Notas iniciais
A cena inicia na praia do Rosário, em Cartagena. Betty recebe os papéis do divórcio das mãos daquele que durante décadas foi seu amor. Os dois se viram. É o fim. Ou o começo?

—Hora de recomeçar, Beatriz! Ele a deixou ir como queria, o homem com quem havia sido casada durante 20 anos a liberou para ser feliz como queira.

Viraram as costas e se afastaram. Sem olhar para trás. Betty respirou fundo e um filme passou em sua cabeça. A assinatura do divórcio há algumas poucas horas (com sua filha e seu pai a pressionando para assinar), o advogado prometendo vir atrás dela, mesmo que beijou há alguns dias, em meio a bebedeira, em vinte e dois anos era o primeiro homem que beijava sem ser Armando. Ria, ria o beijou, lembrou-se de Marcela e Majo beijando Armando e outras modelos o abordando. E agora o seu advogado também parecia corresponder-lhe.

“Também sou desejável, ele me corresponde.“

Os dois chegam ao quarto. Ela o beija, o abraça pela nuca.

—Sabe que o prefiro sem barba, Armando...

—Betty, espere aí, melhor que deite sim, mas sozinha. Amanhã conversamos.

—Conversar? Conversar o quê? Eu quero fazer amor, não sou desejável?

—Fique aqui sim? Vou para o quarto de hóspedes.

Ele a deixa sozinha, ela abre os olhos e começa a rir.

Lembranças Várias cenas passam por sua mente:

—Armando!

—Betty, minha Betty! –disse acariciando-a. Enquanto suas mãos percorriam seu corpo, ele a amava com desespero. Há anos que não se tocavam. Pouco importava se estavam naquele quarto de cadeia, aquele momento era só deles.

Outro momento:

—A quero, Betty! Não posso esperar para chegar em casa! — na mesa de Ecomoda

Na lua-de mel:

—Te amo, Armando Mendoza!

—Te amo, Beatriz! E vou te amar para sempre.

—_

Enquanto isso, Armando continuava a caminhar em direção à lancha. Embora, caminhasse em tempo normal, ela ao se virar o via caminhar lentamente. Como se não quisesse afastar-se dela. Ficou a observar sua silhueta. Estava tão lindo de camisa branca (lembrou-se da vez que o perdoou, ali naquela mesma praia e o imaginou assim), agora, vestia também calça cinza e tinha mochila. Havia vindo até ali só para lhe entregar os papeis do divórcio, só para isso? Ele veio de mochila? Para quê?

—Armando! –gritou-lhe

Ele fechou os olhos e continuou andando, devia ser só sua imaginação pregando peças.

—Armando!

Desta vez ele parou e virou-se.

—Teve o trabalho de vir aqui só para entregar-me isso?

—Minha vontade era rasgar estes papeís, mas meu dever era levar para o cartório e oficializar tudo. Não pude! Nicolás me disse que havia ido de viagem, apesar do desfile, para espairecer. E foi como te disse. Só poderia estar aqui: onde recomeçou sua vida e logrou esquecer de mim uma vez. Terá a mesma sorte! Te deixarei livre, Betty para ser feliz!

Ela olhou as assinaturas.

—E veio de mochila?

—Para trazer-lhe isso...

—Para trazer um envelope? –ela sorriu-lhe.

Ele teve que sorrir, ela o conhecia tão bem. É óbvio que não traria uma mochila só com os papeis do divórcio.

Armando havia sonhado que chegaria na famosa praia onde ela sempre falava e ao vê-lo, ela correria a seu encontro, se beijariam e ficariam juntos. Os papeis do divórcio cairiam ao chão até serem levados para o mar.

Mas não foi o que aconteceu.

—__

—Não quer dar uma volta comigo? –perguntou ela

—Na verdade sim.

—Senhor, não vai voltar? –perguntou o rapaz da lancha.

—Como havia lhe dito, não era minha intenção voltar.

Armando foi ao encontro dela. Não foi romântico como pensava, não correram um ao encontro do outro, mas estava ao lado dela, caminhando.

Os dois haviam tirado os sapatos e caminhavam olhando o mar, sem falar nada.

Na verdade, Armando só olhava para ela, admirado. Como ficava linda de branco, com roupa esportiva, franja e as mechas que insistiam em sair do lugar. Podia ficar horas olhando-a, embora a vontade fosse tomá-la em seus braços.

