Best Friends
9 Chapter Eight: The Trail
Semanas se passaram, e uma excursão que há muito ansiávamos finalmente chegou. O itinerário era simples e consistia em passar por alguns monumentos, fazer uma trilha na mata, dar umas voltas de ônibus, tirar umas fotos e visitar um museu de história natural. Correção: para uma pessoa comum isso era um trajeto razoável, mas para Alfie era impossível. Fiquei esperançosa de que a compra do uniforme especial para este dia fosse fazer D. Melissa esmorecer em permitir que o filho dela fosse, já que o agasalho, a camisa e a calça custavam o olho da cara. Isso não foi problema: o namorado dela desembolsou o que faltava e Alfie foi deixado a caráter na minha porta.
Sorri forçada, mas qualquer um que olhasse mais atentamente para a minha cara perceberia o descontentamento. De alguma forma, minha convivência com as garotas voltou a ser a mesmíssima coisa de antes, e essa amizade com elas não dava brechas para a convivência com alguém como Alfie.
— Ah, ele vai, é? — Munich se manifestou primeiro, logo que o viu, revirando os olhos e dando as costas para a gente, fingindo que ia falar com Richelle e as outras.
Como eu conduzia a cadeira de rodas de Alfie, não consegui avaliar sua expressão, mas aquele silêncio dele mostrava que ele não estava nem um pouco feliz.
— Vai ser divertido – tentei animá-lo.
— Eu não acho – ele respondeu – Eu só vou estragar o passeio de todo mundo.
— Não é verdade, Alfie – e minha voz tinha a oscilação própria de quem pensava exatamente o oposto.
— Eu consigo ver na cara de cada um aqui que é exatamente isso que estão pensando. Sabe, Lilith? — esse apelido tocado assim de repente me deu um susto, ele nunca mais havia me chamado assim – Quando você está no lugar de alguém como eu, começa a perceber o quanto incomoda as pessoas me ter por perto. Elas todas ficam olhando para mim com essa cara de quem está pensando “eu achei que ele não vinha, o que eu faço agora?”
Sem saber o que responder, continuei conduzindo sua cadeira para perto dos outros. Esperamos alguns minutos pelo ônibus, e, quando ele veio, tivemos mais uma frustração: ele não era adaptado. Agora fazia sentido aquela cara que todo mundo fez quando viu o Alfie. Um dos monitores, solícito, deu a ideia de tentarem, em três ou quatro pessoas, carregar Alfie para dentro, mas a porta era estreita e a escada muito íngreme. Os vidros da cabine do motorista atrapalhavam a operação, e logo desistiram da ideia. Jasmine, uma das meninas, foi quem deu a seguinte ideia:
— Podem levar primeiro a cadeira e depois ele, não é?
Os garotos, que já estavam esperançosos de não ter que ajudar, bufaram, e eu não pude deixar de notar que Alfie percebeu isso. Mas, pressionados por um professor que tomou a frente pedindo ajuda, eles não tiveram como recuar. Assim, Alfie foi tirado de sua cadeira de rodas, sentado em uma cadeira comum enquanto sua cadeira era encolhida para passar pelo estreito corredor do ônibus escolar. A equipe multidisciplinar não sabia onde enfiar a cara de tanto vexame por aquela situação. Os alunos das cadeiras de trás tiveram que se sentar logo, porque, depois que Alfie se sentasse em sua cadeira, ninguém mais ia conseguir passar para a frente.
— Deu para abrir a cadeira dele? — uma das coordenadoras à frente da atividade perguntou para os alunos que carregaram a cadeira de Alfie.
— Deu! — eles responderam.
Nessa hora, todos respiraram aliviados. Em seguida, Alfie foi carregado por dois marmanjos que já tinham dito horrores a meu respeito, e eu ainda tive que dizer um meigo “obrigada” quando eles acabaram. Que ódio dessa situação toda! Mas o suplício e o constrangimento de Alfie não acabaram aí. Uns dois adultos diferentes começaram a meter aquele blá-blá-blá de respeitar as diferenças e as “incapacidades” — sim, eu juro, usaram mesmo essa palavra – das pessoas que carregavam alguma limitação física. Como só tinha Alfie de deficiente ali, tava na cara que estavam falando dele.
— A gente já aceita as diferenças sim, professora, o Bob não tem do que reclamar! — disse um estudante do fundão, dando um tapa na nuca do colega ao seu lado.
Robert Summers era um garoto que havia se assumido gay recentemente.
— Silêncio! Prosseguindo – e ela continuou matraqueando por mais meia hora sobre como deveríamos ser solidários e atenciosos com Alfie.
Se eles se preocupassem mesmo com isso, teriam providenciado um veículo adequado para ele, não? Quanta hipocrisia.
