Depois de ele ser operado, D. Melissa ficou arrasada ao saber que a cirurgia poderia deixar sequelas permanentes em seu filho, mas a certeza absoluta só viria nos próximos dias, quando ele fosse despertar. Por enquanto, disseram, o importante era manter “o paciente” vivo. Dois dias se passaram e tudo parecia evoluir bem, até que um novo exame revelou o oposto de tudo o que tínhamos acreditado até ali. Alfie foi submetido ao coma induzido. O procedimento me deixou esperançosa, já que uns três anos antes uma professora minha que sofreu um traumatismo craniano após um acidente de carro foi tratada dessa mesma maneira e voltou novinha em folha.

Infelizmente, Alfie não gozou da mesma sorte que minha mestra. Na transição de uma semana para outra, anunciaram sua morte cerebral. Por insistência e teimosia de D. Melissa, que não queria aceitar o diagnóstico, Alfie ficou por mais um dia e meio ligado aos aparelhos. Por fim, por sugestão piedosa de seu namorado, ela concordou em deixar o filho partir.

Não sei como se deu o incidente nem como ele soube da morte do filho, mas estavam todos reunidos numa capela para dar os pêsames a Dona Melissa pelo velório do filho quando o Sr. Gerald, pai de Alfie, surgiu por lá morto de bêbado e fazendo escândalo. Soube pela minha mãe que ele mais falava da gravidez e do novo relacionamento de sua ex-mulher do que propriamente da morte do filho, mas quando tocou no assunto, foi para acusar D. Melissa de não ter cuidado direito dele. Criticou até o fato de ela estar mais bonita e a chamou dos piores nomes. Eu não estive lá, pois não conseguia levantar da cama, só soube dos detalhes através dos relatos alheios. Mamãe disse que ele não derramou uma lágrima sequer. Ela me contou também que Adam solicitou educadamente que o pai de Alfie se retirasse de lá, mas foi derrubado no chão debaixo de socos e chutes. Ele não era um homem de brigas, então se deu bastante mal. Quem tentou se meter no meio para apaziguar os ânimos também acabou, de uma forma ou de outra, vítima da violência daquele monstro, até que um jovem de jaqueta, jeans largo e cabelos desgrenhados negros teria se levantado de sua cadeira e dado uns dois socos no pai de Alfie e arrastado ele para fora da capela pela gola da camisa, encerrando a expulsão lhe dando um belo de um pontapé no traseiro. Mamãe disse que ele era “um bonitão que tinha a pele morena”.

Pela descrição dele, eu entendi que ela falava de Daniel.

(…)

No dia seguinte ao enterro de Alfie, mamãe achou que seria uma boa ideia me tirar da cama e me obrigou a sair em duas ocasiões: uma, para ir junto com ela ao supermercado, e, em outra, para buscar na casa de uma amiga revendedora dela uma encomenda de cosméticos. Os dois acontecimentos se deram no mesmo dia, mas em horários diferentes. Falarei deles por sua ordem de sucessão. Depois de tudo o que houve com Alfie, considero esses encontros bem emblemáticos.

No primeiro, eu estava no estacionamento do supermercado segurando sacolas após as compras enquanto mamãe abria o porta-malas, quando escutei um casal que discutia, eu não entendi muito bem o assunto, mas aquela voz era inconfundível. Era Walter (para quem não lembra, aquele meu ex-namorado que tentou me estuprar no carro). Ele gritou com a garota que o acompanhava e deu um tapa nela. Abriu a porta do carro e a empurrou para o assento que fica ao lado do motorista. Jogou por cima dela uma sacola, eu não sei o que tinha lá, mas não era nada grande. Acho que o motivo da gritaria era ele ter que comprar aquilo para ela. Realmente não sei. A garota arrumou um pouco os cabelos e assoou o nariz. Não deu para ver muito bem, mas imagino que ela estava chorando. Pisando duro, ele contornou o carro pela dianteira e abriu a porta, entrando e fechando-a com muita rudeza. Ao me ver distraída, mamãe, que estava de fone de ouvidos e, portanto, alheia àquilo tudo, me chamou a atenção:

— Annie, a sacola.

— Ah.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, mãe. Vamos embora logo.

Dito isto, entreguei para ela a sacola, cobri a cabeça com o capuz do meu casaco e entrei no carro.

O segundo encontro aconteceu quando eu ainda estava indo para a casa da amiga da mamãe buscar as encomendas dela, isso aconteceu mais para o fim da tarde. Nessa ocasião, mamãe me botou para sair sozinha.

Eu estava distraída quando escutei alguém fazendo chamando minha atenção. Sabe? Fazendo “psiu” insistentemente. Acelerei meus passos achando que era um tarado, quando a pessoa correu e me agarrou pelo braço. Quase morri do coração, porque eu não reconhecia aquele homem.

— Annie! É você mesmo!

— Oi… – eu não sabia se ficava aliviada por ser um conhecido ou desesperada por não reconhecê-lo.

— Sou eu, o Kurt! Estou meio diferente, assim, grandão, né?

Eu acho que ele quis dizer “gordão”. Kurt estava irreconhecível: os cabelos continuavam grandes, mas o rosto estava redondo, nojento, com uma barba malfeita e papas no pescoço. Sua cintura, ou o que deveria ser uma, caía para fora da calça. Ele tinha mais quadril que uma mulher. Eu acho que não consegui disfarçar o choque ao vê-lo. Pelas minhas contas, ele era de três a quatro anos mais velho do que eu, não deveria estar daquele jeito.

