Bem-vindo à Apolo, festa!
1 Único
Que vida infeliz essa que ganhei de presente do meu glorioso pai, Zeus! Como se não bastasse ter sido reduzido a um mortal como castigo e ter passado por maus bocados nos últimos dias — que me renderam bons traumas, físicos e mentais — ainda precisava enfrentar situações constrangedoras e nada divinas.
Eu, Febo Apolo, o deus-Sol, dono da carruagem mais legal do Olimpo, invocador de pragas e curandeiro da humanidade; o belo e luminoso deus da arte, da música e da poesia – e dos haikais –, das cantadas baratas e do amor livre, mestre do arco e flecha, matador de pítons, profeta dos deuses... Agora não passava de um rapazinho de aparente dezesseis anos, num corpo pálido, coberto de hematomas e cicatrizes, com um curativo cuidadosamente enrolado em cabelos escuros e encaracolados.
Demorei um pouco para perceber — talvez pelo ambiente aconchegante e pelo fato de estar recém-consciente —, mas eu estava vestindo apenas uma cueca e deitado em uma cama confortável, dentro de um quarto numa casa de aparência antiquada, provavelmente do século passado.
A Casa Grande! Dioniso deve ter mandado me colocarem ali depois que Will cuidou dos meus ferimentos, logo após eu protagonizar uma vergonhosa cena de desmaio, depois de um traumático e estressante dia de semideus deprimido pós-missão.
De repente, as luzes se acenderam. Não totalmente, mas o suficiente para que eu enxergasse melhor a mobília e a arquitetura em estilo ocidental, destoando de todo o restante do acampamento dos semideuses gregos.
— Então, ele acordou.
A voz, tão repentina e próxima, me fez quase saltar da cama. Mesmo parecendo um pouco diferente, eu sabia de quem era.
— Dioniso. Estou absolutamente encantado com a sua hospitalid...
As palavras morreram em minha boca.
Dioniso surgiu do nada, como de costume dos deuses, e agora estava parado a centímetros da minha cama. Mas não era o Sr. D — aquele senhor baixo, barrigudo, de papada saliente e roupas ridículas. Era Dioniso de verdade.
— O que está acontecendo aqui...? – mal consegui falar, tão surpreso que estava. Minha voz saiu quase chorosa.
— Ora, Apolo – ele sorriu daquele jeito ridículo e abusado que era tão dele – Não está me reconhecendo? Parece até que nunca me viu assim.
Minha memória era excelente, diga-se de passagem. Eu sabia que aquela era uma das formas dele. Só não esperava vê-lo assim novamente: jovem, com uns quinze anos, cabelo preto e encaracolado, comprido... O corpo esguio combinando perfeitamente com um rosto bonito demais para qualquer mortal comum. Só podia ser uma armadilha.
Enrijeci o corpo e puxei os lençóis instintivamente — e pateticamente — como se ele fosse me atacar a qualquer momento. Mas Dioniso só sorriu, levantou uma taça e fez um brinde para mim.
— Bem-vindo à Apolo, festa!
O quê? Por que ele estava falando daquele jeito? E por que a voz dele parecia tão...
— Você bebeu – conclui, parecendo ridículo, escondido sob os lençóis como se quisesse esconder meus seios de um homem horrível que se aproximava.
— Como adivinhou? – ele se sentou ao meu lado na cama, e eu me encolhi ainda mais.
— Você sabe que se nosso pai souber que bebeu uma única gota, ele vai...
— Me dar um castigo ainda pior que o atual – a voz dele parecia um ronronar. Ou seria só impressão? – Eu sei, irmão!
Então ele se inclinou na minha direção, como se fosse cochichar algo ou me fazer beber da taça, mas rolei para o lado e caí no chão. Senti dor. Me levantei rápido, andando de costas até encostar na parede.
— O que pretende? O que está fazendo?
Na verdade, queria perguntar por que ele estava ali, naquele corpo, com aquele sorriso maldoso e a taça de vinho, parecendo estar se oferecendo. Mas fingi não pensar nisso. Ridículo como era, Dioniso sabia exatamente como brincar com meus limites — e com meus desejos.
Quase deixando o vinho escorrer da taça, ele engatinhou sobre a cama e se levantou diante de mim.
— Uma pequena, hum... – ele pensou – Festa de comemoração. A dois. Pelo nosso reencontro. E o seu sucesso.
Uma festa a dois. Aquilo era claramente um convite. Um golpe baixo.
Agora eu estava com medo. Já fazia tempo que não me entregava a prazeres carnais. Estava tentando mudar. Mas certas coisas não mudam nos deuses.
Abri a boca para mandá-lo embora, mas nada saiu. Meus olhos acompanharam o belo rapaz de túnica grega roxa e coroa de carvalho se aproximar. O sorriso dele dizia "Peguei!", e eu sabia que não conseguiria escapar.
— Achei que gostasse de homens bonitos – disse ele.
— Achei que gostasse de mulheres – rebati.
— E gosto.
E eu sabia que era verdade. Dioniso era o deus das orgias, sempre rodeado de mulheres nuas ou cobertas com peles de veado, com aquela coroa de víboras. Ele era casado com Ariadne, a quem amava de verdade. Mas também era o deus da loucura. Imprevisível.
Fechei os olhos. Sabia que era um desastre quando a matéria era Autocontrole Em Momentos Convenientes. Em vez de qualquer toque esperado, senti o braço dele ao redor do meu pescoço, me tirando da parede e me conduzindo numa caminhada desajeitada pelo quarto. O problema era: eu estava quase nu.
— Venha, venha beber comigo, Apolo!
— Você não vai me beijar? – perguntei... E me arrependi na mesma hora.
Por que eu disse isso? Dioniso me olhou com uma sobrancelha erguida.
— É o que quer?
"NÃO!", eu quis gritar, mas meu corpo gritava outra coisa.
Agarrei o rosto dele com as mãos e o puxei para um beijo.
Que beijo estranho. Tinha um gosto forte de uva prensada... E de adoçante? Aspartame? Estévia? Algo doce e industrializado. Mas era um beijo bom. Muito bom. O maldito sabia beijar.
Eu estava ridículo, tentando não encostar meus quadris nele, como se isso salvasse minha honra. E me senti derrotado quando gemi, mesmo que baixinho, só porque uma das mãos dele foi para minha cintura enquanto a outra ainda segurava a taça com precisão impressionante.
Quando nos separamos, ele me olhou com aquele sorrisinho irritante.
— O que é engraçado?
— Sua previsibilidade.
Ah, deuses... O deus do teatro induzindo uma cena.
— E então? O que vai fazer comigo? – desafiei.
— O que quiser. A festa é nossa.
Deuses... Eu daria tudo para que aquelefilme de horror não tivesse acontecido. Mas o pior viria depois: o dia seguinte, quando eu acordasse — provavelmente em outro lugar — e encontrasse o Sr. D de novo... Agindo naturalmente como se nada tivesse acontecido.
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