Arranjar briga com o Nero — e quase vencer — foi gratificante, mas não valeu tanto assim.

Após Percy ter interrompido o confronto, Thomas e Nero, que por sinal estava bastante machucado e traumatizado tanto fisicamente quanto psicológicamente, haviam sido encaminhados para a Casa Grande a fim de levarem uma enorme bronca de Quíron e do filho de Poseidon.

Cerca de meia hora depois, ambos foram liberados desde que prometessem que não iriam brigar novamente. Thomas porém reparou no olhar do romano que deixava bem claro que iria continuar aquilo no momento em que a discussão fosse esquecida.

Nero saiu da Casa Grande assim que lhe foi permitido, mas Thomas esperou para falar com Percy, que ainda demorou um pouco para sair da conferência, e o fez com uma cara sombria.

– Blackheart, o que ainda está fazendo aqui? — disse ele.

– Queria te perguntar uma coisa, senhor — disse Thomas.

– Já disse para não ficar me chamando de senhor, eu fico me sentindo velho — reclamou o filho de Poseidon revirando os olhos.

– Desculpa. Eu queria saber quem te contou sobre a briga.

– Eve Lightscar, filha de Nêmesis. — Percy respondeu — Mas não desconte nela, eu teria sido informado de qualquer forma.

– Bom, o senhor... Quer dizer, você acha mesmo que Nero deveria morrer?

– Acho, mas infelizmente não tenho o controle sobre isso. Rachel, o oráculo, disse que existem planos para Nero.

– Ah certo, nunca contestar as decisões do oráculo. Regras de missões, aula quatro: A designação para uma missão e a profecia do oráculo.

– Muito bom Blackheart, vejo que prestou a atenção nas minhas aulas.

– Ah, pare de me chamar de Blackheart! Faz assim, eu não te chamo de senhor e você não me chama pelo meu sobrenome. Trato feito? — perguntou Thomas estendendo a mão.

– Feito — respondeu Percy, apertando-a — Me acompanha até o refeitório? Já está na hora do almoço.

– Claro.

– Podemos ir conversando, tem algumas coisas que quero falar com você, principalmente a respeito de Lauren.

Um miríade de possibilidades cruzaram a mente de Thomas, ele se limitou a resguardar as mãos nos bolsos desviando o olhar de Percy como se assim pudesse também desviar a conversa.

– Hãã… Lauren? O que que tem a Lauren? — disse e sorriu logo em seguida.

– Calma, não quero brigar com você — riu Percy — Quero apenas conversar.

Thomas se acalmou.

– Certo, sou todo ouvidos.

– Quero te pedir para que você nunca abandone Lauren.

– Eu nunca a abandonaria. Por que você está me dizendo isso?

– Porque nós somos as únicas pessoas que ela tem. Quer dizer, tirando o irmão gêmeo dela que apareceu agora e que na verdade não me é muito de confiança por ter vindo com romanos.

Thomas se sentiu ligeiramente confuso.

– Mas e todos os amigos que ela tem aqui?

– Thomas, se eu te contar um segredo. Você promete guardar e não contar pra ninguém, muito menos pra Lauren?

– Prometo.

– Eu guardo esse segredo desde que ela chegou no Acampamento.

Percy parou, obrigando Thomas a parar também, respirou fundo e disse:

– Quando Lauren apareceu, a Rachel me disse que ela morreria traída por um “amigo”.

***

Thomas não conseguiu parar de pensar sobre o que Percy havia lhe dito desde aquele momento. Ele se decidira que iria buscar Lauren para o almoço, e se dirigia ao chalé 3.

No caminho, concluiu que se descobrisse — ou ao menos desconfiasse — quem trairia Lauren, exterminaria a pessoa. Sua namorada não merecia isso. Nunca mereceu e nem nunca merecerá.

Thomas sempre achou horrível as pessoas sofrerem algo pelo que não mereciam. Lauren uma vez havia contado que sempre sofreu muito bullying na escola, por ser toda “esquisitona”. Um dia, de tão nervosa que estava, fez uma rachadura no meio de sua escola. Foi nesse dia que fugiu.

Ele não achava que a namorada merece ou merecia isso. No fundo, sempre fora tão gentil, doce, pura e… E estava exatamente ao seu lado agora.

Thomas se assustou e deu um pulo, o que era estranho já que era mais fácil ele assustar as pessoas do que as pessoas assustarem ele.