— Faz tempo que eu não atualizo fotos nas redes sociais, também.

— É verdade, nunca mais tinha visto nada seu.

— E aí, o que está fazendo de interessante?

— Estou indo buscar na casa de uma vizinha umas encomendas de catálogo que minha mãe fez.

— Está indo por esse lado? Eu vou ter que dobrar na próxima rua. Vou ao supermercado. Minha mulher disse que está desejando uma geleia que só tem lá.

— Mulher? Já?

— Ah, já sim. Minha vida deu uma acelerada nos últimos dois anos. Casei, estou trabalhando agora. Minha mulher está grávida e, como você pode ver, cheia de vontades. Eu estou de folga nos últimos dias. Ela está nos instantes finais da gravidez e por isso não posso deixar que ela fique sozinha. Já é o nosso segundo filho.

— Uau!

— Pois é.

— Onde você está trabalhando?

— Numa fábrica que fica ali pelo lado do… opa, vou ter que dobrar. Outra hora a gente se fala, daí eu te explico. Manda um abraço para a Drielly, e para o Alfie também!

Fiquei catatônica, parada na rua por alguns segundos, até que a buzina de um motorista impaciente que queria entrar na sua garagem me trouxe de volta à realidade. Naquele momento, eu agradeci intimamente Alfie por ter arruinado o nosso namoro.

Depois desses dois encontros, eu não saí mais de casa, nem mesmo para ir à escola.

(…)

A pedido da mamãe, um certo dia aí da semana passada eu me arrastei até a caixa de correio no quintal para olhar as correspondências que tinham chegado. Havia um aviso de chegada para mamãe ir buscar na transportadora um item cuja tentativa de entrega não deu certo (calculo que foi quando eu passei o fim de semana no spa e mamãe também deve ter arrumado algo para fazer, ficando ausente de casa) e uma caixa que não parece ter sido entregue propriamente pelo correio, pois não estava selada, carimbada, etiquetada ou mesmo endereçada. E ela não estava vedada com fita, e sim com um cordão de palha amarrado em forma de cruz. Era uma caixa de sapatos da Nike. Eu achei aquilo bem estranho. Peguei a caixa me preparando para levantar o peso equivalente a um par de calçados, óbvio, mas o conteúdo era bem mais pesado do que aquilo. Sentei na calçada e resolvi abrir para ver o que tinha dentro. Eu esperava encontrar alguma brincadeira de mau gosto dos meus ex-amigos, mas o que vi foi muito pior do que isso. Imediatamente, reconheci as folhas de caderno com temas variados de super herói e a letra enorme e garranchosa do Alfie. Eram cartas às centenas, acredito que superavam a marca de 200, 300, talvez 400 unidades.

“Desculpe por ter te envergonhado hoje.”

“Eu não deveria ter aparecido naquela hora.”

“Eu não deveria ter te chamado no intervalo diante de todos.”

“Prometo que eu não vou mais perguntar nada a professor nenhum.”

“Eu sabia que você não queria me chamar, por isso disse que estava ocupado, para você não precisar fazer isso.”

“Eu vou tentar me vestir melhor.”

“Mamãe disse para eu não ter esperanças com você.”

“Eu sei que você não gosta de mim, mas...”

O conteúdo de todas essas cartas era exaustivamente repetitivo, a única coisa que mudava nelas eram as datas. As frases “Eu não poderia”, “Eu não deveria”, “Me desculpe por isso”, “Eu vou tentar fazer/agir/falar/pensar de tal maneira” apareciam sempre em algum ponto de todas essas correspondências não enviadas, sempre. Meu nome e o de Alfie isolados dentro de um coração torto, idem. Ele criou até uma assinatura curiosa com os nossos nomes entrelaçados. Quem teria deixado aquilo na minha caixa de correio, apenas para me torturar? D. Melissa? Adam? Quem teria sido assim tão ressentido e vingativo para fazer, naquele momento, eu ter acesso aos pensamentos que Alfred tinha quando eu o magoava? Eu nunca iria saber, e também não tentaria descobrir. Carreguei aquela caixa para dentro do meu quarto e falei para mamãe apenas sobre o aviso da sua encomenda. Varei a madrugada adentro lendo aquelas cartas e enfim compreendendo que eu tinha ferido Alfie para muito além do que tinha calculado. Indiferente ao fato de ser incapaz em todas as outras áreas da sua vida, Alfred era uma pobre criatura capaz de amar infinitamente. Talvez por isso mesmo, Deus o tenha levado logo para junto dEle.

— Alfie…! Você nunca fez nada de errado!

Naquela noite, com tinta de caneta e uma agulha, eu fiz uma tatuagem na mão imitando essa assinatura que ele inventou. Era tarde demais para fazer isso, claro, mas eu não me envergonharia mais de nossa amizade, nunca mais.

(…)

Drielly mexia seu chá com uma colher pequenininha. Ao lado dessa xícara, havia uma fatia de bolo intacta, que eu acredito que ela não comeu porque ficou atenta escutando meus relatos. Seu semblante parecia carregado, aborrecido. Estava bem evidente que ela não enxergava as coisas que relatei pela mesma ótica que eu.

— Mas, e você? Está fazendo o quê? – perguntei, para tirar um pouco do clima pesado.

— Estou namorando um cara. Pretendemos entrar para a faculdade juntos, no mesmo curso.

