Bem-vindo ao Morte Simulator

1 Bem-vindo ao Morte Simulator


Acordei zonzo, a cabeça latejava. Tentei levantar da cama, mas não consegui mover um único músculo sequer. Não tinha ideia do que acontecera na noite anterior, muito menos do que estava acontecendo neste exato momento. A vista estava embaçada como se fosse vítima de um terrível astigmatismo. Tudo era caótico e sem sentido. Respirei fundo e, com toda força que pude, consegui me sentar. Um enorme zumbido se apossou de meus ouvidos. A cabeça doeu ainda mais, mas aos poucos foi melhorando.

Quando finalmente consegui recobrar os sentidos, percebi que estava em um quarto totalmente diferente do meu ou de qualquer quarto que eu conhecia. Não tinha janelas, mas uma lâmpada fosforescente iluminava por completo o cômodo. As paredes eram revestidas com um discreto papel de parede cinza. Em todo o espaçoso quarto só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e, em cima da mesa, um notebook ligado. Entretanto, o mais bizarro era o fato de que o quarto não tinha porta alguma.

Pouco a pouco o pânico se apossou de mim. Não lembrava de nada que acontecera nos dias anteriores, muito menos de como fui parar ali. Teria sido sequestrado e mantido em cativeiro? Teria ficado louco e jogado em um hospício de segurança máxima? Afinal, como diabos chegara ali? Não! Era um sonho, só isso. Se estou sonhando então vou aproveitar os benefícios de um sonho lúcido...

Na verdade eu sabia que aquilo não era um sonho, não podia fazer nada, tão pouco acordar. Novamente desesperado comecei a gritar por ajuda. Era evidente que não ia funcionar. Comecei a checar as paredes e o chão. Nada. Pareciam perfeitamente rígidos, sem nenhum defeito ou lugares ocos. Era como se tivessem construído aquele quarto enquanto eu estivera dormindo.

Depois de algumas horas de desespero e angústia, resolvi verificar o notebook. A tela era completamente preta com um prompt piscando. Parecia um terminal Linux e como eu sabia muito bem mexer no sistema, de cara tentei alguns comandos. Nada. “Instrução não encontrada.” Só então que reparei: a mensagem de erro estava em português, aquilo era sem sombra de dúvidas bastante incomum. Sem pensar duas vezes digitei iniciar e teclei Enter. Rapidamente a tela mudou e algumas mensagens foram aparecendo.

Morte Simulator

Este sistema foi desenvolvido em sua totalidade por Ian Hocevar.

Exatamente, sou Ian, prazer.

Ao iniciar o sistema, você automaticamente concorda com os Termos de Uso.

Tenha uma boa experiência e não esqueça: o seu trabalho é a vida e sua indiferença é a morte.

Uma tela branca com um único botão central apareceu: Mate. Cliquei e na mesma hora a tela branca se reduziu, fixando-se na parte inferior. O restante foi substituído por um vídeo. Aparentemente uma mãe balançava um carrinho de bebê enquanto lia um texto em seu tablet. Dois botões piscando apareceram: Televisão, Chaleira. Um cronometro regressivo de 30 segundos surgiu na parte superior da tela. Cliquei em Chaleira. Instantaneamente, no vídeo, uma chaleira começou a chiar na cozinha ao lado. A mãe deixou a criança e largou o tablet no sofá da sala, foi até a cozinha e preparou uma xícara de chá. A criança começou a chorar. Novamente dois botões: Mamadeira, Chá. E o cronometro. Cliquei em Mamadeira. A mãe pôs leite para aquecer no fogão e foi até a criança. Pegou-a no colo e começou a ninar. Enquanto isso, atrás dela, um pano de prato começou a pegar fogo, quando a mulher se deu conta, a cozinha estava em chamas. Largou a criança e correu, desesperada, na tentativa de apagar as labaredas que aumentavam ameaçadoramente cada vez mais. Enquanto corria em direção à cozinha, resvalou e caiu, batendo fortemente a cabeça na pia, chocando-se, também, com o frágil armário já em chamas que acabara por cair em cima dela. A mulher foi instantaneamente nocauteada e engolida pelas chamas enquanto a criança berrava desesperadamente. O fogo acabou não se espalhando e o bebê continuava a chorar.

