Between Light and Dark - Pride
15 Sophie Highwind
Enquanto todos haviam pego suas armas e tinham ido para a batalha, Sophie ficou parada, estática, sem saber o que fazer. Só conseguiu voltar a realidade depois que um dos cães a arranhou na barriga.
Ela tentou reagir, mas não era muito hábil com a espada. Tentava lutar, mas a dor em sua barriga fazia sua espada parecer ter cinquenta quilos e não dois. Sua mente era um estupor de medo, dor, desespero e lembranças.
Sophie estava assim desde que Percy comunicou que ela teria que sair em uma missão. Sophie nunca era escolhida para nada, e quando era, era a ultima a ser escolhida. Esse tipo de coisa só foi mudar quando começou a namorar John, o garoto perfeito.
Ela não era nem popular nem rejeitada, era uma garota normal, porém sem os padrões de beleza que eram necessários para ser uma menina popular no Ensino Médio. Sophie mal tinha corpo, e era desengonçada, gostava de games e rock, diferente das outras, que preferiam maquiagem e bandas pop.
De repente Sophie parou, seu corpo ficou imóvel. Um turbilhão de imagens e “flashbacks” invadiu sua mente.
– O que você quer aqui, senhor “perfeito”? — era ela, olhando para o dia em que John veio sentar-se com ela e com seus dois amigos, Carol e Victor.
– Ah, desculpa, é que estou cansado daqueles caras — ele apontava para uma mesa onde estavam os populares — E bom, vocês são os mais normais aqui.
Sophie tinha uma queda por John, assim como todas. Ele era o garoto dos sonhos, alto, corpo definido, olhos verdes, bom em esportes, estiloso, porém inalcançável, até então.
– Vamos Sophie, de uma chance a ele — implorava Carol.
– Ah, então esse é o seu nome: Sophie. Prazer, John Shellwave
– Eu sei o seu nome, todos na escola sabem o seu nome — Sophie era grossa quando estava nervosa — Se quer se sentar, sente, mas não venha achando que consegue usar seu charme comigo, ok?
– Ok.
John se sentou, e a Sophie que via aquela cena como uma espectadora teve vergonha de si mesma. Ela tinha tratado mal uma pessoa que nunca mais saiu do seu lado desde então; que teve que aguentar zoação daqueles que eram seus amigos, pra ficar com ela.
O mesmo cara que agora estava ali, batalhand… “Ai meus deuses, John!”
Quando ela voltou a si, estava caída de cara no chão. Isso a tirou do sério. Ninguém a jogava de cara no chão. Nunca. Esse era um dos problemas por ser muito orgulhosa as vezes: ficar muito zangada por qualquer coisa que a ameaçasse.
Ela levantou-se com o rosto cheio de terra e espada em punho. Todos ainda estavam lutando, porém com dificuldades. Quanto tempo havia se passado? Cinco segundos? Dez minutos? Meia-hora? Sophie não sabia.
– Sophie! — gritou John que veio correndo ao seu lado — Você está bem?
Ela não conseguiu responder. Estava irada demais. Avançou contra um dos monstros que estava tentando decidir se prestava atenção em Nero, que tentava estocadas em vão, ou em Henry, que atirava flechas sem parar um pouco mais atrás de Nero, e enfiou a kopis que Quíron havia lhe dado até o cabo na pata traseira do animal.
– AEGIS! — gritou e o escudo se expandiu antes que o monstro revidasse.
Ela retirou a espada rapidamente e o cão uivou de dor se virando depressa. A enorme fera encarou Sophie por um instante e tentou arranhá-la porém, ela se defendeu usando Aegis.
Sophie olhou para o lado por um momento e percebeu que Nero estava parado olhando fixamente para a luta entre ela e o cão infernal. Aquilo a irritou mais ainda.
– SE MEXA, IDIOTA! — ela gritou.
Nero deu um pulo e começou a atacar a fera de modo que esta mudou sua atenção para ele. Sophie revirou os olhos e tentou formular um plano.
Ela, Nero e Henry lutavam contra esse cão enquanto John, Lauren e Thomas atacavam o outro. Sophie não sabia se estavam em vantagem ou não, pois os cães possuíam cerca de seis metros de altura e eram mais fortes e velozes. Henry e Thomas lançavam flechas enquanto o resto atacava usando suas espadas. Os monstros apenas olhavam para baixo… “É isso!”, pensou Sophie. Um plano automaticamente se formulou em sua cabeça. Era o único jeito de vencer as enormes feras.
Estavam quase no fim da estrada rural que liga o Acampamento à Harbor Beach Road e haviam muitas árvores por ali. Árvores muito altas e com muitos galhos.
Sophie recolheu o escudo e se atirou para a árvore mais próxima cuja copa dava em cima do cão que estava atacando Henry e Nero, e começou a escalar. Todos estavam tão concentrados em suas próprias batalhas que nem prestavam atenção em seus movimentos. Como não tinha muita experiência em escalar árvores, caiu diversas vezes, mas isso não a impedia de continuar. A adrenalina corria por suas veias.
