Best Friends
2 Chapter One: Alfie
— Annette! Que saudade!
Esta é Drielly, minha ex melhor amiga. Digo "ex" porque passamos muito tempo sem nos ver, e amizade virtual não é a mesma coisa que você ter gente de carne e osso ao lado. Conheci pessoas novas, e eu não duvido que ela tenha tido os amigos dela também.
— Oi, Drielly.
Não vou me iludir achando que somos só ela e eu. Na verdade, eu nunca fui amiga de uma pessoa só. Nem ela. Drielly sempre foi cercada de pessoas. Conheço ela desde o primário, e ela já era assim. Não tinha medo nenhum de se enfiar no meio dos populares, e era muito benquista por eles. Ela também se metia no meio dos nerds e excluídos tranquilamente, e transitava entre esses dois mundos sem problema nenhum.
— Me empresta sua borracha?
Eu me lembro que fingi não tê-la ouvido, mesmo que na ocasião eu tenha olhado de canto de olho para ver quem era a pessoa falando comigo. Drielly tinha a aparência desleixada, era um tipo de garota não muito vaidosa, estava mais para um moleque. Não era alguém de quem eu gostaria de me aproximar. E eu odeio quem pode comprar as coisas e não traz para a aula.
— Ei! Você aí na frente! Não me ouviu? Pode me emprestar sua borracha, por favor? Eu perdi a minha!
Ela cismou em querer ser minha amiga e, como teve uma hora que ficou constrangedor ignorá-la, acabei cedendo.
— Olha, eu gostei da jardineira que você usou ontem! Pedi para minha mãe comprar uma igual!
Na verdade, nem sei como viramos amigas.
— Eu disse algo errado?
De um jeito que não consegui perceber, acabei me afeiçoando a ela. Talvez estivesse na moda ser inclusiva com pessoas estranhas. Ou talvez eu quisesse arrebatar para mim os amigos que Drielly conquistava. Uma vez, me surpreendi quando ela disse que as meninas achavam que eu era bonita, mas muito "inacessível". As pessoas não sabiam que podiam falar comigo, por isso não se aproximavam. Foi o que ela me contou, tempos depois. Ela chegou ao cúmulo de dizer que pensava que eu era uma garota solitária, por isso resolveu se aproximar.
Minhas roupas sempre novas e na moda eram realmente intimidadoras para um colégio que funcionava naquele bairro. Eu acho que eu fui a primeira garota da minha classe a usar saltos de quatro centímetros e maquiagem na primeira série. Ter os melhores cadernos, fichários, apontadores e até o melhor lápis de cor impunha algum respeito entre a molecada. Minha inteligência também somava pontos a meu favor, e era um consenso que todos na minha sala achavam que eu tinha uma beleza superior à das outras meninas. Quando o assunto era ser representante, eu surrava todas as outras concorrentes. Drielly nunca se interessou pelo cargo, mas eu confesso que meu sonho era competir com ela, para testar qual de nós duas era realmente a mais popular.
— E aí? Continua inteligente daquele jeito?
É estranho ter a Drielly ao meu lado agora quando, na verdade, quem eu queria ter do lado agora é justamente a pessoa que tirou ela de mim.
— E o Alfie, por que não veio com você?
— Deu tudo errado... eu fiz dar tudo errado.
— Não entendi. Não quer falar sobre isso?
— Drielly, eu... eu estou cansada. Vamos para casa?
Drielly vai aguardar a reforma de sua casa nova em outra cidade. Ela vai morar a duas quadras de mim e veio aqui exclusivamente para me visitar enquanto a construção não termina. Combinamos que ela vai aproveitar as férias para ficar na minha casa. Minha mãe a adora, e ela ficará mais feliz do que eu em revê-la.
— OIIIIIII, Sra. Janet!
— Chegaram tarde, meninas! Nossa, Drielly, como você cresceu!
— Que saudade. Trouxe presentes. Este foi minha mãe que mandou...
Acho que a minha mãe é mais mãe da Drielly do que minha.