O ônibus seguiu alguns minutos atrasado e um dos coordenadores por trás da excursão comunicava isso ao celular, pedindo desculpas antecipadas pelo problema, olhando para Alfie e dizendo que aconteceu um “imprevisto”. Essa viagem prometia ser desagradável para Alfie em todos os aspectos. E de fato foi, mas não mais do que seria para mim.
(…)
Enquanto trafegávamos por uma estrada isolada que cortava mata adentro uma das maiores reservas naturais que eu já vi na vida, os colegas e eu apontávamos, deslumbrados, os monumentos que víamos ao longe, no meio do nada. Uma chuva fina atrapalhou um pouco a visualização das coisas e nos obrigou a fechar as janelas, mas isso não comprometeu o entrosamento e brincadeira entre todos os colegas. Eu e as meninas, nem parecíamos que tínhamos brigado algum dia na vida. Salvo os comentários ácidos que faziam sobre meu amigo, viajar ao lado delas novamente estava sendo muito agradável. Alfie não parecia fazer parte da empolgação geral. Ele jogava um joguinho de mão muito barulhento que vez por outra alguém dizia para ele abaixar o volume e, devido aos protestos, ele teve o objeto confiscado pela monitora-chefe e entregue à professora. Ele não estava minimamente empenhado em falar com ninguém também, e da mesma forma todos pareciam ignorá-lo. Meus braços estavam doendo de tanto segurar a cadeira dele, que corria de um lado para o outro a viagem toda e ele não parecia ligar a mínima para isso. A explicação veio a galope quando descemos do ônibus (ele, obviamente, carregado) e eu o questionei a respeito:
— Naquela hora que passamos por aquele desfiladeiro, torci para que o ônibus derrapasse para o lado.
Tive vontade de perguntar se sua vontade de morrer era tão grande a ponto de não se importar com os colegas ou mesmo comigo, mas temi ouvir a resposta, por isso sufoquei o questionamento.
— Alguém me ajuda aqui – pedi, exaurida, quando vi que o caminho de terra e seixo que desviava da estrada principal para a pousada onde almoçaríamos e repousaríamos não ia facilitar o trajeto de Alfie até lá, pois, mal tentei dar dois passos com ele, as rodas da cadeira imediatamente atolaram.
Um monitor e um professor, ao verem que ninguém foi ajudar, foram eles mesmos fazer o trabalho extenuante de transportar o deficiente da turma dali até a entrada do estabelecimento. Alfie foi carregado por uns vinte e cinco metros, arrancando comentários ora grosseiros, ora falsamente piedosos, de acordo com a boca de quem os falava. Quando conseguiram passar com ele para dentro, outro problema: uma dona que estava passando pano no chão teve todos os estudantes que meteram o pé no barro para reclamar da sujeira, mas descontou sua raiva justamente nele:
— Ah, não acredito, olha como está isso! — apontou, falando com o seu superior, sobre os dez centímetros de terra impregnados nas rodas da cadeira de Alfie.
O homem deu de ombros e disse simplesmente:
— Limpe essa sujeira.
Alfie não prestou muita atenção nessa conversa deles dois e quis avançar, ao que a mulher gritou grosseiramente para ele:
— Você não! Fique aí!
E, com uma mangueira, ela enxaguou as rodas de sua cadeira até tirar toda a terra delas, mas não tomou o cuidado de evitar molhar seus sapatos novos. Bastava olhar para o rosto de Alfie para perceber que aquele passeio já estava acabado para ele há muito tempo. Vê-lo com aquela carinha me lembrou da mesma expressão que ele fez para mim segundos antes do acidente. Tapei meus ouvidos, ao me lembrar das gargalhadas sarcásticas que dei antes de sabê-lo deitado no asfalto, esmagado sob as rodas traseiras de um carro. Tudo o que ele estava passando ali era resultado direto das minhas ações, e não havia possibilidade de ele me perdoar por isso. E eu via nele que cada dificuldade por que ele passava, cada enfado que demonstravam com sua presença por causa dessa deficiência, seu ódio por mim só aumentava. Não havia a menor possibilidade de sermos os mesmos de antes, e esse passeio só serviria para afirmar isso definitivamente.
(…)
Como saímos cedo demais de casa para esse passeio, ainda não tínhamos tomado café. Atracar por aquelas bandas já era a deixa para fazermos nossa refeição por lá mesmo. Como Alfie foi maltratado pelos funcionários do local, ele se recusou a comer tudo o que lhe ofereciam. Os colegas começaram a espalhar que ele estava sem dinheiro, por isso não estava tomando café como os outros.
— Ele só não gostou da forma que foi tratado logo que chegou, por isso não quer comer – eu disse, achando que ia esclarecer alguma coisa.
