Between Light and Dark - Pride
19 Henry Sunrise
Notas iniciais
Henry e os outros cinco semideuses já estavam cansados de tanto lutar. Em menos de 24 horas já haviam lutado contra cinco monstros e conseguiam sentir a presença do sexto.
– Di immortales! — exclamou Lauren olhando para o céu — Lutar contra monstros cansa, sabiam deuses?
– Oh, jura? — ironizou Nero ofegando na tonalidade mais vermelha que Henry já havia visto alguém ofegar — Nem havia notado, princesa.
– Tudo bem, vamos lá — disse Sophie tentando reconstruir o time com a oratória, gesto típico de um líder — Apenas vamos descansar um pouco. Thomas, ainda estamos longe do túnel?
Thomas olhou para os dois lados. Girou nos calcanhares e observou bem a floresta a sua volta. Estreitou os olhos e direcionou-os para a copa das árvores. Lambeu o indicador e ergueu-o, tentando localizar a corrente de vento. Após uma média de cinco minutos, concluiu:
– Não faço a mínima ideia. Você sabe, Lauren?
– Deixei de me localizar há três horas. Estava contando com você!
– Ah, que ótimo! — disse Henry — Não há nada melhor do que seis semideuses completamente perdidos em uma floresta infestada de monstros!
Todos se entreolharam. O silêncio da derrota estabeleceu-se por instantes intermináveis até que foi brutalmente interrompido pelo rosnado de Nero. O garoto envolveu a cabeça entre os próprios braços e cambaleou irado para o canto mais próximo, sem mais pronunciações.
– Nero? — perguntou Henry se aproximando do amigo — Cara, o que foi?
– Nada. Só estou quase morrendo de dor de cabeça. — Henry não pôde duvidar. Era verdade que Nero havia cumprido seu dever de vígilia de maneira exímia, entretanto, não havia dormido mais do que alguns poucos minutos. Agora Henry até se sentia um tanto culpado. Se Nero não tivesse se entrometido com as ninfas talvez pudessem ter tido mais alguns segundos de paz. Embora talvez tivessem topado com o cão infernal… A situação começava a lhe parecer sem saídas.
Henry se abaixou e pegou ataduras em sua mochila e alguns limões em um limoeiro que havia ali perto.
– O quê? — disse Nero — Vai espremer limões na minha cara e me deixar cego? Bela maneira de curar dor de cabeça.
O filho de Apolo não deu ouvidos ao amigo e simplesmente descascou um dos limões com a ponta de uma de suas flechas, prendeu a casca na atadura e enrolou-a na cabeça do amigo.
– Pronto. É um remédio caseiro para dor de cabeça. Já já começa a fazer efeito.
– E pra cara de idiota tem remédio?
Os outros estavam recostados em troncos de árvores, se recuperando das batalhas travadas. Cuidavam das feridas uns dos outros, portanto Henry concluiu que, por ora, não precisavam de seus conhecimentos medicinais.
– Apenas cale a boca, Nero. Também estou uma droga — ele enfim respondeu.
Nero surpreendentemente não retrucou, apenas fechou os olhos e deitou no chão. Henry por um momento achou que ele havia adormecido, porém pela sua expressão, viu que estava com dor demais para isso.
– O que vamos fazer agora? — perguntou John após todos terem parado para realmente repousar. Não houve tempo para respostas.
Um urro soou a cerca de duzentos metros. Passos largos e pesados anunciavam a chegada do sexto companheiro.
– Que tal correr? — sugeriu Henry.
– Acho que eu não temos escolha. — Nero disse levantando devagar e abrindo os olhos extremamente vermelhos — Cerca de oito minutos até chegar aqui.
Todos se levantaram em um pulo, apanharam suas coisas e saíram em disparada. De novo. Demorou muito menos para o predador os alcançar do que Nero previra. Henry se sentiu em Jurassic Park, mas aqueles não podiam ser dinossauros — se bem que uma coisa que aprendera era que não se deve duvidar da mitologia. Arriscou uma olhadela para trás e viu as árvores revelarem a enorme imagem de um cão infernal perseguindo-os enfurecidamente. Baba gigante escorria de seus beiços aparentemente famintos. Porém havia algo de estranho naquela besta. Suas narinas eram comprometidas. Haviam algumas deformações no focinho, algo havia destruído parte dele. Henry não queria descobrir o que havia feito aquele estrago todo, e nem tinha tempo para isso. Só havia tempo para correr.
– Ele não consegue sentir cheiros! — Henry gritou avisando a todos — Precisamos despistá-lo de alguma maneira!
– Que bela ideia, gênio! Por que ninguém pensou nisso antes? Para a esquerda! Lá há uma parede de tijolos que pode ajudar! — Nero gritou.