— Que é?

— Medicina veterinária. A gente pretende se casar quando o curso terminar, e juntos inauguraremos uma clínica. Nossos pais estão de acordo.

— Você, namorando um cara?

— É, Annie. O que tem de mais? Eu sou uma garota, namorando um cara, e aí?

— Eu podia jurar que você gostava de meninas!

— O quê?

— Não sei, você era… como eu posso dizer? Toda “moleque”.

— Então, desde aquela época eu já gostava de cuidar dos bichos. Tinha um interesse especial pelos insetos. Por isso que vivia pelos matos, era para observar eles.

— Entendi.

— Sua mãe continua receptiva e alegre. Eu nunca adivinharia que tudo isso aconteceu se eu fosse analisar apenas ela.

— Não parece, mas ela está bem abalada. Acho que toda essa pseudoalegria que ela está fingindo é mais para… suportar, não sei. Eu acho que ela quer tentar passar otimismo para a D. Melissa.

— E como está a D. Melissa? Coitadinha, deve estar arrasada.

— Ela está bem, mamãe disse que ela ia fazer um exame hoje para descobrir o sexo da criança.

— É estranho, né?

— O quê?

— O Alfie morrer sem nem saber o sexo do irmão, ou irmã.

— Bom, destruída a vida da D. Melissa não está. Sabe este ambiente lindo, novinho e cheio de pessoas? Então, esta confeitaria e lanchonete é do atual companheiro dela! Essa que se deu bem! Se ela fosse focar só na saúde do Alfie em vez de reconstruir a própria vida, não teria nada disso!

— Annie!

— O que foi?

— Como você pode dizer uma coisa dessas? É verdade que você disse que a D. Melissa se apaixonou por esse tal de Adam enquanto Alfie estava se tratando! Mas não fale dela de uma forma que ela fique parecendo uma oportunista! Aposto que, no meio daquela tempestade toda, ela só precisava de proteção e amparo e encontrou tudo isso nesse homem com o qual está agora!

— Proteção, amparo e muito dinheiro! O cara deu o melhor tratamento possível para o Alfie! Queria até curar as pernas dele, uma pena que não deu tempo. E você precisava ver as roupas novas que ele usava antes de morrer!

— Ele parece ser um homem muito bom. Que bom para a D. Melissa. E o pai do Alfie, quando assina o divórcio?

— Até onde eu soube, ele se recusa a assinar qualquer coisa. A bronca vai para juízo, azar o dele. Tem tudo para perder. De qualquer maneira, até onde eu sei, a D. Melissa não vai mais querer ficar com aquela casa. Acho que foi ontem que eu vi um corretor olhando o lugar. Já tem gente interessada. Eu só não sei dizer onde a D. Melissa, o Adam e o bebê deles irão morar, mas aposto que será um lugar bem melhor que aquele! Agora, ela pode!

— Ela merece, depois disso tudo. Mal posso esperar para encontrá-la e dar um abraço nela. Faz tanto tempo que não a vejo. E abraçá-la seria como dar um abraço indireto no Alfie!

— Eu acho que ela não quer me ver nem pintada a ouro. Se ela leu aquelas cartas como eu penso que leu…

— Talvez seja melhor a gente ir embora daqui, então.

— Você não, Drielly. Você é muito bem vinda aqui, sempre.

Olhei por cima da cabeça de Drielly e acho que empalideci ao reconhecer a figura magra e elegantemente vestida que era agora a D. Melissa. Ostentando um novo corte de cabelo, maquiada porém ainda trajando luto, ela me encarava com uma expressão dura, quase assassina.

— D. Melissa! É um prazer revê-la! — Drielly estendeu a mão, mas foi ignorada. Os olhos fixos da mãe de Alfie seguiam cada movimento meu, e ela me queria fora dali.

— D-dona Melissa… – gaguejei – A senhora está aí há muito tempo?

Comprimindo os lábios, ela baixou a cabeça, imitou um sorriso e disse bem assim:

— Menina, veja bem. Não me importa o que você pensa a meu respeito. Não me interessam as suas especulações sobre a minha vida conjugal, isso é assunto nosso. O que você pensa da vida, o que você é, Annette? Já chegou a se perguntar sobre isso? Sobre a herança que você deixa para os outros? O que as pessoas levam do que você é? Já pensou nisso?

Drielly olhava para uma e para outra, aflita.

— Eu acho melhor a gente falar em um lugar mais… – ela tentou sugerir.

— Eu não tenho por que sair daqui! – D. Melissa a impediu de continuar – Não sou eu quem tem que sair daqui!

Inspirei fundo, e decidi finalmente fazer a pergunta de um milhão de dólares.

— Foi a senhora que deixou aquelas cartas para mim, não foi?

— Fui eu sim – nessa hora eu fiquei com medo, a cara dela tremia de ódio – E espero que tenham servido para você ter uma noção do lixo de ser humano que foi para o meu filho! Infelizmente, ele se foi sem nunca ter percebido que você não era e nem nunca foi amiga dele!

— Dona Melissa, deixa eu explicar…

— Não, você já pode me poupar do seu fingimento. Das suas desculpas. Do seu “não foi desse jeito, não é nada disso, eu estou arrependida”. Meu filho está morto, Annette. Eu não tenho mais por que me deixar enganar. E eu prefiro, se você tiver um pingo de respeito pelas pessoas dentro de você, que você não torne mais a aparecer aqui. Avise também sua mãe para parar de me ligar. Não: não precisa. Eu mesma mudarei o meu número. Não há como continuarmos qualquer laço de amizade sabendo que ela é sua mãe. Eu não quero correr o risco de ouvir ela falar seu nome perto de mim!