— Garoto idiota – Richelle comentou – Agora vai ficar com raiva da comida?
— Ele agora deve estar com bastante dinheiro mesmo, afinal a mãe dele tá dormindo com um ricaço! — disse um dos moleques, que ia falar mais alguma coisa mas não teve tempo, pois num segundo sua cara ficou ensopada de suco de laranja.
Era Alfie, que tinha pegado o copo de uma das meninas e atirado o líquido em seu rosto. Isso arrancou do garoto grande reação:
— Seu retardado manco! Por que não morre de uma vez? Todo mundo aqui sabe que a vadia da sua mãe está dormindo com aquele velho para pagar seu tratamento, porque você é um inútil que só sabe dar prejuízo!
— Eu não vou deixar você falar da minha mãe desse jeito! Fale de mim o que quiser, mas não fale mal dela!
— E eu estou mentindo? Olha aí o Alfie, todo de roupa nova, sapatinho novo! Quem você acha que está bancando isso, seu paspalho?
Alfred ia retrucar alguma coisa, mas eu tomei as rédeas de sua cadeira e o arranquei dali, porque o cara começou a atirar fatias de pão nele e a gritar um monte de palavrões, lembrando mais uma vez a turma toda de que meu amigo gostava de mim, mas jamais seria correspondido. Ele também o chamou de lixo e ressuscitou um assunto que deixou todos chocados, eu inclusive: garantiu que aquele homem que cuidou de Alfie por um tempo abusou sexualmente dele. Nessa hora, os professores trabalharam rapidamente no intuito de abafar o assunto, e a solução foi todos me incentivarem a sair logo dali com ele.
— Todo mundo sabe que esse daí já virou florzinha faz tempo! – foi a última coisa que eu escutei o cara dizer antes de dobrar o corredor com Alfie.
Minhas pernas estavam bambas, eu não sabia nem o que dizer. Acho que eu estava para desmaiar. Uma funcionária da pousada passou por mim, curiosa, e depois foi olhar o que estava acontecendo na mesa principal. Lá, os estudantes agitados explicavam quem começou o quê.
— E ele me atacou de repente – o mesmo garoto se justificou.
Eu estava longe o bastante para não conseguir escutar quase ninguém, mas a voz desse cara era estridente e irritante, e se destacava perto das demais.
— Alfie, pelo amor de Deus – minha voz, como meu corpo todo, tremia – Do que esse cara está falando?
— Eu não quero falar sobre isso – foi sua resposta, pronta e seca, sem chance de réplica.
— Isso aconteceu mesmo? Foi por isso que sua mãe deixou eu cuidar de você? Mas é claro…! Ela jamais faria isso se tivesse outra alternativa…!
Eu monologuei por mais algum tempo tentando arrancar explicações de Alfie, sem conseguir. Num certo momento, ele me interrompeu bruscamente com um “Saia daqui, me deixe em paz!”, dito de uma forma tão agressiva que eu não tive escolha a não ser obedecer. Quando voltei ao encontro dos outros, totalmente cabisbaixa e constrangida por ter levado bronca, notei que todos fizeram silêncio.
— E então, vamos continuar aquilo que estávamos discutindo? — uma monitora indagou alegremente, tentando tirar o clima pesado.
— Do que estão falando? — perguntei.
— Estão decidindo a divisão dos quartos! Vem para cá, Annie! — disse Susanna, me puxando pela mão e me colocando sentada ao seu lado.
— Eles vão mesmo continuar fingindo que nada aconteceu? — perguntei, para ninguém em específico.
— Não começa – Richelle me repreendeu, e eu fiquei envergonhada de retomar a polêmica, também.
Os coordenadores discutiram aleatoriedades e pormenores sobre meninas não poderem ficar perto de meninos, não poderem consumir bebidas alcoólicas, o de praxe, aí eu me dei conta de mais uma coisa: os quartos de baixo estavam todos ocupados e o lugar não parecia ter elevadores.
— Eu e Alfie precisaremos de um quarto na parte de baixo – observei, levantando a mão.
— Você e ele? Você não tem nada a ver com aquele perdedor – Munich me interrompeu, revirando os olhos – Aqui não tem sua mãezinha para te forçar a cuidar dele, dá um tempo! E eu já separei um quarto para mim, você, Richelle e Susanna lá em cima!
— Essa excursão é para a gente se divertir, não para você servir de babá para ninguém! — Richelle me sobraçou pelos ombros – Estamos esperando isso desde o início do ano, e nada vai nos atrapalhar!
— E você também precisa descansar, não veio aqui para se aborrecer – acrescentou Susanna.