— Anne, você não parece muito animada, apesar de eu estar aqui. Também não retornou minhas ligações e seus e-mails combinando minha hospedagem foram tão sucintos! O que aconteceu entre você e o Alfie? Vocês brigaram? Você pareceu aborrecida quando toquei no nome dele. Não venha me dizer que não, porque eu percebi.
— Drielly, eu não quero falar sobre isso aqui. Acho que todos estão preocupados comigo, esse assunto virou praticamente um tabu. Vamos dar uma volta? Tem uma lanchonete nova que podemos ir.
(...)
— Você está me deixando preocupada. Não vai me dizer que o Alfie... Uhhh! Garotos! O que ele fez com você? Eu já posso até imaginar, não me diga que ele se atreveu a--!
— Não, nada disso.
— Ok. Bom, mudando de assunto e não mudando de assunto, lembra quando eu, você e o Alfie nos conhecemos?
— Hah! Como eu ia esquecer?
— Ai, nossa, que cara é essa? Desse jeito, eu vou acabar parando de falar do Alfie, cada vez que eu toco no nome dele você fica de um jeito...!
— Vamos sentar naquela mesa perto da janela.
Enfim, estávamos ali, uma diante da outra, sem nenhum outro pretexto para me impedir de transmitir a terrível novidade. Baixei a cabeça, respirei fundo, mas as palavras não vinham. Um garçom se aproximou de nós, o que me ajudou por mais alguns minutos, mas foi só. Agora era a hora da verdade.
— Ele mentiu.
— Mentiu como? O que ele fez?
— Ele disse que ia estar sempre aqui para me proteger, que ia ficar do meu lado para sempre...
— Oi? Você está falando do Alfie? Ele nunca ia te deixar, só se ele morresse!
Eu, que já estava chorando, comecei a chorar mais ainda.
— Olha isso...! Ele me abandonou...!
— Calma, me conta isso direito. Ele conheceu alguma garota nova? Você nunca me disse nada sobre estarem juntos.
O dia em que eu e Alfie nos conhecemos... como eu poderia esquecer? Aliás, estas páginas serão dedicadas a nós... às nossas lembranças... Não é, Alfie?
— Faz oito anos que não venho aqui. Tudo parece igual, salvo a pintura das casas e alguns comércios novos que não tinha antes, como esta lanchonete. Eu gostei do ambiente. Vou estar sempre aqui – Drielly trocou de tema, percebendo meu incômodo.
— Oito anos? Achei que fosse menos, bem menos.
— Você é péssima com datas! Me estranha que fosse a melhor aluna da turma em História.
Drielly continuou tagarelando aleatoriedades, mas minha mente não estava mais com ela. Eu estava de volta ao passado.
— Trouxe refrigerante e canapés.
— Hunf! Obrigada – agradeci o garoto cujo nome nem lembro, de cara trancada para ele ir embora logo.
Vendo que ele ficou plantado na minha frente como se quisesse mais alguma coisa, tive que emendar essa:
— Não vejo a Drielly por aqui. Pode chamar ela para mim?
— Ah, ela está ali! Mas, olha, acho melhor nem interromper. Já faz um tempo que ela só vive com aquele quatro-olhos. Você ainda não tinha percebido, Ann?
— Mas era só o que faltava! – falei agressivamente, constatando que era verdade, minha melhor amiga estava aos risos com aquele garotinho estranho – Eu vou já acabar com isso!
— Oi, Annette! Eu queria mesmo te apresentar o Alfie, ele é bem legal e...
— Oi...
— "Oi", nada! Vai deixar minha melhor amiga em paz ou não?
A primeira coisa que eu tinha à mão, lancei nele. Esvaziei meu copo de refrigerante em seu rosto.
— Ann, por que fez isso? Tá maluca?
— E você, não converse com ninguém além de mim, entendeu?
— O quê, mas... e o menino?
Alfie ficou entre confuso e desesperado, olhando para seu suéter manchado da gola à barra.