— Olha – mostrei para ela a tatuagem que fiz na mão – Foi o Alfie que criou. Era sobre nós! Ele agora vai estar sempre comigo…!

— E o que eu tenho a ver com isso? Eu não tenho nada a ver com a sua vida, Annette! Não tenho nada a ver com o seu remorso...

Constrangida, olhei em volta todas as pessoas que nos encaravam sem entender aquela cena. Quase obedeci seu comando de me retirar, mas não ia deixar passar a oportunidade de dizer tudo aquilo que estava entalado na minha garganta há meses. Resolvi enfrentá-la:

— E você, hein? O que estava fazendo quando eu cuidava de Alfie, quando eu o distraía? Onde que a senhora estava quando ele dizia que desejava morrer ao se sentir descartado, porque seu foco maior era o seu novo relacionamento, a sua nova felicidade na qual ele mal podia estar presente, porque ficava esquecido na minha casa?

— Annie! – Drielly tentou me impedir de continuar, mas não parei.

— Onde estava toda essa dignidade quando você se omitiu de saber o que eu fazia com ele? Quando você convenientemente iludiu a si mesma que eu era uma ótima pessoa, apenas para não ter trabalho e ficar se divertindo na rua?

— Annie, já chega! Para, por favor! Ela está chorando!

— Quantas horas do seu dia nos últimos meses você dedicou a acompanhá-lo, a higienizá-lo? A senhora só o buscava na minha casa, limpo e de pijama vestido! Não sabe o inferno que eu passei por todo esse tempo! Foi em mim que ele descontou todo o amargor que sentia mas que não queria que a senhora soubesse, sobre essa sua nova vida! Foi para mim que ele confessou a infelicidade de saber que perderia seus cuidados para essa criança que está a caminho, tá? Então, não venha tentar me fazer aceitar, sozinha, esses crimes que a senhora está me imputando! Eu não vou admitir!

— Vá embora daqui! E não apareça nunca mais!

— Com todo o prazer – encerrei a discussão.

Caminhei alguns passos, até que percebi que estava sozinha. Drielly havia ficado para trás.

— Você não… não vai vir comigo?

— Desculpe, Annie. Mas acho que preciso de amigos melhores nessa nova fase da minha vida – disse ela, afagando os ombros de D. Melissa, que se sentou à mesa para chorar.

(…)

Voltei para casa sem a Drielly, o que causou espanto na mamãe:

— O que aconteceu, Ann?

— Deu problema lá. Na lanchonete – falei, de forma desconexa.

— Que problema? Lanchonete? Oi?

— A D. Melissa estava lá na lanchonete.

— Você conseguiu falar com ela? Eu estou tentando ligar há dias para saber detalhes da mudança dela e de seu novo endereço, mas…

— Desista. Ela não quer mais falar com você.

— O...o quê?

— Segundo as palavras dela, “porque você é minha mãe”.

— Como assim?

Sem respondê-la imediatamente, eu fui para o meu quarto e voltei de lá com a enorme caixa de sapatos abarrotada de cartas.

— Por isso.

— Então, ela realmente fez…

— Fez o quê? Mãe, como assim? Você sugeriu que ela fizesse isso?

— Sim, tivemos essa conversa no dia seguinte à internação de Alfie. Mel estava atrás de uns pijamas para ele vestir quando encontrou tudo isso no meio dos pertences do filho. Imagino a surpresa e a revolta que ela teve. Eu não sabia onde esconder a cara quando soube. Um verdadeiro show de horrores! Não aguentei ler nem cinco dessas! E veja bem, eu até queria ter essa conversa com você, mas depois que vi o estado que você ficou...

— Por que, mãe? Por que não me falou nada?

— Porque eu não queria expor Alfie num momento em que eu não sabia se ele iria sair vivo. Naquele dia, ainda tínhamos esperanças de que tudo ia dar certo e ele sobreviveria. Na ocasião, eu disse para a Mel que seria justo você ter acesso ao conteúdo dessas cartas. Afinal, Alfie as escreveu para você, e por timidez não conseguiu entregá-las. Eu mesma disse que você precisava ter uma noção do que fez ao menino ao longo de todos esses anos, e que não havia ninguém melhor do que o próprio Alfie para expressar em palavras tudo o que vinha sofrendo!

— Não estou falando disso, mãe! Estou falando da doença de Alfie… por que nunca me contou?

— Porque Alfred quis assim. Ele nunca quis que você soubesse.

— Por que você concordou com isso, mãe? Adiantou me privar da verdade por todo esse tempo e me deixar saber disso só agora, com ele morto? Eu não estou sofrendo muito mais?

— Alfie achou que seria melhor assim. Uma vez, perguntei a ele o porquê disso. Ele me disse que não queria que você o tratasse como se tivesse pena dele. Na época, esse comentário me soou estranho, mas agora…

Mamãe atravessou a cozinha, se serviu de uma xícara de café e concluiu o raciocínio:

— Eu acho que ele estava disposto a te esquecer, minha filha. Por isso, queria que você interagisse com ele sem saber de seu estado. Dessa forma, você não o pouparia de dizer o que realmente pensava dele… Pobre Alfie…!