— Vocês estão certas, mas Alfie continua precisando de um quarto na parte de baixo. Alô – aumentei a voz e estalei os dedos, e percebi que todas as meninas esconderam o rosto, contrariadas, bufando e fazendo caretas de reprovação – quem está nos quartos de baixo? Alfie vai precisar dormir num deles, porque é lógico que não vai conseguir subir as escadas!
Mais uma vez, notei que a equipe de monitoria e coordenação ficou perdida: eles não tinham considerado a presença de Alfie em nenhum momento!
— Vocês não garantiram que todos os alunos já estavam aqui? — uma das coordenadoras esbravejou, como se não fosse da alçada dela lembrar que a turma tinha um portador de necessidades especiais.
Um a um dos estudantes saiu dando suas desculpas para não ceder seus quartos. Uns, porque não queriam que seus amigos fossem separados de si, mas a grande maioria porque não queria ter que ficar vigiando Alfie mesmo.
— Anda, anda, anda! Temos que decidir isso logo, ou o cronograma vai atrasar! Decidam-se logo quem vai sacrificar sua vaga!
Olha os termos que a pessoa usa!
— Tudo bem, pode ser o meu quarto. Eu vou me virar com uns travesseiros e com o saco de dormir, que eu trouxe, graças a Deus – disse Evans, um dos garotos – Clark, Robin, eu vou dormir com vocês!
— De boa, cara.
— Muito bem! Agora, cada um pegue suas chaves, agasalhe suas coisas e vista-se com uma roupa confortável! Em dez minutos, quero todos na entrada, sem desculpas! Vão!
Entreguei minha mala de mão para as meninas levarem. Eu usava um casaco grosso e uma calça de moletom que eu julgava adequada para o passeio na trilha, que parecia ser o início da programação para aquele dia, por isso não me preocupei em trocar de roupa. Fui até Alfie, que estava de cabeça baixa, sozinho, recostado à parede do corredor onde eu o deixei. Ele estava numa posição estranha, curvo sobre si mesmo, agarrando os cotovelos de uma forma voraz, arranhando-os. Alfie arqueava os ombros em um e outro momento e, ao que me pareceu, ele estava chorando. Sua respiração afogada dava indícios de ser isso mesmo. Porém, quando ele se virou para mim, estava sorrindo, mas eu notei que não era um sorriso de verdade. Era aquele trejeito amargo e insano que sempre antecedia um de seus ataques de fúria.
— Alfie…você não vai querer ir?
É claro que era uma pergunta estúpida: como um cadeirante iria para uma trilha no meio da floresta? Mas, na hora, eu nem pensei a respeito.
— … no início do ano, a gente não falava de outra coisa, não é?
Franzi o cenho, lutando para entender a que ele se referia.
— Essa excursão, eu me lembro que falava muito de querer ir nela. Quando soube que ia ter uma viagem programada para este ano, fiquei muito feliz! Antes “daquilo” — ele com certeza falava do acidente – meu calendário tinha os dias contados para quando essa excursão chegasse…mas agora...
— Alfie... – tentei abraçá-lo, mas ele fez um gesto para me repelir.
— Vá lá, Annie… vá fazer a sua trilha.
— Você não pode ficar aqui sozinho, deixa eu ficar com você!
— Para quê? Para ficar pensando depois nas coisas que deixou de ver? Vai ter um monte de coisas para você tirar foto e postar no seu blog de fotografia! Aqui não tem nada que possa te…te...
Ele se enrolou com a conjugação do verbo “interessar”, por isso não continuou a frase.
— Eu não vou ficar em paz sabendo que te deixei aqui, sem ninguém!
— Eu não vou ficar sem ninguém, eles com certeza vão separar alguém para cuidar de mim.
— Mesmo assim…
— A pior coisa que você pode fazer é sentir pena de mim. Faça logo o que quer fazer!
Ao longe, as meninas começaram a me chamar:
— Ô Annie!
— Annieeee! Cadê você?!
— Anda, estamos atrasadas!
Alfie virou o rosto e disse:
— Vá logo!
As meninas dobraram para o corredor que eu estava, e Alfie sinalizou com a cabeça para eu ir com elas. Intimidada pela possibilidade de elas dizerem coisas horríveis a respeito do meu amigo e ele ouvi-las, eu as segui.