Quase meio quilômetro depois, chegaram a um muro de tijolos relativamente alto coberto de musgo e folhas. Perfeito para um monstro que enxerga em preto e branco. Pularam para trás dele e se encolheram.
O cão postou sua cabeça por cima do muro e tentou localizá-los, olhando de um lado para o outro, em vão. Tentou fungar e sentir o cheiro de algo, mas foi apenas outro ato falho. O monstro emitiu um som que pareceu um bufo e se afastou.
Todos ficaram em silêncio até que nenhum sinal do monstro pudesse ser notado.
– Nós chegamos aonde acho que chegamos? — John perguntou sussurando.
– Ao túnel. — Lauren que estava ao seu lado respondeu. Todos sorriram, mesmo sem um bom motivo para tal ato. Viraram uns para os outros repetindo a notícia como se fosse um segredo.
– Chegamos ao túnel. — Revelou Henry ao exausto amigo. No próximo instante, entretanto, Nero caiu inconsciente.
Henry se assustou e começou a verificar os pontos vitais de Nero, que estavam, pelo que ele podia ver, muito mais baixos do que deveriam. Sua respiração era profunda.
Os outros começaram a dividir as tarefas. Henry havia sido responsável por acender a lareira e o fez. Jantaram algumas frutas e pequenos animais que encontraram na região. Estavam todos esfomeados pois mal haviam conseguido almoçar com toda a agitação.
Henry não conseguia parar de pensar no quanto Nero precisava daquele longo descanso. Devia ter ficado acordado a noite passada inteira e ainda lutara ao lado dos outros cinco o dia inteiro.
– O que você está fazendo? — John perguntou para Henry que aparentemente tinha se desligado do resto do mundo por um tempo. Os outros estavam deitados no chão, já dormindo embora ainda fosse seis e meia da noite. Henry ponderou se haviam passado o relatório para Quíron — Você precisa dormir também. Nero vai ficar bem, só está cansado. Eu fico com a vigília por hoje.
– Certo. Só por favor nos acorde, ou tente, acho que estamos tão cansados que dormiremos como pedras — disse Henry — Tem certeza de que da conta?
– Tenho. Agora durmam. Não podemos nos arriscar a deixar nosso cheiro muito forte permanecendo no mesmo lugar. Temos de partir ao amanhecer certo pesso… — John nem concluiu a frase, todos já haviam caído no sono — Bem, Henry, apenas vá dormir.
– Certo. Boa noite, John.
– Boa noite.
O sono se alastrou por Henry como a água que se derrama ao cair de um vaso no chão. E junto com ele vieram os cacos de vidro em forma de sonhos.
Era uma sala escura onde não se viam paredes. Henry estava sozinho nela. Nem podia afirmar se havia um chão ali. Não conseguia ver fim algum, apenas escuridão para onde quer que olhasse. Uma voz áspera e ruidosa soltou uma estrondosa gargalhada. Henry olhou para os lados, mas parecia que a risada vinha de todos os lugares.
– Quem está ai? — perguntou Henry.
– As opções, as escolhas, os caminhos, os fins — respondeu a voz.
– O que você quer comigo? Onde estão meus amigos?
O chão se transformou em vidro, e Henry via a si próprio e a seus amigos dormindo na base do muro. John estava sentado olhando para a entrada do túnel.
– O que você vai fazer com eles? — perguntou Henry assustado
– Depende, você que escolhe. Ou todos morrem, ou só um morre.
– Me mate logo então — disse Henry abrindo os braços, deixando o peito à mostra, e fechando os olhos.
– Não quero matar você, você não serve de nada para eles. Quero matar outro.
– Por favor, me mate, eles não.
De repente Nero começou a levitar. Atravessou o vidro e ficou de frente para Henry, inconsciente.
– Por favor, ele não — implorou Henry. Ao seu olhar, hipótese de perder Nero era absurda.
– Você realmente gosta dele não é, cria de Apolo?
Henry passou a deixar lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
– Por favor, me mate.
– Agora mesmo que matarei ele.
A força que levitava Nero o soltou, fazendo-o cair com um baque surdo no vidro que agora servia de chão, fazendo o filho de Mercúrio acordar instantaneamente.
– O que está acon… Henry! — exclamou Nero.
– Nero, me desculpa.
– O que você está querendo dizer com is…
Uma espada atravessou o peito de Nero, que começou a tossir sangue.
– Henry…
O corpo foi solto no chão, revelando que atrás dele havia um homem estranho com dois rostos. Ambos saiam das laterais da cabeça dele, fazendo com que sua cabeça fosse mais esticada, como a de um tubarão martelo. Possuía duas orelhas sobrepostas e costeletas espelhadas uma na outra. Trajava um longo sobretudo preto, sapatos brilhantes e uma cartola, que magicamente ficava em cima de sua cabeça desregular. Ambas as bocas riam. Atrás dele haviam duas enormes portas de ferro trancadas com tábuas e correntes firmes. O porteiro de duas caras segurava uma chave prata, que ele passava de sua mão esquerda para a sua mão direita.