– Lauren??

A expressão dela era de plena confusão.

– Sim?

– Desde quando você está aqui?

– Hã, bem, eu vim acenando pra você desde que saí do chalé até aqui.

Maldito déficit de atenção.

– Ér… Então...

Thomas não sabia porquê, mas estava ficando corado e sem graça. Será porque estava pensando em Lauren antes que ela aparecesse? Não sabia. Só tinha certeza de uma coisa: ela estava gostando a ponto de um sorriso dissimulado se formar em seus lábios.

– Bem, vamos almoçar? — ele conseguiu dizer finalmente.

Lauren soltou uma risada disfarçada de tosse que só fez Thomas ficar ainda mais corado.

– Vamos, vamos! — apressou ele.

O trajeto até o pavilhão do refeitório se baseou em Thomas caçoando da altura de Lauren o que ele adorava fazer, afinal ela era mesmo muito baixinha, mas pelo menos mais alta que muitas meninas por aí. Mesmo assim, Thomas achava divertido fazê-lo.

A “conversa” se resumiu em:

– Baixinha.

– Cale a boca.

– Piolho de elétron.

– Dá pra parar?

– Você é minúscula, sabia?

– Vou quebrar sua cara.

– Mas como se você tem uma mão tão pequena?

E ela batia nele. Thomas realmente sabia como irritar Lauren.

Ao chegarem lá, se despediram, e cada um foi para sua respectiva mesa. Nico e Lynx já estavam sentados na de Hades, e Thomas foi se juntar a eles. As saudações foram trocadas de modo que Thomas nem ao menos percebeu ter cumprimentado os irmãos de forma mais seca do que o usual. Limitou-se a imaginar um prato de macarrão, que apareceu instantaneamente na sua frente. Entretanto, as suas preocupações recentes só lhe permitiram fome o suficiente para uma garfada, logo Thomas fez das aspirais de massa, um brinquedo.

– Cara, ta tudo bem? — perguntou Nico.

– Pra alguém que acabou de voltar vitorioso de uma batalha, você não parece muito satisfeito. — Acrescentou Lynx, a garota mais irônica do Acampamento.

– Noé. — respondeu Thomas.

– Noé? — Lynx e Nico disseram em uníssono.

– Noé da sua conta.

Lynx chacoalhou os seus escuros cabelos curtos enquanto lançava, de viés, um olhar sugestivo para Nico.

– Parece que ele tem batalhas mais complicadas com as quais se preocupar. — Com o garfo, apontou para o outro lado do pavilhão, onde a mesa do chalé de Poseidon se encontrava.

Nico deu um sorriso oblíquo.

– Ah, parem vai. Apenas comam suas comidas. — reclamou Thomas.

– Desembucha! — ordenou a garota.

– Ah, vocês sabem… A Lauren já sofreu bullying e… Fico imaginando como essas pessoas conseguiram fazer isso com… com ela. — desabafou enquanto jogava um macarrão pro outro lado do prato. — Entendem?

– Às vezes as pessoas são más só porque podem. Ou acham que podem. — Nico disse. Lynx assentia.

– Sim, mas não é só isso… — completou Thomas — Também estou extremamente irritado com Nero. Como que ele pode chegar no acampamento inimigo praticamente segurando a cabeça de um dos nossos entes queridos na mão e querer se achar o maioral?

– Acredito que ele esteja pagando pelo que fez. — Todos os olhos negros da mesa se desviaram para o canto na parede, onde os romanos recém-chegados almoçavam em uma mesinha de madeira podre com apenas três pernas.

Nela, Henry e Nero comiam suas comidas lentamente e, vez por outra, o filho de Apolo passava um guardanapo molhado com água nos machucados de Nero. Thomas achou a ação um pouco… afetiva demais, porém ficou calado.

– E aquele traste ainda chamou Lauren de “gatinha” quando chegou. — continuou Thomas — Como ele ousa? Aquele verme insolente…

Lynx riu.

– Ciúmes? Faça-me um favor, Thomas! Tão lindo é o amor adolescente…

– Ah, cale a boca — resmungou ele.

– Não enche o saco dele, Lynx. O ciúmes não é algo fácil de lidar. Sei por experiência própria — disse Nico olhando para a mesa onde Percy, Annabeth e o resto do pessoal da Casa Grande almoçava. Desviou o olhar pois percebeu que Percy olhou para ele.