— E eu, mãe? Ninguém pensou no que eu acharia disso quando descobrisse? Ninguém se preocupou em saber o que eu acharia de ter perdido meu melhor amigo sem nem entender direito por que ele partiu?

— Annette – mamãe inspirou fundo – Eu acho que você já se preocupou com os seus próprios sentimentos mais do que qualquer um.

(…)

Naquela mesma noite, Drielly passou em casa para buscar suas bagagens. Disse que, em vez de passar suas férias conosco, iria para a casa de uma de suas primas, do outro lado da cidade. Mamãe não ousou perguntar a ela detalhes de sua decisão, apenas se despediu dela cordialmente.

(…)

= 2009 =

Já faz duas semanas que demos início ao novo ano letivo. O momento que eu tanto aguardava finalmente tinha chegado…

— Votem Kelly Baxter para presidente de classe!

— Elizabeth Truman, pela extensão de prazos no empréstimo de livros na biblioteca e pela reabertura da sala de ginástica olímpica!

— Olá, eu sou Benedict Harris, e minhas promessas se eleito são: uma tolerância maior no intervalo, para quem fizer uso da reprografia, uma comunicação direta com outras classes para alinharmos nossas propostas, bem como...

… o momento da completa recuperação da minha popularidade!

— Olá a todos, acredito que todos já me conhecem. Eu sou a Annette, fui presidente de classe no ano passado e retrasado e todos sabem que sou uma excelente representante dos interesses da classe estudantil, além de ser uma aluna excelente, o que é primordial para concorrer ao cargo, é lógico!…

— Então, acho que poucos aqui se lembram de mim, mas alguns de vocês estão me conhecendo agora, neste iniciozinho de ano, e se tornando amigos muito queridos. Eu agradeço imensamente a receptividade de todos! Além de ter minhas próprias ideias, como vocês podem conferir no folheto que entreguei a todos vocês (espero que vocês leiam com atenção e muito carinho), estou disposta a sentar com os demais e discutir quais ideias que não são minhas também podem ser aplicadas, pois acredito que todos aqui se esforçaram para enxergar pontos de melhoria, seja no funcionamento desta classe, seja no funcionamento da escola como um todo. Eu me chamo Drielly, mas vocês podem me chamar de Dri… Eu nunca concorri ao cargo de representante antes, mas sempre fui ativa, colaborando com ideias nas gestões de outros colegas e ajudando com qualquer coisa quando eles se viam sobrecarregados... Se vocês me derem uma chance, eu procurarei dar o meu melhor!

Revirei os olhos ao ver Drielly descer do púlpito posicionado diante da lousa e ir na direção das trezentas amigas que fez em apenas duas semanas.

— Você foi ótima! – bajulavam.

— Dizer que vai aceitar também executar as ideias dos demais foi uma cartada de mestre! Meu voto já é seu! – Daniel disse, levantando o polegar na direção dela.

Abri a boca, estarrecida.

— Eu não te conheço, mas você já tem o meu respeito! – disse outro menino.

— Eu vou votar na Kelly porque sei que ela é muito responsável, mas caso dê empate ou ela não tenha chances, vou mudar meu voto para você! – uma menina atravessou a sala toda para dizer isso.

— Seu discurso foi muito bom. Você mandou bem! – a própria Kelly falou isso.

— Espero que você ganhe!

— Estou torcendo pela Truman, mas se você ganhar também não vou achar ruim!

— Eu acho que temos ideias muito parecidas – disse o também candidato Harris – Acho que teremos muito o que conversar depois da sua vitória!

— Obrigada, gente. Obrigada – Drielly, aquela sonsa, se curvava em agradecimento a todos aqueles que lhe dirigiam algum elogio.

— Gente, com esse sucesso todo, eu acredito que não preciso nem perguntar quem será o novo representante de vocês! – o professor McAllister, que intermediava as discussões eleitorais, exclamou, muito surpreso e extasiado.

— Mas não aconteceram as votações por bilhete! – protestei.

— É verdade. Então, vamos fazer assim: eu falo o nome dos candidatos e vocês levantam as mãos, ok?

— Siiiiiiim! – a classe repetiu, empolgada.

— Muito bem. Vamos começar. Kelly Baxter!

Umas cinco pessoas levantaram as mãos. O professor conferiu os números e anotou na lousa, ao lado do nome dela.

— Elizabeth Truman!

Esta obteve um pouco mais de sucesso: sete votos.

— Sete – o professor repetiu em voz alta, enquanto anotava a quantidade de votos ao lado do segundo nome – O próximo é Benedict Harris!

Apenas duas pessoas levantaram a mão. Drielly inclusa.

— Dois! Pronto! Alguém mais? Ah, agora vamos para a Annie, nossa representante do ano passado!

Constrangido, o professor esperou alguém levantar a mão. Eu mesma olhei em volta e vi que ninguém nem esboçou reação. Ele deu de ombros e anotou “0” ao lado do meu nome. Nessa hora eu queria morrer, me esconder em um buraco.

— E-ehr…! Acho que só sobrou a “Drielly Dri”!

Naquele instante, mais de vinte e cinco mãos se levantaram. Drielly era a mais nova presidente de classe da minha turma.

(…)

Richelle não estava mais na mesma sala que eu, o que dei graças a Deus. Mas quanto mais o tempo passava, mais eu tinha vontade de perguntar a ela uma coisa que eu não conseguia tirar da cabeça. Teve um intervalo desses onde eu finalmente reuni coragem o suficiente para fazer isso:

— Ric, você ainda tem aquela foto do Alfie no dia do meu aniversário?