—_____

Anoitecia, Betty vestia um vestido vermelho sentada em um restaurante à beira-mar. Um homem de bermuda e a pele dourada se aproximou dela com um drink na mão. Ela sorriu e ele sorriu de volta.

Como em um sonho, o homem desapareceu. Ele não viria. Não tinha aceitado sua proposta. Talvez fosse humilhante, depois de tudo que havia passado entre eles. Agora, era real. Lembrou-se do papel do divórcio e as assinaturas.

—Agora, sou uma mulher solteira. Deve aceitar Beatriz Pinzón Solano está livre!

Um homem caminhava à sua direção, vestia camisa cinza com calça preta, tecidos climatizados. Levava dois coquetéis tropicais com pouquíssima quantidade de álcool.

Ele não disse palavra. Queria evitar a todo custo falar. Suas palavras erradas o fizeram passar pelo que estavam passando. Nunca soube muito o que falar e a partir de agora com a nova chance que a vida lhe brindava, evitaria falar bobagens.

—Que bom que você veio! Estava te esperando, agora que sou uma mulher livre! Livre para você! –disse ela, sorrindo

Ele sorriu, deleitando-se com as palavras dela.

Ela escolheu uma das bebidas e tomou um gole. Estranhava que ele não falasse nada.

—Posso ter a honra de sentar-me ao lado de tão bela dama?

—Sim, cavalheiro.

—Se não a incomodo, gostaria de me apresentar. Sou Armando Mendoza.

—Hum, delicioso –disse, saboreando o drink.

—Prazer, senhorita, meu nome é Armando Mendoza, tenho mais de cinquenta anos, executivo de uma grande empresa de modas, tenho uma filha, sou formado em engenharia. Estou a passeio para descansar aqui neste paraíso.

—Realmente um paraíso. –disse saboreando.

—Muitas vezes não sei o que dizer.

—Diga, o senhor é livre?

—Livre?

—Sim, se está solteiro.

—Sim, tenho uma filha, mas estou livre. –disse olhando o horizonte. –Livre, até o tempo que quiser, mas tem uma jovem que me interessa muito, que tem a pele de seda, olhos cor-de- café, boca vermelha carnuda que gostaria de beijar e cabelos ondulados nos quais gostaria de me enroscar.

—Estamos apenas começando, senhor Mendoza.

—Desculpe-me. –disse com seu sorriso que marcava. –fiquei empolgado com a tão rara beleza da senhorita!

Ela sorriu, os dois tomaram o drink, olhando um para o outro.

Estavam se conhecendo novamente, tendo em volta a praia. Ninguém em Bogotá sabia que estavam ali juntos, era um segredo para seus amigos, suas famílias, para todos que agora os queriam separados.

Bebiam seus drinks, de mãos dadas, apoiando as testas um no outro, sem palavras, já haviam conversado o que precisavam naquele dia mais cedo

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Algumas horas mais cedo, naquele dia, caminhando na praia.

—Não sei como soube que estava aqui. –disse Betty

—Durante vinte anos de casados, sempre falou desta praia, deste lugar. Chegamos a vir um dia aqui, lembra? Sabia onde a encontraria exatamente. Só não sabia que...

—O quê?

—Estava tão linda.

—Tão linda, eu?

—Sabe que sim.

—Para quem?

—Para mim. Assim, ou como queria estar, para mim.

Ela balançou a cabeça.

—Sabe que nem sempre pensou assim.

—Sei que começamos errado, que era um jovem imaturo.

—Ainda é imaturo.

—Sim, para muitas coisas, por isso... Esquece.

—Diga.

—Sempre precisei de você. Mas algumas coisas decidi assumir, este da empresa vou assumir mesmo que me custe.

—Todos acham que estou envolvida nisso.

—Claro que não, deixei bem claro que não sabia de nada. Nem estava aqui.

—Sou sua esposa, ou era até este momento e se estamos casados, põem em risco a presidência.

—Parece que não querem respeitar a vontade de meu pai.

—Os Valência nunca foram inclinados a aceitar algo. Ainda mais este novo. Como assim filho do Seu Jùlio?

—Nos aguardam batalhas muito duras.

—Sobretudo com nossa filha. Ela nos quer separados, não é?

—Ela associa o que passou com ela com o que passei contigo.