— Eu... ah... uhhh. Como vou fazer para limpar isso?
Eu me lembro de como o fiz chorar. Só muito tempo depois eu saberia o significado daquelas lágrimas.
(...)
— Você sabe o que ele estava conversando comigo naquela hora que você apareceu, Anette?
— Não. O quê?
— Ele me dizia que tinha gostado de você. Queria ser apresentado a você. Queria que eu intermediasse uma declaração de amor. Mas... bem, eu achei que você deveria saber disso espontaneamente. Você nunca soube, não é? Eu quase pensei em atender o desejo dele, mas eu sabia quem você era naquele tempo. Que diferença ia fazer também, né? Você vivia me dizendo que gostava do Kurt. Aliás, se eu te conheço, você deve continuar gostando dele. Alfie nunca teve espaço no seu coração. Você não deveria ficar com raiva dele, se ele arranjou outra menina agora.
"Espaço?"
(...)
— Chorando no colégio? Escuta o que eu estou te dizendo, esse teu filho vai ser um baita de um mariquinha!
É aquele moleque? O que ele faz aqui?
— Ah, querido, não ligue para o seu pai. Ele só está nervoso.
Será que ele me denunciou? Como ele ia saber onde eu moro?
— Ei, mulher! Manda esse inútil do teu filho ajudar a carregar as caixas, que eu não vou fazer isso sozinho!
Eles devem estar se mudando. Que droga, eu não vou mais poder sair de casa que aquele menino vai me reconhecer!
Quando dei por mim, a situação ficou pior do que tudo o que eu tinha imaginado. Minha mãe acabava de receber em nossa sala a mãe daquele moleque.
— Uau, você está maravilhosa!
— Ah, e você então? Anne, venha conhecer Melissa! Você não vai acreditar! Eu não a vejo desde o término do colegial! Fico tão feliz que seremos vizinhas de novo!
Minha mãe conhece a mãe dele??? Que azar!!
— Esta é a minha filha, Annette. Annette, cumprimente seu novo amiguinho.
— Que linda, e alta... Quando crescer mais um pouco, poderá ser manequim – disse a mãe do Alfie, assanhando meus cabelos. Fiquei com uma raiva disso!
Alfred, em silêncio, com os olhos ainda vermelhos, escaneava meu rosto, me reconhecendo. Ele se escondeu atrás da mãe, mas ela o tomou pelo ombro e o conduziu na minha direção.
— Bom, este rapazinho aqui é meu filho, Alfred.
— Ah, que pena. Ele é tão novinho e já usa óculos de grau – minha mãe observou – Mas não deixa de ser uma gracinha.
— Ah, sabe como é, ele vivia dando topada por aí, aí quando fomos ver o que ele tinha, adivinhe: miopia e astigmatismo! Você não vai acreditar no grau desses óculos! Até o oftalmologista ficou surpreso!
— Mas, e então, o que aconteceu com ele? Eu me lembro que você casou logo depois que saiu do colégio, por causa da gravidez. Era para ele estar maiorzinho...
— Ah, Janet, você nem sabe...! Luigi entrou para o Exército, e aí... Alfie é meu filho mais novo.
A mãe do Alfie começou a chorar nos braços da minha mãe e eu fiquei sem entender nada.
— Annette, vá pegar um copo com água para Melissa.
— Sim, mamãe.
Naquela época, eu não conhecia a dor de perder uma pessoa amada.
— Eu estou bem, não se preocupe. Já faz dois anos...! Bom, de qualquer maneira, fico contente em saber que Alfie agora tem uma amiguinha da mesma idade.
Alfie baixou os olhos e mordeu os lábios. Fiz uma cara bem brava, para que ele ficasse com medo de me delatar. De qualquer maneira, eu dependia do silêncio dele para não ser castigada, então ia ter que ser boazinha.
— Eu gostaria de te atualizar sobre as últimas coisas que andaram acontecendo. Mas sabe como é, conversa de adultos, e as crianças aqui...