Ela olhou para mim como se estivesse tentando reconhecer alguém que não via há muito tempo. Sua resposta não foi aquilo que eu esperava:

— Não. Eu apaguei todas as fotos daquele dia.

Para sair a tempo de as lágrimas dos meus olhos não escorrerem, eu disse “entendi” rapidamente e me retirei, mais correndo do que caminhando.

(…)

Um dos fatos mais intrigantes que já me aconteceu na vida, e isso eu poderia falar para mil pessoas, todas elas duvidariam se pudessem me ouvir… a coisa se deu depois desse episódio com a Richelle, na verdade alguns dias depois. Tinha batido a campa para voltarmos às nossas salas depois do intervalo, e eu estava com muita pressa, porque estava no último dia de devolver um livro para a biblioteca. Quando as aulas terminassem, nenhum responsável mais estaria lá naquele dia pelo que eu ouvi dizer, por isso eu só tinha aquela oportunidade. Eu vinha andando pelos corredores na velocidade da luz quando colidi com uma pessoa. Pelo suéter, pela altura e pelo peitoral sem seios era um garoto. O livro, que já estava todo descolado na lateral, se espatifou no chão e eu, furiosa, gritei:

— Ai! Presta atenção, garoto!

— Foi você que veio na minha direção sem olhar por onde passava! – ele me respondeu, igualmente exaltado. Um copo descartável com água que ele tinha na mão esmagou contra a roupa, desperdiçando todo seu conteúdo e encharcando-o no peito.

Enquanto ele batia a frente do suéter para enxugar o excesso de água, olhei para ele e fiquei boquiaberta, estupefata. Sem brincadeira: o menino era a cara do Alfie. Não estou falando de alguém com penteado parecido, com traços físicos semelhantes. Eles eram idênticos. O moleque poderia facilmente se passar por um irmão gêmeo dele! A única diferença entre os dois é que esse cara parecia mais alto do que o Alfred (talvez porque eu tivesse perdido o hábito de vê-lo em pé), seus cabelos eram mais escuros e os olhos eram mais claros. Alfie tinha o cabelo de um loiro palha, quase castanho, e este tinha os cabelos de um castanho bem escuro. Meu amigo tinha os olhos castanhos, e esse garoto no qual esbarrei tinha os olhos azuis. De resto, não havia diferença entre eles.

Será que D. Melissa tinha outro filho?, essa foi a primeira ideia que me veio à mente. Impossível, ponderei. Eu só poderia estar ficando louca. Sem me dizer mais nada, o tal garoto deu meia volta e saiu andando. Nem se ofereceu para me ajudar. Eu queria reclamar com ele da avaria no livro, e do fato de eu ter que lidar com aquelas folhas para todo lado, mas a verdade é que eu não conseguia dizer uma palavra, tamanho meu deslumbramento. Ele desapareceu no corredor e só depois disso que eu consegui voltar a me mexer.

Comecei a fomentar teorias na minha cabeça: Alfie teria se operado? Tudo teria dado certo na sua cirurgia e teriam mentido sobre seu enterro só para eu ficar me martirizando? Adam teria bancado um tratamento para suas pernas, para ele reaparecer assim, inteiro, caminhando? Seus cabelos teriam sido pintados e seus olhos seriam lentes? Se minha mãe ocultou de mim que Alfie estava doente, não duvido nada que esconderia de mim um plano onde ele se recuperaria plenamente antes de me reencontrar. Mas isso não seria, tipo, crime? Mamãe, Adam e D. Melissa não meteriam a cara para fazer uma coisa dessas. D. Melissa não choraria por um filho que nunca morreu. Nesse caso, qual seria a explicação por trás daquela pessoa tão parecida com meu falecido amigo?

(…)

Mais alguns dias se passaram e eu tinha até me esquecido desse fato. Eu não tinha para quem contá-lo, na verdade, e aquilo que a gente não comunica a alguém, a tendência é jogar no fundo mais escuro de nossa lixeira mental. Foi o que aconteceu com esse encontro com o Alfie 2, foi assim que eu passei a chamá-lo. Descobri uma coisa interessante: o garoto não era um fantasma, e não, também não era o Alfie. Digo isto por um duplo motivo: ele interagia com outras pessoas, aliás com muitas delas, já que parecia liderar uma matilha de nerds. Introspectivo como estava em sua fase final, Alfie não daria conta nem de falar uma frase em voz alta. Aquele, a despeito de usar umas roupas idênticas às dele, bem como os mesmos óculos, era desenvolto e parecia falar de igual para igual com seus pares. Ele não tropeçava nas palavras e sua postura era altiva e confiante. Era outra pessoa, não restava a menor dúvida.