Nico tinha um certo número de experiências ruins no quesito Percy Jackson. Algumas pessoas diziam que ele tinha uma queda por Annabeth, o que pode ter gerado conflitos no passado. porém não era exatamente pela filha de Atena que Nico tinha a queda. Ele havia contado a Thomas que ele na verdade tinha uma queda pelo próprio Percy.

O silêncio pairou por alguns instantes. Ninguém sabia exatamente o que dizer. Thomas refletia sobre como o Acampamento era antes da guerra começar quando perguntou a Nico:

– Como era o Acampamento quando se instaurou a paz?

Os olhos de Nico brilharam com a nostalgia.

– Bem, eu entrei aqui com 9 anos. Vim com minha irmã Bianca. Logo que cheguei, ela saiu em uma missão com Percy, Annabeth, Grover e Zöe, a “líder” das Caçadoras de Ártemis. Percy me prometeu que cuidaria dela, mas isso não se concretizou… — ele parou de falar por um momento. Seus olhos estavam envoltos em lembranças e próximos de… lacrimejar?

– Nico? — chamou Lynx.

– Ah, certo — disse ele envergonhado. Olhou para Thomas — Você me perguntou sobre os acampamentos, certo? Bem, depois que minha irmã morreu, passei a vagar sozinho por qualquer lugar, até que descobri o Acampamento Júpiter.

– Descobriu? — perguntou Thomas.

– Sim. Naquela época, os acampamentos não sabiam da existência um do outro. Apenas Quíron enquanto os pretores de Nova Roma desconfiavam. Eu vagava pelo Hades, o local, não nosso pai, quando encontrei Hazel.

– Hazel, a esposa de Frank? — perguntou Lynx.

– Sim, ela mesma. Servi como guia para sua fuga do Mundo Inferior, que só pôde ser feita pois Gaia havia aberto as Portas da Morte e prendido Tânatos. Segui com ela em sua jornada ao Acampamento, pensando que a traria para cá, porém não foi bem assim.

***

Após o treinamento com esgrima extra que o Acampamento implantou depois do primeiro ataque romano, Thomas buscou Lauren para jantar. Foi uma janta normal, com oferendas aos deuses e tudo mais. Depois da refeição noturna, se dirigiu ao chalé 13 para tomar banho.

Sentiu a água escorrendo por seus tríceps e tórax definidos que ganhou no último ano. Percebeu que talvez suas camisetas já estivessem justas demais, pois quando chegou ao acampamento, não tinha nem um décimo da massa muscular que agora possuía. Será que era isso que Henry vinha observando tanto?

Se fosse isso mesmo, Thomas estava perdido. Depois do que viu Henry fazer com Nero na hora almoço não o espantaria se soubesse que o garoto tinha tendências a olhar pessoas de mesmo sexo de outra maneira. Esses pensamentos chegaram a deixar Thomas ligeiramente incomodado.

Também estava com um mal pressentimento. Conseguia sentir quando muitas almas estavam prestes a passar para o Mundo Inferior. Isso definitivamente não era bom.

Em seguida, deitou-se para finalmente dormir. Aquele dia havia sido demasiado longo e queria descansar. Porém, ainda pensava no que aquele mal pressentimento poderia significar. Será que era alguma coisa que aconteceria com Lauren? Ou pior, com ele mesmo? Mas de qualquer jeito, não podia deixar nada acontecer à filha de Poseidon. Ela não merecia.Além disso, estava refletindo novamente sobre a “profecia” da Rachel de que Lauren seria? traída por um “amigo”. Não conseguia parar de pensar nisso.

Thomas se sentiu do mesmo jeito quando o Acampamento foi invadido pelos romanos pela primeira vez. Isso se dava ao fluxo migratório de almas e demônios que corriam para lugares onde haveria batalha para sugar dos mortos recém-chegados, o último resquício de humanidade que neles havia.

Duas horas depois de cair no sono, seus olhos voltaram a abrir, impelidos por gritos que inundavam seus ouvidos. Instantaneamente levantou de sua cama, percebendo que Lynx já estava de pé e que Nico não estava ali.

Foram até a porta e, quando a abriram, Nico estava voltando ao chalé. Havia fogo, caos e pessoas correndo por toda parte.

– O acampamento foi invadido — disse Nico.