— Alfie, não quer levar a Annette para ver o nosso sótão?
— Eu ia dizer que tenho um videogame.
— Eu vou morar aqui na casa ao lado, não tem perigo nenhum!
— Bom, então se é assim...
Tentei fugir dessa furada, mas não deu:
— Eu aposto que Annette vai adorar o novo esconderijo do Alfie!
— Mas...!
— Ann, vá lá com ele. Não seja indelicada. Mamãe e a amiga dela precisam conversar sobre muitas coisas.
— Ouch! Ok...
Saco!!
— E... então...vamos... Ann...
Alfie sorria, tentando desesperadamente parecer simpático.
— Eu querendo estudar e a mamãe me encarregando do bebezão, que não sabe andar sozinho! Tem alguma coisa interessante na sua casa, pelo menos?
A pequena mão de Alfie tremia e suava só de estar segurando a minha. Ao longe, eu continuava a escutar minha mãe e a nossa mais nova vizinha conversando.
— Mas, e você, só tem ela de filha?
— Que nada, tenho também um rapaz, o Joshua. Ah, mas ele já me deu tanto aborrecimento... Engravidou uma menina, está morando com ela na casa dos pais. Parou de estudar para sustentar o filho. Dezesseis anos, já pensou?
E a mamãe saiu desenrolando a mesma reclamação que faz para cada pessoa nova que conhece. Não que ela já não conhecesse essa daí, mas você me entendeu.
— O seu pai não está em casa? O que ele faz? — Alfie me perguntou.
— Sei lá. Mamãe se separou dele, por isso veio para cá. Isso já faz tempo, ele me visita de vez em quando. Mas por que você quer saber disso? Não tenta ficar íntimo, não. Eu não gosto de você. Na escola, estão dizendo que você levanta a saia da Drielly para ver o que tem embaixo.
— Mas a Drielly não usa saia, é mentira!
— Não importa, não fale comigo. Eu só vim porque mamãe e a amiga dela querem privacidade para conversar.
— "Pivracidade", o que é isso?
— Privacidade, retardado! Isso quer dizer que a gente não tem que ficar lá em cima escutando o que elas estão dizendo!
— Ah... entendi. Você também sabe ser gentil.
— Cala a boca!
— Veja, achei uma coisa!
— Eu já não te mandei calar a boca? Que merda!
— É que eu achei que fosse servir em você.
Ele pegou minha mão, mesmo sem eu consentir, e colocou um anel no meu dedo médio.
— É um anel! Uau, que lindo! Acho que é "de verdade". Me dá?
Sem me responder, ele tomou minha mão de novo e arrancou o anel dela.
— Ei! Por que fez isso?
— Ele ficou grande, não ficou? Eu acho melhor dar para a mamãe.
— Nada disso – abri seus dedos que cercavam o objeto na marra – Dado é dado! Vou guardar para quando eu estiver maior!
Ficamos em silêncio por algum tempo, enquanto eu esperava que a tensão esvanecesse milagrosamente sem eu precisar dizer uma palavra. Alfie se antecipou:
— E agora? Somos amigos?
— Só um pouquinho.
(...)
— O anel é este – eu o mostrei a Drielly, que o fitou, curiosa.
— É lindo mesmo.
— É... mas, ao contrário do que ele esperava, este presente não foi suficiente para suavizar as coisas entre nós.
(...)
Essa situação toda... isso tudo carrega uma ironia absurda. Eu me lembro de um dia em que eu e minhas amigas discutíamos um filme que não teve o final muito feliz.
— ... e aí o par romântico dele morreu. A menina, no caso.
— Puxa, eu achei que ela fosse ficar com ele depois daquilo tudo, que triste!
— Amar alguém deve ser complicado. Se eu amo alguém hoje e essa pessoa morrer amanhã, como eu fico?
— Calma, Sabina. É só um filme bobo.