(…)

Porém, ao mesmo tempo em que eu queria acreditar que era racionalmente impossível todas as minhas teorias sobre a ressurreição do Alfie, esse garoto novo se revelava mais e mais idêntico a ele. A principal semelhança era a forma de se vestir, claro, essa foi a primeira coisa na qual eu bati os olhos. E a aparência física, conforme já disse antes. Mas não acabava aí: a forma de ele se comportar quando estava distraído me lembrava muito. Alfie tinha uma mania de juntar as mãos e contemplar algo, não propriamente o rosto da pessoa, enquanto ouvia o que ela estava falando. Esse menino também fazia isso. Alfie cerrava os olhos após cada frase concluída pela pessoa, quase como se a imaginasse por escrito após seu encerramento. Esse outro também era assim. Quando ele tinha dificuldade de entender o que a outra pessoa dizia, apoiava os lábios no indicador ou roía a ponta do polegar enquanto semicerrava os olhos e fitava os lábios da pessoa (acho que é hábito de míope isso). O Alfie 2 repetia esse mesmo processo sempre que alguém falava baixo demais. Fora outros milhares de trejeitos que eu levaria muito tempo listando, se fosse enumerar todos. Eu quase cheguei a pensar que o Alfie, se não fosse disléxico nem tivesse outros problemas de concentração, seria daquele modo.

(…)

Resolvi que um certo dia no refeitório eu chamaria a atenção dele. Se ele fosse mesmo o Alfie, não me seria indiferente. Porém, todos os amigos em volta dele babaram por minha causa, enquanto ele seguia alheio a toda investida, jogando Uno, ou sei lá que jogo de cartas era aquele. Um deles veio até falar comigo, achando que eu estava dando mole para ele. O desgraçado tinha meio metro de dente para fora da boca! Tem gente que não tem senso de ridículo mesmo! Levei um belo par de horas para me livrar daquele esquilo inconveniente, mas consegui.

Em outra oportunidade, andei de um lado para o outro perto deles. Sabe quando você mexe um cadarço em ziguezaque e o gato fica hipnotizado? Era assim que os garotos estavam a cada movimento meu. O Alfie 2, diferente de todos, cutucava um e outro para que este ou aquele jogasse logo.

— O que está acontecendo com vocês? – ele perguntou, irritado.

Até a voz dele era igual à do Alfie.

(…)

Após uma meia dúzia de encontros assim, eu resolvi chutar o balde. Sem maiores introduções, fui direto nele e disse:

— Eu quero falar com você!

E já cruzei os braços e fiz cara de emburrada para ele saber que eu não estava brincando. Os garotos cobriram a metade inferior dos seus rostos com as cartas que tinham na mão (é sério, eu não sei o que tinha de tão fascinante naquela porcaria, minha vontade era passar fogo em tudo). Acho que sorriam, pensando que o seu amigo “ia se dar bem”, aquela coisa de moleques.

— Fala. Estou ouvindo – Alfie 2 respondeu, sem nem olhar na minha cara. Com a unha do polegar entre os dentes, ele, concentrado, estudava sua próxima jogada.

— A sós – eu dava saltinhos de impaciência sobre meus pés, enquanto esperava ele se mexer.

— É sobre o quê?

— Se você não sair daí, não vai saber.

Ele se mexeu um pouco, incomodado. Ora, ora, Alfie 2 era um pouco curioso.

— Vá com ela, George. Deixa que a gente cuida disso daqui – sugeriu um de seus amigos.

Dito isto, ele concordou em me seguir.

— Eu já reparei que você tem rondado meu grupo há algum tempo. Você tem algum problema com a gente?

— Ele te chamou de “George”. O seu nome não é “Alfred”?

— Desculpe, eu não entendi. Isso é estranho, do que você está falando?

Expliquei a ele a história toda, quer dizer, ocultando as partes principais. Talvez eu tenha contado uns 5% da coisa toda.

— Deixa eu ver se eu entendi – o garoto usou aquele mesmo tom sarcástico e mordaz de Alfie em seus últimos momentos, era impressionante a semelhança entre eles! – Você me chama para vir aqui, me tirando do meio de um jogo onde eu estou ganhando, para falar que eu pareço com um cara que você conheceu e que morreu no fim do ano passado…

— Dá para parar de falar assim?

— … mas você deve mesmo pensar que uma garota como você abordar a gente é um acontecimento, não é?

— Não é nada disso! – gritei, enquanto ele se distanciava sem nem olhar para trás.

A coisa já seria estranha se tivesse parado por aí, mas espera eu contar o resto: eu nunca mais vi esse garoto.

Eu não estou falando que nunca mais tive oportunidades de me encontrar com ele, não é nada disso. Seus amigos continuavam na mesma roda de carteados, jogando seus joguinhos imbecis. Para não ter erro, eu até me dirigi ao mesmo garoto que o chamou de George e perguntei o que tinha acontecido com ele.

— Eu nunca mais vi aquele amigo de vocês, o George. O que aconteceu, ele se transferiu?

Os garotos se entreolharam e depois me encararam de volta como se eu fosse doida.

— A gente não tem nenhum amigo chamado George, não.

Para aumentar o tamanho da minha vergonha, eu o descrevi com riqueza de detalhes, não só para esses garotos, mas para cada uma das pessoas a quem eu vi o Alfie 2 se dirigindo. E qual não foi a minha surpresa quando todas elas me disseram o mesmo: que nunca houve George nenhum com aquelas descrições! Até falaram de um George, mas ele não tinha nada a ver com aquele menino que eu tinha visto!

— Annie, você está pálida. Você está bem? – Drielly se sentou ao meu lado. – Não quer me contar o que está acontecendo?

— Eu acho que estou ficando louca.

Não disse nada além disso. Drielly não era mais alguém com quem eu quisesse compartilhar qualquer coisa. Eu me desvencilhei dela e me mandei para longe.