(…)
O passeio pela trilha foi muito agradável e, como Alfie previu, eu fotografei coisas maravilhosas. Livre da responsabilidade de cuidar dele, eu me diverti como há muito tempo não fazia. Voltar a falar com as meninas, então, foi como se eu tivesse regressado ao início do ano, quando nenhum dos eventos que tornaram 2008 um ano horrível tinha acontecido. Longe do atual Alfie, eu conseguia imaginar reações felizes para ele no meio daquilo tudo. Quando passava por mim uma borboleta diferente ou quando eu via um monumento, um rabisco em uma árvore, passos de animal selvagem ou mesmo uma planta em flor, conseguia vê-lo distraído com aquilo tudo e ficando para trás, sendo repreendido para seguir adiante com os outros logo. O Alfie que eu conhecia era um ser extremamente puro e impressionável, do tipo que comentava com todas as pessoas que via pela frente sua empolgação com o desconhecido. Mesmo com todas as limitações intelectuais que possuía, era estudioso, faminto de conhecimento. Quando o guia explicava a ordem e o porquê das coisas, eu conseguia vislumbrar na minha mente aquele rostinho iluminado, de olhos vivos, semblante alegre, me perguntando: “Você ouviu, Lilith? Que interessante, eu não sabia”. O meu Alfie o crivaria de perguntas tolas e óbvias e seria pacientemente respondido, e os estudantes que quisessem saber a mesma coisa mas tivessem vergonha de perguntar ficariam secretamente gratos por sua coragem e ousadia.
Eu não conseguia ver o meu Alfie naquela criatura apática e depressiva que deixei para trás.
(…)
Quando o passeio acabou, voltei com receio de encontrá-lo, pois sabia que ele não reagiria bem a eu ter partido. Antes de ir, eu fingi que ia pegar alguma coisa que esqueci na última hora para ver a equipe de coordenadores se reunindo para decidir quem abriria mão de passear com todos para ficar com ele. Uma menina novinha saiu da sala, cabisbaixa e com ares de profundo fastio. Ela me encarou com surpresa porque eu não deveria estar ali, mas eu fiz que estava amarrando o cadarço do tênis e não prestando atenção na conversa dos outros.
O grupo chegou animado, cantarolando hinos de times de football e reclamando de fome. As meninas, mais cansadas, reclamavam um banho e cuidado com os cabelos e roupas, que ficaram bastante comprometidos no caminho úmido.
— Que bom que a chuva de mais cedo não alagou tanto assim a trilha! — comentei com Richelle.
— Mesmo assim, minha bota atolou toda naquela porcaria!
— Eu adorei a parte do museu!
— Deveríamos ter passado por lá primeiro! Chegamos lá todos imundos, foi um vexame!
— Hahaha! É verdade!
Com os olhos, busquei Alfie por todo o refeitório aberto da pousada, e o encontrei na ponta de uma mesa, cercado de revistinhas de colorir e caixas de giz de cera. Literalmente reduziram o entretenimento dele ao nível do de um retardado mental. A menina que ficou encarregada de cuidar dele trocava mensagens no celular, indiferente ao fato de ter uma pessoa ao lado dela. Vez por outra, olhava para a TV, providencialmente ligada diante dos dois. Na tela, uma programação que eu acho que nenhum dos dois estava acompanhando: aqueles documentários genéricos do Discovery sobre animais.
— Oi, Alfie – falei, no limite do constrangimento – Então, você estava pintando coisas?
Ele se manteve em silêncio, enquanto eu pegava um desenho que ele pintou inteiro com o lápis cor de pele.
— Não é meu, já estava aí – ele respondeu, sobre o desenho – Eu não pintei nada disso que está aí.
— Então… o que você fez o dia todo?
— Dá para ver que nada, não é, Annie? — ele já falou naquele tom agressivo que fazia meu sangue ferver.
Respirei fundo e quis fingir que aquela parte da conversa nunca tinha existido.
— Eu tirei fotos – minha voz saiu trêmula de raiva contida – Quer ver?
Ele não disse nem que sim nem que não, então me sentei ao seu lado e comecei a passá-las uma a uma e explicá-las, dar um contexto de localização, horários, reações gerais à presença do que eu tinha fotografado. Num certo momento, eu olhei para ele e vi que seus olhos apenas miravam o que havia diante dele, sem focar naquilo que eu mostrava; ele me ignorava solenemente. Como eu insistisse para ele olhar o que eu tinha em mãos, ele simplesmente pegou a minha câmera e a atirou para dentro de um aquário que ficava perto da janela. Uma coisa que eu não sabia e aprendi nos meus últimos meses de convívio com ele foi: Alfie tinha uma boa pontaria.
— Porra! Olha o que você fez! Você está maluco?? — gritei, enquanto tentava recuperar a câmera caríssima que minha mãe comprou especialmente para esse passeio – Como eu vou explicar isso para a minha mãe, Alfie?
Já com o rosto lavado de lágrimas, tomei a câmera nas mãos, que ficou apagada com a lente para fora. Mexi tudo o que pude para ligá-la novamente, mas não deu certo. Teve uma hora que a tela dela até acendeu, mas ficou completamente branca. Desliguei e tentei ligar de novo para a imagem dela voltar ao normal, e dessa vez nada mais aconteceu. Minha câmera já era.