– Quem diabos é você? — peguntou Henry.
– Eu sou o seu melhor amigo — a face da direita disse.
– Eu sou o seu pior inimigo — a face da esquerda disse.
– Eu sou Jano — afirmaram ambas as faces em harmonia — Deus das portas. Começos. Finais. Escolhas.
– Vamos, Henry — disse o rosto da esquerda — Depressa! Escolha!
– Não ligue para ele — disse o rosto da direita — Ele é terrivelmente rude e grosseiro. Por este lado, por favor.
– O que há do outro lado de cada porta.
O rosto da esquerda bufou.
– São dois caminhos, menino burro. Um deles tira o Nero de você, e o outro, tira todos. Escolha o da esquerda!
– Não, não, senhor — disse o rosto da direita — Escolha a porta da direita. Fale comigo, por favor.
O homem de duas faces observou Henry da melhor forma que pôde pelo canto dos seus olhos. Não havia maneira de olhar para ele em focar e um dos rostos. Henry percebeu que era isso que ele estava pedindo; queria que o filho de Apolo fizesse uma escolha.
– Mas as duas saídas estão fechadas — respondeu Henry.
– Dã! — disse a face da esquerda — Ah, já chega!
– Espera, o que você vai fazer?
– Você não disse se queria matar um e deixar os outros viver, ou matar todos. Então fiz o favor de escolher pra você. Vou matar todos.
– Não, por favor. Não!
O homem levantou a sua chave prateada, inseriu no ar, e desapareceu. Tudo embaçou e uma forte gargalhada ecoou na mente de Henry. Não era a do homem. Era a de uma mulher.
– NÃÃÃO!
Henry acordou no susto, gritando, fazendo os outros acordarem também. Sophie se aproximou.
– Henry, está tudo b...
Ela não pode terminar a frase. Ele se virou abruptamente para o lado, onde Nero se encontrava sentado, alarmado com a situação — ainda com as cascas de limão amarradas na cabeça. Henry colocou a mão sobre o peito do amigo e sentiu seus batimentos cardíacos, agora fortes. Henry soltou um suspiro sobrecarregado de alívio e recostou-se no muro. Depois lembrou-se da última fala de Jano e se sobressaltou novamente.
– O que diabos está acontecendo, Henry? — perguntou Nero impaciente.
– Jano! Jano apareceu em meu sonho. Disse que ia matá-los, todos vocês, porque eu não fiz a escolha rapidamente! — disse ele.
– Que escolha? — perguntou Thomas.
Henry contou a eles sobre o sonho e todos permaneceram calados.
– Já ouvi falar sobre Jano — refletiu Lauren — É famoso por deixar as pessoas confusas e indecisas. Os deuses menores como Jano sempre foram frustrados pelas pequenas funções que desempenham no universo. Alguns têm pouco amor pelo Olimpo.
– Foi ele que apareceu para Percy, Annabeth, Grover e Tyson no Labirinto, não foi? — perguntou Nero.
– Ele mesmo — respondeu Thomas.
– O que vamos fazer agora? — perguntou Henry, com lágrimas nas beiras dos olhos — É tudo culpa minha!
– Henry — disse Lauren o abraçando — Jano geralmente só faz isso para se divertir. Veja com Percy e Annabeth, por exemplo. Relaxe.
– Mas e a risada feminina no final? — perguntou ele.
Lauren o soltou e se afastou um pouco. Henry sabia que para isso ela não havia resposta. Sophie avançou e colocou a mão nos ombros do garoto.
– Tudo bem, Henry. Mais tarde resolvemos isso. Se não descansarmos direito não poderemos enfrentar os desafios que temos pela frente.
– Eu fico de vigília — anunciou Thomas.
– Ótimo — continuou Sophie — Amanhã é um novo dia. Vamos dormir.
Abraçou Henry e se voltou para dormir, assim como todos fizeram. Henry se voltou para Nero.
– A dor de cabeça acabou? — perguntou.
– Sim.
– Ótimo, deixe-me tirar isso daí — disse Henry tirando as ataduras com cascas de limão da cabeça do amigo.
Nero olhou-o de um jeito estranho, como se estivesse decidindo alguma coisa.
– O que foi? — peguntou Henry.
– Nada. Boa noite — respondeu Nero.
Henry suspirou e deitou a cabeça na mochila. Olhou para o relógio de pulso e notou que ainda eram duas horas da manhã. Após algum tempo, finalmente conseguiu dormir, mas a gargalhada feminina não saía de seus pensamentos.
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