(…)

Por muitos dias, andei por refeitórios, laboratórios, quadras e salas de aula, e não tornei a ver George em lugar algum. Quanto às pessoas, era como se elas estivessem fazendo troça de mim, combinando nunca terem visto uma pessoa que definitivamente existia sim. Fiquei desconfiada e me isolei de todas elas. Quando pensava em alguém a quem pudesse contar o que aconteceu, encontrava contrapontos na personalidade da pessoa e sempre meu veredicto final era: melhor não, não vou contar nada disso a ninguém. Atrelei tudo o que vi à depressão, estresse por estar sozinha, eu não sei, realmente não sei. Às vezes, eu ia para a beira daquele lago onde pedi tanto a Alfie que se matasse, e sempre que eu fazia isso, tinha que lutar contra a voz na minha cabeça que me dizia para eu fazer a mesma coisa.

Numa das visitas a este lugar, eu tirei meus sapatos e meias e estava estudando em qual dos lados da plataforma a água seria mais funda. Eu não estava objetivamente pensando em me matar, mas também não sei dizer o que estava querendo com aquilo. Era como se o meu corpo estivesse agindo sozinho e os meus olhos apenas vendo aquilo tudo sem poder fazer nada, inoperantes, apáticos e impotentes. De repente, sinto alguém segurar meu braço. Era a Drielly outra vez.

— O que você pensava que ia fazer?

— Nada de mais – tentei explicar, constrangida.

Mas não havia o que dizer para se desculpar, minha intenção parecia clara como água, com o perdão do trocadilho. Pior do que virar um balão disforme e putrefato depois de acharem seu corpo afogado após vários dias, é alguém te pegar em flagrante em plena tentativa de suicídio.

Acho que até para me distrair, Drielly começou a falar comigo sobre vários assuntos e um desses temas foi dizer que estava sobrecarregada como representante, e frustrada com a falta de iniciativa dos demais para realizar qualquer ação fora do comum. Ela queria promover a formação de um coral ou grupo de dança para uma apresentação no fim do ano, como todas as turmas iriam fazer, mas todos estavam dando suas desculpas sem efetivamente confirmar presença alguma.

Depois disso, entramos no assunto da sua mudança. Ela disse que estava maravilhada com seu novo quarto e me convidou a visitá-lo. Tomou o notebook de sua mochila, conectou o modem e me mostrou fotos dele primeiro na galeria, e em seguida nas suas redes sociais. Sua parede era forrada de pôsteres de anime, artistas pop e bandas de rock. Ela tinha vários garage kits numa estante de livros. Drielly também tinha um computador de mesa todo envelopado com o tema Sakura Card Captors, que durante todo nosso período de pouca interação virtual antes de ela voltar para cá, nunca escondeu amar. Eu me lembro que ela tinha uns dois álbuns dedicados a esse desenho no Orkut, com fotos que ela salvava do Google. O descanso para mouse, o próprio mouse e o teclado tinham as mesmas cores e temas.

— Ficou maravilhoso – elogiei.

O rumo da conversa mudou e foi para o seu namoro, e meu passado movimentado com vários namorados. Ela começou a sair com ele como amigo há cerca de dois anos, e há pouco mais de um ano começaram a namorar. Hoje, mesmo muito jovens, já tinham assumido um compromisso sério, semelhante a um noivado. Drielly e o namorado tinham planos para quatro, cinco, seis anos à frente. Eu fiquei impressionada com a sua maturidade e com sua dedicação na realização dos próprios sonhos.

— Nesta foto nós estávamos estudando – disse ela, envergonhada, passando às pressas uma foto onde não estava muito bonita.

Ao ver suas fotos com o namorado, eu disse que sentia um pouco de inveja do seu relacionamento.

— Deve ser legal esse negócio de sonhar juntos, e fazer as coisas juntos.

— Eu sempre achei que você namoraria com o Alfie. Agora que ele já não está mais entre a gente, acho que eu posso te contar um segredo: eu sempre tive uma quedinha por ele, mas ele só tinha olhos para você.

Acho que não consegui esconder a surpresa, pois ela rapidamente se explicou:

— Hoje, claro que eu considero meu namorado acima de todos os outros garotos! Mas eu também já tive meu período de amor não correspondido…

Na galeria do seu notebook, tinha um álbum cheinho de fotos de Alfie. Elas eram inéditas para mim.

— Eu saí pegando fotos do Alfie nas redes sociais de vários amigos em comum nossos. Achei que você fosse gostar de ter elas com você.

— A foto que eu mais gostaria de ter dele não está aí – eu me referi à foto do dia do meu aniversário.

— Como era? Eu posso procurar.

— Você não vai encontrar, porque ela não está no perfil de ninguém. Essa foto estava na câmera de uma ex-amiga minha que a deletou porque deixamos de nos falar.

— Que pena!

— Pois é.

Em um certo momento, apareceu uma foto de Alfie com D. Melissa.

— Vocês se encontraram depois daquilo? – ela me perguntou.

— Não. Minha mãe, respeitando a decisão dela, parou de procurá-la. Apenas a acompanha pelas redes sociais. Parece que ela está para ter o bebê.

— É, sim! Vai ser um menino. Ela já até escolheu o nome.

— Eu acho que já está na minha hora de ir.

— Você vai ficar bem?

— Já estou ótima – eu falei, calçando rapidamente meus sapatos sem me preocupar em colocar as meias antes.

— Você não quer ouvir… o nome do bebê?

Voltei-me para Drielly, impaciente.

— Ele se chamará George.

FIM

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.