Assim que conseguiu chegar ao topo, se pendurou em um galho e começou a balançar. Seus braços tremiam e doíam de dor e cansaço. Mas ainda assim tinha energia o bastante para continuar lutando.
Assim que adquiriu velocidade o suficiente, se soltou e aterrissou nas largas costas do monstro, agarrando seu pelo. Confusa, a fera começou a se sacudir tentando se livrar de Sophie, porém ela segurava seu pelo com muita firmeza. Ao fim do movimento do bicho, ela começou a se arrastar até conseguir sentar em seu enorme pescoço.
Levantou sua espada para o alto, de modo que a parte afiada ficou direcionada ao pescoço da fera, e um raio, seguido de um trovão, envolveu-a completamente. Descargas elétricas circundavam a arma por inteiro. Sophie não levou choques. Nem sentiu cócegas. Não havia tempo para questionar o fenômeno. Enfiou a espada bem acima da coluna espinhal do monstro, que até o momento se debatia. A fera se transformou em um monte de pó instantaneamente, soltando um urro que fez eco no bosque inteiro.
A única coisa que Sophie não pensou foi a volta. Assim que o monstro virou pó, ela despencou de onde as costas do monstro estavam, ou seja, a quase seis metros do chão. Com um pensamento rápido, gritou o nome do escudo que se abriu. Colocou-o abaixo de si e ele deu uma pequena amortecida na queda. Sophie saiu rolando por quase três metros.
Henry e Nero foram acudi-la.
– Você está bem? — perguntaram ao mesmo tempo.
Mas ela não os ouviu. Levantou-se e olhou para o outro grupo que estava lutando contra o outro cão infernal. O monstro já cambaleava e parecia envenenado. Claramente as flechas de Thomas haviam provocado aquele efeito na fera. Faltava pouco para matá-lo. Com certeza os três conseguiriam.
Sophie sentiu uma dor intensa no topo de seu ombro esquerdo. Percebeu que seu ombro fora arranhado pela queda. A região danificada sangrava intensamente e manchou boa parte de sua regata laranja do Acampamento.
– Caramba! — exclamou ela.
Henry se voltou para observar Sophie e, assim que viu sua ferida, levantou e andou em sua direção até ficar ao seu lado.
– Deixe que eu cuido disso — pediu ele — Sou filho de Apolo.
– Claro — disse ela, estendendo o braço para ele, o que fez uma onda de dor percorrer-lhe o corpo.
Henry cuidadosamente examinou o ferimento de Sophie, virando seu braço delicadamente para ver suas extensões.
– Realmente está feio — ele enfim comentou — Se não cuidarmos disso, pode infeccionar.
Henry abriu sua mochila, que estava encostada em uma árvore não muito longe dali, e tirou ataduras de lá dentro.
– Ataduras? — perguntou Sophie — Você sempre as carrega?
Ele deu um sorriso envergonhado que era lindo assim como ele, afinal, era filho de Apolo.
– Sim. No Acampamento Júpiter, antes do ataque grego, eu ficava cuidando dos feridos na enfermaria na maior parte do tempo, treinando os dons que herdei de meu pai. Então sempre que eu era chamado para uma missão, levava ataduras comigo para o caso de alguém precisar. Falei com Quíron antes de sairmos do Acampamento e ele me cedeu essas.
Uma brisa soprou fazendo a ferida de Sophie arder. Ela se contraiu de dor. Ao fazê-lo, lembrou-se de que o cão infernal também havia lhe arranhado a barriga. O movimento fez a lesão, que já havia começado a estancar, começar a sangrar novamente. Henry percebeu e disse:
– Certo, vamos dar um jeito nisso logo. Pelo o que eu sei, a uns 50 metros daqui há um rio. Vamos lá.
E assim seguiram para o rio. Chegando lá, sentaram-se em uma rocha perto da margem.
– Certo — Henry disse, quebrando o silêncio — Primeiro preciso limpar as feridas.
Sophie deu-lhe um tapa na cara com o braço bom.
– Não vou tirar a blusa na sua frente! — disse ela se irritando.
Henry riu.
– Relaxe. Estou mais para lá do que para cá — ele ficou constrangido.
Sophie não entendeu e isso deve ter ficado evidente, pois Henry ficou mais constrangido ainda.
– Eu… Não gosto de garotas — explicou ele.
Só aí que Sophie se deu conta do que ele falava.
– Ah, entendi.
Silêncio.
Outra brisa soprou, o que fez Sophie estremecer por causa de seus ferimentos.
– Certo, melhor eu tirar mesmo — ela enfim disse.
Sophie tirou sua regata e Henry continuou impassível. Mal olhava para as “regiões proibidas”
– Deite-se — ele pediu.
