério, Thomas! Já estamos nessa de viagem faz três dias! Vamos lá, vamos aproveitar que estamos em Las Vegas e nos divertir um pouco! — Ele disse enquanto passava o braço ao redor dos ombros de Thomas, que se encolheu com o toque inesperado. — A gente merece, cara.

— O que você está pensando? — Thomas não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Chamar um filho de Hades para ir numa balada? Ele estava louco? — Tomara que não seja o que eu entendi, e se não for você tem realmente que começar a pensar no que você fala. Além disso eu estou cansado demais para isso, e como eu não vou perder você de vista, é melhor ir tirando o cavalinho da chuva.

Ele baixou a cabeça e resmungou algo como: “Pelo menos me paga um cheeseburguer, então”, mas Thomas não caiu nessa.

— Se você tentar fugir de novo eu juro pelo rio Estige que ponho uma coleira em você. E se ainda assim você tentar alguma coisa, espeto uma flecha no seu ombro e te arrasto comigo. E será uma flecha aleatória!

John engoliu em seco. Thomas então virou as costas para o amigo e rumou em direção à saída do beco onde estavam. Ele achou que a ameaça fora o bastante, mas mesmo assim ficou em dúvida de onde compraria uma coleira para o tamanho de John. Mas, felizmente, pôde senti-lo se apressando para acompanhá-lo.

— Para onde vamos agora, então?

— Pro Mc Donald’s. — Riu ele. — Você pediu um cheeseburger.

***

Após um longo e majestoso almoço tardio no Mc Donald’s, com direito a seis lanches para cada um — eles estavam com fome e era preciso muita comida para manter aqueles corpos —, o que com certeza faria ambas as namoradas reclamarem sobre alimentação saudável por semanas, os garotos começaram a sentir falta dos monstros.

Finalmente haviam achado um motel barato para pernoitar na periferia da cidade. A atendente deu algumas risadinhas quando eles pediram o quarto, o que fez Thomas ficar muitíssimo constrangido, embora John aparentasse ter gostado. Ou ele era muito lerdo, ou muito idiota — ou ambos — por não perceber o real significado dos risos.

John foi tomar banho primeiro, alegando estar exausto, acusação que o filho de Hades não podia reclamar, além do que, sabia como os filhos de Poseidon se restauravam com a água, se fossem atacados, ele preferiria que ao menos um deles pudesse lutar.

Quando John saiu do banheiro, parecia um homem novo, o que fez com que Thomas pensasse nos risos da atendente do motel de novo. Esquecendo-se de qualquer regra de segurança, trancou-se no banheiro e foi tomar o banho mais merecido que já tivera. Nunca pensara que viajar nas sombras lhe custaria tanta energia. Mas, afinal, com grande poder vem uma grande quantidade de sono. Ou seria responsabilidade? Naquela hora Thomas já não se importava, tudo que ele queria era deitar na cama, mas assim que abriu a porta do banheiro a única coisa na qual ele conseguiu pensar foi: “Onde eu vou arranjar a porra de uma coleira?”.

John não estava no quarto. A janela estava aberta, e um semideus conseguiria pular do segundo andar. Ou ele tinha fugido, ou fora capturado pelo monstro mais silencioso, organizado, veloz e com TOC do mundo. Aproveitando que estava em Las Vegas, o filho de Hades apostou na primeira hipótese, e só tinha um lugar para onde John iria.

Se ele realmente tivesse apostado, teria vencido apenas uma das afimações. John realmente tinha fugido, mas ele não estava no Lótus. Surpreendentemente a moça que estava na porta do cassino era a mesma, e o reconheceu.

— Olá, sabia que você voltaria. Onde está seu amigo? — Ela sorriu com sinceridade, e Thomas imaginou que ganhava mais por quantidade de pessoas que colocasse para dentro.

— Na verdade eu estou procurando ele, imaginei que teria vindo para cá.

— É uma pena mesmo que dois semideuses lindos como vocês não venham para cá. Eu saberia se seu amigo tivesse entrado, afinal, eu estaria divertindo ele pessoalmente. — Ela terminou lambendo a ponta do dedo indicador, fazendo com que Thomas não precisasse pensar muito para descobrir que tipo de diversão seria. — É claro que você não aceitaria essa oferta, mas eu vi como ele me olhava.

— Ele nunca faria isso. Ele tem namorada, e eu também. — Thomas manteve a calma, revirando os olhos diante da ignorância daquela “mulher”. — Não veja minha falta de atenção e interesse como uma ofença. — Terminou o mais educadamente que pode.

— Ele não é o mesmo homem que você. — A moça sorriu. — Ele é tão instável quanto a maré… Mas, se você clama por proteger a honra da namorada dele, aconselho que você corra, existe uma infinidade de baladas, cassinos e prostíbulos nessa cidade. O patrono dela é meu pai afinal, mas se algum dia voltar ao Lotus, ou conhecer alguém que virá, mande procurar a Marrie, filha de Baco, eu ainda sou a única aqui.

Thomas pensou por um segundo e decidiu procurar John nas baladas perto do motel em que estavam primeiro, afinal, fora onde eles se viram pela ultima vez, e ele duvidava que o amigo tivesse ido muito longe.

Após entrar e procurar em pelo menos meia dúzia baladas — uma dúzia se incluir baladas LGBT, o que foi extremamente constrangedor à Thomas —, e comprar uma coleira em uma delas, o rapaz já estava desistindo. Afinal, estava morrendo de cansaço e, sinceramente? O que acontecia entre Sophie e John não era da sua conta. Foi quando começou a chover. O filho de Hades entrou na primeira festa que viu, e agradeceu aos deuses pela roupa ser preta, assim não seria reconhecido tão facilmente. A cena que viu não podia ser ignorada, e ele iria vê-la sozinho. Os néons onipresentes e a chuva proporcionavam árco-iris perfeitos para mensagens de Íris, e sem pensar no horário, tirou um dracma de ouro do bolso e mandou uma para Lauren, que por sorte estava acordada e com Sophie ao seu lado, em algum lugar que também parecia ser uma festa.

— Sinto muito, Sophie. — Ele disse com um sussuro rouco digno de quem discursa em um funeral — Garotas, não gritem, apenas vejam. Não poderia me perdoar se não mostrasse isso a vocês.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.