Notas iniciais
Desculpem pela demora pessoal, eu e a Lirael prometemos que vamos adiantar essa fanfic o máximo que pudermos agora nas férias! Bom, espero que gostem de mais um capítulo. Boa leitura! - MusaAnônima12345

Merida estava nervosa, em parte porque sabia que o que ia fazer contrariava o que Rapunzel tinha pedido. Mas também porque aquele era seu primeiro encontro, e ela estava muito ansiosa para ver Soluço de novo. Então, quando se vestiu, tentou não ficar muito tempo escolhendo a roupa que iria usar. Apanhou um vestido branco de alças finas, uma jaqueta jeans azul escura e um par de All star metalizado. Borrifou um pouco de perfume nos ombros, corando ao pensar que para sentí-lo, Soluço teria que chegar muito, muito perto. Então, balançou a cabeça, nervosa, saindo com cuidado, nas pontas dos pés para não fazer ruído e acordar Jack. Quando chegou ao final do corredor e nenhum ruído poderia alcança-lo, Merida correu.

Em menos de nada já estava parada diante da porta dele. Ela inspirou fundo antes de bater e quando os nós dos dedos encontraram a madeira da porta, Banguela já estava fazendo um escândalo lá dentro. Alguns segundos depois ela ouviu a voz de Soluço acalmar o cão e o tilintar das chaves destrancando a porta. Quando a porta abriu, todo o ar que ela tinha inspirado para se acalmar se foi.

Ele estava completamente encharcado, e sua única peça de roupa era uma toalha branca enrolada em volta da cintura. O cabelo estava molhado e Merida achou que as mechas colando-se na testa dele lhe davam um ar desleixado que ela gostava muito. Muito mesmo. Ela não pôde deixar de encarar seu peito nu, achando uma graça como ele corava sob o olhar dela.

— Merida... – ele deixou escapar, surpreso. – Não esperava você aqui, tão cedo. Na verdade eu nem estava te esperando. Achei que fosse o técnico da Tv. – Ele sorriu, jogando o cabelo para trás.

Ela piscou levemente, lembrando-se que tinha combinado de se encontrar para almoçar na rotisseria de Maudie. Então seus olhos passaram pelo relógio perto da porta e ela viu que horas eram. 10:28. Eram 10:28, e ela estava pelo menos duas horas adiantada e no lugar errado, ainda por cima!

Merida deu um tapinha na testa e suspirou, pensando se alguma vez na vida ela já tinha sido tão distraída.

— Eu não posso acreditar que ainda é tão cedo! – ela lamentou, abaixando-se para brincar com Banguela. – Eu juro que... Eu nunca...

Soluço apenas sorriu, e fez um gesto para que ela entrasse.

— Não tem problema. Vamos sair da porta. Se você não se importar de esperar eu terminar o meu banho... – Ele brincou, fechando a porta e conduzindo-a até a sala.

Banguela os seguiu, meio trotando e meio pulando, exigindo atenção. No sofá, Estóico estava imóvel diante da televisão, assistindo a uma gravação de uma partida de futebol americano. Mal se deu conta da presença dos dois até Soluço falar.

— O técnico já chegou? – Perguntou Estóico, distraído.

— Meu pai é treinador. – Ele explicou. – Acho que nunca tinha lhe dito isso.

Estóico pausou o vídeo, virou-se e se levantou para cumprimentar Merida, surpreso. Ela tinha se esquecido de como o homem era grande. Ele sorriu para ela e pareceu ignorar o fato de que Soluço estava só de toalha.

— Merida! – ele chamou, com a voz grave, estendendo a mão para ela – Faz bastante tempo! Como tem passado?

Ela sorriu, surpresa por ele ainda se lembrar de seu nome.

— Eu vou bem, e o senhor?

— Estamos muito bem. Como pode ver o meu filho já se acostumou bastante á nova prótese.

Merida virou-se para Soluço percorrendo o corpo dele com os olhos de cima a baixo, só para ter o prazer de deixá-lo encabulado. E o efeito foi imediato. Ela nunca o tinha visto mais corado antes.

— Sim. Estou vendo. Fico muito feliz por isso. – Ela disse, com um risinho.

Soluço abanou a cabeça e deu as costas, subindo as escadas em direção ao banheiro. Enquanto esperava, Merida assistiu com Estóico ao final da partida de futebol americano, e os dois discutiram as estratégias de ataque usadas pelos dois times. Merida coçava a barriga de Banguela enquanto o fazia, e o cão parecia mais do que contente, abanando a cauda de olhos semicerrados.