Alfie se intrometeu, estufando o peito com vaidade:
— Ah, meninas! Eu não deixaria uma separação dessas barato! Se eu morresse, eu ia atentar Deus até ele me devolver de novo! Além do mais, morrer pode não ser tão ruim assim! E se a pessoa for para um paraíso de verdade, onde as nuvens sejam feitas de algodão doce? Eu ia querer muito ir para lá! E se o garoto, depois que o filme acabou, morreu num desastre e encontrou a garota lá do outro lado? Hein? O filme foi só o que a gente assistiu, mas pode ter mais coisa!
— Claro que não pode – retruquei – O filme acaba quando param de gravar. Não tem história depois disso!
— Tem sim!
— Claro que não tem, pergunte a qualquer cineasta! Moleque burro!
— Ah, meninos, não briguem – atalhou Sabina – Ia ser mesmo um bom final, Alfie.
Primeiro a Drielly, depois minhas outras amigas, pensei. Esse moleque idiota está tirando de mim todo mundo que fala comigo!
— Vamos tomar um refrigerante juntos?
— Vamos, Sasá. Eu quero refrigerante!
Alfie era muito carismático. Incrível isso, porque a meu ver ele não tinha nada de interessante. Ele tirava nota vermelha em todas as matérias, tinha um pai alcoólatra e uma mãe evangélica... Mal dava para acreditar, mas ele era filho de um sargento aposentado. Ele parecia mais um comediante do que alguém que ia, de fato, seguir carreira militar. Ah, e ele era aquele tipo que eu odeio: ele não levava nada na bolsa, praticamente tudo ele pegava emprestado dos outros. Bom, pelo menos para isso eu encontrei explicação: Alfred era sempre saqueado pelos alunos maiores. Teve uma vez que ele apanhou tanto que se mijou.
— Seu bebezão! Fica molhando as calças na frente de todo mundo!
Mas para o fato de ele ser cercado por todas as crianças,
— Aí aconteceu que eu... do que eu estava falando mesmo? Eu não me lembro...
eu nunca encontrei explicação. Para qualquer pessoa que tivesse meio grama de cérebro, ele era um perdedor.
— Que idiota.
Sem que eu me desse conta, ele passou a ser meu único amigo.
— Agora, troque as fraldas do bebê, porque eu vou ao salão de beleza!
Simulando que uma sacola plástica era uma fralda, Alfie "vestiu" nosso filho. Uma boneca, no caso.
— Pronto! Nosso bebê está novinho em folha.
— Agora, se arruma e vai para o trabalho enquanto eu tomo conta do bebê.
— Tá...
Reclinando-se na minha direção, Alfie me deu um beijo no rosto.
— Ei! Espere aí! Por que fez isso??
— Estou dando o beijo de despedida na minha esposa antes de ir para o trabalho, Ann.
— Mas nós nem somos casados!
— Ah! Mas nós podemos resolver isso! Cadê aquele anel que eu te dei?
— Ele está aqui no meu bolso, porque mamãe não pode ver ele no meio das minhas coisas.
— Me dê ele. Nós vamos nos casar.
— Mas é só casamento de mentirinha, viu? E nada de beijo de verdade!
— Eu, Alfred, te recebo Annette como minha legítima esposa e te prometo ser fiel...
Acho que, se fosse hoje, eu preferiria ganhar um beijo de verdade dele. Mas, naquele dia, Alfie me beijou apenas na mão.
— Agora, vamos estar juntos para sempre!
Bom, promessas de criança nem chegam a ser promessas. E eu nem prometi nada. Mas nós fomos crescendo...
— Quer dizer que a Drielly vai embora?
— Aham. O pai dela mudou de emprego
...e ficando sozinhos.
— Que pena, Alfie. Agora, eu só tenho você.
— Mas eu não sou a Drielly. Eu nunca vou embora. Eu sempre vou estar aqui... pertinho de você.
Depois de dizer isso, Alfie me abraçou. Não conseguia entender o porquê, mas sentia que ele estava chorando. Devia ser porque Drielly, antes de mim, era sua melhor amiga. Pelo menos, foi isso que pensei na época.