—Eu sei! Está me achando um canalha como Inácio. De fato, sou um canalha como ele.

—Não é! Soube buscar melhorar e foi um ótimo marido durante 20 anos e excelente pai.

—Parece que Mila não vê assim.

—Ele vai lembrar e reconsiderar.

—Espero que um dia reconsidere.

—Cuidou dela até quando me afastei. Deve dar tempo para ela, ela o ama muito. Até mais que a mim, mas não adianta falar com ela agora, está decepcionada.

—Fico feliz que estão se dando bem, ainda que seja uma das pessoas que nos querem ver separados.

—Sim, me incentivou a assinar o divórcio , assim como meu pai.

—De sua parte, creio que seus amigos de solteria como Calderón.

—Não posso dizer que não, mas ele está enganado, se vou voltar a ser o que era antes! Já não tenho idade para bobagens como aquelas.

—O solteiro mais cobiçado de Bogotá?

—Não acredito que leu esta bobagem.

—Estava em todos os lugares.

—Não tenho nada com isso.

—Sempre foi muito disputado. Garanto que há uma fila esperando que este divórcio saia à luz para atacar. E sabemos quem encabeça a lista.

—Não tenho nada com a Majo, Betty!

—A dra. Maria José não pensa assim. Fez questão de apressar os papeis do divórcio!

—Disse a ela que não queria!

—Disse o mesmo para Estéban, meu advogado, depois que nos encontramos na cadeia.

—Mas sem anuência de seu “amiguinho” não teria conseguido estes papéis. Claro! Ele tem interesses... –disse olhando para o corpo dela –na separação.

—Não é como pensa!

—Como não, não é?

—Esteban não quer nada comigo.

—E você?

—Sabe que não aconteceu nada. Não passou de um beijo e estava bêbada. Talvez acontecesse...

—Se acontecesse, veríamos quão ético é este advogado de levar uma mulher bêbada para sua cama!

Ela olhou brava para ele.

—Desculpe-me, pouco me importa. Se tivesse acontecido não ia mudar em nada o que sinto por você. A amo com todas minhas forças como sempre te disse. E não creio que possa arrancá-la daqui só por causa de um papel.

—E por que assinou?

—Assinei porque vi que assinou primeiro! Daí percebi que era o que precisava de mim. Era o que queria o final desta história. Amar é também deixar a pessoa ser feliz como queira e com quem queira.

—Sabe que nunca imaginei isso. Tampouco queria assinar, mas as circunstâncias: Ecomoda e o direito dos empregados, Mila, meu pai...

—Sei como é.

—Armando no que chegamos? Sabe que tudo começou na festa de Mila.

—Sei.

—Aquele beijo em Marcela, depois em Majo.

—Não tenho nada, nada com nenhuma das duas! –disse parando-a, segurando-a pelos braços para olhá-la nos olhos. –Sabe não tive nada com outra mulher desde o dia em que ficamos juntos.

—Naquele dia, quando sua advogada te visitou na cadeia...

—Apenas conversamos! Jamais levaria outra para o lugar onde nos amamos. Aquele momento só nosso naquele presídio foi um dos melhores momentos de minha vida quando a tive!

—Sou mulher de bandido agora!

—Já! Você me levou ao céu estando no inferno.

—Queria que não chegássemos nessa situação.

—Queria poder nunca tê-la magoado, que nunca tivesse entrado naquele plano sórdido.

—Aí não teríamos nos envolvido.

—Queria tê-la conhecido em outro momento, sendo menos superficial, mais intelectual, mais maduro, como merecia. Queria nunca tê-la magoado, que não tivesse que me perdoar por algo tão sórdido. Se pudesse começaria do zero.

—Começaria?

—Sim. Sem pestanejar. Gostaria de tê-la conhecido em um lugar como esse. E não em um escritório de nossa fria cidade. E que chegasse e a oferecesse um drink ou a convidasse para dançar.

—Adorei a ideia.

—Adorou?

—Gostaria de não ter tantas coisas em nosso meio, que não tivéssemos que...

—Se pudesse, recomeçaria tudo, para fazer diferente. –disse acariciando seu rosto.

—Como se tivéssemos nos conhecendo agora.

—Sim.

—Nesta praia...

—O que pensa?