— Seu idiota, idiota! — saí de perto dele, gritando e batendo o pé – É isso o que ganho por me preocupar com você!
(…)
Depois desse episódio, não me importei mais de ficar ao lado de Alfie. Jantei ao lado das meninas, brinquei com uns jogos de tabuleiro que levaram para lá, parti para o Verdade ou Desafio e respondi apenas verdades (iam esculhambar com os pedidos se eu dissesse “Desafio”, ninguém mais me respeitava ali, eu tinha noção disso) e interagi com todas as pessoas que vi pela frente, menos com ele. Não sei qual era a minha ideia precisamente ao fazer isso, mas queria que ele sentisse todo meu desprezo, queria que percebesse o quanto era incômodo e indesejado, o quanto eu conseguia ser livre e popular longe dele.
— Annie, não tem graça, você só responde verdades! — Daniel, um dos garotos, reclamou.
Daniel era um garoto muito bonito, moreno caramelado, claramente filho de imigrantes latinos. Tinha os olhos cor de mel e um cabelo escuro despenteado que já devia ter passado do ponto de cortar há uns dois meses. De qualquer modo, aquele cabelo displicentemente disposto dava a ele um charme de garoto mais velho, descuidado, uma aura meio “dane-se para esse negócio de aparência”. Quem me conhece sabe que eu sempre tive uma queda por cabeludos, Kurt e Peter são exemplos disso. A quem possa interessar, eu não sei se Daniel estava no meio dos moleques que ficaram me difamando, mas pelas trocas de olhares que andava tendo comigo nas últimas semanas, se pensava como os outros, não parecia demonstrar isso nem um pouco.
Sorri para ele sem esconder o flerte e disse:
— Ok, se a garrafa mirar em mim de novo, vou dizer “desafio”.
Após Richelle ter que levantar a saia, Maurice ser convidado a beijar o amigo ao lado (ele disse não até a morte e por causa disso quase encerramos a brincadeira, frustrados), Tomás ter que beber a metade restante da Coca-cola de dois litros em cinco minutos, Alicia ser obrigada a fazer cem flexões sem apoio dos joelhos (ela não deu conta nem de vinte e cinco) e Lily ter que dissolver um comprimido efervescente de ácido ascórbico na boca sem beber água, chegou a minha vez de cumprir minha promessa.
— Você falou que ia dizer “Desafio” na próxima rodada” — todos riram, apontando para mim.
— Ok, “Desafio” — sorri, olhando para Daniel.
Ele me sorriu de volta.
— Quem tem ideias para o desafio?
— Eu! — Richelle ergueu a mão, e eu rezei para que o pedido dela fosse acolhido, já que ela estava há algum tempo sacando minha troca de olhares com Daniel e com certeza ia fazer algum desafio no sentido de eu ter que beijar ele, ou coisa melhor.
— Ok! Daniel estendeu a garrafa na direção de Richelle, fingindo que a estava entrevistando com um microfone – Qual o desafio que imputa à nossa desafiada?
— Eu quero que ela beije… — inspirei fundo e olhei para cima, para fingir alguma indignação — … o Alfie!
Nesse momento, a minha indignação foi real:
— DEUS ME LIVRE!
— Você prometeu que ia cumprir o desafio! — Richele agitou os demais para me cobrarem, e eles ficaram assobiando, vaiando e gritando “beija, beija, beija”.
Alguns alunos, preocupados que a brincadeira fosse interrompida por causa do barulho, pediram silêncio.
— Vocês estão malucos? — Clark sibilou – Vamos acordar todo mundo!
— Você não tem alternativa, Annie – Munich provocou – Vai lá, beija o aleijado e acaba logo com isso!
— Olha, eu posso mudar de pessoa?
— Não – todo mundo respondeu, balançando a cabeça.
— Qualquer pessoa mesmo, até uma garota se vocês quiserem! — barganhei, imaginando que os garotos fossem adorar ver duas garotas se beijando, e, por sua vez, chutei que qualquer garota da sala gostaria de ter a popularidade alavancada por um beijo comigo.
— Qual o seu problema com o quatro-olhos? — perguntou um dos garotos.
Olhei para Alfie, que estava no canto do salão, isolado, com o seu joguinho de mão no modo silencioso. Pela cara dele, ele estava começando a prestar atenção no que nós estávamos dizendo, pois sua expressão mesclava tristeza e pavor. Ele, que até ali só tinha beijado uma garota por ordem minha, não estava disposto a, mais uma vez, ser forçado a fazer isso.