Acho que foi a partir daí que comecei a ter esses sonhos com ele.
"Você cresceu, Alfie. Está bem mais alto do que eu."
O engraçado desses meus sonhos é que ele sempre aparecia sem óculos, mas ele não tirou os óculos de verdade quando cresceu.
"Eu vou estar sempre aqui... pertinho de você... eu nunca vou te abandonar... eu te amo."
Na primeira vez que isso aconteceu, acordei muito embaraçada, pensando que aquilo não era um sonho apropriado para uma menina. No dia seguinte, quando encontrei Alfie de novo, ele estava pequenininho e usava óculos.
— Oi.
Eu não quis nem saber de falar com ele.
— Sai daqui, seu indecente!
— Ann, espera! O que foi que eu fiz?
— Cale a boca! Nunca mais fale comigo!
— Annie!! O que é "incedente"?
— Se diz "indecente", seu burro! E esse seu anel idiota... você pode pegar ele de volta!
O anel de pedra vermelha caiu aos pés de Alfred, que se abaixou velozmente para tomar ele de volta e me entregar. Bati na mão dele, derrubando o anel outra vez.
— Annie, eu não estou entendendo...!!
Alfie ficou tão mal que amanheceu doente. Dei imediatamente pela falta dele na escola, mas só vim saber disso quando cheguei em casa.
— Seu amigo está doente, você não vai visitar ele?
— Alfie não é meu amigo.
Mas acabei indo mesmo assim.
— ANN!!
Quando ele me viu, até esqueceu de que estava doente.
— Ann, eu descobri uma coisa.
— O que é?
— Tinha algo escrito no anel esse tempo todo, e a gente nunca viu.
— Verdade?
— É o nome da menina que morava na minha casa antes de a gente chegar aqui. Antes de a antiga dona chegar também! É um anel muito, muito antigo! Ela era da filha dos donos, e eles saíram daqui depois que ela morreu. Foi o que mamãe descobriu com aquela velha que mora lá na casa da ponta da rua, durante uma visita.
Lilith... eu me lembro... A partir dali, como eu peguei o anel de volta, ele só me chamaria por esse nome.
— Do que ela morreu?
Alfie demorou a responder, como se lhe custasse dizer a palavra. Após dar de ombros umas duas vezes, disse em voz baixa, como quem confessa um segredo muito sombrio:
— Foi de câncer.
Câncer. Não seria a única vez que eu ouviria essa palavra.
Enfim, crescemos. E, como nos sonhos, Alfie ficou bem mais alto do que eu.
— Alfie. Você está caladão, e olha que passou um bom tempo sumido.
Mas continuou tímido e desajeitado como sempre.
— O que você e sua mãe foram fazer na capital todo esse tempo, afinal? O seu pai não tem mais implicado com você. Sua família está toda esquisita. O que houve?
— Lilith...
— Aieeeeh! Já te disse que não gosto de ser chamada assim!
— ... me disseram que você está namorando o Walt.
— Ah é, estou – respondi, sorridente, achando que não tinha problema nenhum confessar algo que eu estava mesmo fazendo.
— Como aconteceu?
— Ah, foi desde aquele dia do baile... Ah, lembrei que você não foi. Enfim, teve um baile, e ele me convidou para ir com ele... aí eu não sei, mas acabou rolando um beijo. Desde aí, a gente tem saído.
— Ah...legal. E você gosta dele?
— Gosto. Mas ele tem vindo com uma conversa estranha. Estou com medo.
— Ele brigou com você?
— Não. Ele quer... transar comigo.
— Ah...
Alfie ficou visivelmente atordoado naquele momento...
— O que foi, Alfie?
...mas eu nunca tinha pensado no porquê. Na verdade, lendo as cartas de amor que Alfie me escreveu e foi guardando ao longo de todos aqueles anos de devoção, e que me foram, finalmente, entregues pela mãe dele, eu pude parar para refletir melhor sobre cada minuto da grande farsa que nós vivemos aquele tempo todo.
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