O vídeo foi substituído por um novo cronômetro regressivo, desta vez de 60 segundos. Eu ofegava, não sabia o que acabara de acontecer. Que tipo de mente perversa teria tido o trabalho de programar uma coisa tão horrível quanto esta?

Desenvolvido em sua totalidade por Ian Hocevar. A frase ecoava em minha cabeça. O que... o que diabos estava acontecendo?

O cronometro zerou e outro vídeo tomou conta da tela. Dessa vez era um casal de jovens deitados em um gramado. O rapaz lia algo no celular para a moça que escutava atentamente. Remédio, Cigarro, 30 segundos. Cliquei em Remédio. A jovem retirou da bolsa uma cartela com duas pílulas, pegou uma, engoliu e alcançou a outra para o acompanhante que fez o mesmo. Eles deram as mãos e em poucos segundos começaram a convulsionar. A cena de quase dois minutos foi horrível. Os dois certamente morreram ali e logo o cronômetro de um minuto roubou a tela.

Aquele... jogo? Era doentio! Uma coisa era certa: não tinha sido eu seu programador! Levantei-me da cadeira sentindo enjoo.

O vídeo que seguiu mostrou um velho lendo algo em um computador. Não tardaram a aparecer minhas opções: Banheiro, Biblioteca.

Não! Eu não ia continuar jogando aquilo, não ia mesmo!

Tentei desligar o notebook, mas sem sucesso. Não conseguia nem movê-lo da mesa. Tentei golpeá-lo. Nada, parecia feito de aço. O cronômetro marcou 10 segundos. Neste exato momento senti algo em meu pescoço, começava a apertá-lo. 9. Eu estava sendo estrangulado! 8. O desespero tomou conta. Não havia nada ali, como poderia... 7. Eu não sabia o que fazer, estava realmente sendo sufocado! 6. “o seu trabalho é a vida e sua indiferença é a morte.” 5. E imediatamente cliquei em Biblioteca.

Como eu imaginava... a dor sumiu. Eu não estava mais sendo... assassinado.

O velho se levantou da poltrona e saiu do que parecia ser seu escritório. Andou pela casa opulenta até chegar ao seu destino: a biblioteca.

A Metamorfose, O Pequeno Príncipe.

E logo pegou o livro empoeirado de Franz Kafka abrindo em uma página qualquer.

Telefone, Matilda.

Escolhi Matilda. O velho, ao ouvir um grito agudo, saiu rapidamente dali procurando a fonte sonora do grito. Chegando em um quarto, foi surpreendido por uma cena forte: no chão ensanguentado, encontrava-se o corpo de uma mulher, aparentemente uma empregada doméstica, totalmente inerte; sem vida.

Telefone, Janela.

Ao clicar em Janela, ouviu-se latidos de cães, provavelmente vindos do pátio da casa. O homem foi até a janela da cozinha e de lá visualizou um estranho caminhando tranquilamente pelo gramado da propriedade, cantarolava bizarramente e portava uma arma de fogo.

Correr, Observar.

Logo percebi que correr não era uma boa ideia, o velho bateu a cabeça nas panelas penduradas que estavam próximas e o estranho se virou na mesma hora. Tinha um sorriso medonho e sarcástico. O velho, com os olhos arregalados de pavor, paralisou frente à janela e, de imediato, foi atingido por uma bala na testa. Os miolos agora pintavam a parede que antes ostentava um branco impecável.

60 segundos.

Levantei-me de sobressalto, as mãos à boca. Estava desesperado, não sabia o que fazer.

E mais uma vez o cenário havia mudado: era uma cabine de avião; havia um copiloto que também lia algum texto em seu tablet. Afinal, o que essas pessoas liam? Que texto as deixava frente a frente com a própria morte? De repente a situação ficou caótica. Todas as luzes começaram a piscar e alarmes disparavam.

Rádio, Botão Vermelho.

Botões vermelhos não costumavam ser boa coisa. No momento em que cliquei em Rádio, o copiloto pegou-o e começou a mandar mensagens tentando contatar alguém. A cabine trepidava e muitos barulhos indistintos inundavam o ambiente. Um forte estrondo foi ouvido e o som inconfundível de explosão foi confirmado quando o avião começou despencar rumo ao oceano. Momentos antes da colisão com a água, consegui ler as últimas palavras do texto que o copiloto lia. Estavam centralizadas na página, em itálico:

Bem-vindo ao Morte Simulator.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!