Bem Vindo à Time Watch!
6 Loading... Arch 1, Chapter 6: Tiro no Escuro
Notas iniciais
A semana passou rápido como uma flecha após o encontro com Caleb. Nós trocamos números de contato em nossos crachás, e combinamos um novo encontro quando a primeira leva de missões fosse cumprida. Eu só não sabia que iria viajar tão cedo.
Mesmo voltando para a base às 23:00 hs da noite, os pesquisadores não me deram descanso: eu tive que fazer em 7 dias o treinamento de um astronauta profissional: por mais que a nave que me arranjaram fosse de última geração, pressão no vácuo e comida pastosa podiam ser um grande problema. Girei milhões de vezes até ficar tonta em cadeiras gigantes e senti que meu cérebro ia explodir enquanto meia dúzia de caras analisavam meus batimentos cardíacos, e a doutora Sheilazeda preenchia fichas com sua expressão adorável de sempre.
Já o pesquisador-chefe, Steve Raymond, só foi apresentado a mim no meio de uma apressada tarde de quinta-feira. Ele estava correndo pelos corredores de cabeça baixa, parecido com o que vimos na cúpula outro dia. Mas Hassad o parou de súbito e o fez se virar para mim.
−Essa aqui é a nossa galinha dos ovos de ouro, Jane Adams− disse ele, com um sorriso irônico. Raymond me fitou com ligeiro desinteresse. Mas, quando Hassad acrescentou que eu iria viajar em poucos dias, ele deu um salto e ajeitou os óculos redondos de aro grosso.
−Muito bem, e você já sabe das regras?− disse, se inclinando para me observar melhor. Notei que seu cabelo laranja era desgrenhado, e que tinha olhos cor de avelã.
−Ouvi falar delas, mas nada de especial.
−Está bem− respondeu ele, passando a mão no jaleco – é essencial que você saiba, e siga de verdade o que vou lhe falar agora. Se não fizer isso, a sua vida está em jogo.
As 8 regras da viagem no tempo!
1 – Não comer ou beber antes de ir para outra época (mínimo de três horas de antecedência)
2 – Não estabelecer qualquer tipo de relacionamento, físico ou emocional, com pessoas do passado.
3 – Não procurar parentes/amigos no passado.
Interrompi o discurso:
−Disso tudo eu já sei. Aliás, nem tenho quem procurar.
−É bom que você diga isso. Agora: daqui pra frente fica sério.
4 –Não interferir em acontecimentos históricos.
−Você pode estar na frente de Hitler em pessoa, com uma arma na mão, antes da posse oficial dele, mas não pode interefir em nada. Ouviu?
Engoli um seco.
5 – Não ficar mais de 3 meses fora de sua época normal.
6 – Não levar de volta objetos feitos por humanos (facas, relógio etc.) (Procedimento anti-roubo).
7 – Passar despercebido, sempre.
−E agora, a regra final. A mais importante de todas. Quebre ela e tudo o que você conhece vai água abaixo:
8 – Caso o fluxo espaço-tempo seja alterado pelo descumprimento das regras acima, o universo poderá corrigir o erro eliminando-o para sempre da existência.
A regra oito terminou com o sinistro comentário “acho que você sabe bem quem é o erro”.
Depois do aviso reconfortante eu estava preparada para a viagem. Foi dentro de um foguete chamado Golden Beat. A viagem em si foi tranquila, melhor do que aqueles treinamentos horrorosos. Desembarquei em uma roupa espacial estranha, uma mistura de macacão esportivo com um capacete em forma de aquário. O sr. Johansson me aguardava na porta da nave, estacionada na superfície.
Ele recomendou que eu apreciasse a vista, e foi quando olhei pra trás. Foi a melhor decisão na minha vida. O universo era tão... poético. Milhares de planetas com bilhões de estrelas, esmagando minha pequena existência com um poder arrebatador, sublime, tão cru, tão forte. Fantástico. Aquela tinha sido a janela dos fundos do meu pai, por tantos anos...
E, por uma fração de segundo, senti como se ele estivesse ali, comigo.
A nave era um cilindro de 40 metros de altura, com anéis giratórios feitos de metal no centro. Havia ainda uma pista com um estranho portal na ponta: esse portal espiralava em um arco-íris psicodélico. Me explicaram mais tarde que se tratava de um buraco de minhoca criado artificialmente. Eu e minha humilde malinha cor de rosa entramos na nave, cercadas por militares alfinetados com várias medalhas de honra.
Me mostraram um quarto, com uma janela para a terra. Havia apenas uma cama, uma escrivaninha e revistas dos anos 70. 2070, é claro. Só fiquei duas horas lá. Fui chamada para a pista imediatamente: precisavam de mim para o dia seguinte. Não desfiz a mala.
Benett, um sargento alto de pele escura, me deu as boas vindas.
−Cabo Adams, tudo o que você tem que fazer é correr por aquela pista – ele apontou para a pista inclinada com o portal parecendo que ia desabar – você vai ganhar velocidade à medida que corre. Depois disso, aproveite a viagem.
Como estávamos no meio do espaço, não havia nenhum vento ou gravidade. Mas correr até lá embaixo parecia assustador.
−Ei Benett... O que acontece se eu cair?
−Vai rodar feito um pião.
−Menos mal.
Fechei os olhos e corri, com toda a força das minhas pernas.
*Atenção! Senhorita Adams, número 0032080, preparando para entrar no túnel, câmbio*
*Entendido! Ativando os aceleradores da pista, câmbio*
A sensação era de correr em uma esteira que ia cada vez mais rápido. Minhas pernas já não me seguravam mais: elas estouravam no chão da pista, como bolinhas de pingue-pongue. Quase caí pra frente quando cheguei no portal. A luz metálica frenética me engoliu por completo.
Depois disso, tudo o que eu sabia, a realidade, a existência, cada segundo da minha vida, tudo apagou.
E voltou de uma vez só, me acertando como um trem descarrilhado.
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