Em mais ou menos trinta minutos, Soluço desceu as escadas, dessa vez completamente vestido. Usava uma calça jeans, tênis e uma camiseta com desenhos tribais.

— Vamos? – Ele perguntou, sorrindo ao ver Banguela totalmente espalhado no chão enquanto Merida o coçava.

— Claro. – Ela parou a brincadeira e o cão se levantou, olhando-a, chateado.

— Foi muito bom rever você, Merida. Tome conta dela, Soluço. – Disse Estóico, pausando a gravação para se despedir deles.

— Prometo voltar mais vezes. Até logo. – Merida respondeu, acompanhando Soluço até a porta. Banguela os seguiu com o olhar triste, mas deu as costas assim que saíram.

***

Merida levou Soluço até a Rotisseria de Maudie. A amiga de sua mãe levantou uma sobrancelha desconfiada ao ver Merida com um garoto. Seu olhar dizia “sua mãe sabe do namorado?”

Merida apenas sorriu para ela, e foi suficiente. Maudie logo conseguiu uma boa mesa para que eles se sentassem e deixou dois cardápios sobre ela. Soluço agradeceu, sentou-se e começou a folhear o cardápio, concentrado. Merida já conhecia cada prato que estava listado ali, então nem se incomodou em abrir o dela. Apoiou o queixo na mão e ficou olhando Soluço, observando os olhos verdes que corriam pelo cardápio.

— Então... Como você e a Punzie se conheceram? – Ela perguntou, impaciente com a demora.

Soluço deu um sorriso sem tirar os olhos do cardápio.

— Direta e impulsiva. – ele disse baixinho.

— Desculpe. — ela mordeu o lábio.

— Não se desculpe. Gosto disso em você. – Ele baixou o cardápio e chamou discretamente uma das garçonetes do local. Pediu macarrão com bacon e mussarela e um copo de suco de limão. A garçonete anotou o pedido e se virou para Merida.

— O mesmo de sempre, Merida? – ela perguntou, com um ar de quem a conhecia a bastante tempo.

— Por favor, Jenny. Obrigada. – Ela respondeu.

A garçonete se afastou e Soluço olhou para Merida, surpreso.

— Você vem sempre aqui? – ele perguntou.

Merida sorriu com a pergunta que parecia mais uma cantada.

— Só com garotos bonitos de olhos verdes. – Merida riu alto quando Soluço franziu a testa, meio confuso. Ele não conseguiu resistir e riu com ela também. — Minha mãe me traz aqui desde antes de eu nascer. Ela e Maudie são amigas a há muito tempo.

— Respondendo a sua pergunta, Rapunzel e eu nos conhecemos desde os nossos sete anos, mais ou menos. Nossas mães também eram amigas. – Ele sorriu com o canto dos lábios ao ver Merida se inclinar mais na direção dele para ouvir. – As duas se casaram e engravidaram quase ao mesmo tempo. Depois disso acabaram ficando um tempo sem se ver, mas sempre mantiveram contato. Minha mãe ficou muito feliz quando Arianna se mudou para o mesmo quarteirão em que nós morávamos.

—Pareciam bastante próximas. – Merida comentou, interessada.

— E eram. Foram madrinhas do casamento uma da outra. Eu me lembro que a Arianna nos visitava com bastante frequência. Até aparecer a Gothel. Ela apareceu do nada e veio morar com a família da Rapunzel.

— Do quê mais você se lembra? – perguntou Merida, curiosa.

— Me lembro que a Gothel era bastante protetora com relação a Punzie. Ela controlava tudo o que ela fazia e com o tempo, as visitas que elas faziam á nossa casa pararam. Minha mãe não gostou nada disso, claro. Ela passou a ir visitar Arianna em casa, e ficava cuidando dela, já ela nunca estava bem. Tinha crises de enxaqueca e náuseas terríveis e nunca tinha disposição para nada. A Gothel não gostava dessa proximidade da minha mãe, mas me queria por perto por que eu ajudava a manter a Punzie quieta. As crises foram piorando e o pai da Punzie deixou a presidência das empresas para cuidar dela.

— Empresas? – Merida inquiriu.