— Meu problema com ele é mais do que pessoal. Olha bem para isso, eu sequer consigo enxergar ele como homem! E não adianta dizer que isso é por causa da cadeira de rodas – exaltei a voz ao escutar as vaias daqueles que tentaram me chamar de preconceituosa, querendo tardiamente bancar os politicamente corretos – O Alfred é um fracasso, sempre foi. Para ele, a cadeira de rodas foi uma salvação, porque se antes todo mundo tinha asco dele por ele ser um lesado do juízo, agora pelo menos pode fingir que sente um pouquinho de pena!
— Nossa, pensei que ele fosse seu amigo – observou Daniel, sem esconder o choque.
— Amigo? Vocês não sabem o que isso daí tem aprontado!
E relatei com pormenores todos os delitos de Alfie contra minhas coisas, e, ao fim do meu testemunho, todos já o censuravam:
— Que medo, não sabia que o manco também era um psicopata!
— Não acredito que ele mijou só para você não continuar a pegação no sofá!
— Então, foi ele que desapareceu com seu notebook? Que desgraçado, quem sabe não foi até ele que trocou ideia com o administrador F.uck para ele postar aquelas merdas todas!
— Que horror, você faz bem em se afastar dele!
— Quer ajuda para empurrar ele dentro do lago?
— Esse garoto merece uma surra, e fica se escondendo por trás dessa cadeira de rodas para que ninguém faça nada com ele!
— É, mas ele também levou as dele. Eu também aprontei algumas com ele. Escutem só essa...
O resto da noite (pelo menos até antes dos coordenadores nos mandarem dormir para estarmos a postos de manhã bem cedo) foi todo dedicado a eu contar os causos que envolveram Alfie desde que nos conhecemos até o passado mais recente, antes do acidente. Quando escutaram a história do “maserati azul”, a gargalhada dos estudantes foi tão grande que gerou esse comando de enfim irmos dormir. Naquele momento, eu fiquei feliz de ter distraído todos a ponto de ter escapado do desafio. Hoje, fico pensando na falta que me faz aquele beijo que eu não tive coragem de dar…
(...)
Quando passei por Alfie antes de me deslocar para o meu cômodo no alojamento, notei que seu olhar era novamente vago e morto, exatamente como estava no momento antes de ele jogar minha câmera no meio dos peixes. Um ou outro estudante passava por ele rindo e caçoando, e ele não esboçava reação nenhuma. Ao seguir com o olhar um aluno que ficou falando “maserati azul, maserati azul”, nossos olhos se cruzaram, e eu pude ver que os dele estavam secos, não havia lágrima neles. Ao me ver, ele apenas cerrou os olhos e virou o rosto para o outro lado. Imitando ele, eu também tomei meu rumo.
(…)
O dia seguinte amanheceu sem que eu tivesse pregado os olhos. Alfie já estava na mesa do refeitório tomando um café quando eu cheguei por lá. Só estávamos nós dois e a voluntária que cuidou dele, totalmente sonolenta. Pelas roupas trocadas de Alfie, percebi que ele já estava pronto para ir embora, diferente de todos os outros que ainda nem tinham pensado em acordar, avalie se arrumar.
— Está cedo – tentei puxar assunto – Teve problemas para dormir?
Quando me viu surgindo, ele tentou virar a cabeça para o outro lado, mas eu não ia deixar ele me ignorar. Nós íamos nos acertar ou piorar as coisas de vez.
— Hein? — insisti.
— Eu chorei um pouco, depois disso consegui dormir.
A voz dele estava normal, isto é, não parecia ressentida nem nada. Talvez ele achasse que tinha merecido o que eu fiz após estragar minha câmera.
— Onde está o açúcar? — perguntei, após tomar um gole do café amargo que estava na garrafa térmica.
— Não sei. Estou tomando como está.
— Você? Logo você, uma formiguinha!
— Eu ando evitando açúcar e gordura.
— Quer emagrecer mais para quê? Ou eu posso perguntar “para quem”?
— Eu só li uma coisa sobre doenças do coração e achei melhor.
— Não quer mais morrer?
— É só pela minha mãe – ele fez círculos no ar com a xícara na mão.
— Alfie, sobre aquilo que houve ontem…
Ele fechou os olhos e fez uma negativa com a cabeça como se me desestimulasse a continuar. Bateu com a xícara na mesa de uma forma que mostrava que ele não estava nem um pouco pacificado com esse assunto. Tentou, eu percebi que tentou, trazer alguma neutralidade para o semblante, mas seu sorriso irônico e amargo testemunhava contra qualquer coisa conciliadora que ele fosse falar.
— Eu não me importo mais.
— Claro que se importa! Olha para mim.
— Você só disse a verdade, o que realmente pensa a meu respeito, e daí? Eu sempre soube.