Ela obedeceu e ele logo começou a limpar as feridas, pegando punhados de água para jogar por cima delas. Ele tirava o sangue acumulado e coagulado com uma delicadeza impressionante.
– Então — disse Sophie tentando começar uma conversa — Mais alguém sabe?
– Sobre o quê? — perguntou ele, porém era óbvio que ele sabia do que se tratava.
– Sobre… Bem, você não gostar de meninas.
– Na verdade não. Quer dizer, muitos devem desconfiar, mas saber mesmo, ninguém sabe — ele disse com mais naturalidade desta vez.
– Bem, obrigada — ela disse um tanto quanto envergonhada — Por confiar em mim, digo.
– Relaxa.
Sophie ficou mais um tempo observando o céu acima dela. Devia estar perto da hora do almoço. Fazia 3 horas desde que tinham saído do Acampamento. A luta contra os cães infernais havia durado mais do que Sophie imaginava. O que logo a levou a pensar que ficara desacordada por bastante tempo.
As copas das árvores acima deles faziam sombra no rio. Alguns pássaros eram audíveis dali. Também podia-se ouvir o baixo murmúrio dos carros que passavam pela estrada ao lado da pequena floresta.
Henry tocou em um ponto em seu ombro que a fez se retesar de dor.
– Desculpe.
– Tudo bem.
Por mais que Sophie gostasse de observar a paisagem, não aguentava ficar em silêncio com outra pessoa ao seu lado.
– Mas me conte sobre sua vida antes de entrar no Acampamento Júpiter — ela pediu — Já nos conhecemos faz quase um mês e você nunca falou nada sobre sua antiga vida para mim e John.
– Ér… Não, acho melhor não.
– Por favor. Se quiser, depois lhe conto a minha, é que tipo, percebi que você é diferente — disse Sophie cuidadosamente.
Henry parou, olhou para ela com um ar desconfiado.
– Como assim, diferente?
– Henry, querido, sejamos francos: você definitivamente tem um amor platônico pelo Nero e uma queda por todos os garotos desse grupo, ou seja, John e Thomas.
Henry arregalou os olhos.
– Está tão evidente assim?
– Digamos que, sim, está.
– Bom, então acho que vou ter que contar alguma hora, né?
– Talvez. Você que decide.
Ele hesitou um pouco antes de continuar.
– Bom, sempre fui um garoto problemático. Sofri muito na minha infância. Fui criado apenas pela minha mãe e minha meia irmã. Não, ela não é semideusa, porém minha mãe nunca cuidou direito da gente. Sempre foi perdidamente apaixonada por Apolo e ele a ter abandonado a fez entrar em depressão.
Ainda que falar sobre sua vida pessoal o deixasse marejado, Henry tinha uma habilidade surpreendente em primeiros socorros; ele passava as ataduras envolta de Sophie com delicadeza e maestria.
– Tive que fugir, porque, bom…
– Ei vocês dois, vocês precisam ver isso aqui — era John que os chamava para ver o local onde outrora fora travada a batalha contra os dois cães infernais. Ele percebeu que Sophie estava apenas de sutiã na frente de Henry e fez uma profunda careta de desgosto — Estou atrapalhando alguma coisa?
Sophie riu e Henry enrubesceu.
– Não, me desculpe, eu… — Os olhos de Henry mapearam todo o chão até encontrarem os de Sophie. Lhe pareceu que o garoto estava tão perdido como na história da infância que acabara de narrar. Sophie limitou-se a transpassar o seu riso também para seus olhos, deixando claro à Henry que não havia muito a temer… Nem melhor momento para que o loiro se confessasse. Ele percebeu isso e engoliu em seco, aparentemente reunindo toda a coragem que possuía — John, não há com o que se preocupar. Eu torço para o outro time.
John pareceu confuso.
– Outro time? Você torce pros Lakers? — ele franziu o cenho — Como consegue? Obviamente os Yankees são os melhores!
A expressão de Sophie era de tamanho desapontamento como se ela tivesse acabado de perder na loteria.
Henry riu e relaxou.
– Não, cara. Eu sou gay.
John hesitou um pouco antes de responder:
– Ainda bem! Se você torcesse pros Lakers, seria a ovelha negra do grupo!
Henry expirou demonstrando alívio.
– Verdade. Ainda bem que eu sei que os Yankees detonam! Enfim, apenas estava cuidando dos ferimentos da Sophie — ele olhou para a nova amiga com um sorriso carinhoso — Aliás, seus curativos estão prontos… Posso terminar a minha história outra hora. Vamos ver o que John veio nos informar.
– Certo.
Sophie o beijou no rosto como forma de agradecimento. Os três foram subindo de volta para o local onde Sophie tinha derrotado os monstros.
– Diga John, o que tem de errado? — perguntou Sophie
– Achamos dois semideuses e um sátiro na floresta.
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