—E se pudesse ser assim? Se não existisse Ecomoda, Terramoda, Nicolás, meu pai, Marcela nem nada entre nós?

—Seria ótimo.

—E esta mochila?

—Tem algumas coisas pessoais.

—Roupas também?

—Sou um homem prevenido.

—Sei, não teria trazido de graça.

—Confesso que tinha esperanças de que pudéssemos nos acertar que nem quisesse ver os papeis.

—No ponto em que chegamos não temos como acertar as coisas. Não há como remendar algo que está rompido.

—Entendo. –disse ele segurando as lágrimas. –Bem, Beatriz deixo-o com o mar que tanto amo para que possa ser feliz e livre.

Ele disse e virou as costas, não queria que ela o visse chorando.

—Armando! Chegou ao fim de uma história, mas podemos recomeçar outra. Aceitaria começar uma história sem enganos e nem planos sórdidos?

—Nesta praia paradisíaca?

—Sim.

Ele virou-se.

—Começaria qualquer coisa com você!

—Então –riu de seu jeito – Prazer, sou Beatriz Pinzón Solano!

—Não! Se vamos fazer, temos que fazer direito.

—Como propõe?

Haviam combinado de encontrar-se naquele restaurante agradável mais tarde. Armando havia trazido duas peças de roupa. E uma delas usaria aquela tarde. Havia se hospedado em um hotel, não longe do restaurante onde se encontrariam. Beatriz foi para o hotel onde estava hospedada. Depois de almoçarem cada um em seu lugar, passaram a tarde tentando fingir que não tinham nada importante a fazer. Betty se comunicou com a família, apenas para dizer que estava bem. Depois desligou o celular. Tomou um banho relaxante, se perfumou. Colocou um vestido leve, o mais bonito que havia trazido e foi observar o mar. Estava cedo, precisava conversar consigo mesmo e criar coragem para fazer o que precisava. Recomeçar, sem medos, remorsos, mágoas. Precisava ir mais profundo no que havia aprendido. Perdoar a ele e a si mesma.

Armando fazia o mesmo da janela do hotel. Sabia que a vida lhe dava uma nova chance. Não podia nem tinha idade para desperdiçá-la. Por pouco a mulher de sua vida escapava de suas mãos. Não deixaria que nada e nem ninguém se colocasse entre eles. Nem Ecomoda e nem sua vaidade de homem. Ela lhe havia dado uma chance de fazer as coisas bem e faria. Prometeu olhando o céu.

Os dois haviam acabado de tomar seus drinks quase ao mesmo tempo.

—Aceita dançar comigo, senhorita?

—Normalmente, não aceito dançar com desconhecidos, mas o senhor é tão simpático e cortês. Por que não?

Os dois abandonaram-se ao Vallenato. Beatriz havia aprendido muito nos com ele, que era bom dançarino.

Depois da dança, resolveram comer frutos do mar e tomar mais alguns drinks.

—Ainda quer bailar, senhorita?

—Não, estou cansada.

—Neste caso, talvez queira descansar. O que é uma pena, pois sinto-me muito bem ao seu lado.

—Digo, estou cansada de dançar, senhor Mendoza, mas não o suficiente para me recolher.

Decidiram pagar a conta e irem dar um passeio na praia. Acabaram por andar de chiva rumbeira, onde dançaram mais um pouco. Armando tentou não pensar o que Betty fez em Cartagena quando veio curar-se há 20 anos. Devia deixar os ciúmes de lado.

“Melhor não pensar nisso, Armando. está começando de novo. Não estrague tudo!”

Ele sorriu. Como queria beijá-la com paixão. Beatriz sorriu-lhe.

—Parece um sonho. –disse a ele. –Você aqui, o mar...

—A chiva rumbeira!

—O mundo atrás não existe!

—Não existe, só nós dois!

Ela segurou seu rosto e lhe deu um beijo. O mais doce que ele recebeu em anos.

—Ah! –disse ele, tentando se controlar –Pensei que não beijasse desconhecidos. –disse.

—Você não é desconhecido. É Armando Mendoza, um executivo importante e muito charmoso.

Tornou a beijá-lo. Armando retribuiu.

—Beatriz, gostaria de namorar comigo?

Ela sorriu, talvez fosse um sim. Esperava que não tivesse indo rápido demais e estragando tudo. Era ela que daria as cartas e o tempo da relação desta vez.