— Alfie, não é assim…
— Eu lamento pelo que nossas mães te obrigaram a fazer esses anos todos, Annie. Nunca foi sua responsabilidade. Eu deveria te agradecer por tudo o que você conseguiu suportar em vez de cobrar que você fizesse mais.
— Alfie, para!
— A piedade deve ser mesmo um negócio cansativo. Se eu estivesse no seu lugar, não seria diferente.
— Não é verdade! Você nunca seria capaz…
— Será? Você nunca vai saber, porque eu que estou na pior. Se você estivesse no meu lugar…
— Eu sei que você nunca me abandonaria!
— Baseada no quê diz isso?
— Eu… ah, Alfie, eu…
— Não tem como saber. Eu posso dizer qualquer coisa contra você, mas nada comprova que eu não agiria igual, a não ser que eu estivesse no seu lugar, e eu não estou; não vou estar nunca.
— Eu não sei onde você quer chegar com isso, Alfie. Quer que eu me sinta pior? Quer ouvir um pedido de desculpas? O que você quer?
— Desculpas não vão resolver nada, Annie. Você vai falar o que quiser quando ficar brava e eu vou continuar dependendo de você. Eu não vou andar de novo se você me pedir desculpas. Não adianta fingir que está tudo bem com isso. Você não está, eu não estou, por que mentir?
— Alfie, você é um amigo precioso.
Ele abanou a cabeça numa negativa.
— Aqui, todo mundo é mais precioso do que eu, qualquer outro amigo seu. Não precisa se justificar nem mentir. Não tem uma plateia aqui para assistir você se fazendo de boazinha.
— Você está sendo injusto!
— Eu estou com raiva, Annie. Não de você, mas de não poder levantar. Estou com raiva de ser burro, de ser, como você disse, um fracasso!
— Eu não disse isso!
— Disse – ele assentiu ensandecidamente com a cabeça – Disse para todo mundo ouvir! Pergunte aos seus amigos depois!
— Você também é meu amigo!
— Eu sou só um fardo que você toma conta porque sente pena de vez em quando! Você não queria que eu viesse! Na verdade, nem eu queria, minha mãe que insistiu! Acho que ela queria um fim de semana com o pai do filho dela…!
— Com o pai do seu irmão— afirmei, firmemente – Com o pai do seu irmão.
— É – ele baixou os olhos, não dizendo nada além disso. Ficou mordiscando os lábios, à guisa de palavras para continuar a expressar seu ódio.
— Olha, eu entendo que sua situação é desconfortável. Eu também reconheço que tenho responsabilidade no seu quadro clínico – Alfie soltou a respiração, e nesse momento eu pude ver que um grosso fio de lágrima riscava seu rosto – Qualquer coisa que eu fizer para tomar conta de você é muito pouco perto do que eu já fiz!
— Eu não quero sua retratação, Annie! Não quero esse cuidado forçado, como se você estivesse pagando uma dívida! Isso não me deixa feliz, pelo contrário, só faz eu me sentir pior!
Ele interrompeu por um instante o que ia dizer, porque aparentemente chorar tirou o seu fôlego. Mas bastou eu dar indícios de que ia dizer algo para ele me interromper:
— Se eu pudesse, escolheria outra pessoa para cuidar de mim! Se tivesse alguém disponível, eu nunca escolheria você! Porque toda vez que eu olho para você, Annie, me lembro daquela noite…
— Você nunca soube o que aconteceu comigo naquela noite, para eu reagir daquele jeito!
— Eu sei – ele balançou a cabeça afirmativamente.
Fiquei confusa, porque eu não me lembro de ter contado para ele nada do que aconteceu.
— Já estão prontos? Fazem bem, porque os vestiários depois vão ficar uma confusão danada! — uma coordenadora encostou em nós e fez um carinho nos cabelos de Alfie.
Ele baixou a cabeça e fingiu ajeitar algo na roupa, para ela não perceber que ele estava chorando.
— Eu imaginei isso também – fiz a comunicativa, para prosseguir a dissimulação.
Depois de alguns minutos conversando com ela, outros estudantes começaram a surgir. Alfie se retirou a pretexto de ir ao banheiro. Cerca de uma hora depois, já estava todo mundo pronto para ir embora. Prometeram que na volta teria um ônibus adaptado para o Alfie, mas esperamos uma hora e meia para além do combinado do horário de sair e, devido às reclamações, fomos no ônibus em que viemos novamente. Quanto a Alfie, seu transporte repetiu na volta toda a humilhação da ida, e dessa vez ainda foi pior, porque uma das pessoas que o seguravam para colocá-lo na cadeira errou o cálculo e a cadeira recuou, fazendo Alfie despencar com tudo no chão.
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