— O emblema do sol, na frente da casa, já notou? – Merida assentiu e Soluço continuou a explicação. — A família da Punzie tem muito dinheiro. Muito mesmo. O pai dela era sócio majoritário e presidente de uma empresa chamada Solare. Ele também era dono da fábrica que produzia os painéis solares e fornecia energia para um monte de cidades.

— A Solare! — Merida exclamou. — Minha casa tem painéis deles. Estão pelo mundo inteiro!

— Sim. É uma empresa de muito renome. A Rapunzel não costuma falar muito sobre isso. Ela é... Bom, ela tem vergonha.

— Vergonha? Por que alguém teria vergonha de ser milionária? – Merida riu.

— As pessoas costumavam se aproximar dela por interesse, ou a julgavam sem conhecer. Já a viu com algum amigo além de mim? A Punzie é uma pessoa terrivelmente sozinha. E a tia dela não ajuda muito, isolando ela do mundo como costuma fazer.

Merida assentiu, pensativa por um momento. O macarrão de Soluço chegou, junto com as fatias de pizza que ela tinha pedido para si. Enquanto comiam ela pensou em Punzie, e no pouco que sabia dela. Sua amiga era divertida, inteligente, carismática e muito, muito meiga. Ela iluminava as coisas quando estava perto. Quase como... Um sol. Merida riu do trocadilho. Rapunzel era seu sol particular, embora aquela tia medonha a fizesse conter seu brilho.

— Um dia, os pais da Punzie saíram para um passeio de carro. Não me lembro bem o que foram fazer, ou para onde eles iam, mas nesse dia, eles sofreram um acidente de carro. Nenhum dos dois sobreviveu. – Soluço contou.

— Descobriram o que causou o acidente?

— Parece que houve um problema nos freios. A polícia não sabe ao certo. Minha mãe ficou arrasada. Se ofereceu para visitar a Punzie e ficar com ela, mas a Gothel não permitiu. Muitas vezes bateu a porta na cara da minha mãe, dizendo que ela estava apenas piorando as coisas. E isso só deixou minha mãe mais e mais determinada. Algum tempo antes de morrer, eu me lembro que ela vivia consultando livros de direito sobre leis de custódia infantil, mecânica... Meu pai achou que ela queria adotar a Punzie, mas ela disse que estava próxima de descobrir algo.

— E descobriu? – Perguntou Merida, ansiosa.

— Não sabemos. Houve o acidente de carro, e então... – Soluço apontou para a própria perna, como se explicasse tudo. – Depois da morte da minha mãe, a Gothel incentivou que eu passasse mais tempo com a Punzie. “Para que nos confortássemos no luto” ela dizia. Ela nunca negou minhas visitas a ela. Acho que no fundo esperava que nós desenvolvêssemos algum tipo de relacionamento futuro.

Merida olhou fixamente para Soluço, esperando que ele dissesse alguma coisa. Quando ele não disse, ela se atreveu a perguntar.

— E isso aconteceu?

Soluço riu da apreensão dela.

— Nunca houve a menor chance. A Punzie e eu... Como posso explicar... Eu a amo. Muito mesmo. Mas não podemos ficar juntos.

O coração de Merida falhou uma batida, e ela se pegou assentindo para si mesma e desviando o olhar.

— Eu... Entendo... – ela murmurou, cabisbaixa.

Soluço a olhou confuso por alguns instantes, e percebeu logo em seguida o que ela devia estar pensando.

— Ah, não! Deus, Merida, não! – ele ergueu o queixo dela, fazendo-a olhar para ele, depois acariciou seu rosto. – Não a amo desse jeito. Nós dois passamos por muita coisa juntos e como a Gothel acabou prevendo, demos força um ao outro. Nós nos apoiamos, e ainda o fazemos, de vez em quando. Ela e eu somos como você e o Jack. Só que sem as brigas, sem nenhuma mãe e com uma perna a menos.

Merida não pôde deixar de sorrir com a comparação, visivelmente aliviada. Terminou a pizza, pensando em como Punzie era forte e como tinha sorte por ter a amizade de Soluço em um momento difícil. Mas alguma coisa a corroía por dentro. Uma dúvida. Nada naquela história se encaixava direito. A doença da mãe da Punzie, depois logo em seguida, o acidente. Depois a morte da mãe de Soluço. Uma suspeita começou a brotar na mente de Merida e ela estava muito disposta a deixar que crescesse.