São quase onze horas, e a noite está clara. Não há nuvens no céu e a Lua brilha suavemente. Estou apenas a duas quadras de casa e caminho lentamente para não tropeçar nos meus próprios pés. Decido ouvir um pouco de música e pego meu MP3, levando os fones aos ouvidos e dando play em uma música aleatória. A atmosfera a minha volta se torna leve e simples ao som da voz de Jason Mraz, cantando I'm Yours, e eu, secretamente, desejo que minha vida se torne tão simples e descomplicada quanto essa música. Olho para o outro lado da rua, e sorrio timidamente para a Sra. Daisy, que acena alegremente para mim enquanto balança em sua cadeira. Abaixo a cabeça e sigo em frente. Começo a cantar involuntariamente e olho para frente, tentando parecer determinada. Meus passos se tornam mais rápidos... até que um movimento a minha direita chama minha atenção.
Paro de andar imediatamente e me viro na direção de seja lá quem for, mas não vejo nada além de uma silhueta sentada no chão, encostada a uma das inúmeras árvores que tem por ali. Tiro os fones e passo a ouvir uma respiração pesada. Ele não me perece estranho. Hesito, parada ali, até eu perceber que pareço uma idiota. O que eu tenho a perder? Guardo o MP3 no bolso novamente e caminho até ele com passos lentos, parando a uma distância considerável. Me ajoelho e o encaro, longos segundos se passam até que ele ergue seu olhar para mim. Seus olhos são escuros e sua pele é clara, mas estranhas marcas atravessam seu rosto. Uma cicatriz próxima ao seu olho direito me diz quem ele é. Miller; o garoto mais assustador da minha escola.
Seus olhos estão vermelhos e seu lábio inferior está cortado. Os segundos passam e eu começo a me sentir desconfortável — eu realmente deveria dizer algo — .
_Hã.. Miller? Oi. Eu sou Lynn, estudamos juntos.. _ digo, praticamente sussurrando, me sentindo idiota. É claro que ele me conhece, temos algumas aulas juntos e eu esbarrei nele durante uma aula de Educação Física no começo do ano.
_Sei quem você é. Poupe-me da sua compaixão e vá embora. _ a voz dele soou áspera e dura. Ele não me queria aqui — não queria ninguém aqui — .
_Desculpe. Mas o que houve com você? Foi atacado por um.. gato ou coisa do tipo? _ eu sei que a minha teoria é falha, mas que outra explicação sensata poderia ter para todos os arranhões no rosto dele?
_Não, não foi um gato. _ a sombra de um sorriso passou pelo seu rosto, mas desapareceu antes que eu pudesse ter certeza se era real _ E não é da sua conta, de qualquer jeito. Corra para casa antes que seu irmão ligue para o FBI.
Meu irmão, conhecido pelo exagero em tudo que tem relação comigo. Matt tem sido assim desde que nossos pais morreram; sempre tentando me proteger de tudo. Mas ele não está se saindo muito bem, já que são onze horas e eu estou sozinha na rua conversando com um estranho.
_Ninguém vai ligar pro FBI. Estudo com você a cinco anos e nunca te vi... assim.
_Assim?_ a voz dele falhou no fim da palavra. Me sento com as pernas cruzadas, sem desviar os olhos dele. Aprendi, a alguns anos, que encarar as pessoas é um modo de mostrá-las que você não as teme. E, por algum motivo, eu sinto que preciso mostrá-lo que não tenho medo dele. Ah, claro. Não é como se ele fosse me matar.
_É... Você tá machucado e seus olhos estão vermelhos, o que quer dizer que andou chorando. E você não me parece do tipo que chora nem do tipo que apanha da namorada.
_Todos choram. E eu estaria radiante se isso fosse obra que uma garota. _ ele sorri um pouco e sua voz se suaviza, o que me traz certo alívio. Ele não pode ser durão o tempo todo. E eu, estupidamente, fico feliz em saber que, em algum lugar dentro dele, existe um garoto normal.
_Isso descarta a minha teoria do término traumático. _ eu sorrio, relaxando meus músculos que estavam tensos desde o momento em que me sentei. _Devia ir pra casa. Lave os arranhões e o corte no lábio, podem infeccionar. _ minha voz soa mais baixa do que eu gostaria, mas eu não acho que isso tenha importância.
_Não posso voltar pra casa. _ a voz dele se torna áspera novamente e seus olhos abandonam os meus. _ Acha mesmo que eu estaria aqui se pudesse simplesmente voltar pra casa?
_Não, provavelmente não estaria. _ eu abaixo os olhos encarando o chão entre nós. Eu passaria a noite aqui com ele, mas isso não o ajudaria muito.
Deixo o silêncio predominar por alguns minutos enquanto penso em algum modo de ajudá-lo. Miller encosta na árvore atrás de si e fecha os olhos, e é então que noto as marcas vermelhas e os arranhões em seu pescoço. Alguém tentou enforcá-lo. Tento manter essa ideia longe da minha mente, mas ela insiste em voltar. Se isso for verdade, quem faria algo assim? Eu não sei nada sobre ele além do seu nome, da sua idade e de onde mora.Poderiam sim haver pessoas que o quisessem morto. Esse pensamento deveria me fazer levantar e ir pra casa. Mas, por alguma razão, sinto que deveria protegê-lo. Matt sabe que sou teimosa e cabeça dura, ele vai ter que aturar mais essa.
_Miller?_ eu o chamo, com a voz mais firme que consigo fazer.
_Hmm?
_Você vai pra minha casa. _ ele abre os olhos assim que termino de falar, me encarando com descrença.
_Sério?_ ele diz, parecendo se divertir com a minha ideia. _ Você costuma levar desconhecidos pra casa e seu irmão aceita de bom grado?
_A casa também é minha. E você não é um desconhecido. Não tecnicamente. _ tento soar convincente, mas não sei se funciona. Matt vai me dar bronca. De novo.
_Não, obrigado.
_Por favor. Durante anos tenho observado você. Não que eu seja uma obcecada, mas eu sempre achei que havia algo errado. Não é normal... alguém se isolar desse jeito. Eu procuro um jeito de te ajudar faz muito tempo, mas sempre me faltou coragem e a certeza de que você precisasse de ajuda. E agora que eu sei que realmente existe algo errado. Eu sei que parece loucura e que você não tem nenhuma razão pra confiar em mim. Eu não vou te jogar num psiquiatra, nem eu uma religião estranha. _ as palavras fluíram da minha boca antes que eu pudesse impedi-las. _ Sou só uma garota, ok? E só quero que fique bem.
_Por que? _ seus olhos parecem mais calmos, mas ainda escondem algum sentimento que eu desconheço.
_Porque eu já sofri muito. E não quero ver mais ninguém sofrendo. E você... você é a pessoa mais triste que eu já conheci. _ eu abaixo os olhos, deixando o peso das minhas palavras sobre ele. Eu não espero que ele aceite minha ajuda, e sequer espero que ele entenda meu ponto de vista.
_... você parece estar tão triste quanto eu agora. _ sua voz é carregada de dor, e me atinge como um soco no estômago. _ Vou com você.
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